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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.3 Belo Horizonte June 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-09351999000300002 

Isolamento e teste de susceptibilidade a antimicrobianos de bactérias em infecções uterinas de éguas

(Isolation and antimicrobial susceptibility of bacteria in uterine infections in mares)

 

N. Silva, C.E. Braga, G.M. Costa, F.C.F. Lobato

Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970- Belo Horizonte, MG

 

Recebido para publicação, após modificação, em 10 de novembro de 1998.
E-mail: nivsilva@dedalus.lcc.ufmg.br

 

 

RESUMO

Foram examinados 206 "swabs" cervicais e uterinos de éguas de várias raças, de diversas regiões do Estado de Minas Gerais, durante o período de 1986 a 1996. Cerca de 164 "swabs" foram positivos para a presença de microrganismos causadores de endometrites. Streptococcus equi subsp. zooepidemicus (25,7%) e Escherichia coli (15,1%) foram os principais agentes infecciosos isolados. Outros microrganismos presentes foram: Staphylococcus aureus (9,2%), Streptococcus a-hemolítico (9,2%), Pseudomonas aeruginosa (3,9%), Staphylococcus coagulase negativo (6,3%), Bacillus spp. (1,9%), Rhodococcus equi (3,4%) e Proteus mirabilis (1,5%). As provas de susceptibilidade aos antimicrobianos revelaram que amicacina e gentamicina (70,2%), ampicilina (59,5%) e cloranfenicol (59,5%) foram os antibióticos de maior ação in vitro contra os microrganismos isolados.

Palavras-Chave: Égua, endometrite, etiologia, antibiótico

 

ABSTRACT

This study examined 206 cervical and uterine swabs collected from infected mares from herds in the Minas Gerais State, Brazil, from 1986 to 1996. Amongst 164 successful isolations, 25.7% were identified as Streptococcus equi, subsp. zooepidemicus, and 15.1% as Escherichia coli, both considered the most important isolates. Other bacteria found included Staphylococcus aureus (9.2%), Streptococcus a-hemolytic (9.2%), Pseudomonas aeruginosa (3.9%), coagulase negative Staphylococcus (6.3%), Bacillus spp. (1.9%), Rhodococcus equi (3.4%) and Proteus mirabilis (1.5%). The antibiotic susceptibility tests revealed amikacin and gentamicin (70.2%), ampicillin and chloramphenicol (59.5%) as the most effective in vitro antibiotics against these microorganisms.

Keywords: Mare, endometritis, antibiotic

 

 

INTRODUÇAO

Alterações uterinas em conseqüência de infecções bacterianas trazem importantes complicações à reprodução eqüina, resultando principalmente em falhas na concepção. Tais falhas são resultado direto da ação dos microrganismos que penetram no útero pela cérvix, após cobrição ou parição, resultando em endometrites ou metrites, diminuindo, de forma considerável, as chances de uma gestação a termo (Ricketts, 1981; Gastal et al., 1989). Também são freqüentes as mortes embrionárias (Kenney, 1978; Asbury et al., 1982, 1984). Por outro lado, falhas dos mecanismos de defesa imunológica do útero resultam em processos infecciosos por agentes oportunistas (invasores) (Ricketts, 1981).

O tratamento terapêutico das endometrites inclui o uso de imunoestimulantes, os quais aumentariam a imunidade local favorecendo a recuperação dos animais, e a aplicação de antimicrobianos por via sistêmica ou por infusões uterinas (Zingher, 1996). Nesse caso, a seleção dos antimicrobianos a serem utilizados para esses tratamentos deve ser baseada tanto na determinação da prevalência das bactérias causadoras como no conhecimento da susceptibilidade desses microrganismos diante dos antimicrobianos (McCue et al., 1991). Estudos realizados por diversos autores revelaram diferentes prevalências e diferentes resultados de susceptibilidade dos microrganismos isolados em "swabs" cervicais e uterinos de éguas (McCue et al., 1991; Moreno et al., 1995).

O objetivo deste trabalho foi determinar a etiologia das endometrites em éguas e estabelecer a susceptibilidade dos agentes causadores desses processos infecciosos perante diversos antimicrobianos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram examinados 206 "swabs" cervicais e uterinos de éguas de diferentes raças, de diversas regiões do Estado de Minas Gerais, durante o período de 1986 a 1996. Todos os animais apresentavam histórico de infertilidade, alguns com períodos de até cinco anos sem concepção, e outros visíveis sinais clínicos de infecção uterina, detectados após exames ginecológicos.

"Swabs" cervicais ou uterinos foram colhidos após higienização externa da vulva e do períneo, segundo a técnica descrita por Griffin et al. (1974). Imediatamente após a colheita, os "swabs" foram transportados, sob refrigeração, em tubos de ensaio com caldo BHI (Brain Heart Infusion Broth) (Difco, USA) ao Laboratório de Bacterioses da Escola de Veterinária da UFMG, onde foram incubados em aerobiose à temperatura de 37ºC por um período de 24-48 horas. Após esse período, procedeu-se semeadura em placas de ágar sangue desfibrinado de carneiro 10% e incubação em estufa a 37ºC por 24 horas. A identificação dos microrganismos foi realizada segundo as recomendações de Quinn et al. (1994), e os testes de susceptibilidade aos antimicrobianos (Lab. Cecon, SP), pelo método de difusão em disco (Bauer et al., 1966). Os critérios de interpretação dos halos de inibição foram aqueles estabelecidos pelo fabricante dos discos de antibiograma.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tab. 1 estão distribuídos os resultados dos exames bacteriológicos realizados em 206 "swabs" cervicais e uterinos, obtidos a partir de éguas suspeitas de endometrites. Foram isoladas cerca de 164 microrganismos (79,6%), com o Streptococcus equi subsp. zooepidemicus e a Escherichia coli representando 40,8% de todos os agentes microbianos identificados como responsáveis por casos de endometrites. Em sete casos (3,4%) as endometrites estavam associadas a mais de um tipo de bactéria (infeções mistas). Esses agentes microbianos foram isolados por outros autores, a partir de infeções uterinas de éguas (Ricketts, 1981; Hariharan et al., 1994; Moreno et al., 1995).

 

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S. equi subsp. zooepidemicus (25,7%) foi o principal causador das endometrites, seguido pela E. coli (15,1%), Staphylococcus aureus (9,2%), Streptococcus a-hemolítico (9,2%), Staphylococcus coagulase negativo (6,3%) e Pseudomonas aeruginosa (3,9%). Segundo Shin et al. (1979) e McCue et al. (1991), esses microrganismos, juntamente com a Klebsiella pneumoniae (não encontrada neste trabalho), são os microrganismos mais freqüentemente isolados em casos de endometrites de éguas.

Segundo Watson & Stokes (1990), a presença do S. equi subsp. zooepidemicus está associada aos casos persistentes de endometrites, fato também comprovado neste trabalho, pelos exames clínicos realizados em campo e pela baixa fertilidade apresentada pelos animais, segundo o histórico reprodutivo dos rebanhos. Em relação às infeções uterinas produzidas por bactérias do gênero Staphylococcus spp., os resultados dos exames bacteriológicos revelaram que 15,5% dessas infeções estavam relacionados a esse gênero bacteriano, freqüência semelhante à encontrada por Moreno et al. (1995). A origem dessas endometrites estafilocócicas não pôde ser estabelecida, entretanto, Anzai et al. (1996) sugerem que processos infecciosos cutâneos de garanhões servem como fontes de infeção para o útero, sendo os Staphylococcus spp. transmitidos durante o coito.

A presença de Pseudomonas spp. é discutida por Houdeshell & Hennessey (1972). Esses autores consideram esta bactéria como um microrganismo oportunista, relacionado aos casos de endometrites em éguas que receberam repetidos tratamentos com antibióticos. Situação semelhante foi encontrada neste trabalho, pois essa bactéria foi isolada em animais que, devido aos problemas reprodutivos, foram tratados repetidas vezes com antibióticos. Neste caso, também as Pseudomonas spp. (3,88%) foram consideradas como invasoras oportunistas, porém com um grande potencial para produzir infeções uterinas.

Bacillus spp. (1,9%) e Proteus mirabilis (1,5%) não estão entre os microrganismos freqüentemente relacionados à etiologia das endometrites em éguas. Sua presença justifica-se mais como contaminantes (McCue et al., 1991) ou invasores oportunistas (Collins, 1964; Ricketts, 1981). Com maior freqüência participam de infeções mistas, como comprovado nos achados bacteriológicos.

Em relação aos outros microrganismos isolados, o Rhodococcus equi foi responsável por 3,4% dos casos de endometrites. As infeções por R. equi são pouco freqüentes em eqüinos adultos, sendo esporadicamente relacionadas aos processos de infertilidade (Prescott, 1991), justificando-se, assim, a baixa freqüência de isolamentos.

Resultados negativos de bacteriologia foram encontrados em 42 "swabs" (20,4%). Apesar de o isolamento de microrganismos por meio de "swabs" cervicais ser um importante auxiliar para o diagnóstico das endometrites, algumas falhas podem ocorrer no isolamento de bactérias (Ricketts, 1981; Proceedings..., 1993; Zingher, 1996). Isto, entretanto, não elimina a possibilidade de a égua apresentar um quadro de endometrite. Segundo aqueles autores, a endometrite pode ser do tipo estéril ou estar sendo produzida por um pequeno número de bactérias e, dessa maneira, não ser possível o isolamento microbiano. Outra possibilidade seria a não preservação das bactérias nos "swabs", tanto por ressecamento, quanto pelo uso de meios inadequados para o seu transporte. Neste trabalho usou-se como meio de transporte e enriquecimento o caldo BHI, meio que possibilita o crescimento de grande número de bactérias aeróbias, inclusive fungos e leveduras. Desse modo, os resultados negativos dos cultivos bacterianos podem ser atribuídos às endometrites de caráter não infecioso ou ao reduzido número de microrganismos cervicais ou uterinos.

Nos testes de susceptibilidade diante dos antimicrobianos (Tab. 2), observou-se que a maioria dos microrganismos foi sensível in vitro à ação da amicacina e gentamicina (70,2%), seguidos pelo cloranfenicol (59,5%). Esses resultados são comparáveis aos obtidos por Houdeshell & Hennessey (1972), Shin et al. (1979), McCue et al. (1991) e Moreno et al. (1995) e sugerem que os tratamentos das infeções uterinas devem-se basear, tanto na determinação dos agentes etiológicos causadores dos processos infeciosos, quanto nos resultados dos testes de susceptibilidade aos antimicrobianos. Segundo Caudle et al. (1983), o uso freqüente de antibióticos, utilizando-se de uma seleção empírica, pode resultar no desenvolvimento de resistência por parte dos microrganismos.

 

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Particularmente, todas as 76 amostras de Streptococcus spp. foram sensíveis à penicilina e à ampicilina, resultados já esperados, uma vez que antibióticos beta-lactâmicos, como penicilina e cefalosporinas, têm alta atividade contra as bactérias do gênero Streptococcus (McCue et al., 1991). A susceptibilidade das bactérias Gram negativas, E. coli e Pseudomonas spp., diante de quase todos os antibióticos testados, pode ser considerada muito baixa. Somente amicacina e gentamicina foram capazes de inibir in vitro a multiplicação desses microrganismos, resultados previsíveis, uma vez que os antibióticos do grupo dos aminoglicosídeos são indicados primariamente para combater as infecções por microrganismos Gram negativos. A associação desses antibióticos com outros antimicrobianos de ação sinergica é recomendada para o tratamento das infeções uterinas (Jawetz, 1975).

 

CONCLUSÕES

Os resultados dos testes de susceptibilidade aos antimicrobianos realizados in vitro indicam que nenhuma droga foi capaz de agir uniformemente contra todos os agentes microbianos isolados das infeções uterinas de éguas. Esse fato ressalta a importância dos diagnósticos etiológicos e dos testes de susceptibilidade para prognosticar a eficiência dos tratamentos dos casos de endometrites de éguas.

 

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