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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.2 Belo Horizonte Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09351999000200005 

Freqüência e assimetria da displasia coxofemoral em cães Pastor-Alemão

(Frequency and asymmetry of hip dysplasia in German Shepherd dog)

 

R.C.S. Tôrres1, P.M. Ferreira1, D.C. Silva2

1Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias
Escola de Veterinaria da UFMG
Caixa Postal 567 – 30161-970. Belo Horizonte – MG
2Aluna de Graduação da EV/UFMG

 

Recebido para publicação, após modificação, em 11 de dezembro de 1998.
E-mail: rtorres@vet.ufmg.br

 

 

RESUMO

Avaliaram-se a freqüência e a assimetria da displasia coxofemoral em 181 radiografias de cães da raça Pastor-Alemão, de ambos os sexos, no período de junho de 1986 a março de 1993. As radiografias foram feitas na posição ventrodorsal, com os membros paralelos e a pélvis simétrica. A idade média dos animais era de 16,6 meses. Observaram-se 72,4% de cães displásicos, sendo 5,3% unilateral, 89,4% bilateral simétrica e 5,3% bilateral assimétrica em graus diferentes.

Palavras-chave: Cão, radiologia, displasia coxofemoral

 

ABSTRACT

A study of frequency and asymmetry of hip dysplasia was carried out using 181 X-rays plates of German Shepherd dogs, both males and females, from June 1986 to March 1993. The X-ray plates were taken with the animals on the ventrodorsal position, with the limbs parallel and the pelvis symmetric. The average age of the dogs was 16.6 months. Results showed 72.4% of dysplastic dogs, being 5.3% unilateral, 89.4% bilateral simmetric and 5.3% bilateral asymmetric.

Keywords: Dog, radiology, hip dysplasia

 

 

INTRODUÇÃO

A displasia coxofemoral (DCF) é uma alteração do desenvolvimento que afeta a cabeça do fêmur e o acetábulo, caracterizada, radiograficamente, pelo arrasamento do acetábulo, achatamento da cabeça do fêmur, subluxação ou luxação coxofemoral e alterações secundárias da articulação (Lust et al., 1985; Shepherd, 1986; Lust, 1997).

A doença afeta muitas raças caninas sendo mais comum nas de grande porte, tais como Pastor-Alemão, Setter Inglês, São Bernardo e Cão dos Pirineus (Ferreira & Costa, 1983; Lust et al., 1985; Gerosa, 1995).

Nos últimos anos, as associações de criadores das diferentes raças caninas têm-se preocupado com o controle da DCF e exigido maior eficiência no diagnóstico radiográfico (Tellhelm & Brass, 1989; Gerosa, 1995). Para uma boa avaliação, são necessárias tomadas radiográficas corretas e de alta qualidade técnica (Tellhelm & Brass, 1989).

Segundo Ticer (1975), Lust et al. (1985), Hunter (1986), Wallace (1987), Brass (1989) e Farrow & Back (1989), a radiografia pode ser feita na posição ventrodorsal, com os membros posteriores bem estendidos e os fêmures paralelos entre si e em relação à coluna vertebral. A patela deve ficar sobreposta medianamente, em relação ao plano sagital do fêmur, e a pélvis em simetria. Este posicionamento é chamado de posição 1, e por ele a radiografia poderá revelar anormalidades que não seriam vistas em outras posições.

As articulações coxofemorais de cães que eventualmente desenvolvem displasia são estrutural e funcionalmente normais ao nascimento. O diagnóstico radiológico da alteração inicial é feito somente aos 6-9 meses de idade, embora cerca de 80% dos cães displásicos só mostrem evidências radiológicas aos 12 meses e em alguns somente aos 24 meses (Lust et al., 1985). Segundo Brass (1989), a idade mais recomendada para o diagnóstico de DCF é 18 meses.

A classificação das alterações radiológicas dos diferentes graus de DCF, descrita por Brass et al. (1978) e utilizada pela Comissão da Federação Cinológica Internacional, é a seguinte: 1 - nenhum indicativo de DCF, 2 - Suspeito de DCF, 3 - DCF discreta, 4 - DCF média, 5 - DCF grave.

Segundo Fox & Burt (1987), em mais de 90% dos casos de DCF a manifestação é bilateral. Keller & Corley (1989) verificaram 23,6% de DCF em cães Pastor-Alemão e 20,1% de comprometimento unilateral, enquanto Henricson et al. (1966) observaram que 11% dos cães avaliados apresentavam DCF unilateral.

Essa manifestação assimétrica pode ser ainda considerada sob dois aspectos diferentes, ou seja: unilateral, onde uma articulação é normal e a outra afetada, e bilateral, porém com graus diferentes para cada antímero (Morgan, 1986). Este autor mostrou, num estudo prospectivo de 11 anos, que 15% dos cães acometidos apresentavam DCF unilateral e 13% bilateral, mas com graus diferentes entre si e que essa assimetria poderia induzir o clínico a um erro de diagnóstico.

Em outro estudo prospectivo de 20 anos, Kaneene et al. (1997) observaram que houve aumento significativo no percentual de cães com articulações coxofemorais excelentes (animais submetidos à OFA-Orthopedic Foundation for Animals), e que o número de cães com DCF diminuiu neste período. Os autores atribuíram os bons resultados ao esforço dos proprietários e criadores em selecionar, adequadamente, seus cães para cruzamento e também à exigência dos clubes de criadores que obrigam os associados a radiografarem seus animais.

Este estudo teve por objetivo verificar a freqüência de DCF em cães da raça Pastor-Alemão, bem como analisar e quantificar a sua manifestação assimétrica, não só quanto à unilateralidade, mas também quanto à bilateralidade em graus diferentes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 181 radiografias de cães da raça Pastor-Alemão, sendo 97 de fêmeas e 84 de machos, com idade mínima de 12 meses. Os animais foram encaminhados à Escola de Veterinária da UFMG por intermédio da Sociedade Mineira de Criadores de Cães Pastores Alemães, no período de junho de 1986 a março de 1993, em cumprimento às exigências da referida associação que determina aos associados radiografarem seus cães para efeito de controle da DCF e participação em competições.

As radiografias foram feitas com os animais em decúbito dorsal, membros posteriores bem estendidos, fêmures paralelos entre si e em relação à coluna vertebral, patela sobreposta medianamente em relação ao plano sagital do fêmur e pélvis em simetria, sendo esta posição utilizada como padrão para o diagnóstico da DCF.

Os cães foram tranqüilizados com Xilazina1 (0,5mg/kg p.v.) e as tomadas radiográficas feitas em aparelho portátil2, utilizando-se filmes3 de 30 ´ 40cm. A distância focal foi de 80 a 100cm, média de 80Kv, de 25mA e o tempo de 0,2 a 0,3 segundos.

As radiografias foram avaliadas sobre negatoscópio, utilizando-se a classificação proposta por Brass et al. (1978).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As alterações radiológicas observadas estão de acordo com as citadas por Lust et al. (1985), Shepherd (1986) e Lust (1997), porém com intensidades diferentes. As radiografias feitas na posição 1, recomendada por Ticer (1975), Lust et al. (1985), Hunter (1986), Wallace (1987), Brass (1989), Farrow & Back (1989) e Tellhelm & Brass (1989), possibilitaram adequada visualização e avaliação das articulações coxofemorais de maneira a enquadrar os resultados dentro da classificação proposta por Brass et al. (1978).

A idade média de 16,6 meses atende às recomendações feitas por Lust et al. (1985) e Lust (1997) para se chegar a um diagnóstico definitivo.

Observou-se freqüência de 72,4% de cães displásicos, 72,2% em fêmeas e 72,6% em machos. Apesar dessa raça ser, segundo Ferreira & Costa (1983) e Lust et al. (1985), propensa a apresentar DCF, os resultados mostraram percentual bem acima do citado por Keller & Corley (1989). Essa alta freqüência mostra a ineficiência dos métodos de controle da doença, provavelmente por falta de um critério adequado de seleção, principalmente quanto aos machos, com maior número de acasalamentos por ano. Estes mesmos aspectos foram abordados por Kaneene et al. (1997), que atribuíram o sucesso do controle da DCF, nos EUA, ao empenho e participação efetivos dos proprietários no combate à DCF.

A assimetria observada foi de 5,3% dos cães afetados, semelhante ao relatado por Fox et al. (1987). Verificou-se que 5,3% tiveram manifestação unilateral, divergindo das observações encontradas por Henricson et al. (1966), Morgan (1986), e Keller & Corley (1989). Constatou-se manifestação bilateral, em graus diferentes, de 5,3%, menor que o observado por Morgan (1986). Os dados estão sintetizados na Tab. 1.

 

 

CONCLUSÕES

Com base nos resultados observados, concluiu-se que a DCF é uma alteração articular predominantemente bilateral, devendo-se estar atento para a assimetria, em função do baixo percentual encontrado. A DCF unilateral ou bilateral com graus diferentes tem a mesma importância que a bilateral simétrica e deve ser enquadrada dentro da sistemática de avaliação. A freqüência da DCF em cães da raça Pastor-Alemão na população estudada é alta, o que sugere métodos de controle mais eficientes.

 

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