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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.2 Belo Horizonte Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09351999000200004 

Prevalência e classificação das afecções podais em vacas lactantes na bacia leiteira de Belo Horizonte

(Prevalence and classification of foot problems in lactating dairy cows in Belo Horizonte, Brazil)

 

L.R. Molina1, A.U. Carvalho1, E.J. Facury Filho1, P.M. Ferreira1, V.C.P. Ferreira2

1Escola de Veterinária - UFMG
Caixa Postal 567 – 30123-970
Belo Horizonte, MG
2Mestrando em Zootecnia, EV-UFMG

 

Recebido para publicação em 24 de agosto de 1998.
E-mail: lmolina@vet.ufmg.br

 

 

RESUMO

Com o objetivo de avaliar a prevalência e classificar clinicamente as afecções podais, foram examinadas 469 vacas em lactação de 10 fazendas da bacia leiteira de Belo Horizonte, criadas em regime de confinamento. Entre elas, 142 vacas, consideradas afetadas, apresentaram 534 lesões. A prevalência de vacas afetadas foi de 30,3%. Das afecções podais, 66,7% ocorreram nos membros posteriores e 33,3% nos membros anteriores. Ocorreram 49,2% lesões nas unhas laterais e 50,7% nas unhas mediais. Quanto ao escore de manqueira, 105 foram classificados como escore 1, 9 como escore 2, 15 como escore 3, 7 como escore 4 e 6 como escore 5. Maior incidência ocorreu nas vacas mais velhas, e não se observou influência da fase da lactação. A lesão mais freqüente foi a erosão de camada córnea, representando 48,5% do total, seguida por dermatite interdigital (13,5%) e pododermatite séptica (9,6%). O elevado número de animais afetados permite concluir que as afecções podais em vacas em lactação confinadas constitui um sério problema em fazendas na bacia leiteira de Belo Horizonte.

Palavras-Chave: Vaca, afecção podal

 

ABSTRACT

The prevalence and classification of clinical foot problems of 469 lactating dairy cows were studied in 10 farms in the dairy region of Belo Horizonte, Brazil, managed in confinement systems. A total of 142 cows were considered affected and presented 534 lesions. The prevalence of affected cows was 30.3%, being 66.7% in the hind feet and 33.3% in the fore feet, with no difference between outer claw (49.2%) and inner claw (50.7%). The classification according to lameness showed, 105 animals classified as score 1, 9 as score 2, 15 as score 3, 7 as score 4 and 6 as score 5. Age of cow influenced the prevalence of lesions, but no effect of lactation stage was observed. The most frequent lesion was horn erosion representing 48.5% of the total, followed by interdigital dermatitis (13.5%) and septic pododermatitis (9.6%).

Keywords: Cow, foot lesion

 

 

INTRODUÇÃO

As afecções podais são consideradas como um dos maiores problemas de saúde em gado leiteiro (Faye & Lescourret, 1989). De acordo com a FAO (1967), o total de perdas provocadas pelas afecções podais em vacas atinge 15% da produção em países desenvolvidos e 30 a 40% nos países em desenvolvimento. As perdas econômicas referem-se à redução da vida útil dos animais, diminuição da produção leiteira, diminuição da fertilidade e custo do tratamento (Greenough et al., 1983). O problema ocorre com alta prevalência no Brasil (Silveira et al., 1988). A tendência de especialização na atividade de produção leiteira, observada nos últimos anos na bacia leiteira de Belo Horizonte, introduziu nos sistemas de produção alguns fatores diretamente relacionados com o aumento de afecções do aparelho locomotor em vacas de leite. Entre eles, citam-se o confinamento e a predominância de animais de raças européias no rebanho como os mais importantes (Arkins,1981a; Rowlands et al., 1983; Silveira et al., 1988).

A nomenclatura para caracterizar as lesões podais em bovinos não está bem padronizada, o que resulta em confusões por parte dos técnicos. Greenough et al. (1983) propuseram uma terminologia para classificação das afecções dos pés de bovinos, que consiste em um método prático baseadõ na localização anatômica da lesão. Tais afecções são apresentadas por Greenough (1987) em um compêndio ilustrado.

Apesar da importância econômica dessas afecções, sua prevalência em Minas Gerais não é conhecida, dificultando o diagnóstico da situação e a elaboração de uma estratégia de controle. Esta pesquisa tem como objetivo avaliar a prevalência e classificar clinicamente as afecções podais em vacas em lactação na bacia leiteira de Belo Horizonte.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliadas 469 vacas em lactação, de 10 fazendas da bacia leiteira de Belo Horizonte, criadas em regime de confinamento. Os animais que apresentaram algum tipo de alteração morfológica ou funcional dos pés foram considerados afetados. Eles foram avaliados parados e em movimento. Para caracterizar a presença ou não de manqueira, e classificá-la de acordo com a intensidade, foi utilizado o sistema de classificação por escore, de acordo com Greenough (1997), que considera escore 1, animal sem manqueira e escore 5, com manqueira bastante intensa. Em seguida, os animais foram contidos e cuidadosamente examinados com o objetivo de classificar o tipo de lesão, segundo o seguinte critério (Greenough et al., 1983): 1. dermatite interdigital - inflamação da pele interdigital sem extensão aos tecidos profundos; 2. erosão de camada córnea - perda de substância da camada córnea da sola ou dos talões; 3. dermatite verrucosa - inflamação crônica da pele na região dorsal ou palmar/plantar; 4. hiperplasia interdigital - reação proliferativa da pele e/ou do tecido subcutâneo interdigital; 5. dermatite digital - inflamação circunscrita ou difusa da coroa do casco; 6. flegmão interdigital - inflamação da pele interdigital e dos tecidos subjacentes, caracterizada por necrose de pele com fissura; 7. pododermatite asséptica difusa - inflamação asséptica aguda, subaguda ou crônica da pododerme; 8. pododermatite circunscrita - ulceração circunscrita da pododerme; 9. pododermatite séptica - inflamação séptica, difusa ou localizada da pododerme; 10. fissura da unha - fissura da camada córnea da muralha paralela à sua face dorsal ou paralela à coroa; 11. deformação da unha - qualquer tipo de deformação da unha; 12. afecções diversas - outras afecções que não se encontram descritas acima.

Fez-se análise descritiva dos dados considerando-se a fase da lactação e a idade do animal, e utilizou-se o teste qui-quadrado, tabela de contingência, na análise dos resultados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De 469 vacas examinadas, 142 apresentaram pelo menos um tipo de lesão podal, identificando-se 534 lesões (Tab. 1). A prevalência foi de 30,28±4%. Das afecções de casco, 66,67% ocorreram nos membros posteriores e 33,33% nos membros anteriores (P<0,05). Resultados semelhantes foram observados por Arkins (1981a). Quanto à localização das lesões ungulares, ela foi igual (P>0,05), isto é, 49,25% nas unhas laterais e 50,75% nas unhas mediais. Baggot & Russel (1981) observaram prevalência 2,5 vezes maior nas unhas laterais em relação às mediais.

 

 

Dentre as lesões, a mais freqüentemente encontrada foi erosão da camada córnea, que representou 48,50% do total, seguida por dermatite interdigital, 13,48%, e pododermatite séptica, 9,55%.

Na classificação pelo escore de manqueira, 105 foram classificados como escore 1, 9 como escore 2, 15 como escore 3, 7 como escore 4 e 6 como escore 5. Erosão de camada córnea tem sido considerada por alguns autores (Enevoldsen & Gröhn, 1991) como um dos problemas de casco mais comuns em vacas de leite, embora raramente cause manqueira. Em alguns casos, dependendo do sítio e extensão da lesão, e se o tecido sensitivo do casco foi afetado, o animal pode apresentar manqueira de intensidade variável (Baggot & Russel, 1981). Amolecimento dos cascos por excesso de umidade, e desgaste excessivo, decorrente de abrasão no piso da maioria das instalações, podem ser as causas mais importantes do problema.

Em instalações de confinamento, o problema da limpeza é desafiante (Allenstein, 1981). Quando se utiliza água, a umidade excessiva favorece o amolecimento dos cascos. Por outro lado, quando a remoção dos dejetos é realizada somente por raspagem, normalmente ela não é suficiente para evitar o acúmulo de grande quantidade de matéria orgânica no piso das instalações, o que também pode contribuir para a ocorrência dos problemas de casco. O tipo de piso pode ser considerado importante (Bergsten, 1994) e pisos pavimentados e abrasivos favorecem a erosão da camada córnea da sola do casco e/ou dos talões de vacas criadas nessas instalações (Faye & Lescourret, 1989). Nas fazendas estudadas, o piso das instalações era cimentado e a limpeza geralmente feita por raspagem, observando-se acúmulo de grande quantidade de matéria orgânica, o que pode justificar a elevada prevalência do problema.

A doença predispõe ao aparecimento de manqueira pela produção de tecido córneo de má qualidade e alterações na postura do animal, que provoca deformações na camada germinal (Greenough et al., 1983). O desgaste anormal da sola ou dos talões pode ainda permitir a penetração de corpos estranhos contaminados, potenciais causadores de pododermatite traumática séptica (Arkins,1981b) que, neste estudo, foi a terceira lesão mais freqüente. Clinicamente, os animais afetados podem apresentar desde uma manqueira severa de aparecimento súbito, até uma discreta manqueira que pode passar despercebida. Com a evolução do processo, a temperatura corporal pode aumentar, e o apetite, a produção de leite e a condição corporal diminuírem.

De acordo com alguns autores (Enevoldsen & Gröhhn, 1991), ocasionalmente o quadro pode se estender para os tecidos mais profundos, causando complicações. A dermatite interdigital ocorreu nos membros posteriores em 11,05% dos casos e nos membros anteriores, em 2,43%. É uma entidade específica e contagiosa, relacionada com falta de higiene das instalações e excesso de umidade. Neste estudo, entretanto, não foi possível a realização de exames microbiológicos das lesões.

A idade influenciou a ocorrência de problemas de casco (Tab. 2), isto é, animais mais velhos manifestaram maior prevalência de afecções podais. Baggot & Russel (1981) observaram maior susceptibilidade à ocorrência de afecções podais em animais mais velhos e na fase inicial da lactação. A fase da lactação não influenciou a prevalência de afecções de casco (Tab. 3). Pode-se observar apenas uma leve tendência de maior ocorrência de lesões na fase inicial da lactação. O retorno à ciclicidade reprodutiva, instalações de confinamento e adaptação social ao novo grupo, de acordo com Greenough (1997), podem predispor a vaca recém-parida a traumatismos e, assim, aumentar a susceptibilidade a afecções podais. Embora fossem identificadas 534 lesões (3,76 lesões/animal), a maior parte dos animais afetados (105/142) não apresentava manifestação clínica evidente da afecção (escore 1), o que mostra a necessidade de contê-los e examiná-los cuidadosamente para a detecção das lesões, principalmente aquelas menos extensas. Em condições de fazenda, a detecção precoce de muitas das afecções podais torna-se bastante comprometida pelas dificuldades de contenção adequada dos animais, fator determinante para a realização do diagnóstico. Provavelmente, as perdas decorrentes de afecções podais não diagnosticadas tenham importância significativa em sistemas de produção de leite com gado confinado.

 

 

 

CONCLUSÕES

Com base nos resultados do presente estudo, pode-se concluir que as afecções podais em vacas em lactação confinadas têm prevalência consideravelmente elevada nas fazendas da bacia leiteira de Belo Horizonte e que a detecção das afeções deve ser bem feita por causa do elevado número de animais com sintomas pouco ou não evidentes das lesões.

 

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