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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.3 Belo Horizonte June 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-09351999000300012 

COMUNICAÇÃO

(Communication)

 

Características biológicas da fase não parasitária do Ixodes amarali (Acari: Ixodidae) em gambá (Didelphis sp.) no Estado do Rio de Janeiro

(Biological characteristics of the non-parasitic phase of Ixodes amarali (Acari: Ixodidae) from opossum (Didelphis sp.) in the State of Rio de Janeiro, Brazil)

 

J.L.H. Faccini1, M.C.A. Prata1, E. Daemon1, D.M. Barros Battesti2

1Departamento de Parasitologia Animal, IB, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
23890-000 - Seropédica, RJ
2
Laboratório de Artrópodes, Instituto Butantan - São Paulo, SP

 

Recebido para publicação em 3 de dezembro de 1998.
E-mail: faccini@ufrrj.br

 

 

Espécie integrante da fauna ixodológica brasileira, Ixodes amarali foi descrita por Fonseca (1935) a partir do exame de um lote de quatro fêmeas coletadas de um rato silvestre de espécie não determinada, proveniente do Estado de Minas Gerais. Mais tarde, Aragão & Fonseca (1952) reexaminaram o material e confirmaram a validade da espécie. Fonseca (1957/58) registrou o parasitismo de 30 exemplares de I. amarali em roedores dos gêneros Oryzomys, Bolomys (=Zygodontomys), Holochilus, Akodon e Rhipidomys, provenientes dos estados de Alagoas, Ceará e Pernambuco e 24 em marsupiais da espécie Monodelphis domestica (cuíca), provenientes dos estados de Pernambuco e Paraíba. Enquanto as formas jovens foram encontradas quase que exclusivamente em roedores, as formas adultas, das quais somente fêmeas foram descritas, realizaram ingurgitamento em marsupiais, sendo registrado o parasitismo de apenas uma fêmea em roedor, o Oryzomys subflavus. A partir de tal constatação, o autor levantou a hipótese de que os adultos identificados em 1935 teriam utilizado como hospedeiro o marsupial M. domestica e não o rato silvestre, normalmente parasitado pelas formas jovens. Fonseca & Trindade (1957/58), em estudos sobre a fauna acarológica de roedores em Ouro Preto, Minas Gerais, confirmaram a preferência das formas jovens de I. amarali por ratos, ao encontrarem larvas e ninfas parasitando roedores dos gêneros Rattus e Oryzomys. Linardi et al. (1984), também em Minas Gerais, verificaram o parasitismo por quatro fêmeas e cinco ninfas de I. amarali em roedores Oryzomys subflavus e Zigodontomys lasiurus, este último assinalado pela primeira vez como hospedeiro deste ixodídeo.

O primeiro registro de I. amarali no Estado do Rio de Janeiro foi feito por Guitton et al. (1986) a partir do encontro de três exemplares dessa espécie em Proechimys dimidiatus, porém sem referências ao estádio do ciclo de vida do ixodídeo. No Distrito Federal, foi assinalado o parasitismo de dois espécimes de I. amarali em Rattus norvegicus capturados em áreas urbanas e rurais, também sem informações quanto ao estádio dos exemplares (Yoshizawa et al., 1996). Barros Battesti & Knysak (1999) expõem para a comunidade científica informações sobre hospedeiros e ocorrência de algumas espécies do gênero Ixodes no Brasil, depositadas na coleção acarológica do Instituto Butantan. Com referência a I. amarali, além dos hospedeiros citados em publicações anteriores, há o registro de parasitismo de ninfas em roedor do gênero Oligoryzomys, nos estados de Pernambuco e Minas Gerais, nos anos de 1952 e 1954, respectivamente, e de oito fêmeas em Didelphis albiventris (gambá) no Estado do Ceará, no ano de 1953. Apesar da riqueza de informações relativas a caracteres morfológicos e espécies hospedeiras, não há, nos registros existentes na literatura, dados sobre características da biologia de I. amarali. No presente trabalho objetivou-se relatar o parasitismo por I. amarali em gambá no Estado do Rio de Janeiro e determinar algumas características biológicas da fase não parasitária desse ixodídeo.

Em área próxima à UFRRJ, no município de Seropédica, Estado do Rio de Janeiro, foi coletada uma fêmea ingurgitada de carrapato da espécie I. amarali de um gambá (Didelphis sp.). A identificação da espécie foi realizada com base nas características morfológicas descritas por Fonseca (1935) e Aragão & Fonseca (1961). O exemplar analisado diferiu das características descritas por Fonseca (1935) apenas no tocante a dimensões e à coloração, que no presente estudo era azul acinzentada, em contraste com a cor "amarela queimada", outrora relatada. É possível que tais diferenças se devam ao grau de ingurgitamento dos carrapatos, pois, enquanto as fêmeas descritas por Fonseca (1935) encontravam-se em "início de repleção", o exemplar do presente estudo estava quase que completamente ingurgitado.

A fêmea foi transportada para laboratório, onde foi limpa, pesada e acondicionada em placa de Petri, mantida em estufa incubadora para BOD, sob temperatura de 27±1°C, umidade relativa superior a 80% e escotofase, condições normalmente utilizadas em estudos biológicos de ixodídeos tropicais. A cada três dias a partir do início da postura, foram separados e pesados grupos de 50 ovos, com o objetivo de se determinar o peso médio de um ovo e, conseqüentemente, o número de ovos presentes em um grama de postura (OPG). Em seguida, esses grupos foram reincorporados às massas de ovos, que foram pesadas e transferidas para seringas plásticas previamente preparadas, mantidas sob as mesmas condições da fêmea e observadas diariamente para acompanhamento do processo de eclosão larval.

Por volta de 20 dias após a obtenção das larvas, foram realizadas infestações em um coelho (Oryctolagus cuniculis), um gambá (Didelphis sp.), um camundongo (Mus musculus), um rato (Rattus rattus) e um frango (Gallus domesticus), com o objetivo de se estudar a fase parasitária do ixodídeo. Para a infestação do coelho foi utilizada a técnica do saco de orelha descrita por Neitz et al. (1971). Nas demais infestações as larvas foram depositadas sobre a linha do dorso, sendo os animais mantidos em recipientes cujas bordas foram lubrificadas com vaselina para evitar a fuga delas.

As características biológicas referentes à fase não parasitária de I. amarali são apresentadas na Tab. 1. A falta de registros na literatura abordando a biologia desse ixodídeo dificulta a análise dos resultados obtidos. Entretanto, algumas considerações podem ser realizadas a partir da comparação com características da biologia de outras espécies de carrapatos.

 

 

O período de pré-postura (10 dias) está dentro do intervalo obtido, sob condições semelhantes, para I. scapularis (= I. dammini) (7 a 14 dias) e I. muris (6 a 13 dias), entretanto, o período de incubação (40 dias) foi longo, quando comparado com os registrados para outras espécies do gênero (30,2 dias para I. scapularis e 26,6 dias para I. muris) (Krinsky, 1979). O baixo percentual de eclosão (34%) e os também reduzidos índices de eficiência reprodutiva e nutricional, 16,8 e 42,3%, respectivamente, calculados segundo Bennett (1974), podem ser explicados pela manutenção da fêmea em condições que podem não ser ideais para a espécie ou ainda pelo fato de o ingurgitamento ter se realizado em hospedeiro não usual. Contudo, o que mais chama a atenção quando da análise das características biológicas é o elevado peso médio de um ovo (70µg), quando comparado aos 61µm registrados para A. cajennense (Prata & Daemon, 1997), espécie de dimensões maiores que I. amarali. Entretanto, a presença de "ovos pesados" talvez possa ser uma característica inerente ao gênero, pois também foi obtido valor elevado para o peso médio de um ovo de I. loricatus (80µg), conforme Labruna et al. (1997). O ritmo de oviposição (Fig. 1) foi semelhante ao obtido para outras espécies de carrapatos da família Ixodidae, com aproximadamente 70% dos ovos tendo sido postos nos primeiros nove dias, em um total de 17 dias de postura.

 

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Não foi possível o acompanhamento da fase parasitária, pois não se obteve sucesso nas infestações, talvez pela reduzida quantidade de larvas disponíveis (aproximadamente 565 larvas, distribuídas entre as cinco infestações) ou pela não aceitação dos hospedeiros utilizados. Pode-se supor, ainda, que as condições de manutenção de ovos e larvas, normalmente utilizadas em estudos de ixodídeos tropicais, não sejam adequadas para a espécie, reduzindo o percentual de eclosão e o poder infestante das larvas. Somente com a aquisição de maior número de exemplares poder-se-á acompanhar a fase não parasitária sob condições diversificadas e, dessa forma, obter material infestante em quantidade suficiente para acompanhamento da fase parasitária. As larvas mortas recolhidas após as infestações foram acondicionadas em solução de álcool etílico 70%, para futuras comparações com o material depositado na coleção do Instituto Butantan, o que poderá fornecer novos detalhes sobre as fases imaturas dessa espécie.

Com relação à fase não parasitária, os autores estão cientes de que valores obtidos a partir de um único exemplar podem não ser representativos para uma espécie de parasita. Contudo, o encontro de I. amarali pela segunda vez no Estado do Rio de Janeiro, indicando a dispersão do parasita, e a determinação de parâmetros biológicos da fase não parasitária podem ser úteis em futuros estudos sobre a espécie. A notificação de parasitismo por fêmea de I. amarali em gambá confirma a preferência do estádio adulto desta espécie de carrapato por marsupiais, conforme observado por Fonseca (1957/58) e constatado por Barros-Battesti & Knysak (1999). Devido ao fato de ser o gambá um animal de hábitos peridomiciliares no meio rural, a intensificação de estudos sobre seus endo e ectoparasitas e possíveis patógenos transmistidos se faz necessária para a profilaxia e o tratamento de zoonoses que podem ser adquiridas pelo consumo de carne, por higienização deficiente ou ainda pelo ectoparasitismo acidental em humanos que coabitam com esses animais.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Prof. Luiz Antônio Pereira, do Departamento de Ciências Ambientais, Instituto de Florestas da UFRRJ, pela prestimosa colaboração na atualização da nomenclatura científica dos roedores.

 

 

ABSTRACT

Ixodes amarali was reported for the second time in the State of Rio de Janeiro, southeastern Brazil, from an engorged female obtained from a naturally infested opossum (Didelphis sp.). Biological characteristics of de non-parasitic phase were studied, under controlled conditions (temperature of 27±1°C, relative humidity higher than 80% and scotophase).

Keywords: Opossum, Ixodes amarali, non-parasitic phase

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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