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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.4 Belo Horizonte Aug. 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-09351999000400009 

Características celulares e bioquímicas do líquido peritoneal de eqüinos submetidos à peritonite experimental

(Cellular and biochemical characteristics of peritoneal fluid of equines submitted to experimental peritonitis)

 

E.P. Faria, A.P. Marques Jr., G.E.S. Alves

Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG

 

Recebido para publicação em 3 de setembro de 1998.

 

 

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi estudar características citológicas e bioquímicas do líquido peritoneal de eqüinos utilizando-se 60 animais sem raça definida, divididos aleatoriamente em dois grupos, tratado e controle, submetidos a um modelo experimental de peritonite, utilizando-se a laparotomia mediana. O grupo-tratado recebeu tratamento transcirúrgico com antibióticos e antinflamatórios. No período pós-operatório ambos os grupos receberam o mesmo tratamento. Foram colhidas amostras de líquido peritoneal 24h antes da cirurgia e, posteriormente, até 120h, sendo realizadas avaliações macroscópicas, citológicas e bioquímicas. As características citológicas e bioquímicas mostraram alterações que refletiram o estado das superfícies mesoteliais, assim como forneceram resposta à terapia aplicada. A terapia induziu uma resposta inflamatória menos intensa, caracterizada por menores concentrações de proteína total e fibrinogênio, bem como atividade fagocítica mais acentuada. Também foram verificadas modificações quantitativas e qualitativas 12h após a indução de peritonite. O tempo de observação das modificações celulares e bioquímicas deve ser superior a 120h após a indução de peritonite para se obter informações completas sobre as características estudadas.

Palavras-Chave: Cavalo, abdominocentese, líquido peritoneal, peritonite

 

ABSTRACT

The purpose of the present work was to study cytological and biochemical characteristics of the peritoneal fluid in horses with experimentally induced peritonitis. Sixty horses of undefined breed were randomly divided into T and C groups (treatment and control) and submitted to an experimental model of peritonitis, using median laparotomy. The treated group received trans-surgical treatment with antibiotics and antinflammatory substances. During the postoperative period both groups received equal treatment. Samples of peritoneal fluid were collected 24h before surgery and afterwards, up to 120h, and macroscopical, cytological and biochemical evaluations were performed. The cytological and biochemical characteristics showed alterations that reflected the state of the mesothelial surfaces, as well as provided response to the applied medicinal therapy. Such therapy induced a less acute inflammatory response, characterized by minor concentrations of total protein and fibrinogen, and a more accentuated phagocytical activity as well. It was also verified that the time of observation of cellular and biochemical changes should be longer than 120h after the peritoneal induction, in order to get complete information on the characteristics studied.

Keywords: Horse, abdominocentesis, peritoneal fluid, peritonitis

 

 

INTRODUÇÃO

Na clínica de eqüinos os distúrbios abdominais são freqüentes, apresentando complicações na maioria dos casos, tendo a peritonite um lugar de destaque entre esses distúrbios, por ser um obstáculo a ser transposto pela clínica médica e cirúrgica (Alves, 1997). Ela se constitui em uma das mais graves complicações dos casos de cólica por fatores associados as próprias desordens entéricas ou a fatores iatrogênicos. Apesar de sua freqüência e importância, a peritonite ainda não foi suficientemente estudada (Mair et al., 1990).

Dos exames auxiliares no estabelecimento do diagnóstico e do prognóstico dos distúrbios gastrintestinais, a paracentese e o exame do líquido peritoneal têm sido apontados como de escolha para esta finalidade, por apresentar facilidade de execução, segurança e riqueza de informações (Tulleners, 1983).

Estudos do perfil citológico e bioquímico do líquido peritoneal de animais sadios estão bem documentados (Santschi et al., 1988). Existe, porém, pouca informação disponível para a interpretação da análise do líquido peritoneal nas avaliações pós-operatórias e nas doenças abdominais. A escassez desses conhecimentos traz complicação para a interpretação correta dos exames, uma vez que o perfil dos achados laboratoriais varia conforme a dinâmica da evolução clínica. Portanto, é importante descrever o perfil de dados laboratoriais no decorrer das doenças e das condições pós-cirúrgicas, uma vez que o estudo de amostras seriadas de líquido peritoneal, juntamente com o exame físico, facilita e permite ao profissional distinguir e avaliar as medidas clínicas mais adequadas.

Novas associações terapêuticas para tratamento também são necessárias, não só com o objetivo de testar sua eficácia diante das doenças, mas também objetivando alternativas mais econômicas que se enquadrem melhor na realidade da maioria dos eqüinos atendidos na clínica de hospitais veterinários que pertencem a populações de baixa renda.

A análise do líquido peritoneal tem sido descrita, nos casos de peritonite naturalmente adquirida, por variados autores (Dyson, 1983; Mair et al., 1990; Hawkins et al., 1993; Feige et al., 1997) e em casos de peritonite induzida experimentalmente por Valadão (1995) e por Mendes (1995). Porém, dados da citologia do líquido peritoneal, em condições de saúde e em peritonite, não têm sido suficientemente descritos na literatura.

Com o objetivo de estudar as características citológicas e bioquímicas do líquido peritoneal na evolução clínica da peritonite experimental em eqüinos, foi realizado um modelo cirúrgico de indução de peritonite em dois grupos de eqüinos, sendo um submetido a tratamento específico para verificação da ação terapêutica intra-abdominal do DMSO associado a heparina e a enrofloxacina, e outro como controle.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 60 eqüinos sem raça definida, com faixa etária de 6 meses a 25 anos, formando dois grupos (controle e tratado) aleatórios. Na formação dos pares de grupos levaram-se em consideração a semelhança de sexo, idade e escores corporais.

O modelo cirúrgico da indução da peritonite, bem como da anestesia, da colocação de drenos, da laparorrafia, das lavagens peritoneais e dos exames clínicos foram descritos por Alves (1997).

No grupo-tratado (T) foram colocados 2ml/kg de peso de uma solução de DMSO (Dimesol – MARCOLAB) a 20% com 200UI/kg PV de heparina e 5,0mg/kg PV de enrofloxacina (Flotril - SCHERING-PLOUGH VETERINÁRIA) na cavidade peritoneal no período transoperatório. O grupo-controle (C) não recebeu este tratamento. Após a cirurgia, ambos os grupos receberam tratamento com enrofloxacina na dosagem de 2,5mg/kg PV/IV a cada 12h durante 10 dias, e flunixin meglumine (Banamine - SCHERING-PLOUGH VETERINÁRIA) na dosagem de 1,1mg/kg PV/IV a cada 24h durante 5 dias.

Na primeira colheita de material, que ocorreu 24h antes da cirurgia, usou-se a técnica segundo White (1990), enquanto que para as outras amostras o líquido peritoneal foi colhido por meio de dreno abdominal, que foi colocado na cavidade abdominal durante a cirurgia da indução de peritonite.

Para cada eqüino as amostras de líquido peritoneal foram colhidas nos seguintes tempos: 24h antes da cirurgia, 12, 24, 48, 72, 96 e 120h após a cirurgia.

O exame do líquido peritoneal foi avaliado quanto às características: aspecto, coloração, depósito de fibrina, contagem global de células nucleadas (Contador automático – CELM), contagem diferencial de leucócitos e citologia dos leucócitos (coloração de MayGrunwald-Giemsa), proteínas totais (método do Biureto - Kit "Analisa") e fibrinogênio (método de Goodwin modificado - reação de Piotrowski; Mendes & Lopes, 1973).

Os dados pareados foram comparados em cada tempo entre os grupos C e T, e entre os tempos subjacentes dentro de cada grupo, sendo realizada a análise estatística pelo teste "t" de Student (Programa Origin, 1997), considerando o nível de significância a 5% (P<0,05). Foram contadas as freqüências de cada dado qualitativo e transformadas em percentagens, considerando o total de lâminas observadas para cada característica celular. A freqüência de cada característica foi comparada por meio do método do qui-quadrado (Programa Instat, 1996), por tempo entre os grupos C e T e entre cada tempo subjacente dentro do mesmo grupo.

 

RESULTADOS

Os dados da cor, aspecto e depósito de fibrina do líquido peritoneal obtido 24h antes da cirurgia estão resumidos na Tab. 1.

 

 

Os dados da contagem global dos leucócitos estão agrupados na Tab. 2.

 

 

A contagem global média dos leucócitos apresentou diferença significativa entre os grupos (C e T) nos tempos de 12, 48, 72 e 96h após a cirurgia. Nos grupos C e T, houve aumento acentuado da contagem dos leucócitos no tempo de 12h após a cirurgia. Obtiveram-se média mais baixa dos leucócitos do grupo-controle no tempo de 96h e a mais elevada no tempo de 120h. No grupo-tratado a menor média das contagens dos leucócitos foi observada no tempo de 48h após a cirurgia, e a maior no tempo de 120h.

Os neutrófilos foram o principal tipo celular encontrado em cada um dos tempos de observação. Doze horas após a cirurgia foi verificado expressivo aumento de seu número, que variou de 50 (24h antes) para 89% aproximadamente, em ambos os grupos nos tempos seguintes à cirurgia, apresentando diferença significativa entre o tempo de 24h antes e os demais tempos de observação de cada grupo. Em ambos os grupos os eosinófilos apresentaram diminuição significativa em sua contagem relativa após a cirurgia, persistindo até o final das observações. Os basófilos, no tempo de 24h antes da cirurgia, foram raros, aumentando significativamente nos tempos seguintes. Os mastócitos foram observados apenas 72h após no grupo-tratado e 120h após no grupo-controle. Os linfócitos de ambos os grupos, após 12h, aumentaram em número absoluto obtendo suas maiores médias no tempo de 120h. Porém, percentualmente, apresentaram diminuição. As células monofagocitárias apresentaram elevação significativa em seu número 12h após a cirurgia, permanecendo altas até o final das observações. A contagem diferencial dos leucócitos apresentou diferença significativa entre os grupos C e T para os linfócitos no tempo de 48h após, para os basófilos no tempo de 24 e 72h após, e para os eosinófilos nos tempos de 48 e 96h após. As células monofagocitárias não apresentaram diferença significativa entre os dois grupos.

A razão polimorfonucleares:mononucleares foi de 1,5:1, aproximadamente, para ambos os grupos no tempo de 24h antes da cirurgia. Nos tempos subseqüentes esta proporção foi de 1:9, aproximadamente, a qual foi mantida até o tempo de 96h, aumentando para 1:11 no tempo de 120h em ambos os grupos.

Os dados da contagem diferencial dos leucócitos estão agrupados na Tab. 3.

 

 

Os dados das alterações citológicas e da presença de bactérias estão reunidos na Tab. 4.

 

 

Para as alterações celulares como picnose nuclear, vacúolos e hipersegmentação houve diferença significativa nos valores apresentados 24h antes e 12h após a cirurgia, mantendo-se os valores elevados até 120h após a cirurgia.

Os dados da concentração de proteína total estão agrupados na Tab. 5.

 

 

Os valores da concentração de proteína apresentaram diferença significativa entre os grupos C e T em todos os tempos observados, exceto 72 e 120h após a cirurgia. Os valores mais elevados foram observados no tempo de 24h após a cirurgia, para ambos os grupos. O grupo-controle apresentou valores mais elevados de proteína em relação ao grupo-tratado em todos os tempos, exceto no tempo de 96h.

O maior valor individual da concentração de proteína observado para o grupo-controle foi de 8,7g/dl e de 7,5g/dl para o grupo-tratado.

Os dados da concentração de fibrinogênio estão agrupados na Tab. 6.

 

 

Houve diferença significativa entre os grupos C e T nos tempos de 12, 24 e 72h após a cirurgia. Nos grupos controle e tratado houve diferença significativa entre todos os tempos subjacentes observados. O maior valor individual observado para a concentração de fibrinogênio foi de 1,25g/dl para o grupo-tratado no tempo de 120h após e de 0,87g/dl para o grupo-controle, no tempo de 72h após a cirurgia.

 

DISCUSSÃO

Embora a peritonite em eqüinos seja uma síndrome freqüente e amplamente discutida, no referencial bibliográfico consultado foram encontrados raros trabalhos que descreveram as características do líquido peritoneal em seus aspectos bioquímicos e citológicos, durante as primeiras 120h em peritonite experimental induzida. Os achados ora discutidos referem-se aos períodos pré e pós-operatório da indução de peritonite.

Neste experimento, a execução da paracentese abdominal para obtenção do líquido peritoneal demonstrou eficiência e segurança, reforçando a praticidade e confiabilidade descritas por White (1990) e Tulleners (1983).

No tempo de 24h que antecedeu à cirurgia de indução da peritonite, o líquido peritoneal apresentou cor que variava de amarelo-palha a incolor, aspecto límpido a ligeiramente turvo e ausência de depósitos de fibrina, demonstrando a integridade do endotélio vascular e do peritônio, uma vez que o tipo, a quantidade de células e a concentração de proteínas presentes na amostra influenciam na constituição do líquido peritoneal, demonstrando ausência de processos inflamatórios ou de peritonite (Swanwick & Wilkinson, 1976).

A média global de leucócitos verificada 24h antes em ambos os grupos se apresentou dentro dos limites normais mencionados na literatura (McGrath, 1975), porém 20% dos eqüinos apresentaram contagens de leucócitos entre 5 000 e 10.000/ml. Bach (1973) cita como normais valores até 8000 leucócitos/ml e chama atenção para casos onde a contagem de células, no líquido peritoneal, pode se apresentar elevada devido apenas a uma reação fisiológica à desidratação. Os eqüinos que participaram desse experimento, em sua maioria, foram utilizados em serviços de tração de carroças sob condições as mais adversas. Provavelmente, adaptados a uma desidratação permanente, condição que pode levar à hemoconcentração e, possivelmente, a uma diminuição do volume de líquido peritoneal e a uma concentração de seus componentes figurados. Outro fator a ser considerado é que o elevado número de eqüinos utilizados neste experimento pode bem representar a verdadeira média de valores dos leucócitos.

A composição celular encontrada para a contagem diferencial 24h antes da cirurgia não apresentou diferença significativa entre os grupos, semelhante ao descrito na literatura para a normalidade (Bach & Ricketts, 1974; McGrath, 1975; Swanwick & Wilkinson, 1976; Nelson, 1979; Brownlow et al.,1981b) que se caracteriza por uma percentagem maior de neutrófilos e de células mononucleares, raros eosinófilos e um pequeno número de linfócitos.

Os valores de proteína total encontrados para o tempo anterior à cirurgia assemelha-se aos valores descritos na literatura (Bach & Ricketts, 1974; McGrath, 1975; Swanwick & Wilkinson, 1976; Nelson, 1979; Brownlow et al., 1981b; Grindem et al., 1990; Milne et al., 1990), que estão em torno de 1,1g/dl. Valores elevados estão associados com inflamações (Barrelet, 1993). Valores superiores a 2,5g/dl para a proteína (Susko, 1994) e iguais ou maiores que 0,1g/dl de fibrinogênio indicam lesão vascular progressiva nas vísceras abdominais (Mendes, 1995).

A dosagem do fibrinogênio apresenta limitações com relação aos valores inferiores a 0,04g/l, porém a técnica de dosagem por precipitação com sulfato de amônio demonstrou confiabilidade e eficiência, permitindo quantificação inferior a 0,1g/dl que é o limite inferior da técnica de precipitação por aquecimento.

A introdução de sangue e fezes na cavidade peritoneal com o objetivo de induzir a peritonite fez com que as amostras de líquido peritoneal se apresentassem com coloração que variou de alaranjado ao vermelho, nos tempos após a cirurgia, tornando-se mais clara gradativamente. O aspecto turvo a purulento observado se deveu ao grande número de células que migrou para a cavidade peritoneal. O grupo-controle apresentou freqüência maior de depósitos de fibrina que o grupo-tratado. Considerando-se o tratamento recebido pelo grupo-tratado, pode-se deduzir que inicialmente a fibrinólise foi mais eficiente nele e que a adição de antibiótico, antiinflamatório e DMSO favoreceram para que a intensidade do processo inflamatório fosse menor nos tempos iniciais, o que foi demonstrado pelas médias inferiores das concentrações de proteína e fibrinogênio, e pelas contagens de leucócitos. Está também de acordo com os efeitos encontrados por Chalkiadakis et al. (1983) em relação à administração da heparina em ratos, a qual resultou em efeitos benéficos, traduzidos pela diminuição de depósitos de fibrina na cavidade peritoneal.

Em todos os tempos após a cirurgia houve aumento significativo do número de leucócitos no líquido peritoneal (acima de 46.000/ml), com as maiores médias (85-100.000/ml) sendo observadas 120h após a cirurgia e o maior valor individual (205.000/ml) 24h após a cirurgia em uma amostra do grupo-controle, demonstrando a instalação súbita do processo inflamatório séptico, o que está de acordo com a observação de Ricketts (1987) de que um valor superior a 10.000 leucócitos/ml é indicativo de peritonite, e um número superior a 50.000/ml é indicativo de peritonite séptica.

O grupo-tratado apresentou médias de leucócitos significativamente inferiores ao grupo-controle nos tempos de 12 e 48h após a cirurgia, possivelmente devido às reações provocadas pelo tratamento transoperatório, neste caso constituído por antibiótico, enrofloxacina, e por antiinflamatórios, dimetilsulfóxido (DMSO) e flunixin meglumine, que inibem a migração de polimorfonucleares (Sojka et al., 1990) e a síntese da ciclooxigenase (Stick et al., 1988), respectivamente, implicando em diminuição da síntese de prostanóides, diminuindo assim a vasodilatação na circulação mesentérica. Também, deve-se considerar o efeito antiinflamatório da heparina (Pejler, 1988) administrada a esse grupo.

Após 48h, o grupo-tratado apresentou médias de leucócitos significativamente maiores, tempo provável para que a soma dos efeitos das drogas administradas durante a cirurgia cessasse (Blythe et al., 1986; Short, 1995; Kaartinen et al., 1997), permanecendo o efeito devido ao tratamento comum a ambos os grupos.

A elevação acentuada da leucometria, devido principalmente aos PMN (Semrad, 1993), verificada 12h após a cirurgia, ocorreu pelo fato de os neutrófilos serem o principal tipo de células que se faz presente nos processos inflamatórios, atuando rápida e efetivamente na defesa celular primária contra microorganismos (Brownlow, 1983), por meio de seus movimentos amebóides rápidos, de sua intensa atividade fagocitária e do conteúdo enzimático presente nas suas granulações lisossômicas, o qual contém, entre outras, proteínas catiônicas que possuem efeito quimiotático sobre os monócitos e inibem o deslocamento dos neutrófilos e eosinófilos (Parodi, 1997). O acúmulo dos neutrófilos pode ser observado 4h após um estímulo, persistindo de acordo com o tipo e a intensidade deste estímulo (Ryan & Majno, 1977). No caso da peritonite induzida, os neutrófilos se constituíram no principal tipo de célula presente no líquido peritoneal do início ao fim das observações do processo, mantendo uma percentagem acima de 85% nos dois grupos, confirmando a percentagem encontrada por Feige et al. (1997). Esta percentagem pode variar muito segundo Brownlow (1983). O predomínio dos neutrófilos também foi observado por Mendes (1995), Bach & Ricketts (1974), Dyson (1983) e por Moll & Schumacher (1992).

Embora dentro dos limites normais considerados para a espécie eqüina, a significativa diminuição observada na contagem percentual dos eosinófilos no líquido peritoneal de ambos os grupos, após a cirurgia, pode ser explicada pela correlação com a eosinopenia que caracteristicamente acompanha processos infecciosos agudos e reações inflamatórias (Dyson, 1983), parcialmente devida à liberação de catecolaminas e corticosteróides em tais circunstâncias (Jain, 1993). Pode ser, também, em parte, uma conseqüência dos fatores liberados pela própria infecção e inflamação, podendo-se atribuir também às ações inibitórias das proteínas catiônicas sobre o deslocamento dos eosinófilos (Parodi, 1997), fixando-os ao foco inflamatório e, conseqüentemente, implicando em diminuição do seu número nos fluidos orgânicos e na corrente sangüínea.

Nos tempos seguintes à cirurgia, observou-se uma elevação significativa dos basófilos em ambos os grupos, aumento que justifica o papel patofisiológico dos basófilos e mastócitos na indução da inflamação, da coagulação e da fibrinólise, por meio das propriedades biológicas dos fatores presentes em seus grânulos (Jain, 1986) e também nas fases mais tardias das reações inflamatórias (Lichtenstein & Bochner, 1991).

Doze horas após a cirurgia houve aumento gradativo do número absoluto dos linfócitos (embora percentualmente tenha decaído no decurso das observações) culminando no tempo de 120h após a cirurgia. Como os linfócitos são células fundamentais na produção de anticorpos humorais e na imunidade celular (Jain, 1986) é de se esperar que seu número aumente tanto na fase aguda quanto nas fases mais adiantadas da instalação dos processos inflamatórios, caracterizando a chamada fase linfocítica ou "de cura".

O aumento verificado nas células monofagocitárias nos demais tempos pode ser devido à resposta aos fatores quimiotáticos liberados nas áreas de inflamação, onde essas células participam efetivamente na fagocitose e na atividade microbicida, exercendo um papel crucial na maioria das respostas imunes e um papel secretor de fatores moduladores, de enzimas, de produtos do metabolismo do ácido araquidônico, de substâncias citotóxicas, de componentes de complementos, e de fatores fibrinolíticos, entre outros (Jain, 1993). Mendes (1995) também verificou, em eqüinos, aumento significativo de células monofagocitárias 12h após indução de peritonite com E. coli.

Trabalhos sobre avaliações citológicas do fluido peritoneal de eqüinos com crises abdominais são escassos, assim como mudanças seriadas na citologia do fluido peritoneal não têm sido relatadas (Adams et al., 1980). Os resultados obtidos neste trabalho não têm parâmetros de comparação na literatura consultada quanto a todas as alterações citológicas.

Os neutrófilos são células que ao migrarem para os tecidos obtêm uma vida média de dois a três dias, e não retornam novamente à circulação, podendo envelhecer normalmente ou adquirir modificações morfológicas devido às condições inflamatórias agudas e às infeções bacterianas severas, que serão tanto maiores quanto maior for o grau de degeneração da parede intestinal (Macoris, 1995). Das modificações que ocorreram nos neutrófilos, a hipersegmentação é uma alteração citológica observada com freqüência, devido ao processo natural de envelhecimento, tanto nos fluidos normais como nos alterados, sendo a sua percentagem a referência para a distinção de um processo patológico. Neste trabalho, a hipersegmentação foi um achado comum e com percentagem elevada devido ao processo infeccioso que induziu a aceleração do envelhecimento celular (Parry & Brownlow, 1992). As menores percentagens de freqüência da hipersegmentação verificadas às 72 e 96h coincidem com a diminuição dos neutrófilos verificadas nesse mesmo tempo.

A variação da freqüência de picnose nuclear se comportou como a da hipersegmentação, com exceção da diferença significativa verificada entre 24h antes e 12h após em ambos os grupos. A variação ocorreu em função da elevação do número e da ativação dos neutrófilos, evidenciando sua atuação na defesa orgânica.

A cariorrexe mais acentuada no grupo-controle do que no grupo-tratado demonstrou o acometimento maior dos PMN na defesa contra os microorganismos. Cariólise foi observada nos dois grupos na mesma proporção e com as freqüências maiores entre 48 e 72h, demonstrando degeneração celular dos neutrófilos devido à instalação do processo séptico.

Material fagocitado é comumente observado nos macrófagos peritoneais, incluindo fragmentos celulares e de outras origens. Bach & Ricketts (1974) relatam que a fagocitose dos macrófagos não possui significado nas doenças abdominais. Porém, neste trabalho houve diferença significativa no índice de fagocitose entre 24h antes e 12h depois da cirurgia em ambos os grupos. Os vacúolos presentes no citoplasma dos neutrófilos e das células monofagocitárias e as partículas fagocitadas evidenciaram a atuação celular durante todo o tempo após a cirurgia nos dois grupos, indistintamente. Foram observados em ambos os grupos, tanto na hipersegmentação, como nos vacúolos e em picnose, índice acima de 20% nos tempos após a cirurgia de indução da peritonite experimental.

A maior freqüência das figuras de mitose no grupo-tratado pode indicar uma regeneração celular mais pronunciada neste grupo, uma vez que os macrófagos são originários também das células mesoteliais peritoneais (Bach, 1973).

Bactérias podem ser encontradas no fluido peritoneal ou nos leucócitos. A presença de bactérias no líquido peritoneal pode ser causa de um prognóstico reservado, enquanto que bactérias intracelulares demonstram uma resposta eficiente à peritonite (Colahan, 1985). Neste trabalho, o tratamento com antibiótico no grupo-tratado demonstrou eficácia por meio da não observação de bactérias extracelulares até 48h após a cirurgia e pelo aumento da freqüência das percentagens de bactérias intracelulares após 12h.

Assim como ocorreu com a proteína, o fibrinogênio apresentou diferença significativa entre os dois grupos a partir de 12h até o término das observações, com valores superiores para o grupo-controle, demonstrando uma inflamação menos intensa no grupo-tratado. Variações significativas de fibrinogênio também foram encontradas por Mendes (1995) em eqüinos com peritonite experimental.

 

CONCLUSÕES

Nas condições em que este experimento foi realizado pode-se concluir que: 1- o exame do líquido peritoneal é útil para o acompanhamento da resposta do animal à terapia, evidenciando alterações que ocorrem na cavidade abdominal; 2- as alterações quali e quantitativas podem ser observadas em até 12h após a instalação da peritonite, o que mostra a sua importância; 3- as alterações citológicas dos PMN e CMF que ocorrem na peritonite indicam necessidade de se correlacionar e quantificar essas alterações em função de outras características laboratoriais e clínicas para o acompanhamento de desordens abdominais; 4- para o estudo completo de alterações citológicas e bioquímicas no líquido peritoneal após indução de peritonite, é necessário tempo maior que 120 horas para que as características retornem à normalidade.

 

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