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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.2 Belo Horizonte Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09351999000200009 

Milheto-grão (Pennisetum glaucum (L.) R.Br.) como substituto do milho em rações para poedeiras comerciais

(Pearl millet grain as corn substitute in laying hen rations)

 

M.B. Café1, J.H. Stringhini1, N.S. Mogyca1, A.F.S. França2, F.R.T. Rocha3

1Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás
Caixa Postal 131
74001-970 – Goiânia, GO
2Bolsista do CNPq
3Estudante de Mestrado em Medicina Veterinária da EV/UFMG

 

Recebido para publicação, após modificação, em 18 de dezembro de 1998.
E-mail: henrique@vet.ufg.br

 

 

RESUMO

Avaliaram-se o desempenho produtivo e a qualidade dos ovos de poedeiras comerciais alimentadas com milheto como substituto do milho em rações de postura. Duzentas poedeiras comerciais, da linhagem LSL Lohmann branca, com 30 semanas de idade, receberam rações com níveis crescentes de substituição da energia metabolizável fornecida pelo milho por milheto. As aves foram distribuídas em um delineamento inteiramente ao acaso com cinco tratamentos, cinco repetições e 10 aves por repetição. Foram avaliados a porcentagem de postura, o consumo de ração, a conversão alimentar em termos de dúzias e de massa de ovos, o peso médio de ovos, a porcentagem de casca e de gema, e a porcentagem de clara. Não se observou diferença estatística significativa em todas as características. O índice de coloração de gema, pelo leque colorimétrico Roche, apresentou pior coloração à medida que os níveis de milheto foram crescentes nas rações. Os resultados indicam que o milheto não afetou o desempenho produtivo das aves, devendo-se recomendar o seu uso com pigmentantes sintéticos ou naturais.

Palavras-Chave: Poedeira comercial, desempenho produtivo, milheto

 

ABSTRACT

The production performance and egg quality of laying hens receiving increasing levels of pearl millet grain in rations were studied. Two hundred 30-week-old LSL Lohmann white hens, allotted in a completely randomized design with five treatments, five replicates with 10 hens, were fed with 0, 25, 50, 75 and 100% of pearl millet grain in rations as corn substitute. The performance was evaluated by egg production, feed intake, feed conversion in terms of dozen eggs and egg mass, and egg quality measured as egg weight, shell, albumen and yolk porcentages. No differences among treatments were observed for all characteristics, but the yolk color index measured by the Roche fan indicated decreasing in yolk colour as the level of pearl millet increased. Pearl millet did not affect the production performance, and a synthetic or natural pigment should be included in rations.

Keywords: Laying hen, pearl millet, productive performance

 

 

INTRODUÇÃO

Andrews & Kumar (1992) relatam que o milheto apresenta uma série de vantagens para cultivo e produção de grãos nas regiões semi-áridas. No Brasil, notadamente nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, as perspectivas para o cultivo do milheto, tanto para a produção de grãos como para forrageiras, são bastante boas devido às condições dos solos ácidos e de fertilidade média ou baixa encontradas, o que permite economia na implantação da cultura comparado aos investimentos necessários para a produção de milho e de sorgo.

Luis et al. (1982a) identificaram os diferentes tipos de grãos que são conhecidos por milheto: milheto "proso", a espécie Panicum miliaceum, o milheto "finger", Eleusine coracana, o milheto pérola, Pennisetum typhoideum, hoje o P. americanum e o milheto rabo-de-raposa, Setaria italica, que são difundidos no mundo. O milheto "proso" foi descrito como de boa qualidade para rações de poedeiras, superior ao sorgo em qualidade, porém inferior ao milho (Luis et al., 1982b). Em outro trabalho, Luis et al. (1982a) não encontraram diferença significativa para frangos de corte alimentados com o milheto "proso", quando comparados com sorgo e milho.

Luis et al. (1982a), quando compararam o milheto "proso" (Panicum miliaceum) com milho e sorgo, não observaram diferenças estatísticas de desempenho quando frangos de corte foram criados de uma a seis semanas de idade.

Quando o milheto foi introduzido em dietas de poedeiras comerciais, os resultados indicaram redução nas porcentagens de postura (Luis et al., 1982b; Odiba & Sanford, 1985), com redução na intensidade de coloração da gema (Luis et al., 1982b; Odiba & Sanford, 1985; Collins et al., 1997), mas ovos com maior tamanho e ricos em ácidos graxos da série v-3 (Collins et al., 1997).

Shrivastav et al. (1990) observaram que o milheto apresentou desempenho inferior ao milho em rações de codornas para corte quando os níveis de inclusão de milheto nas rações aumentaram para 22,5 e 45%.

A qualidade nutricional dos diferentes tipos de milheto estudados no mundo é bastante animadora, como observado por Luis et al. (1982a) para o milheto "proso", por Singh et al. (1987) e Collins et al.(1997) para o milheto pérola, porém todos os autores afirmam que há a necessidade de recuperar as perdas em termos de coloração da gema dos ovos, o que é mais evidente no milheto pérola, mais cultivado no Brasil. Rostagno (1976), trabalhando com sorgo, concluiu que a substituição total do milho pelo sorgo em rações de acabamento de frangos é viável, desde que sejam incorporadas fontes de pigmentação dos produtos.

O presente experimento foi conduzido com o objetivo de estudar o desempenho produtivo e a qualidade do ovo produzido por poedeiras comerciais que receberam rações à base de milheto em substituição ao milho.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no Aviário Experimental do Departamento de Produção Animal da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás.

Foram utilizadas 200 poedeiras da linhagem Lohmann LSL branca, com cerca de 30 semanas de idade, alojadas em uma instalação com pé direito de 2,80m, coberta com telhas francesas, corredor de 1,20m e equipadas com gaiolas suspensas de aço galvanizado para postura com dimensões de 1,0 ´ 0,45 ´ 0,50m, cada uma com quatro divisões de 0,25 ´ 0,45m. As gaiolas estavam dispostas em duas linhas não sobrepostas, para que as excretas se depositassem em chão de terra batida, equipadas com comedouros lineares do tipo calha e bebedouros do tipo chupeta ("nipple").

As rações experimentais foram formuladas para conter os mesmos níveis de proteína bruta, energia metabolizável, aminoácidos sulfurados, lisina, cálcio e fósforo, seguindo as recomendações nutricionais e a composição nutricional propostas por Rostagno et al. (1987), exceto para o milheto, em que os níveis de energia metabolizável foram os sugeridos por Albino et al. (1992) e os valores de proteína bruta, cálcio e fósforo utilizados os apresentados por Nicolaiewsky & Prates (1987).

A composição das rações e seu valor nutricional calculado são apresentados na Tab. 1.

 

 

Foi utilizado o delineamento inteiramente ao acaso com cinco tratamentos e quatro repetições de dez aves cada. Os tratamentos basearam-se no nível de substituição da energia metabolizável fornecida pelo milho em mesma proporção pelo milheto, sendo os seguintes: T1- ração com 0% de inclusão de milheto; T2- ração com 25% de inclusão de milheto; T3- ração com 50% de inclusão de milheto; T4- ração com 75% de inclusão de milheto; T5- ração com 100% de inclusão de milheto.

As aves receberam as rações experimentais por duas semanas para permitir a adaptação. A partir daí foram medidas a produção de ovos em duas coletas diárias e o consumo de ração para cada ciclo de produção, considerados três ciclos de produção de quatro semanas, num total de 12 semanas de experimento. Ao final de cada ciclo, os ovos produzidos nos últimos dois dias de cada ciclo eram retirados para serem pesados e para efetuar os procedimentos de análise de qualidade interna. Foram avaliadas as seguintes características: porcentagem de postura, relação entre o número de ovos por galinha viva por dia, apresentado por ciclo de uma semana; consumo de ração, resultado da média do consumo de ração e número de aves vivas da parcela; conversão alimentar por dúzia de ovos, relação entre o consumo de ração e a quantidade de ovos produzida em termos de dúzias por parcela; conversão alimentar por massa de ovos produzida por ave, estimada pela multiplicação dos valores de consumo de ração pela porcentagem de postura e peso médio dos ovos; peso médio de ovo, medido pelo total dos ovos produzidos por parcela; índice de coloração da gema pelo leque colorimétrico Rocheâ , comparação entre a gema do ovo, sobre um fundo branco, e o leque colorimétrico (Roche, 1971; 1987); porcentagem de casca, relação entre a casca limpa e a seca em estufa, e o peso individual do ovo.

Para análise dos dados, após a tabulação, usou-se a regressão polinomial, conforme Banzatto & Kronka (1992), com o auxílio do programa ESTAT, desenvolvido pelo Departamento de Ciências Exatas da UNESP - Campus de Jaboticabal.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As porcentagens de postura, para os diferentes tratamentos e períodos estudados, são apresentadas na Tab. 2. O milheto, em seus diferentes níveis de substituição do milho nas rações, não afetou a porcentagem de postura (P>0,05). Estes resultados estão de acordo com Luis et al. (1982b) que avaliaram a inclusão de diferentes variedades de milheto nas rações de poedeiras, quando os autores salientaram que houve uma discreta redução na porcentagem de produção, o que também foi observado no presente trabalho.

 

 

O consumo de ração revelou uma relação cúbica no ciclo 1 e linear negativa no ciclo 2 (Tab. 2), semelhante ao verificado por Bandeira et al. (1996) e Nunes et al. (1997) para suínos, e também regressão cúbica para conversão alimentar em termos de dúzias de ovos produzidas no ciclo 1. Odiba & Sanford (1985) não observaram diferença estatística significativa no consumo de ração para aves que consumiram milheto, sendo reduzida a produção de ovos e os valores de conversão alimentar inferiores aos determinados para o sorgo.

Pela Tab. 3, os valores de peso médio de ovos foram afetados em todos os períodos, mostrando redução linear no ciclo 1 e efeito cúbico com a inclusão de milheto nas rações nos ciclos 2 e 3. Já para massa de ovos produzidos por ave, ocorreu redução linear nos ciclos 1 e 2. A conversão alimentar, em termos de massa de ovos produzida por ave, não foi afetada segundo os diferentes tratamentos e períodos estudados.

 

 

A redução do peso do ovo foi constatada por Luis et al. (1982b), mas Odiba & Sanford (1985) observaram o contrário. O primeiro estudo sugeriu que o uso de milheto pode produzir ovos com menor gravidade específica quando comparado com rações à base de sorgo. Collins et al. (1997) não encontraram diferença no peso de ovos de aves que receberam rações à base de milheto ou de milho.

A massa de ovos produzida por ave (Tab. 3) foi afetada pelos tratamentos nos períodos 1 e 2 (P<0,05), após alimentação com as rações experimentais por mais de um mês, porém a conversão alimentar, em termos de massa de ovos, apresentou valores semelhantes. Mas o que se observa é uma redução razoável no terceiro período que, mesmo não sendo estatisticamente diferente, pode significar uma importante relação do valor nutricional do milheto, ou até fatores de qualidade de armazenamento desse grão que não foram identificados neste trabalho. A redução nos índices de conversão alimentar foi observada para suínos em crescimento e terminação que receberam níveis crescentes de milheto nas rações (Bandeira et al., 1996; Nunes et al., 1997), porém sem significância estatística.

Na Tab. 4 são apresentados as porcentagens de gema e de clara, e o índice de pigmentação de gema determinado pelo leque colorimétrico Rocheâ, para os diferentes tratamentos e períodos estudados. Verificou-se que o aumento dos níveis de milheto na ração reduziu de forma linear as porcentagens de albúmen no ciclo 1, sem efeito significativo para os períodos seguintes. Para porcentagem de gema não se observou nenhuma significância, enquanto que para porcentagem de casca, os ciclos 2 e 3 foram afetados significativamente, mostrando regressão cúbica.

 

 

Constatou-se redução no índice de pigmentação da gema (Tab. 4) à medida que os níveis de milheto foram aumentando nas rações. Essa menor pigmentação prejudica a qualidade comercial do produto. Esse resultado é semelhante ao de diversos autores que citam que o milheto, o sorgo, o trigo e outros cereais são pobres em carotenóides, o que implica a necessidade da inclusão de pigmentantes sintéticos nas rações (Belyavin & Marangos, 1988; Williams, 1989; Collins et al., 1997).

Os resultados permitem concluir que o milheto pode substituir o milho, mantendo resultados semelhantes de desempenho de poedeiras. Em virtude da dificuldade de manter a coloração adequada da gema à medida que aumentam os níveis de inclusão de milheto, recomenda-se a suplementação com pigmentos na ração.

 

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