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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.1 Belo Horizonte Feb. 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-09352000000100017 

Potencial reprodutivo e econômico de touros Nelore acasalados coletivamente na proporção de um touro para 80 vacas

(Reproductive and economic potencial of Nellore bulls mating in the proportion bull: cow 1:80)

 

V.O. Fonseca1, C.S. Franco2, J.A.G. Bergmann3

1Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - EPAMIG
Av. Amazonas, 115
Belo Horizonte, MG
2Fazenda Jatobá - Brasilândia - MS
3Escola de Veterinária da UFMG

 

Recebido para publicação em 7 de julho de 1999.

 

 

RESUMO

Utilizaram-se 15 touros selecionados entre 158, por meio de exame andrológico, qualidades físicas e morfológicas do sêmen e biometria testicular (teste 1) e de comportamento sexual (teste 2) que os classificaram de bons a excelentes. Organizaram-se dois grupos experimentais, G1 e G2, o primeiro composto por cinco touros e 400 vacas, estabelecendo, assim, a proporção de um touro para 80 vacas e o segundo, considerado como testemunha, de 10 touros e 400 vacas, portanto, proporção de 1:40. Todas as matrizes eram da raça Nelore, pluríparas e solteiras. As taxas de gestação obtidas aos 30, 60 e 90 dias da estação de monta foram de 62,0 vs 67,3% (P³0,05), 84,5 vs 87,3% (P³0,05) e 93,5 vs 97,5% (P³0,05) para G1 e G2, respectivamente. Reprodutores Nelore bem selecionados por meio de exames andrológicos e comportamentais podem perfeitamente suportar a proporção de 80 vacas por touro em acasalamentos coletivos dentro da estação de monta estabelecida de 90 dias, com indiscutíveis vantagens econômicas. A análise econômica dos resultados revelou economia de 22,8% sobre o custo da cria desmamada em comparação com a proporção de 1:25 (4% de touros) tradicionalmente utilizada na pecuária de corte brasileira.

Palavras-chave: Bovino, Nelore, proporção touro:vacas, fertilidade

 

ABSTRACT

From 158 sexually mature Nellore bulls evaluated for sexual soundness using physical and morphological characteristics of semen and scrotal circumference (test 1) and sexual behavior (test 2) 15 were classified either as good or excellent and they were selected. Bulls were randomly divided into two experimental groups: group 1- with five bulls for mating 400 cows (1:80 ratio), and group 2- with ten bulls for mating 400 cows (1:40 ratio). Females were multipara, open and non-nursing Nellore. Pregnancy rates at 30, 60 and 90 days of the breeding season were 62.0 vs. 67.3% (P³ 0.05), 84.5 vs. 87.3% (P³ 0.05) and 93.5 vs. 97.5 (P³ 0.05), for groups 1 and 2, respectively. It was observed a reduction of 22.8% in management costs (cost of buying extra bulls), when using 1:80 over 1:25 bull:cow ratio.

Keywords: Cattle, Nellore, bull:cow ratio, fertility

 

 

INTRODUÇÃO

O potencial reprodutivo do touro é a soma de fatores inerentes à reprodução como idade, puberdade, qualidade do sêmen, perímetro escrotal e libido, e está devidamente suportado por condição física adequada que permita pôr em prática os processos que culminam com a monta (Fonseca et al., 1991). Esse potencial possui forte componente genético, sendo a herdabilidade de algumas características reprodutivas de média a alta como idade à puberdade e perímetro escrotal (Valvasori et al., 1985; Bergmann et al., 1996; Pereira, 1996), e em outras pouco conhecida, entre elas a da libido, embora a capacidade de serviço, que apresenta alta correlação com a libido (r= 0,72 a 0,75, Adornes et al., 1993; r = 0,62, Pineda & Lemos, 1994), seja de herdabilidade alta (0,59, Blockey, 1978). Assim, é de se supor que também a libido possua forte conotação genética conforme afirma Chenoweth (1983). Fatores de meio, principalmente os ligados ao conforto térmico e à nutrição dos touros, ao lado dos fatores genéticos, determinam a capacidade reprodutiva dos touros (Fonseca et al., 1992a).

Portanto, a seleção de touros de alto valor reprodutivo é necessária para a obtenção de melhores produtos e de custos mais baixos em função do maior número de vacas por touro (Fonseca et al., 1997). Atualmente, esta proporção está, aleatoriamente, estabelecida entre 15:1 e 25:1, o que exige elevado número de touros para o rebanho nacional, de aproximadamente 43 milhões de vacas e novilhas de corte em idade de reprodução. A conseqüência imediata, além do alto custo da cria desmamada, é a utilização de grande número de touros sem qualquer processo de seleção, oriundos, na maior parte das vezes, de lotes destinados ao abate.

Esta pesquisa teve por objetivo verificar o desempenho reprodutivo de touros da raça Nelore utilizados em monta natural pelo aumento da relação touro:vacas e avaliar os custos dessa alteração.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Esta pesquisa foi desenvolvida na Fazenda Jatobá, município de Brasilândia (MS), região típica de cerrado do Planalto Central Brasileiro, com inverno seco e relativamente frio e verão chuvoso e quente, situada a aproximadamente 22º de latitude sul e 54º de longitude oeste de Greenwich. A precipitação pluviométrica média anual está entre 1200 e 1300mm, com maior concentração entre os meses de outubro e março. A topografia varia de plana a plana com suave declive no sentido das várzeas ou veredas, no meio das quais sempre existe um curso d'água. As pastagens foram todas formadas nos últimos 20 anos a partir da destoca e limpeza do cerrado e a gramínea predominante é Brachiaria humidicola.

De um total de 158 touros da raça Nelore pertencentes à propriedade, após avaliação andrológica e comportamental, foram selecionados 15 para compor este experimento. Foram organizados dois grupos, o primeiro (G1) composto por cinco touros e 400 vacas e o segundo (G2), por 10 touros e 400 vacas. Dessa forma, obtiveram-se proporções touro: vacas de 1:80 e 1:40, respectivamente. O G2 foi considerado grupo testemunha. As vacas eram todas solteiras, pluríparas e da raça Nelore. A estação de monta teve duração de 90 dias, iniciando-se em 01/11/95 e terminando em 31/01/96. Todos os 158 touros foram submetidos a exame clínico geral, para determinar seu estado físico (escore corporal 1 = muito magro, 2 = magro, 3 = moderado, 4 = gordo e 5 = muito gordo), a exame andrológico completo com avaliação física e morfológica do sêmen e biometria testicular, segundo os critérios do CBRA (Fonseca et al., 1992b; teste 1) e a exame de comportamento sexual pela avaliação da líbido (Chenoweth, 1984; teste 2). Para a obtenção do sêmen utilizou-se o método da eletroejaculação, e a biometria testicular resumiu-se na medida do perímetro escrotal, segundo procedimentos descritos por Hahn et al. (1969) e Willet & Ohms (1975). Medidas de comprimento, largura, espessura e volume testicular foram dispensadas por apresentarem alta correlação (r = 0,94) com o perímetro escrotal (Willet & Ohms, 1975).

De acordo com os resultados alcançados no teste 1, os touros foram classificados em excelentes, muito bons, bons e questionáveis ou foram considerados inaptos temporários ou de descarte (Fonseca et al., 1997). Vinte e quatro horas após a realização do teste 1 eles foram submetidos ao teste 2, ou seja, avaliação do comportamento ou conduta sexual. Utilizaram-se vacas não gestantes e solteiras da raça Nelore cujo estro foi induzido por aplicação de 3ml de ECP [Upjhon] via intramuscular profunda ou pela associação de 3ml de ECP de 2ml de Ciosin,[Coopers] também por via intramuscular, naquelas que, pelo exame dos ovários via palpação transretal, apresentavam corpo lúteo funcional. Os testes da libido foram realizados em currais cujas dimensões não ultrapassavam 400m2. Para cada touro foram oferecidas duas ou três vacas em cio que permaneceram como atrativo sexual até apresentarem fadiga ou manifestarem sinais de final do estro. A duração de cada teste foi de 10 minutos e, de acordo com o desempenho apresentado, que variou do total desinteresse pela vaca em cio até duas ou mais cobrições dentro do período (notas zero e dez, respectivamente), os touros foram classificados em excelentes, muito bons, bons e questionáveis.

Os cinco touros selecionados para o desafio em campo com 80 vacas cada um (G1) foram selecionados entre os melhores de todo o lote (capacidade reprodutiva muito alta) e os do grupo testemunha (G2), entre os considerados de capacidade reprodutiva alta conforme os resultados dos testes 1 e 2 (Tab. 1).

 

 

Para se obter a proporção de vacas por touro utilizou-se o esquema a seguir onde se confrontaram os resultados dos testes 1 e 2: Teste l - classificação segundo Fonseca et al. (1997).; Teste 2 - classificação segundo Chenoweth (1984).

Os testes de fertilidade em campo foram realizados em duas pastagens de características semelhantes. Os cinco touros do G1 foram colocados com 400 vacas em um pasto com área de 300,17ha, inteiramente formado com Brachiaria humidicola. Os do G2 permaneceram em pasto contíguo, com área de 221,82ha, formado com a mesma gramínea. Ambos os pastos continham bebedouros do tipo australiano e cochos para suplementação mineral ad libitum. Com o objetivo de facilitar o encontro dos parceiros sexuais, foi estabelecido o manejo de "parar rodeio", que consistiu de visitas diárias na primeira semana e a cada dois dias a partir da segunda semana, na parte da manhã (até oito horas), ao local do experimento, quando todo o rebanho era reunido em torno do bebedouro. O diagnóstico de gestação foi realizado mediante palpação transretal, em datas estratégicas, de forma a detectar as vacas gestantes no primeiro, segundo e terceiro meses da estação de monta.

As taxas de gestação observadas aos 30, 60 e 90 dias nos G1 e G2 foram comparadas pelo teste do qui-quadrado.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A classificação obtida pelos 158 touros, inicialmente avaliados pelos testes 1 e 2, encontra-se na Tab. 2, e a classificação dos 15 touros selecionados encontra-se na Tab. 3.

 

 

 

 

A eficiência reprodutiva de cada grupo experimental, avaliada pelas taxas de gestação aos 30, 60 e 90 dias da estação de monta, encontra-se na Tab. 4.

 

 

A elevada percentagem de touros classificados como aptos (excelentes, muito bons e bons) pelo teste 1 (Tab.2) diverge da maioria dos autores do País (Garcia, 1971; Fonseca et al., 1997) e deve-se, provavelmente, ao fato de se fazer na propriedade seleção andrológica anual de touros, sendo este o terceiro ano consecutivo de seleção. Quanto ao teste de comportamento sexual (teste 2), verificou-se evolução entre o teste do ano anterior e o realizado nesta temporada, que revelou apenas 20,9% de questionáveis contra 50,8% relatados por Fonseca et al. (1997), no mesmo rebanho. A razão é simples: adequação dos testes de libido ao temperamento nervoso do reprodutor indiano e eliminação dos touros de baixo desempenho reprodutivo. É importante salientar a longevidade dos touros utilizados, em que se observam animais com idade entre 6 e 15 anos e com excelente desempenho sexual (Tab. 3).

As taxas de gestação obtidas pelos grupos experimental e testemunha não divergiram entre si. Esses resultados foram semelhantes aos verificados por Fonseca et al. (1997) que obtiveram 53,5% aos 30 dias e 94,2% ao final da estação de monta de 120 dias, com proporções de 40 e 60 vacas por touro, e por Silva (1994) que assinalou taxa de fertilidade de 92,8% ao final da temporada de 90 dias, trabalhando com proporção de 60 vacas por touro. Fatores físicos como tamanho e topografia das pastagens, barreiras como bosques, elevações e outras (Ribeiro, 1993) que pudessem dificultar o encontro dos touros com as vacas em cio foram minimizados neste trabalho, conforme descrição das pastagens, que embora extensas, estavam bem formadas, além de se utilizar o eficiente manejo de "parar rodeio" para facilitar o encontro dos parceiros sexuais. Esse manejo foi intensamente utilizado na primeira semana e diminuído a partir da segunda semana, pelo fato de o rebanho habituar a se reunir espontaneamente. Esses resultados mostram que o touro Nelore vem sendo subutilizado no rebanho brasileiro, uma vez que touros bem selecionados por meio de exames andrológicos e comportamentais e bem manejados com as vacas em serviço podem perfeitamente ser responsáveis pela cobrição de 80 fêmeas, em estação de monta de 90 dias. É importante frisar que, provavelmente, mesmo devido à pressão de vacas em cio, não houve quaisquer interferências negativas sobre as taxas de fertilidade que pudessem ser imputadas à hierarquia social. Embora essa hierarquia seja rigorosa na organização social dos bovinos, o grande número de fêmeas a serem cobertas no início da estação de monta e uma possível exaustão dos touros no seu final contribuíram para a não interferência dos dominantes sobre os vassalos no sentido de impedi-los de cobrir vacas em cio. A metodologia aqui desenvolvida e os resultados obtidos permitem, então, a utilização de acasalamentos coletivos (vários touros e muitas vacas na mesma pastagem) com elevada proporção de vacas por touro, o que viabiliza o método para as grandes fazendas de cria do Planalto Central Brasileiro, conforme também verificado por Fonseca et al. (1997).

Para avaliação econômica da cria desmamada, compararam-se a proporção usada de 80 vacas por touro e a tradicionalmente utilizada na região de gado de corte do Planalto Central Brasileiro de 25 vacas para touro. O custo médio de cada touro no momento da aquisição, com peso médio de 550kg e idade de 36 meses, foi orçado em R$1.000,00 [Valores de referência da época: Dolar = R$1,20; @ de boi gordo = US$23,00]. A taxa de desmama do rebanho da propriedade foi de 82%. A taxa anual de reposição foi estimada em 20% para ambos os modelos de criação, o custo de manutenção anual de um touro de R$200,00, o valor residual dos touros recomendados de R$800,00 e o valor de abate de um touro de R$500,00.

A seguinte equação, sugerida por Fonseca et al. (1997), foi aplicada:

Y = [(tt.c).rc+(tr.c-ta.va)+(tt.cm)]–cr, em que:

Y = custo do modelo aplicado
(Yt = tradicional = 1:25 e Yp = proposto = 1:80)
tt = total de touros utilizados no sistema (t ou p)
c = capital (custo de um touro)
rc = remuneração do capital (= 18% ao ano)
tr = total de touros para reposição
ta = total de touros de abate
va = valor do abate de um touro
cm = custo de manutenção anual de um touro
cr = capital residual (valor do lote de touros em uso)

A economia (Y) obtida foi de R$7.480,00, resultante da diferença de custos de Yt = R$ 10.880,00 - Yp = R$3.400,00.

Considerando o número de crias desmamadas de 328 (82% de 400 vacas do programa) e o valor médio de R$ 100,00 (R$120,00 para machos e R$ 80,00 para fêmeas) do bezerro à desmama tem-se:

R$7.480,00/328=R$22,80 por cria que corresponde a 22,8% do seu valor médio à desmama.

Este resultado é superior ao relatado por Fonseca et al. (1997) de 18,6% ao analisar os custos obtidos entre proporções de 60 e 25 vacas por touro. Esta diferença se justifica pela proporção mais elevada de vacas deste experimento o que permite concluir que quanto menor a percentagem de touros em relação ao número de vacas do rebanho, menor será o custo da cria desmamada, desde que mantida uma taxa de gestação aceitável.

 

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