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Horticultura Brasileira

Print version ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.29 no.1 Brasília Jan./Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362011000100013 

PESQUISA RESEARCH

 

Uso de antibióticos e leveduras para controle da podridão-mole em couve-chinesa

 

Use of antibiotics and yeasts for controlling Chinese cabbage soft rot

 

 

Marcelo RF de Mello; Elineide B da Silveira; Ivanise O Viana; Myrzânia de L Guerra; Rosa de LR Mariano

UFRPE, Progr. de Pós-Graduação em Fitopatologia, Av. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, 52171-900 Recife-PE; marcelomello@barreiros.ifpe.edu.br; rmariano@truenet.com.br

 

 


RESUMO

A podridão-mole causada por Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum (Pcc) pode ocorrer em plantios de couve-chinesa (Brassica pekinensis) com até 67% de incidência. O trabalho visou avaliar a sensibilidade in vitro de Pcc a bactericidas, o efeito de Mycoshield® nas dosagens de 3,0 e 1,5 g L-1, e de leveduras a 108 cel/mL no controle da doença em casa de vegetação e em campo. As plantas foram pulverizadas com Mycoshield® (oxitetraciclina 20%) e leveduras (Rh1 e Rh2 (Rhodotorula spp.) e Sc1 (Saccharomyces cerevisae)) sete dias após o transplante, e inoculadas por picada com o isolado Pcc120, sete dias e 12 h após o tratamento, respectivamente. Em todos os experimentos foram avaliados os componentes epidemiológicos da doença. In vitro, 40 isolados de Pcc testados apresentaram resistência ao sulfato de cobre e sensibilidade a oxitetraciclina, estreptomicina, oxitetraciclina+estreptomicina e oxitetraciclina+sulfato de cobre, todos na concentração de 0,2 g L-1. Seis isolados de Pcc foram mais inibidos por Mycoshield® do que por Agri-Micina® (oxitetraciclina 1,5% + estreptomicina 15%) ambos a 3,0 g L-1, não sendo inibidos por Kasumin® (casugamicina 2%) (2,0 mL L-1). Em casa de vegetação, Mycoshield® (3,0 g L-1) reduziu a severidade e o índice de doença em até 47,4 e 19%; já a levedura Sc1 reduziu a severidade da doença e a área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) em até 27,6 e 39,3%, respectivamente, enquanto Rh1 reduziu a AACPD em até 33,5%. Em campo, Mycoshield® reduziu o índice de doença (14,4%) a severidade (15,5%) e a AACPD (28,9%); enquanto que Rh1 reduziu o índice de doença (8,8%) e Sc1 reduziu a AACPD (15,7%). Conclui-se que o Mycoshield® e as leveduras apresentaram baixa eficiência para controle da podridão-mole da couve-chinesa em campo.

Palavras-chave: Brassica pekinensis, Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum, Saccharomyces cerevisiae, Rhodotorula sp., oxitetraciclina, estreptomicina.


ABSTRACT

The soft rot caused by Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum (Pcc) may occur in Chinese cabbage (Brassica pekinensis) plantations presenting till 67% of incidence. In this research we evaluated the Pcc sensibility to bactericides in vitro, the effect of Mycoshield® at 3.0 and 1.5 g L-1, and yeasts at 108 cel/mL-1 to control the disease in greenhouse and field. Plants were sprayed with Mycoshield® (oxitetracycline 20%) and yeasts (Rh1 and Rh2 (Rhodotorula spp.) and Sc1 (Saccharomyces cerevisae)) seven days after transplant and inoculated with the isolate Pcc120 seven days and 12 h after treatment, respectively. In all experiments disease epidemiological components were evaluated. In vitro 40 Pcc isolates were resistant to copper sulfate and sensitive to oxitetracycline, streptomycin, oxitetracycline + streptomycin and oxitetracycline + copper sulfate all at 0.2 g L-1. Six Pcc isolates were more inhibited by Mycoshield® than by Agri-Micina® (oxitetracycline 1.5% + streptomycin 15%) both at 3.0 g L-1, but there was no inhibition by Kasumin® (Kasugamicin 2%) (2.0 mL L-1). In greenhouse Mycoshield® at 3.0 g L-1 reduced disease severity and disease index up to 47.4 and 19.0%. The yeast Sc1 reduced disease severity and area under the disease progress curve (AUDPC) up to 27.6 and 39.3% respectively, while Rh1 reduced AUDPC up to 33.5%. In field Mycoshield® reduced the disease index (14.4%) severity (15.5%) and AUDPC (28.9%), while Rh1 reduced disease index by 8.8% and Sc1 reduced the AUDPC by 15.7%. In conclusion Mycoshield® and yeasts showed low efficiency for controlling soft-rot of Chinese cabbage in field.

Keywords: Brassica pekinensis, Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum, Saccharomyces cerevisiae, Rhodotorula sp., oxitetracycline, streptomycin.


 

 

O estado de Pernambuco é um dos principais produtores de crucíferas no Nordeste brasileiro, sendo os municípios de Camocim de São Felix e Chã Grande os maiores produtores de couve-chinesa (Brassica pekinnensis L.). Para essa cultura, a podridão-mole causada por Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum (Pcc) (Jones) Hauben et al. se destaca como uma importante doença (Kikumoto, 2000), tendo sido em 2004 assinalada em 22 áreas de cultivo amostradas na mesoregião Agreste de Pernambuco, com incidência variando de 1 a 67% (Silva et al., 2005).

O controle da podridão-mole é muito difícil, uma vez que Pcc sobrevive na água, no solo, em restos culturais infectados, na rizosfera de plantas cultivadas ou invasoras e epifíticamente na filosfera de plantas hospedeiras ou invasoras (Kikumoto, 1980; Pérombelon & Kelman, 1980). Estudos têm sido realizados com variedades resistentes (Ren et al., 2001a, 2001b), plantas transgênicas (Fray et al., 1999; Mãe et al., 2001), controle biológico (Barra et al., 2009; Carrer Filho et al., 2009; Cladera-Olivera et al., 2006; Dong et al., 2004; Manefield et al., 2001), uso de cálcio (Flego et al., 1997), indutores de resistência (Benelli et al., 2004) e emprego de antibióticos ou fungicidas cúpricos (Zambolim et al., 1997). No entanto, a maioria destas pesquisas foi realizada em laboratório e/ou envolvendo outros hospedeiros que não a couve-chinesa. Com relação a este patossistema específico, no Brasil ainda não existem cultivares resistentes, restando a utilização dos agrotóxicos.

Na utilização de antibióticos para controle de bacterioses deve-se considerar o custo, registro para a cultura, período de carência e, principalmente, a interferência no ecossistema envolvido. O reduzido número de agroquímicos registrados para doenças bacterianas em hortaliças favorece a utilização de produtos indevidos e ineficazes. Existem registros de quatro formulados comerciais contendo antibióticos de uso agrícola, a Agri-Micina® (oxitetraciclina 1,5% + estreptomicina 15%); o Agrimaicin® 500 (oxitetraciclina 3% + sulfato de cobre 40%); o Kasumin® (casugamicina 2,0%); e o Mycoshield® (oxitetraciclina 2,0%). Não existem produtos registrados para podridão-mole ou qualquer outra doença em couve-chinesa, desde que é considerada "minor crop". O Kasumim® é registrado para podridão-mole em cenoura e o Mycoshield® para canela-preta e podridão-mole em batata e cenoura, respectivamente (Lopes; Quezado-Soares, 1997).

O controle biológico, juntamente com outras práticas de controle, constitui uma alternativa potencial dentro de um programa de manejo de doenças de plantas. Dentre diversos agentes de biocontrole, de acordo com Valdebenito-Sanhueza (2000), as leveduras são promissoras e têm sido utilizadas com eficiência, pois são integrantes da microbiota epifítica, endofítica e do solo onde se desenvolvem as plantas, competem por nutrientes, colonizam ferimentos e podem induzir resistência. As principais leveduras biocontroladoras são Aureobasidium spp., Cryptococcus spp., Rhodotorula spp., Saccharomyces spp. e Sporobolomyces spp. (Valdebenito-Sanhueza, 2000).

Considerando as perdas causadas pela podridão-mole à produção de couve-chinesa em Pernambuco, a ineficácia das medidas de controle atualmente utilizadas e a carência de pesquisas com antibióticos e biocontroladores na interação Pcc x couve-chinesa, este trabalho teve por objetivo avaliar o efeito de antibióticos e leveduras no controle dessa doença.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Obtenção de isolados e preparo de suspensões - Os 40 isolados de Pcc foram obtidos da Coleção de Culturas do Laboratório de Fitobacteriologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), provenientes de plantas de couve-chinesa (19 isolados) e alface (21 isolados) com infecção natural, coletadas nos municípios de Camocim de São Félix, Chã Grande e Vitória de Santo Antão. Os dez isolados de leveduras foram selecionados entre gêneros frequentemente utilizados no biocontrole de doenças de plantas. Foram obtidos da coleção de culturas do Laboratório de Fitobacteriologia da UFRPE [Rhodotorula sp. 4IIIA (Rh1) e Rhodotorula sp. 4IIIB (Rh2); Saccharomyces cerevisae Hansen (Sc1) e Saccharomyces sp. (Sc sp.)] e da Micoteca do Departamento de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco [S. cerevisae (2658 e 5107); Pichia membranaefaciens Hansen (2611); Aureobasidium pullulans (De Bary) Arnaud (2571 e 2837) e Rhodotorula minuta (Saito) Harrison (5368)]. As suspensões bacterianas e de leveduras foram preparadas a partir de cultivo em NYDA (20 ágar, 10 glicose, 5 extrato de levedura, 3 extrato de carne, 5 peptona bacteriológica g L-1 de água destilada) a 28±2ºC durante 36-48 h e as concentrações foram ajustadas, respectivamente em fotocolorímetro para 1 x 109 ufc mL-1 e em câmara de Neubauer para 108 cel mL-1.

Sensibilidade in vitro de Pcc a bactericidas - Alíquotas de 5 μL das suspensões de 40 isolados de Pcc foram depositadas em triplicata sobre meio NYDA suplementado com oxitetraciclina, estreptomicina e sulfato de cobre e misturas de oxitetraciclina + estreptomicina; oxitetraciclina + sulfato de cobre e estreptomicina + sulfato de cobre, sendo utilizado 0,2 g L-1 de cada antibiótico isoladamente ou em mistura. As placas foram mantidas em incubadora B.O.D. a 28±2ºC durante 48 horas e a avaliação foi realizada considerando-se como resistentes os isolados que apresentaram crescimento confluente nas três repetições.

Seis isolados de Pcc selecionados com base na reação aos bactericidas, ao hospedeiro e município de origem foram testados para sensibilidade a Agri-Micina® (Pfizer®, oxitetraciclina, 1,5%; sulfato de estreptomicina, 15%), Kasumin® (Arysta Lifescience®, casugamicina 2,0%) e Mycoshield® (Pfizer®, oxitetraciclina, 20%), utilizando dosagens recomendadas para hortaliças, respectivamente 3,0 g, 2,0 mL e 3,0 g de produto comercial L-1 de água. Alíquotas de 3 mL das suspensões bacterianas concentradas foram adicionadas a 100 mL de NYDA fundente, homogeneizando-se e vertendo-se em placas de Petri. Após a solidificação do meio, discos de papel de filtro contendo os antibióticos nas dosagens citadas foram colocados em quatro pontos eqüidistantes. As testemunhas foram constituídas por discos contendo apenas água destilada esterilizada. As placas foram mantidas em B.O.D. a 28±2ºC durante 24 h e a avaliação realizada pela medição do halo de inibição do crescimento bacteriano.

O primeiro experimento foi qualitativo, com delineamento inteiramente casualizado e três repetições, sendo a unidade experimental uma placa com três pontos de deposição. No segundo experimento, o delineamento foi inteiramente casualizado em arranjo fatorial 3 x 6 (três antibióticos x 6 isolados de Pcc), com quatro repetições, sendo a unidade experimental uma placa com quatro discos do antibiótico.

Efeito de Mycoshield® no controle da podridão-mole da couve-chinesa em casa de vegetação - Em julho de 2008, plântulas de couve-chinesa AF-75 (Sakata® Seed Sudamerica Ltda.) com 20 dias foram transplantadas para vasos contendo 3 L da mistura solo:substrato (1:3). Sete dias após o transplante, o Mycoshield®, previamente selecionado in vitro, foi aplicado nas dosagens 3,0 e 1,5 g L-1, pulverizando-se as plantas até o escorrimento. Sete dias após aplicação do Mycoshield®, as plantas foram inoculadas pelo método de picada (com palito de dente esterilizado) na base do pecíolo da segunda folha definitiva. Este período foi selecionado considerando-se que o Mycoshield® tem ação sistêmica e que no campo a doença inicia-se nesta fase (em torno de 40 dias após o transplante); com o patógeno penetrando por ferimentos nas folhas que estão em contato com o solo infestado. No ferimento, com auxílio de micropipetador foram depositados 5 μL da suspensão de Pcc120. A testemunha foi tratada com água destilada e inoculada com Pcc120. Após a inoculação, as plantas foram submetidas à câmara úmida por 6 h. Durante o período dos experimentos, a temperatura em casa de vegetação variou de 25 a 35ºC.

As avaliações foram realizadas inicialmente a cada hora durante as primeiras seis horas após a inoculação e, posteriormente, a intervalos de seis horas até 48 h, considerando-se os seguintes componentes epidemiológicos: (a) período de incubação (PI), determinado pelo número de horas entre a inoculação e o surgimento dos sintomas da doença; (b) severidade da doença (SEV), às 48 h após a inoculação, estimada com o auxílio de escala descritiva de 1 a 9 (Ren et al., 2001a); (c) área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD), calculada conforme Shaner & Finney (1977) com base em oito avaliações; (d) índice de doença (IDO), calculado pela fórmula IDO = Σ (grau da escala x frequência) x 100/(nº total de unidades x grau máximo da escala).

O delineamento foi inteiramente casualizado, com três tratamentos (Mycoshield® em duas dosagens + testemunha), cada tratamento com quatro repetições, sendo a unidade experimental constituída por cinco plantas.

Efeito de leveduras no controle da podridão-mole em couve-chinesa - Foram realizados dois experimentos em setembro de 2008. O primeiro, em nervuras de folhas destacadas da cultivar AF-75 com os 10 isolados de leveduras seguiu a metodologia de Guerra et al. (2008). As folhas foram lavadas com água e sabão, removendo-se o limbo foliar, ficando apenas a nervura principal. As nervuras foram desinfestadas com hipoclorito de sódio (1:3, v:v), lavadas com água destilada duas vezes, acomodadas em bandejas plásticas e perfuradas com percevejos latonados em cinco locais, distantes entre eles de 2,5 cm. As leveduras foram aplicadas por deposição de 5 μL de suspensão no ferimento e após 12 horas, foram colocados 5 μL de suspensão de Pcc 120 sobre as perfurações e foram mantidas em câmara úmida em condições de laboratório. As avaliações constaram da medição do comprimento (mm) da lesão produzida pela bactéria nos pontos de inoculação, sendo realizadas a cada hora nas primeiras 6 horas e com intervalos de 6 horas até 48 horas após a inoculação. Foram observados PI e SEV. O experimento teve delineamento inteiramente casualizado com onze tratamentos (10 leveduras + testemunha) e cinco repetições, sendo a unidade experimental uma nervura com cinco pontos de inoculação.

No segundo experimento, de antibiose in vitro contra Pcc120, foram utilizadas três leveduras selecionadas no primeiro e a metodologia já descrita no teste de sensibilidade aos antibióticos. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, com quatro tratamentos (três leveduras + testemunha) e quatro repetições, sendo a unidade experimental uma placa com quatro pontos de deposição.

Um terceiro experimento foi realizado em casa de vegetação com as três leveduras, utilizando metodologia similar ao que testou o Mycoshield®. Durante o período dos experimentos, a temperatura em casa de vegetação variou de 25 a 35ºC. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, composto por quatro tratamentos (três leveduras + testemunha), com quatro repetições sendo a unidade experimental constituída por cinco plantas.

Efeito de Mycoshield® e leveduras no controle da podridão-mole em campo - Em campo comercial de couve-chinesa (janeiro de 2009) foram testados o Mycoshield® na dosagem mais eficiente (3,0 g L-1) e as leveduras Sc1 e Rh1, previamente selecionados em casa de vegetação. A metodologia utilizada para aplicação do antibiótico, da levedura e para inoculação de Pcc120 foi semelhante à descrita nos experimentos de casa de vegetação. As mudas preparadas em bandejas foram transplantadas aos 20 dias para solo natural de textura areno-argilosa, com espaçamento de 70 x 30 cm e irrigadas diariamente por gotejamento. O delineamento experimental foi em blocos inteiramente casualizados, composto por quatro blocos, cada um com quatro tratamentos (Mycoshield®, duas leveduras e testemunha), sendo a unidade experimental constituída por 10 plantas.

Análises estatísticas - Todos os experimentos foram repetidos, com exceção daquele executado em campo. No primeiro experimento foi realizado o teste de correlação de Pierson entre hospedeiro, município e reação a sulfato de cobre + estreptomicina. Os dados dos outros experimentos foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Duncan (p<0,05). As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do programa SAEG® 9.0 (Universidade Federal de Viçosa, 2005).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os 40 isolados de Pcc apresentaram sensibilidade in vitro aos bactericidas oxitetraciclina e estreptomicina e resistência ao sulfato de cobre na concentração de 0,2 g L-1. Todos os isolados foram sensíveis às misturas oxitetraciclina + sulfato de cobre e oxitetraciclina + estreptomicina, e 62,5% dos isolados foram resistentes à mistura sulfato de cobre + estreptomicina. Neste último caso, as diferenças entre os isolados quanto à resistência a mesma mistura, sugerem que não houve interação entre os produtos, mas apenas diversidade genética entre os isolados. Não houve correlação entre hospedeiro, município e reação a sulfato de cobre + estreptomicina (teste de Pierson, p<0,05).

Para o teste com produtos comerciais foram selecionados os isolados Pcc46, Pcc78, Pcc84, Pcc112, Pcc118 e Pcc120, representativos de couve-chinesa, alface e dos municípios Camocim de São Félix, Chã Grande e Vitória de Santo Antão, todos sensíveis a oxitetraciclina, estreptomicina, oxitetraciclina + sulfato de cobre e oxitetraciclina + estreptomicina e resistentes ao sulfato de cobre e ao sulfato de cobre + estreptomicina. Nesse teste, houve interação significativa entre antibióticos comerciais e isolados. Os seis isolados foram resistentes ao Kasumin® (2,0 mL L-1) e sensíveis a Agri-Micina® e Mycoshield®, ambos a 3,0 g L-1, com halos de inibição significativamente maiores para este último antibiótico. Mycoshield® inibiu ainda com maior intensidade o crescimento dos isolados Pcc78 (2,3cm), Pcc84 (2,2cm) e Pcc118 (2,0 cm). Considerando esses resultados e a classificação toxicológica da Agri-Micina® (classe I: produto extremamente tóxico), o Mycoshield® (classe II: produto altamente tóxico) foi selecionado para os experimentos posteriores.

Nos municípios estudados não é comum a aplicação de Kasumin® em cultivos de couve-chinesa ou alface, fato que justificaria a resistência à casugamicina. No entanto, sabe-se que a resistência a antibióticos é governada por mecanismos genéticos e os genes para resistência podem estar presentes, tanto no cromossomo principal como em plasmídeos. Em alguns casos, toda a população bacteriana já é naturalmente resistente a um ou vários antibióticos e existem vários exemplos em bacteriologia de plantas, denominando-se resistência múltipla constitutiva (Romeiro, 2005). A sensibilidade encontrada a Agri-Micina® e Mycoshield® confirmou a reação dos quarenta isolados de Pcc aos princípios ativos destes produtos. Isto pode indicar que a sua utilização em alface e couve-chinesa nos municípios analisados ainda é incipiente; fato importante, principalmente pela falta de registro dos mesmos para estas hortaliças.

Os bactericidas mais utilizados comercialmente são os antibióticos oxitetraciclina e sulfato de estreptomicina e os cúpricos (Romeiro, 2005) entre os quais oxicloreto de cobre, sulfato de cobre, hidróxido de cobre e óxido cuproso (Leite Júnior, 2000). A resistência a produtos cúpricos em bactérias fitopatogênicas foi observada pela primeira vez em Xanthomonas spp. associadas com doenças em pimentão (Marco & Stall, 1983) e tem sido relatada também em Pseudomonas spp. (Aguiar et al., 2000). Com relação aos antibióticos, diferenças na sensibilidade à estreptomicina foram observadas em Xanthomonas spp. causando mancha-bacteriana do tomateiro na Flórida (Stall & Thayer, 1962), no Caribe e na América Central (Bouzar et al., 1999) enquanto que na Itália, onde o uso da estreptomicina não é permitido, nenhum isolado resistente de Xanthomonas spp. do pimentão foi detectado por Buonaurio et al. (1994).

Não existem produtos registrados para podridão-mole em couve-chinesa. Apenas Kasumim® e Mycoshield® são registrados para essa doença em cenoura e batata, respectivamente, sendo também indicados para fitobacterioses em outras culturas (Lopes & Quezado-Soares, 1997).

Nos dois experimentos em casa de vegetação, o tratamento com Mycoshield® 1,5 g L-1 (50% da dosagem comercial, ou seja, 300 mg L-1 de oxitetraciclina) não diferiu da testemunha em relação a nenhuma das variáveis analisadas, demonstrando ineficácia no controle da doença (Tabela 1). Já o Mycoshield® na dosagem comercial, apesar de não influenciar o PI em ambos os experimentos, promoveu reduções de 40,3 e 47,4% na SEV da doença e de 19,0 e 11,4% no IDO em relação à testemunha não tratada. Diferenças na AACPD foram observadas apenas no segundo experimento onde o tratamento Mycoshield® 3,0 g L-1 reduziu esta variável em 55,0%. Esses resultados confirmaram aqueles obtidos nos experimentos in vitro, onde a eficácia da oxitetraciclina foi observada na inibição de Pcc.

No experimento em nervuras destacadas, os 10 isolados de leveduras testados não influenciaram o PI. No entanto, os isolados Rh1, Rh2 (Rhodotorula sp.) e Sc1, 2658, 5107 (S. cerevisae) reduziram a SEV em até 84%, sendo os isolados Rh1, Rh2 e Sc1 selecionados para o teste em casa de vegetação. In vitro as leveduras não inibiram Pcc, indicando que não agem pelo mecanismo de antibiose, como era de se esperar.

Em casa de vegetação, de modo geral não foi observada diferença significativa entre tratamentos e testemunha para PI ou IDO nos dois experimentos (Tabela 2). No entanto, o isolado Sc1 diferiu da testemunha em ambos os experimentos reduzindo a SEV da doença em até 27,6% e a AACPD em até 39,3%. O isolado Rh1 apenas reduziu a AACPD, nos dois experimentos, em até 33,5%.

Em campo o Mycoshield® na dosagem 3,0 g L-1, reduziu significativamente o IDO, a SEV e a AACPD em respectivamente 14,4; 15,5 e 28,9% comparado à testemunha, mas o nível de eficiência foi considerado baixo em relação aos resultados de casa de vegetação. Os isolados de levedura também não apresentaram a eficiência desejada. Apenas diferiram da testemunha, Rh1 que reduziu o IDO em 8,8% e Sc1 que reduziu a AACPD em 15,7% (Tabela 3). Isto pode ser explicado uma vez que em casa de vegetação as condições ambientais são parcialmente controladas e no campo fatores climáticos como precipitação e temperatura podem ter reduzido a eficácia do controle.

 

 

Dentre as diferentes medidas de controle da podridão-mole está o uso de antibióticos ou fungicidas cúpricos (Zambolim et al., 1997). No emprego de antibióticos, é importante entre outros fatores considerar a eficiência do produto e o surgimento de resistência, uma vez que, antibióticos podem tornar-se ineficazes pelo uso continuado dos mesmos grupos químicos, com modos de ação semelhantes (Romeiro, 2005). Por se tratar de uma folhosa, a couve-chinesa é consumida na maioria das vezes in natura. Portanto, a utilização do controle químico deve ser inserida dentro de um programa de manejo juntamente com outras medidas, levando-se em conta, sobretudo, o registro para a cultura e o período de carência do produto utilizado.

Considerando que a couve-chinesa tem ciclo curto, de 60 a 70 dias, a fase crítica de infecção ocorre próximo aos 20 dias após o transplante, ou seja, 45 dias após plantio, período em que as folhas e, principalmente, as nervuras, tocam o solo e inicia-se a formação da cabeça. Neste período, os tecidos da planta estão mais suscetíveis à ação das enzimas pectinolíticas produzidas por Pcc, embora as perdas continuem nas fases de colheita, estocagem e transporte (Ren et al., 2001a).

A baixa eficiência das leveduras em campo podem ter resultado da dificuldade de colonização do filoplano nas condições climáticas prevalentes neste habitat. Apesar de excelentes competidoras por nutrientes, o que resulta em maior velocidade de crescimento e capacidade de utilização dos substratos disponíveis (Gava, 1998), a colonização pelas leveduras depende não só da disponibilidade desses nutrientes e espaço, mas da microbiota e dos fatores ambientais existentes naquele local. Assim sendo, os isolados de leveduras testados apresentam pouco potencial para o controle da podridão-mole da couve-chinesa. Apesar de não agirem por antibiose e de terem como possíveis mecanismos de ação a competição e/ou indução de resistência, os índices de controle estão abaixo daqueles esperados em um efetivo controle biológico, mesmo inserido em um contexto de manejo. Também Gomes et al. (2005) relataram que o controle da podridão-mole em tomate com o isolado de levedura LD-19 apresentou baixa eficiência, em torno de 20%. Por outro lado, reduções de incidência de 100% da podridão-mole foram obtidas experimentalmente em frutos de pimentão com os isolados P-5 de Pseudomonas sp. fluorescente e LD-19 de Rhodotorula sp. (Melo et al., 1995).

Ainda dentre as causas da baixa eficiência do controle obtido, podem ser citadas a alta agressividade do patógeno e o método de inoculação utilizado. No entanto, este método foi necessário para assegurar em campo a ocorrência da podridão-mole; e foi também utilizado por Ren et al. (2001a, 2001b) para estudos de resistência neste patossistema.

Considerando que a couve-chinesa é uma hortaliça folhosa de ciclo curto, a probabilidade do surgimento de resistência na população do patógeno e principalmente os baixos níveis de redução da intensidade da doença obtidos pelo Mycoshield® e leveduras em campo, conclui-se que ambos apresentaram baixa eficiência para o controle da podridão-mole da couve-chinesa nestas condições.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao CNPq, pela concessão de auxílio financeiro (Proc. 479.622/2004-3) e bolsas de iniciação científica (Myrzânia de L Guerra), apoio técnico (Ivanise O Viana) e produtividade em pesquisa (Elineide B da Silveira e Rosa de Lima R Mariano); e a CAPES, pela bolsa de doutorado de Marcelo Rodrigues F de Mello.

 

REFERÊNCIAS

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(Recebido para publicação em 24 de novembro de 2009; aceito em 28 de fevereiro de 2011)
(Received on November 24, 2009; accepted on 28 February, 2011)

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