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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 n.6 Belo Horizonte Dec. 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-09351999000600004 

Gastroenterite canina - agentes virais nas fezes de cães diarréicos e não diarréicos

(Canine gastroenteritis - viral agents in feces from diarrheic and non-diarrheic dogs)

 

V.S.F. Homem1, Y.G. Mendes2, A.C. Linhares2

1Faculdade de Ciências Agrárias do Pará
Rua Coronel Melo de Oliveira, 914
05011-040 – São Paulo, SP
2Instituto Evandro Chagas, Belém, Pará

 

Recebido para publicação, após modificação, em 26 de agosto de 1999.
E-mail: vhomem@usp.br 

 

 

RESUMO

Foram analisadas 33 amostras de fezes de cães com diarréia (n=25) e sem diarréia (n=8), de variadas idades e raças, de ambos os sexos, a fim de se determinar a ocorrência de agentes virais considerados causadores da gastroenterite no cão, suas possíveis associações e a participação no complexo gastroenterite canina, buscando relacionar a etiologia viral com o histórico de vacinação, além do exame clínico dos animais. Utilizou-se microscopia eletrônica nas 33 amostras fecais e o teste ELISA em 71 amostras para detecção de antígeno de rotavírus e adenovírus. Partículas virais foram detectadas em 75,8% (25/33) do total de amostras diarréicas ou não, examinadas à microscopia eletrônica. Em 44% dos espécimes positivos para vírus (11/25), o vírus-like tipo 1 foi o mais detectado nas amostras fecais, seguido pelo parvovírus (24%). A ocorrência de diarréia com sangue esteve associada a 90,9% dos agentes detectados, variando em freqüência de 25% a 100% dos casos.

Palavras-Chaves: Cão, gastroenterite, diarréia.

 

ABSTRACT

Fecal samples from both diarrheic (n=25) and non-diarrheic (n=8) dogs of both sexes, with varying ages and breeds, were examined by electronic microscopy (EM) in order to determine candidate viral pathogens which would be associated with gastroenteritis, particularly the canine gastroenteritis complex, in an attempt to correlate viral etiology and clinical and vaccination history. In addition to EM, 71 stool samples were tested by ELISA to detect either rotavirus or adenovirus antigens. Viral particles could be visualized by EM in 25 (75.8%) of the 33 samples. Type-I virus-like structures and parvoviruses were frequently detected, accounting for 44% and 36% of the virus-positive preparations. Bloody diarrhea was noted in 90.9% of dogs that were excreting viral particles.

Keywords: Dog, gastroenteritis, diarrhea

 

 

INTRODUÇÃO

A gastroenterite viral é uma condição infecto-contagiosa sujeita a determinados fatores de risco de transmissão e de manutenção dos agentes na população animal e no ambiente. Uma vez presente algum agente viral, o curso clínico da doença e o seguimento da infecção são influenciados pela idade do animal, dose do vírus recebida, rota da infecção, composição da flora microbiana intestinal, condições debilitantes e infecções intercorrentes.

Mahl (1994) sugeriu variadas causas de gastroenterite canina e Evermann et al. (1988) acrescentaram a elas algumas viroses do complexo gastroenterite canina, causadas pelos minutovírus, calicivírus (1985), herpesvírus, astrovírus, picornavírus (Pollock & Carmichael, 1979) e enterovírus caninos. Todos eles foram detectados nas fezes diarréicas de cães.

Sabe-se que associações virais podem ocorrer com relativa freqüência em um mesmo processo gastroentérico (Evermann et al., 1988). Acredita-se que as infecções entéricas caninas persistem devido a dois aspectos, representados pelo bloqueio dos anticorpos de origem materna e pelas múltiplas etiologias associadas ao complexo gastroenterite canina. Uma vez determinadas as variadas causas que, agrupadas, formam a etiologia geral do complexo, torna-se fundamental estabelecer uma relação entre o(s) agente(s) etiológico(s) e os possíveis hospedeiros dos vírus de modo geral (Harrenstein et al., 1997; Martinello et al., 1997; Mech et al., 1997) e a manifestação clínica da doença (Mahl, 1994; Chappuis, 1982).

O parvovírus, dentre os vírus de tropismo digestivo, vem sendo o mais importante agente etiológico das afecções digestivas, responsável por altas taxas de morbidade e mortalidade no interior de coletividades; a alta freqüência está aliada com a grande resistência do vírus no meio externo (Pollock, 1985). Já a coronavirose canina, presente em canis, não conduz a altas taxas de mortalidade, embora esteja mais difundida que a parvovirose. Entretanto, a infecção dupla é favorecida pela superposição dos mecanismos patogênicos de ambos os vírus (Appel, 1988).

Como objetivos deste trabalho, buscou-se registrar a incidência de vírus que infectam o trato gastrointestinal do cão, estabelecer eventuais associações virais e correlacionar a condição geral do animal com os resultados obtidos da amostra de material fecal.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Colheram-se 70 amostras de fezes, de abril a julho de 1996, sendo 29 amostras no Serviço de Clínica Médica do Hospital Veterinário da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, em Belém, PA, e 41 amostras no Serviço de Atendimento de Moléstias Infecciosas do Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, em Botucatu, SP. A coleta de fezes de cães diarréicos e não diarréicos foi feita na proporção de 3:1.

Aplicou-se um questionário padrão para obtenção de dados sobre identificação do animal e informações clínicas. Os dados clínicos consistiram na verificação da temperatura, da condição das mucosas e dos linfonodos, do grau de hidratação e estado geral e do levantamento de sintomas e sinais clínicos da doença, por meio do exame de cada animal.

Em 33 amostras foi utilizado o método de microscopia eletrônica (ME) direto (Barth, 1984). Amostras de material fecal em grids foram examinadas em um microscópio eletrônico (Flewett et al., 1974) de transmissão (Reiss, modelo EM 900, 80 KV). Para se estabelecer um diagnóstico foram observados pelo menos cinco squares de cada grid. Das 33 amostras, 72,7% eram de animais entre 1 e 5 meses de idade, 51,5% deles com raça definida (CRD), predominando a raça Doberman (35,3%). Quanto ao sexo, 60,6% eram machos e 39,4% fêmeas, e 81,8% viviam em casas.

Foram utilizados o teste de ELISA para detecção de antígenos de rotavírus - teste de ELISA Dakopatts (Dakopattsâ código n° K 349, Copenhague, Denmark®) (Flewett et al., 1989) e o teste de ELISA Eiara® para detecção dos antígenos de rotavírus e adenovírus da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, Rio de Janeiro, Brasil) (Pereira et al., 1985).

A organização dos dados obtidos foi feita pelo programa de computador de epidemiologia e estatística EpiInfo versão 6.0, com análise dos dados obtidos na anamnese e exame clínico relacionados aos resultados laboratoriais de microscopia eletrônica e teste ELISA.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os cães com até cinco meses de idade foram os mais acometidos pela gastroenterite de etiologia viral, não sendo possível atribuir maior ou menor importância ao aspecto racial, em função do número relativamente reduzido de animais. Dos 33 cães cujas amostras fecais foram examinadas pela microscopia eletrônica, a maioria era de diarréicos não vacinados (51,5%, 17/33) em relação aos animais sem diarréia não vacinados (21,2%, 7/33) (Tab. 1).

 

 

Ocorreram 75,8% de animais positivos para vírus (Tab. 2), desses, 24% representados por partículas compatíveis com parvovírus (Fig. 1), 4% por partículas de rotavírus (Fig. 3), 4% compatíveis com paramixovírus (Fig. 2) em associação com o parvovírus, 8% por coronavirus-like (Fig. 4), 44% por partículas virus-like tipo 1 (Fig. 5), 12% compatíveis com a associação do parvovírus com o virus-like tipo 1 e 4% por partículas virus-like tipo 2 (Fig. 6). Classificaram-se como virus-like tipos 1 e 2 as partículas de aspecto morfológico bastante sugestivas de vírus, em função da homogeneidade das estruturas internas e contorno, da aproximação entre os valores de diâmetro, sua repetitividade e predomínio da ocorrência do tipo 1 nos animais diarréicos (28%).

 

 

 

 

Os agentes virais mais comuns nos dois primeiros dias de manifestação da diarréia (Tab. 3) foram o parvovírus (25%) e o virus-like tipo 1 (18,7%). Existe, aparentemente, uma excreção prolongada das partículas de virus-like, pois três dos sete animais (42,3%) que apresentaram tais partículas excretaram-nas até o sexto dia de diarréia, quando foram colhidas as amostras fecais.

 

 

Todos os cães positivos para parvovírus não tinham sido vacinados ou estavam sob esquema de vacinação incompleto ou desatualizado contra a parvovirose. O parvovírus, mesmo com vacinas disponíveis no mercado, ainda é o vírus de maior destaque no quadro da etiologia da gastroenterite viral no cão e o mais patogênico quanto à sintomatologia clínica que desencadeia nos animais. Constatou-se que a grande maioria dos cães não estava com o esquema de vacinação completo atualizado (93,9%). Ainda nos dias de hoje procura-se estudar o papel das vacinas e a proteção imunológica contra as afecções virais que afetam o trato gastroentérico do cão, tanto contra a parvovirose (Harrenstein et al., 1997; Larson & Schultz, 1997; McCaw et al., 1997; Yule et al., 1997) como contra a cinomose (Ek-Kommonen et al., 1997). É importante citar que apenas 36,4% do total de animais estavam em dia com o esquema de vermifugação, segundo os proprietários (Tab. 2), o que é insuficiente na prevenção de parasitos gastrointestinais. Pode-se considerar tal tendência como um reflexo do que ocorre na população de cães, o que chega inclusive a promover maior predisposição dos animais a serem acometidos por viroses entéricas (Evermann et al., 1988; Mahl, 1994)

Outros agentes possivelmente integrantes do quadro etiológico do complexo gastroenterite canina, como os bacterianos, fúngicos e parasitários, não foram determinados neste estudo, tendo sido especificamente tomada como ponto de pesquisa a etiologia viral da gastroenterite no cão. Portanto, os poucos dados referentes a outros agentes ou foram detectados na microscopia eletrônica ou provenientes da anamnese, tendo sido considerados complementares aos dados relacionados aos vírus.

A Tab. 4 relaciona todos os agentes virais detectados com o conjunto de sintomas clássicos atribuídos à gastroenterite viral canina, indicando quais desses sintomas predominaram para cada agente viral. Tomando-se a diarréia como o primeiro sintoma de referência, tem-se o caráter sanguinolento associando-se a 90,9% dos agentes detectados, variando em freqüência de 25% a 100% dos casos. Sintomas como hiporexia/anorexia, sensibilidade abdominal e apatia estiveram associados a 100% dos agentes, numa variação de freqüência de 45% a 100% dos casos. A ocorrência de vômitos variou de 36% a 100% dos casos, salvo para amostras com fagos. O grau de desidratação variou de 5% a 10%. Quanto à hipertermia, somente 45% dos animais positivos para virus-like tipo 1 indicaram temperatura acima de 39,5° C, dentro do grupo de animais positivos para vírus. A temperatura retal mínima observada foi de 37,8 e a máxima de 40,5°C, sendo a maioria entre 38,5 e 39,5°C.

 

 

Em relação às partículas classificadas neste estudo como virus-like, tem-se a citar sua freqüência em 11 amostras. O seu aspecto morfológico é indicativo de partícula viral e há o fato de estar presente em 28% dos animais diarréicos (n=7) e em 50% dos não diarréicos (n=4), além de apresentar-se associado com parvovírus em três casos (12%). Chama a atenção o fato de 100% das amostras positivas para virus-like tipo 1 e sua associação com parvovírus serem provenientes de animais do Estado do Pará (n=11), e nenhuma do Estado de São Paulo, embora tenham sido avaliadas somente seis amostras provenientes de São Paulo. Confirmado tratar-se de vírus, supõe-se não ser dotado de caráter enteropatogênico. Ressalte-se, ainda, que a hipertermia ocorreu sobretudo em 45% dos cães positivos para tal agente, o que não ocorreu nos casos dos demais vírus. Quando a amostra (código de número 23) foi inoculada em cultura celular LLCMK2 para se detectar algum efeito citopatogênico, houve leve alteração suspeita na primeira inoculação, mas não se observou qualquer resultado significativo na segunda passagem em cultivo celular (mesmas células). Falta determinar a família e o gênero virais e, em última análise, saber se não se trata de um vírus canino ainda não descrito, tendo como base o atual conhecimento da etiologia viral da gastroenterite, abrindo-se, então, espaço para estudos ulteriores, inclusive para determinar sua possível importância regional.

Quanto às partículas virus-like tipo 2, o aspecto morfológico, seu tamanho e contorno são bastante sugestivos de tratar-se, eventualmente, de um calicivirus-like. Uma série de estudos complementares deve ser efetuada a fim de se confirmar tal hipótese. Em caso positivo, seria muito próximo ao calicivírus relatado nos felinos, podendo-se realizar, por exemplo, uma prova de imunomicroscopia eletrônica com anti-soro específico para o calicivírus (Evermann et al., 1985).

 

AGRADECIMENTOS

Ao Manoel do Carmo Soares, Joana D’Arc Mascarenhas, José Antônio, Cereja, Antônio de Moura, Antônio Miranda e Antônia dos Santos Alves, do Instituto Evandro Chagas; à Hatune Tanaka, da Faculdade de Medicina da UNESP/Botucatu; à Kunie Coelho e Jonas, do Instituto Adolfo Lutz; ao Edson Durigon, do Instituto de Ciências Biomédicas/USP, a todos pela ajuda e apoio indispensáveis. Ao pessoal do Hospital Veterinário da FMVZ/UNESP, em Botucatu, pela colheita das amostras. Ao Gilmar, do Hospital Veterinário da FCAP; às Clínicas Veterinárias São Francisco e Clinvetam em Belém, pela atenção e suporte.

 

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