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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.2 Belo Horizonte Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09351999000200002 

Altura do epitélio folicular da tireóide na triagem para detecção de resíduos de antitireoidianos em bovinos

(Thyroid epithelium height as a sorting method for detection of antithyroid residues in bovine)

 

R. Serakides1, V.A. Nunes1, M.P.M.B. Leite2

1Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567

CEP: 30123-970, Belo Horizonte, MG
2Laboratório de Referência Animal (LARA), Pedro Leopoldo, MG

 

Recebido para publicação, após modificação, em 2 de outubro de 1998.
E-mail: serakide@dedalus.lcc.ufmg.br
Apoio financeiro do CNPq

 

 

RESUMO

A altura do epitélio folicular da tireóide, mensurada em secções histológicas coradas pela hematoxilina e eosina, foi testada como característica de triagem para a pesquisa química de resíduos de antitireoidianos em 53 bovinos. Cinco glândulas, contendo resíduos detectados por cromatografia de camada delgada de alta resolução (HPTLC), eram provenientes de cinco novilhos experimentalmente tratados com suspensão oral de metiltiouracil (5g/animal/dia), durante 20 dias, interrompido cinco dias antes do abate. As demais glândulas, sem resíduos detectados por HPTLC, provinham de seis controle experimentais que receberam apenas placebo e de 42 animais abatidos em matadouros industriais de Minas Gerais (n=25) e Goiás (n=17). Todas as glândulas positivas apresentaram hiperplasia intensa e a altura do epitélio folicular foi significativamente maior, embora as 42 glândulas negativas também se mostrassem moderadamente hiperplásicas. Com base nas respostas típicas individuais de 47 tireóides com bócio parenquimatoso e de seis histologicamente normais, ficou estabelecido o limite de 16mm para a altura do epitélio, acima do qual toda glândula deverá ser considerada suspeita e testada quimicamente. Foi determinada a correlação entre a altura do epitélio folicular e outras características indiretas de detecção de resíduos, concluindo-se que a altura do epitélio presta-se para a triagem de programas oficiais de controle de resíduos de drogas antitireoidianas na carne.

Palavras-Chave: Bovino, tireóide, metiltiouracil, antitireoidiano, triagem

 

ABSTRACT

The height of the follicular epithelium of the bovine thyroid gland was tested as a sorting method for antithyroid drug residues detection in 53 bovine thyroids. Five glands with residues, tested for high performance thin layer chromatography (HPTLC), were collected from five steers treated with oral suspension of methylthiouracil (MTU) for 20 days (5g/animal/day), interrupted five days before slaughter. The other glands without residues were collected from six experimental control animals and from 42 animals slaughtered in an industrial slagthterhouses of Minas Gerais (n=25) and Goiás States (n=17), Brazil. All positive glands were severely hyperplastic and the follicular epithelium height was statistically greater as compared with negative glands, although 42 negative thyroids showed also moderate hyperplasia. The typical individual responses of 47 hyperplasic glands and six normal glands determined a follicular epithelium height limit of 16 micrometers above which all glands should be considered suspect of containing residues and should be submitted to chemical analysis. The correlation between follicular epithelium height and other indirect traits used for residues detection was made. The follicular epithelium height was considered a good sorting method for the official control of antithyroid drug residues in meat.

Keywords: Bovine, thyroid, methylthiouracil, antithyroid, drug, sorting method

 

 

INTRODUÇÃO

Os antitireoidianos são produtos naturais ou de síntese que agem direta ou indiretamente sobre a função tireoidiana impedindo a produção de tiroxina. Embora comprovadamente tóxicos para animais de laboratório, são usados ilicitamente em animais antes do abate, para aumentar o peso corporal. Por não serem anabolizantes e pelos riscos à saúde humana, os antitireoidianos têm seu uso proibido em animais produtores de carne, na maioria dos países industrializados (Ballesteros, 1982).

O metiltiouracil e outros derivados do tiouracil inativam a peroxidase tireoidiana, impedindo a oxidação do iodeto, a fixação do iodo ao radical tirosil da tireoglobulina e o acoplamento das iodotirosinas. Além deste mecanismo, alguns antitireoidianos, como o propiltiouracil, também inibem a transformação da tiroxina em triiodotironina nos tecidos periféricos, por bloquear a desiodação (Cooper, 1984; Pochard, 1984).

A deficiência induzida dos hormônios tireoidianos ocasiona hipersecreção de TSH que tem ação trófica sobre a tireóide, determinando seu aumento de volume. O hipotireoidismo provocado no curso da administração dessas drogas determina ganho de peso pela retenção de água nos tecidos subcutâneo e muscular e no trato gastrointestinal (Pochard, 1984; Catellani, 1984; Palliola et al., 1987).

Os programas da União Européia (UE) de controle de resíduos de drogas veterinárias e aqueles de controle de comercialização internacional de carne proíbem o uso dos antitireoidianos pelos países membros e exportadores de carne, e exigem a análise química de seus resíduos em músculos e tireóide (EEC, 1990). O Brasil, como país exportador, proibiu o uso de antitireoidianos e incluiu, desde 1993, no Plano Nacional de Controle de Resíduos Biológicos (PNCRB), o controle dessas drogas (Plano..., 1996).

A identificação e quantificação dos resíduos de antitireoidianos podem ser feitas em alimentos processados, tecidos animais e produtos de excreção (Comsa et al., 1982; Pochard, 1984), mas o material preferencial é a tireóide, local de acúmulo e ação da droga. Por ser de uso proibido, a quantificação é desnecessária, bastando sua identificação por cromatografia, sendo a cromatografia de camada delgada de alta resolução (HPTLC) a mais indicada. Mesmo assim, a HPTLC é onerosa, demorada e trabalhosa (Comsa et al., 1982), sendo admitidos métodos de triagem para reduzir o número de análises químicas. Entre os métodos de triagem, são aceitos o peso e a histologia da glândula (Griem, 1973; Pottie, 1979; Pellegrini et al., 1984), mas alguns os consideram pouco eficientes (Pochard, 1984; Palliola et al., 1985), dados os inúmeros fatores, afora os antitireoidianos, que podem alterá-los. O Brasil havia estabelecido empiricamente um limite de peso de 30g, muito inferior ao de 60g estabelecido pela UE (EEC, 1990), mas já foi demonstrado que o limite adequado é de 45g (Leite, 1996). Mesmo assim, com base no peso limite de 45g, pequeno percentual de glândulas negativas seria analisado (0,17%) e pequeno percentual de glândulas positivas deixaria de ser analisado (0,96%). A busca de uma característica mais sensível foi o objetivo do presente trabalho, uma vez que a literatura carece de informações sobre dados histométricos como método de triagem.

 

MATERIAL E MÉTODO

Foram utilizadas as secções transversais obtidas do centro de cada um dos dois lobos de 53 tireóides de bovinos mestiços, todos machos e com idade entre três e quatro anos. As glândulas provieram de animais experimentais e de animais abatidos em matadouros industriais, utilizados por Leite (1996) para estudo do peso como característica de triagem.

Cinco glândulas que continham resíduos (glândulas positivas), detectados por cromatografia de camada delgada de alta resolução (HPTLC), eram provenientes de cinco novilhos experimentalmente tratados com suspensão oral de metiltiouracil (5g/animal/dia), durante 20 dias, interrompido cinco dias antes do abate. As demais glândulas, sem resíduos detectados por HPTLC (glândulas negativas), provieram de seis controles experimentais que receberam apenas placebo e de 42 animais abatidos em matadouros industriais de Minas Gerais (n=25) e Goiás (n=17).

Para este trabalho, as tireóides foram divididas em quatro grupos, de acordo com o seguinte esquema: grupo negativo de Minas Gerais (n=25), grupo negativo de Goiás (n=17), grupo negativo experimental (n=6) e grupo positivo (n=5).

Todas as tireóides colhidas foram pesadas em balança de precisão e seus lobos direito e esquerdo medidos com auxílio de paquímetro, tomando-se a largura e o comprimento.

Um fragmento do centro de cada lobo da glândula foi fixado em formalina neutra a 10%, e processado histologicamente segundo as técnicas rotineiras de inclusão em parafina e de coloração por hematoxilina-eosina (Luna, 1968).

Foi mensurada, ao acaso, a altura do epitélio, com micrômetro ocular, em aumento de 1000´, em quatro pontos de cada um de 50 folículos, totalizando 200 medidas da altura do epitélio por glândula. Após a obtenção do fator de conversão para o micrômetro, pela escala de uma lâmina micrométrica, este foi aplicado às médias da altura do epitélio.

O delineamento estatístico foi o inteiramente ao acaso. As médias foram comparadas pelo teste Student Newman Keuls (SNK), segundo Cochran & Cox (1957). Foram também determinados os coeficientes de correlação entre altura do epitélio folicular e peso e medidas da glândula obtidos por Leite (1996).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Todas as glândulas positivas apresentaram alterações hiperplásicas acentuadas e a altura do epitélio folicular foi significativamente maior (P£0,05), embora as 42 glândulas negativas também se apresentassem moderadamente hiperplásicas. Apesar de ter havido diferença estatisticamente significativa na altura do epitélio entre o grupo negativo experimental e os demais grupos negativos, não houve diferença entre os grupos negativos de Minas Gerais e de Goiás (P³0,05) (Tab. 1).

 

 

Com base na média da altura do epitélio folicular de cada grupo e considerando o índice de altura do epitélio estabelecido por Singh et al. (1985), o epitélio das glândulas negativas dos bovinos de Minas Gerais e de Goiás pode ser classificado como cuboidal baixo (3,3-6,4mm), enquanto que o epitélio das glândulas do grupo negativo experimental deve ser considerado cuboidal alto (6,5-10,5mm). Já no grupo positivo, a média da altura do epitélio o classifica como colunar (acima de 10,6mm).

Estimando-se o desvio padrão da altura do epitélio folicular da amostra constituída por 47 tireóides com bócio parenquimatoso e de seis glândulas histologicamente normais (s=1,84) e fazendo-se o cálculo das respostas típicas individuais, foi possível estabelecer os limites superior e inferior da altura do epitélio folicular, para cada grupo (negativo e positivo). Com 95% de confiança, foi também possível estimar quantas amostras da população apresentam altura igual ou maior que as respostas típicas individuais, usando a curva de distribuição normal (Fig. 1). Os elementos típicos distribuídos sob a curva foram divididos em três intervalos: negativo, positivo e suspeito (faixa de sobreposição das duas curvas), configurando que tireóides que apresentam epitélio folicular entre 3,21 e 10,43mm provavelmente são negativas, com 10,43 a 20,02mm são suspeitas e com 20,02 a 27,24mm são positivas para resíduos de antitireoidianos.

 

 

Na Tab. 2 são apresentadas as probabilidades de erro de amostragem pela utilização de diferentes alturas do epitélio folicular como limite de suspeição. Assim, considerando o limite de altura do epitélio como 16mm, a probabilidade de se analisar quimicamente tireóides negativas é de 0% e de se deixar de analisar as positivas é de 0%. Este limite parece ser o mais conveniente, já que não há risco de se deixar glândulas positivas sem serem analisadas nem de se analisar desnecessariamente glândulas negativas. Portanto, acima dele, todas as tireóides deverão ser consideradas suspeitas e submetidas à análise química para verificação do uso ilegal de drogas antitireoidianas.

 

 

Os pesos médios das tireóides negativas dos grupos de Minas Gerais, de Goiás e do experimental foram respectivamente 21,4g, 18,3g e 24,1g, não havendo diferença estatisticamente significativa entre eles (Leite, 1996). Entretanto, as glândulas do grupo negativo experimental apresentaram altura do epitélio folicular maior e estatisticamente significativa do que a altura dos grupos negativos de Minas Gerais e de Goiás. Além disso, com base no peso limite de 45g estabelecido por Leite (1996), pequeno percentual de glândulas negativas seria analisado (0,17%) e pequeno percentual de glândulas positivas deixaria de ser analisado (0,96%). Isto leva a inferir que a altura do epitélio folicular seja uma avaliação mais precisa e eficaz que a determinação do peso para a triagem de tireóides suspeitas. Leite (1996) considera o peso da tireóide como uma boa característica para a triagem de glândulas suspeitas, e baseado na alta e positiva correlação entre peso da glândula e altura do epitélio folicular (Tab. 3), pode-se concluir que a altura do epitélio folicular é a melhor característica a ser avaliada na triagem de tireóides suspeitas de apresentarem resíduos de drogas antitireoidianas.

 

 

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