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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 no.5 Belo Horizonte Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09351999000500018 

Utilização de um contêiner modelo Celle modificado para resfriamento e transporte de sêmen eqüino

(Use of a Celle modified container for equine semen cooling and transportation)

 

G.R. Valle1, J.M. Silva Filho2*, M.S. Palhares1, M.A. Melo1, L.G.P. Magnago1

1Aluno de pós-graduação da Escola de Veterinária da UFMG
2Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG

 

Recebido para publicação em 24 de fevereiro de 1999.
Fonte financiadora: FAPEMIG
Apoio: Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes – PMMG
*Autor para correspondência
E-mail: monteiro@vet.ufmg.br

 

 

RESUMO

Desenvolveu-se o contêiner modelo Celle modificado para o resfriamento e transporte de sêmen eqüino. O contêiner possibilitou a inseminação de 100 éguas de diversas categorias reprodutivas, em 148 ciclos estrais. Foram utilizadas doses inseminantes de 400 milhões de espermatozóides móveis em 15ml de sêmen diluído em diluidor de leite em pó desnatado/glicose, transportado por um período médio de 215 minutos e temperatura final de 14ºC. As taxas de concepção ao primeiro ciclo e concepção/ciclo foram de 56 e 52%, respectivamente. O contêiner propiciou, durante seu uso em campo, taxa de resfriamento de –0,03ºC/min entre 19ºC e 9ºC, faixa do choque térmico. No entanto, avaliada em condições de laboratório, a taxa de resfriamento foi mais acelerada. O contêiner utilizado permite o resfriamento simultâneo de oito doses inseminantes individualizadas e com mínima aeração.

Palavras-chave: Eqüino, sêmen resfriado, fertilidade, contêiner modificado

 

ABSTRACT

A modified Celle container was developed for equine semen cooling and transportation. It was possible to inseminate 100 mares with 148 estral cycles. Each inseminating dose contained 400 million motile spermatozoa in 15ml extended semen in dry skim milk-glucose extender, transported for 215 min at 14ºC. The conception rates, at first cycle, and conception/cycle were 56 and 52%, respectively. During a field trial, the container propitiated a cooling rate of –0,03ºC/min between 19ºC and 9ºC, the cold shock zone. However, in a laboratory assessment the cooling rate was more accelerated. The container allowed cooling, simultaneously, of eight individual insemination doses with minimal aeration.

Keywords: Equine, cooled semen, fertility, modified container

 

 

INTRODUÇÃO

A utilização econômica do sêmen eqüino já era vislumbrada há cerca de um século. No entanto, segundo Amann & Schanbacher (1983), o grande avanço obtido pela IA em gado leiteiro com sêmen congelado, possibilitando que um único reprodutor fosse utilizado em até 100.000 vacas anualmente, não ocorreu com o sêmen eqüino. Nessa espécie, diversos fatores limitaram o desenvolvimento da técnica de criopreservação do sêmen de forma tão eficiente como nos bovinos, a começar pelo fator econômico. Enquanto podem ser obtidas até 1000 doses de sêmen bovino de um único ejaculado, apenas 5 a 50 éguas podem ser inseminadas com um ejaculado eqüino congelado (Amann & Schanbacher, 1983). Outra desvantagem do sêmen eqüino é a sua baixa resistência à congelação, aliada à toxicidade do glicerol à célula espermática. Um caminho essencial para o sucesso da técnica, baseado na experiência com bovinos, é a seleção genética de animais com congelação de sêmen satisfatória (Amann & Pickett, 1987).

Sendo assim, procura-se ainda hoje desenvolver e aprimorar técnicas de transporte de sêmen resfriado. No entanto, mesmo a técnica de preservação do sêmen eqüino, líquido ou resfriado, ainda apresenta entraves, como as restrições ao seu uso impostas por algumas associações de raças.

Segundo Silva Filho (1994), podem ser identificadas as metodologias japonesa, holandesa, americana, francesa, alemã e brasileira, sendo que essa última procura formas mais baratas e igualmente eficientes de transporte de sêmen para as condições brasileiras.

Já sob o ponto de vista estritamente biológico, sabe-se que quando o espermatozóide é resfriado ou congelado, o seu processo normal de capacitação é alterado. Portanto, o sucesso da preservação espermática pelo resfriamento depende de fatores como ambiente espermático adequado (diluidor), taxa de resfriamento relativamente lenta e temperatura de manutenção que reduza o metabolismo espermático e minimize os danos à membrana plasmática de forma a evitar a ocorrência prematura do fenômeno de capacitação (Loomis, 1992).

Sob o aspecto de equipamentos, existem sistemas passivos e ativos de resfriamento de sêmen. Os sistemas passivos possuem a vantagem de serem mais baratos, embora apresentem a desvantagem de proporcionarem taxas de resfriamento dependentes de fatores como temperatura ambiente, temperatura inicial da amostra, temperatura do produto refrigerante e massa da amostra, produzindo taxas de resfriamento exponenciais e negativas. Já os sistemas ativos são caros, mas permitem taxas de resfriamento pré-determinadas pelo técnico, possibilitando combinar mais de uma taxa durante o processo. Proporcionam, ainda, taxas de resfriamento lineares (Kayser et al., 1992). Diante disso, sistemas ativos de resfriamento, apesar de muito eficientes, são de pouca utilidade prática em condições de campo.

Assim, o presente experimento pretendeu desenvolver uma metodologia de resfriamento e transporte de sêmen eqüino que fosse simples, de baixo custo, capaz de possibilitar a utilização do sêmen de um garanhão em éguas localizadas em outra propriedade, sem perda da eficiência reprodutiva.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado na Zona Metalúrgica do Estado de Minas Gerais, nos municípios de Belo Horizonte e Florestal, distando 60km entre si. O período experimental compreendeu duas estações de monta consecutivas, 1994/95 e 1995/96.

Foram utilizadas éguas mestiças de três a 19 anos de idade, pertencentes a diferentes categorias reprodutivas (éguas solteiras, éguas paridas e potras), sendo todas as éguas solteiras e potras submetidas a exame ginecológico minucioso antes de cada estação, restando 100 éguas trabalhadas nas duas estações de monta e um total de 148 ciclos estrais.

Os controles de crescimento folicular nas éguas foram realizados por palpação retal em dias alternados até que se detectasse um folículo de 2,0 a 2,5cm de diâmetro em um dos ovários, sendo, a partir daí, realizados diariamente. Ao se detectar um folículo de 3,0 a 3,5cm de diâmetro, iniciavam-se as inseminações artificiais em dias alternados, que eram interrompidas quando detectada a ovulação. O diagnóstico de gestação foi realizado por palpação retal a partir de 17 dias após a ovulação.

Foi utilizado, nas estações 94/95 e 95/96, um mesmo garanhão da raça Brasileira de Hipismo (7-8 anos de idade) como doador de sêmen, que apresentava bom índice de fertilidade aferida anteriormente (Silva Filho et al., 1993). Em Belo Horizonte, o sêmen era colhido por meio de uma vagina artificial modelo Hannover, às segundas, quartas e sextas-feiras. Após avaliação de motilidade e vigor em microscópio óptico e concentração por contagem em câmara de Newbauer, o sêmen era diluído, a 37ºC, em diluidor de leite em pó desnatado-glicose (24,0g de leite em pó desnatado; 49,0g de glicose anidra; 1.000.000UI de penicilina G potássica; 1,0g de sulfato de estreptomicina; água destilada, deionizada autoclavada qsp 1.000ml). As doses inseminantes eram constituídas por 400 milhões de espermatozóides móveis em 15ml de sêmen diluído e transportadas para Florestal, onde se encontravam as éguas.

O contêiner modelo Celle (Hueck, 1990) foi modificado pela utilização de um botijão isotérmico de 11 litros em PVC (Botijão Térmico Ref. 6711; Sobral Invicta S.A), com medidas externas de 32,0cm de altura, 28,0cm de diâmetro e 2,5cm de espessura de parede, que continha espuma de poliuretano em seu interior como isolante térmico. A tampa e o fundo do botijão eram constituídos do mesmo material das paredes. No interior do botijão, cinco blocos de isopor de 22,5cm de diâmetro e 5,0cm de espessura foram empilhados. Dois dos blocos foram colocados no fundo do botijão, e outros dois seguintes foram colados, formando um bloco duplo, submetido a nove perfurações, sendo a maior de 8,0cm de diâmetro, realizada no centro dos blocos. As outras oito perfurações, de 2,0cm de diâmetro cada uma, foram realizadas a 0,5cm da maior, eqüidistantes e concêntricas entre si, e dois orifícios de 0,5cm comunicavam a cavidade central com cada uma das perfurações periféricas. Esse bloco duplo era colocado sobre os dois primeiros, constituindo a unidade refrigeradora de sêmen. Um copo contendo 200ml de gelo reciclável (Cryogel; 3M do Brasil Ltda) a –7ºC era colocado na cavidade central, e tubos de vidros de centrífuga com capacidade de 15ml, utilizados para acondicionar o sêmen, eram colocados nas perfurações periféricas. O quinto bloco de isopor era colocado sobre os anteriores, e o contêiner fechado com sua tampa própria (Fig. 1).

 

 

Preparadas as doses necessárias para o dia, cada uma era separadamente envasada em um tubo de centrífuga, devidamente selado com filme de PVC (MAGIPACK; Minasa-TVP Alimentos e Proteínas S.A) e, em seguida, colocada no contêiner. Os oito tubos, com as doses inseminantes a 37ºC, e o copo com a solução refrigerante a –7oC, eram colocados no contêiner, que era fechado imediatamente, anotando-se o horário. Em cada tubo de centrífuga eram colocados mais de 15ml de sêmen diluído, a fim de se obter uma dose a mais por transporte, a de segurança, que supriria eventuais perdas durante a manipulação.

A seguir, o contêiner era transportado a uma distância de 60km (até Florestal) por via rodoviária, onde permanecia em repouso o tempo necessário para os trabalhos pré-inseminação (controle reprodutivo). Imediatamente antes das inseminações, abria-se o contêiner e media-se a temperatura do sêmen, perfurando-se o filme de PVC de um dos tubos, com o próprio termômetro, mergulhando-o a uma profundidade de aproximadamente 2,0cm da superfície do líqüido, anotando-se a temperatura e horário.

Os dados referentes à temperatura do ar durante o período de transporte foram obtidos no quinto Distrito de Meteorologia do Ministério da Agricultura e Abastecimento (MA). As medições meteorológicas do MA eram sempre realizadas em horários fixos. Assim, utilizou-se, como horário correspondente ao início do resfriamento (Temp. BH), a medida das 9 horas, em virtude de serem as colheitas de sêmen realizadas pela manhã, em torno das 8 horas, e a correspondente ao término do resfriamento (Temp. Flo), a do horário de 9 ou 15 horas, sendo escolhida aquela mais próxima do horário real, já que as inseminações se iniciavam, na maioria das vezes, em torno das 12 horas. Dessa forma, a temperatura do ar atmosférico ao início do resfriamento/transporte foi obtida por meio dos dados referentes ao município de Belo Horizonte (Temp. BH), e a do final do resfriamento/transporte, dos dados referentes ao município de Florestal (Temp. Flo). O resfriamento/transporte foi realizado por 95 vezes.

Realizaram-se inseminações às segundas, quartas e sextas-feiras (Silva Filho et al., 1993), iniciando-se quando detectado um folículo de 3,0-3,5cm de diâmetro em um dos ovários, e encerrando-se quando detectada a ovulação. Inseminações pós-ovulação ocorriam quando a ovulação era detectada em um dos dias de realização das inseminações, ou seja, no máximo 24 horas pós-ovulação, tendo a égua sido inseminada pelo menos uma vez previamente.

Após a abertura do contêiner, as doses inseminantes eram homogeneizadas e transferidas para seringas plásticas, em seguida utilizadas, sem prévio reaquecimento, nas inseminações realizadas depositando-se a dose inseminante no corpo do útero.

Taxas médias de resfriamento do contêiner obtidas de quatro observações foram estimadas em condições de laboratório. Utilizou-se o mesmo contêiner e um termômetro digital (GULterm 700 - 4S; Gulton do Brasil Ltda). com acuidade decimal e com dois sensores, um para o ambiente e outro para o sêmen. Utilizou-se sêmen do mesmo garanhão, diluído no diluidor de leite em pó desnatado-glicose, sendo utilizada a média das diluições obtidas durante o experimento de campo (4,0ml de sêmen e 11ml de diluidor). Prepararam-se oito doses (capacidade total do contêiner), devidamente acondicionadas no contêiner, para cada curva, exatamente como no experimento de campo. No entanto, para as medidas de temperatura do sêmen durante o resfriamento, realizou-se uma perfuração na tampa do contêiner e no primeiro bloco de isopor, de forma a permitir que o sensor penetrasse no interior de um dos tubos com sêmen, por cerca de 5cm. A perfuração da tampa do contêiner foi devidamente vedada com silicone, a fim de impedir contato do ambiente externo com o interno. O sensor de ambiente manteve-se suspenso no ar sobre o contêiner, preso por fita adesiva à sua alça, que permaneceu levantada, um pequeno pedaço de isopor impedia o contato entre o sensor e a alça.

A partir do momento zero (fechamento do contêiner), fizeram-se leituras a cada cinco minutos durante cinco horas, e a cada 30 minutos até as 12 horas. A última curva foi estendida, após 12 horas, com leituras a intervalos mais longos, até 60 horas.

Fez-se análise de regressão a fim de se detectarem possíveis associações entre variáveis envolvidas no resfriamento/transporte do sêmen (temperatura ambiente, tempo de resfriamento e volume a ser resfriado) utilizando-se o programa SAEG (UFV).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Realizados 95 transportes, obteve-se uma temperatura média do sêmen de 14ºC após período médio de resfriamento de 215min. A taxa de concepção ao primeiro ciclo foi de 56% e a taxa de concepção/ciclo ao final de cinco ciclos, de 52% (Tab. 1), e taxa de concepção total de 77%.

 

 

Ao utilizar contêiner modelo Celle, Klug (1992) encontrou taxa de nascimento de potros de 67,1%, utilizando-se temperatura final de 5ºC, inferior à aqui utilizada, e tempo de resfriamento de 36 horas, superior ao deste experimento. A taxa de nascimento de potros foi inferior à taxa de concepção total aqui obtida. No entanto, perdas ocorridas durante a gestação afetam a taxa de nascimento de potros, tornando imprópria a comparação dos dois resultados.

Comparando-se os resultados obtidos no presente experimento com os de outros que utilizavam diferentes diluidores e/ou sistemas de diluição e resfriamento, observa-se que os resultados deste experimento foram, de maneira geral, semelhantes aos relatados por De Vries (1987), Tischner (1988), Yurdaydin et al. (1993), Silva Filho (1994) e Lima (1995), inferiores aos de Carvalho (1994) e Heiskanen et al. (1994a, b), e superiores aos de Palmer (1984) e Zidane et al. (1991).

Em relação aos trabalhos que utilizaram o mesmo diluidor mas sistemas de resfriamento diferentes, de forma geral os resultados deste estudo foram semelhantes aos apresentados por Jasko et al. (1992) e Yurdaydin et al. (1993), inferiores aos de Douglas-Hamilton et al. (1984) e superiores aos de Francl et al. (1987).

Observa-se que os resultados de fertilidade foram satisfatórios, mesmo quando comparados aos de Douglas-Hamilton et al. (1984), cuja superioridade sobre o presente trabalho pode ter ocorrido, dentre outros fatores, devido à utilização de concentração espermática por dose inseminante de 1,0-1,5 bilhões, 3,13 vezes maior que a aqui utilizada (0,4 bilhões).

Carvalho (1994) não observou diferença entre taxas de concepção ao primeiro ciclo com sêmen diluído resfriado e transportado (68,29%) e com sêmen fresco (71,05%). No presente experimento, embora não analisadas, inseminações com sêmen fresco no mesmo rebanho, com o mesmo garanhão, produziram resultados semelhantes aos das inseminações com sêmen resfriado, tendo sido inseminadas 29 éguas, em 42 ciclos, obtendo-se 58,62% de concepção ao primeiro ciclo, 50% de concepção/ciclo e concepção total de 72%.

Foram colhidos dados de 95 transportes de sêmen, sendo a temperatura inicial do sêmen constante (37ºC), tempo de resfriamento/transporte médio de 215,65± 52,72min, temperatura final do sêmen de 13,95± 1,88ºC, e taxa de resfriamento média de–0,11ºC/ min.

A seguinte equação foi obtida a partir dos dados de resfriamento/transporte do sêmen:

TSA=6,8996–0,0068273(TFA)+0,353925(TACS) R2 = 0,39, onde:
TSA = temperatura final do sêmen quando da abertura do contêiner;
TFA = tempo entre o fechamento e abertura do contêiner;
TACS = temperatura ambiente no local da colheita do sêmen.

Constatou-se que a temperatura ambiente no local das inseminações e o volume de sêmen transportado não influenciaram a temperatura final do sêmen. O baixo R2 da TSA sugere que outros fatores não controlados podem ter contribuído para a temperatura final do sêmen, como insolação direta sobre o contêiner e umidade relativa do ar, haja vista que um outro fator de redução do R2, o alto coeficiente de variação, foi relativamente baixo, 13,45%.

Douglas-Hamilton et al. (1984) verificaram que a temperatura final do sêmen resfriado no Equitainer dependia da temperatura inicial do sêmen e da massa a ser resfriada, ou seja, do volume de sêmen diluído a ser resfriado, não fazendo menção quanto à temperatura ambiente. No presente estudo, verificou-se que a temperatura ambiente no local de colheita do sêmen influenciou significativamente a temperatura final do sêmen. Possivelmente, isso se deveu ao fato de que, no início do processo de resfriamento, quando a queda de temperatura do sêmen é mais rápida, o ambiente interno do contêiner estava sob forte influência da temperatura ambiente, uma vez que toda a sua estrutura e o ar interno estavam na mesma temperatura ambiente. Assim, o material refrigerante precisa resfriar, além das doses de sêmen, também os componentes e o ambiente interno do contêiner. A temperatura ambiente na fase final do período de resfriamento não influenciou a temperatura final do sêmen, possivelmente porque, naquele momento, o sêmen, por estar isolado do ambiente externo, sofreu pouca influência da temperatura ambiente externa.

Douglas-Hamilton et al. (1984) também não fizeram menção ao efeito do tempo de resfriamento/transporte sobre a temperatura final do sêmen. No presente trabalho, esta correlação foi negativa.

Temperaturas médias do sêmen e do ambiente e taxas de resfriamento de quatro observações no experimento em laboratório são apresentadas na Tab. 2.

 

 

As taxas de resfriamento médias obtidas em laboratório foram de –0,25± 0,02ºC/min entre 37ºC e 19ºC, e de –0,03± 0,01ºC/ min entre 19ºC e 9ºC. A taxa de resfriamento média foi de –0,07± 0,02ºC/min entre 37ºC e 9ºC e a taxa de resfriamento média obtida no experimento em campo, foi de –0,11ºC/min entre 37ºC e 13,95ºC.

A preocupação com a taxa de resfriamento do sêmen eqüino já havia sido manifestada nos anos 40, quando Skatkin (1943) observou que a queda gradual da temperatura melhorou o índice de sobrevivência espermática, sendo reconhecida sua importância por outros autores (Berliner, 1942; Chang, 1943).

Kayser et al. (1992) verificaram que a taxa de resfriamento entre 37ºC e 20ºC não era importante, mas que taxas inferiores a –0,1ºC/min eram importantes entre 20ºC e 5ºC. Isso foi confirmado por Moran et al. (1992) que delimitaram a faixa do choque térmico para o sêmen eqüino diluído entre 19ºC e 8ºC, devendo-se utilizar taxas tão lentas quanto –0,05ºC/min nesse intervalo. A taxa de resfriamento obtida no intervalo de choque térmico foi mais lenta (–0,03ºC/min) que a recomendada pelos autores acima, devendo-se observar que trabalharam com sistemas ativos de resfriamento, enquanto o aqui utilizado foi um sistema passivo.

Varner et al. (1988) observaram que para resfriamento entre 37ºC e 4ºC, a taxa de–0,33ºC/min era adequada quanto às características espermáticas. Douglas-Hamilton et al. (1984) obtiveram, com o Equitainer, taxa de resfriamento média de –0,33ºC/min entre 37ºC e 5ºC, e Hueck (1990) obteve entre 26ºC e 6ºC (Equitainer) –0,33ºC/min, entre 26ºC e 7,5ºC (Celle) –0,31ºC /min, e entre 26ºC e –0,3ºC (Sarstedt) –0,44ºC/min. Todas as taxas acima são mais rápidas que a taxa aqui obtida entre 37ºC e 9ºC (–0,07ºC/min).

Com taxa de refriamento de –0,33ºC/min entre 37ºC e 5ºC, Douglas-Hamilton et al. (1984) obtiveram taxas de concepção ao primeiro ciclo e concepção total de 65% e 91%, respectivamente, melhores que as aqui obtidas. Entretanto, esses autores utilizaram concentração espermática por dose inseminante 3,13 vezes maior que a utilizada no presente experimento. Jasko et al. (1992), utilizando taxa de resfriamento de –0,7ºC/ min entre 24ºC e 19ºC, –0,05ºC/min entre 19ºC e 8ºC, e –0,7ºC/min até 5ºC, obtiveram taxas de concepção/ciclo semelhante (56%) ou maior (74%), em dois experimentos.

Os resultados obtidos no experimento de campo comparados com os obtidos no experimento em laboratório foram discrepantes. A temperatura média de campo foi de 13,95ºC aos 215,65min, enquanto que em laboratório essa temperatura foi atingida aos 120min, e aos 215min, a temperatura em laboratório estava em torno de 9,9ºC.

Ao se aplicar a equação de regressão linear obtida em campo aos dados obtidos em laboratório, na faixa correspondente à temperatura média final do sêmen obtida em campo (Tab. 2), tem-se o valor de 13,18ºC aos 215min de resfriamento e temperatura ambiente ao fechamento do contêiner de 21,9ºC, que se encaixa perfeitamente à temperatura obtida no experimento de campo, de 13,95± 1,88ºC. No entanto, o valor correspondente no experimento em laboratório, nesse momento, foi menor (9,9ºC). Possivelmente, isso ocorreu devido ao fato de as condições de laboratório serem mais controladas, por exemplo, quanto ao nível de insolação zero do contêiner no experimento em laboratório e não controlado em campo. Essa consideração fica ainda mais evidente ao se compararem as taxas de resfriamento até 13,95ºC nas duas avaliações, sendo –0,11ºC/min em campo e –0,19ºC/min em laboratório, com velocidade 72,7% maior no segundo caso.

Observa-se que a temperatura do sêmen (Tab. 2) estabilizou-se em 9,0ºC (oscilação máxima de 1,0ºC) a partir dos 215min de resfriamento, mantendo-se até, pelo menos, 720min (12 horas). Quando se deixou o contêiner fechado até que a temperatura do sêmen atingisse 20ºC, quando do prolongamento da última das quatro observações, verificou-se que a temperatura manteve-se estável por até 33 horas, atingindo 20ºC às 60 horas (Tab. 3).

 

 

Hueck (1990) obteve temperatura de 7,5ºC, com contêiner Celle, em 60min, voltando a elevar-se a partir de 26 horas. Porém, a temperatura inicial foi 10,7ºC menor que a aqui utilizada (26ºC vs 36,7ºC), facilitando a queda inicial da temperatura e permitindo atingir-se temperatura final mais baixa. A temperatura final foi mantida por mais tempo no contêiner Celle modificado, devido, provavelmente, ao melhor isolamento térmico do ambiente. Em Hueck (1990), o retorno à temperatura de 20ºC foi atingida em 45 horas. Já o Equitainer, no mesmo experimento, atingiu a temperatura de 6ºC em 60min, mantendo-a até o final do experimento (48 horas), e o modelo Sarstedt atingiu –0,3ºC em 60min, elevando-se em seguida, atingindo 20ºC em 22 horas.

A forma como as doses de sêmen são dispostas no interior do contêiner utilizado permite o transporte de oito doses inseminantes de 15ml.

No sistema de transporte Equitainer (Douglas-Hamilton et al., 1984) são transportadas cinco a seis porções de 20ml de sêmen, diluído para 1,0-1,5 bilhões de espermatozóides móveis/dose inseminante de 10-50ml. Considerando-se as características seminais médias do garanhão utilizado neste experimento (volume sem gel de 53,24ml e 113,89 milhões de espermatozóides móveis/ml de sêmen), seriam necessários de 8,78 a 13,17ml de sêmen in natura para cada dose inseminante. Assim, dispondo-se de 53,24ml de sêmen, conseguir-se-iam apenas de 4,04 a 6,06 doses de sêmen diluído, e volume da dose inseminante de 40 a 60ml, considerando-se uma taxa de diluição de 25 milhões de espermatozóides móveis/ml (Varner et al., 1987).

Portanto, verifica-se que, com um ejaculado do mesmo garanhão, poder-se-ia transportar quatro a seis doses inseminantes pelo sistema Equitainer, e oito doses pelo sistema aqui proposto (400 milhões de espermatozóides móveis em 15ml), restando, ainda, sêmen in natura suficiente para mais seis doses inseminantes.

A capacidade do contêiner Celle (Hueck, 1990) é de 12 doses de 10ml, total 120ml, mesma capacidade do modelo aqui modificado. Porém, o primeiro permite inseminar quatro éguas a mais para cada transporte.

Ao contrário do sistema Equitainer e MSP-I e II (Silva Filho, 1994), o sistema aqui desenvolvido, assim como os de Hueck (1990) e Sarstedt (Van der Holst, 1984), permite a individualização das doses inseminantes, o que torna a inseminação mais prática, permitindo inclusive a retirada de uma ou mais doses, e ainda mantendo as doses restantes sob refrigeração.

Milovanov et al. (1940) observaram efeitos nocivos da aeração sobre a sobrevivência espermática durante o transporte de sêmen, confirmados por Kruskova (1962) e Heiskanen et al. (1987), os quais também verificaram que a adição de CO2 às bolsas de transporte de sêmen do Equitainer melhorava a viabilidade do sêmen. Trabalhando com sêmen de suíno, Rodriguez Gil et al. (1994) verificaram que o efeito negativo da agitação durante o transporte reside apenas na aeração do sêmen, sendo a agitação, em si, benéfica.

No presente sistema, a utilização de tubos estreitos (1,8cm de diâmetro) faz com que a superfície de contato entre o sêmen e o ar seja muito pequena em relação ao volume total da dose. Além disso, o fechamento do tubo com filme de PVC não permite o contato com o ar ambiente, restando apenas quantidade ínfima de ar residual no tubo. Kruskova (1962) estudou, sob diferentes concentrações espermáticas, o efeito da coluna residual de ar entre a superfície do sêmen e a borda do tubo (volume não relatado) e verificou que para concentrações espermáticas de 45-60 milhões de espermatozóides/ml, 1,6cm foi ótimo, e para concentrações maiores, entre 0,55 e 1,1cm era melhor. No presente experimento, utilizaram-se 26,67 milhões de espermatozóides móveis/ml de sêmen diluído, sendo a coluna de ar residual do tubo em torno de 0,5cm (0,64ml), dentro do estabelecido por Kruskova (1962).

O custo do contêiner de aproximadamente US$100,00, revelou-se baixo e de fácil construção, obtendo-se resultados termodinâmicos semelhantes aos obtidos por sistemas ativos de resfriamento (Kayser et al., 1992; Moran et al., 1992; Jasko et al., 1992), o que permite a indicação de seu uso para transportes por períodos de 4-5 horas.

No entanto, com base nos resultados da taxa de resfriamento no experimento em laboratório, sua utilização por períodos mais longos (12-30 horas) pode ser possível, necessitando-se de comprovação mediante avaliação em campo.

 

CONCLUSÕES

O contêiner modelo Celle modificado mostrou-se eficiente pela sua praticidade, baixo custo, taxa de resfriamento adequada e manutenção de características espermáticas que proporcionaram bons índices de concepção. Além disso, observou-se que os resultados das taxas de resfriamento nos experimentos em campo e em laboratório foram diferentes, evidenciando a influência do ambiente sobre elas e a necessidade de cautela na utilização de equipamentos avaliados apenas em laboratório, e não testados em campo. Assim, cuidados especiais devem ser tomados durante transportes por períodos superiores a cinco horas com esse contêiner.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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