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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.2 Belo Horizonte Apr. 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-09352000000200008 

Avaliação cardiocirculatória do sevofluorano como agente de manutenção anestésica em cães, em diferentes concentrações de oxigênio e óxido nitroso

[Sevoflurane cardiocirculatory study in dogs with different oxygen and nitrous oxide concentrations]

 

V.N.L.S. Oliva1, F. Massone2, F.J. Teixeira Neto2, P.R. Cury2

1Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, Araçatuba
Rua Clóvis Pestana, 793
16050-680 - Araçatuba – SP
2FMVZ – UNESP, Botucatu

 

Recebido para publicação, após modificações, em 27 de agosto de 1999.
E-mail: voliva@fmva.unesp.br

 

 

RESUMO

Com o objetivo de avaliar as alterações cardiocirculatórias resultantes da manutenção anestésica com sevofluorano, três grupos de 10 cães cada foram anestesiados por 60 minutos com fluxo diluente de 100% de oxigênio (grupo 1), de 50% de oxigênio e de óxido nitroso (grupo 2) ou 27% de oxigênio e 63% de óxido nitroso (grupo 3). A tranqüilização foi realizada com levomepromazina (0,5 mg/kg) e a indução com tiopental (12,5 mg/kg). A freqüência cardíaca apresentou elevação significativa após a indução (P<0,05), mantendo-se mais alta que a basal, em todos os grupos, durante toda a anestesia. As variações das pressões arteriais sistólica, média e diastólica foram pouco significativas e mantiveram-se em todos os grupos dentro de valores aceitáveis para a espécie e a utilização do óxido nitroso não interferiu nessa variação. O sevofluorano demonstrou ser um bom agente de manutenção anestésica em cães, e a adição de 63% de óxido nitroso ao fluxo diluente de oxigênio reduziu a necessidade anestésica de maneira significativa.

Palavras-chave: Cão, anestesia, sevofluorano, óxido nitroso

 

ABSTRACT

Thirty healthy mongrel dogs, premedicated with levomepromazine (0.5mg/kg) and induced with tiopental sodium were anesthetized for 60 minutes as follow:group 1 (G1) sevoflurane in oxygen 100%; group 2 (G2) sevoflurane in nitrous oxide and oxygen 50% each and group 3 (G3) sevoflurane in oxygen 27% and nitrous oxide 63%. Heart rate increased significantly after induction (P<0.05), maintaining higher than baseline values in all groups. Mean and systolic arterial pressures decreased (P<0.05) along the time but the mean blood pressure variation was different between groups (G1<G2<G3). Diastolic blood pressure also decreased significantly after induction (P<0.05) maintaining higher than baseline values in all groups. Sevoflurane should be a good agent for the anesthesia maintenance in dogs, with minimal cardiocirculatory effects and, at 63% nitrous oxide concentration, the anesthetical requirement decrease significantly.

Keywords: Dog, anesthesia, sevoflurane, nitrous oxide

 

 

INTRODUÇÃO

A procura de agentes anestésicos que permitam anestesia segura e de qualidade impulsionam as pesquisas sobre novas substâncias com características ideais. Nesse sentido, o sevofluorano (SEVORANE - Abbott Lab. do Brasil Ltda.), um novo anestésico inalatório halogenado, tem sido apontado como mais uma opção para a indução e/ou a manutenção da anestesia geral em medicina veterinária.

O sevofluorano é estruturalmente muito semelhante ao isofluorano e ao enfluorano. O ponto de ebulição e a pressão de vapor são muito próximos aos de outros anestésicos, o que possibilita a sua utilização em vaporizadores calibrados ou universais. Seu baixo coeficiente de solubilidade (0,6) permite controle rápido e preciso da profundidade anestésica com absorção alveolar menor do que a dos anestésicos com maior coeficiente de solubilidade sangue:gás (Smith et al., 1996). A concentração alveolar mínima (CAM) do sevofluorano no cão é de 2,36± 0,46%, o que traduz uma potência relativamente mais baixa deste em relação à dos outros halogenados usualmente utilizados (Kazama & Ikeda, 1988).

Todos os anestésicos inalatórios alteram a função cardiovascular, porém a magnitude de tal alteração depende sobretudo do agente em questão e da dose empregada (Bernardi et al., 1996). Os efeitos farmacodinâmicos do sevofluorano sobre os vários sistemas orgânicos são semelhantes aos comumente observados com outros halogenados (Smith et al., 1996), porém os efeitos cardiovasculares, apesar da similaridade, não são necessariamente indistinguíveis daqueles produzidos pelo isofluorano (Jones, 1990). Na espécie canina, Kazama & Ikeda (1985) relataram valor médio de freqüência cardíaca de 92,1± 19,4 batimentos por minuto (bpm) com a utilização de 1 CAM, 90,4± 21bpm com 2 CAM e 92± 14,5bpm com 3 CAM de sevofluorano. Esses valores foram significativamente diferentes dos obtidos com a anestesia por halotano somente na dose equipotente de 1 CAM. Wouters et al. (1989), ao estudarem os efeitos hemodinâmicos da vaporização de 2,8% (1,2 CAM) e 4,7% (2 CAM) de sevofluorano em cães com indução direta e uso de máscara, evidenciaram taquicardia significativa, porém não de maneira dose-dependente (basal = 86± 2bpm, 1,2 CAM=138± 10bpm e 2 CAM=128± 7bpm). A freqüência cardíaca de cães estudados por Bernard et al. (1990), induzida por meio de máscara com sevofluorano em 1,2 e 2 CAM, elevou-se do valor basal médio de 85± 2bpm para 135± 8 (aumento de 60± 12%) e 131± 6bpm (aumento de 54± 9%), respectivamente, e essa taquicardia foi acompanhada de vasodilatação sistêmica.

Bernard et al. (1992), quando compararam as alterações de freqüência cardíaca produzidas em cães anestesiados pelo sevofluorano ou pelo isofluorano, induzidos com o uso de máscara facial com associação de óxido nitroso, utilizando 1,2 CAM (sevofluorano = 2,8% e isofluorano = 1,6%) ou 2 CAM (sevofluorano = 4,7% e isofluorano=2,6%), constataram elevação da freqüência cardíaca significativamente maior no grupo do sevofluorano quando comparado ao grupo do isofluorano nas doses eqüipotentes, ocorrendo aumento de 58± 5,8 % e de 54± 4,5 % da freqüência cardíaca em relação aos valores basais, com 1,2 e 2 CAM, respectivamente. Estudando 10 cães da raça Greyhound, Frink et al. (1992b) obtiveram aumento da freqüência cardíaca nos animais que receberam 1, 1,5 e 2 CAM de sevofluorano, isofluorano e enfluorano quando comparados aos valores basais, o que não ocorreu nos animais do grupo anestesiado com o halotano, com variação de +27,4%, +20,2% e +14,3% nas três respectivas concentrações de sevofluorano.

Com a utilização de 2,5 CAM de sevofluorano para indução direta por máscara em cães da raça Beagle, Mutoh et al. (1995) também notaram elevação rápida e significativa da freqüência cardíaca, atingindo valores máximos em torno de 85% superiores aos basais após 2 a 3 minutos de inalação, mantendo-se, a partir daí, em valores sempre superiores, durante os 30 minutos do experimento. Mutoh et al. (1997) observaram aumento significativo da freqüência cardíaca em relação aos valores basais com 1 CAM de sevofluorano, o mesmo não ocorrendo com 1,5 e 2 CAM. Foi observada semelhança entre os efeitos produzidos pelo sevofluorano e pelo isofluorano.

Martis et al. (1981) encontraram, na espécie canina, valores médios de pressão arterial sistólica de 118mmHg e 110mmHg e da pressão arterial diastólica de 73mmHg e 76mmHg durante a vaporização de 3 e 4% do agente halogenado, respectivamente. Kazama & Ikeda (1985) relataram redução da pressão arterial média dose-dependente, com valores de 59,3± 24,3, 43,9± 20,6 e 30,2± 21,2mmHg com 1, 2 e 3 CAM de sevofluorano, respectivamente. Wouters et al. (1989) compararam os efeitos hemodinâmicos provocados por 2,8 e 4,7% de sevofluorano em indução direta com o uso de máscara em cães e observaram diminuição significativa e dose-dependente da pressão arterial média, com diminuição de aproximadamente 24% do valor basal com 2,8% e 43% com 4,7%. A diminuição dos valores de pressão arterial também foi observada por Bernard et al. (1990). Bernard et al. (1992) evidenciaram similaridade entre alterações hemodinâmicas do sevofluorano e do isofluorano em cães, nos quais, com 1,2 e 2 CAM dos dois agentes, ocorreram: hipotensão, vasodilatação e depressão da contratilidade do miocárdio, sempre de intensidade proporcional à dose utilizada. Frink et al. (1992b) evidenciaram hipotensão gradativa em cães da raça Greyhound induzidos com tiopental sódico (4 a 6mg/kg) e mantidos com vaporização de sevofluorano em concentrações crescentes. A redução nos valores da pressão arterial média passou a ser estatisticamente significativa a partir de 1,5 CAM , diferenciando-se dos valores obtidos com o uso do isofluorano nos mesmos animais a partir de 2 CAM. Mutoh et al. (1995), utilizando indução direta por meio de máscara em cães Beagles com 2,5 CAM de sevofluorano, relataram estabilidade dos valores da pressão arterial média desses animais durante todo o procedimento experimental. Mutoh et al. (1997) verificaram alterações semelhantes na pressão arterial de cães sob sevofluorano e isofluorano, com diminuição significativa nos valores em relação aos basais.

O baixo coeficiente de solubilidade do sevofluorano permite sua eliminação rápida e, conseqüentemente, deve diminuir o tempo da recuperação anestésica. Quando foram comparados o tempo decorrido entre o final da anestesia e a abertura dos olhos e as respostas a comandos em homens pré-tratados com midazolam, induzidos pelo tiopental e mantidos em anestesia por sevofluorano ou por isofluorano, encontraram-se os tempos de 7,5± 0,5 minutos e de 18,6± 2 minutos, respectivamente (Frink et al., 1992a). Johnson et al. (1998) compararam as características da indução e da recuperação com sevofluorano ou isofluorano e encontraram tempo significativamente mais curto de perda de reflexo palpebral, ausência de resposta ao pinçamento da cauda e intubação traqueal nos animais que receberam sevofluorano. Ambos os anestésicos produziram recuperação anestésica rápida e de boa qualidade, sem diferenças entre si.

O óxido nitroso ou protóxido de nitrogênio (N2O), introduzido na prática clínica no século passado e utilizado em anestesiologia há mais de 150 anos, apresenta uma longa história de uso seguro e efetivo (Eger II et al., 1990). Possui alguns atributos de um anestésico ideal como a pouca solubilidade, contudo sua potência é extremamente pequena, especialmente na espécie canina (Hall, 1988). O óxido nitroso associado a outro anestésico inalatório de maior potência diminui a necessidade deste último e, conseqüentemente, reduz os efeitos colaterais sobre os sistemas cardiovascular e respiratório (Steffey, 1996). Steffey et al. (1974) relataram redução da CAM de halotano em cães em torno de 14,9% com a adição de óxido nitroso ao fluxo diluente, 25% de redução com 50% de óxido nitroso e 35,5% com a utilização de 75% daquele gás.

Diante do exposto, a realização deste trabalho teve por objetivo observar as alterações cardiocirculatórias provocadas pela manutenção anestésica com o sevofluorano em diferentes proporções de O2 e N2O e analisar a potencialização produzida pelo N2O na redução significativa da concentração do sevofluorano para a anestesia geral em cães.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 30 cães adultos clinicamente sadios, sem raça definida, provenientes do Biotério Central da UNESP de Botucatu, submetidos a jejum de 12 horas. Os animais foram distribuídos aleatoriamente em três grupos experimentais e seus pesos variaram de 7,0 a 17,5kg, com média de 9,8kg para o grupo 1, 10,0kg para o grupo 2 e 11,9kg para o grupo 3. Os animais receberam medicação pré-anestésica (MPA) com levomepromazina (Neozine - Rhodia Farma – SãoPaulo, SP), na dosagem de 0,5mg/kg por via intravenosa. Decorridos 15 minutos, realizou-se indução anestésica com tiopental sódico (Thionembutal - Abbott do Brasil - São Paulo, SP.) em solução a 2,5%, em uma dose de 12,5mg/kg, por via intravenosa. Os animais foram, então, posicionados em decúbito dorsal, intubados e adaptados ao circuito anestésico (Aparelho de Anestesia Série 1 - K. TAKAOKA - São Paulo, SP.) com fluxo diluente de oxigênio ou oxigênio + óxido nitroso de acordo com o grupo ao qual pertencia, dando-se início à vaporização do sevofluorano. O sevofluorano (Abbottt Lab. do Brasil Ltda) foi administrado por meio de vaporizador calibrado (Vaporizador calibrado para Sevofluorano 1225 - K.Takaoka, São Paulo, SP) inicialmente em concentração de 1% (0,42 CAM para a espécie canina) e ajustado para concentrações maiores ou menores até que o animal estivesse no terceiro. plano do terceiro estágio de anestesia, caracterizado por rotação de globo ocular e ausência de reflexos, e se mantivesse nesse plano por 15 minutos. Os tratamentos foram: grupo 1 (G1)- sevofluorano em fluxo diluente de oxigênio a 100%; grupo 2 (G2)- sevofluorano em oxigênio a 50% e óxido nitroso a 50% (Mistura Padrão - White Martins); grupo 3 (G3)- sevofluorano em oxigênio a 37% e óxido nitroso (White Martins) a 63%.

O fluxo de oxigênio foi de 1,5 L/min para os animais dos grupos 1 e 3 e fluxo de 3 L/min da mistura oxigênio/óxido nitroso para os do grupo 2. No grupo 3, o óxido nitroso foi fornecido em um fluxo de 2,5 L/min o que, comprovado pela mensuração dos gases expirados por analizador de gases (OHMEDA 5330 - Agent Monitor), correspondeu à proporção oxigênio:óxido nitroso desejada (37%:63%). Utilizou-se um sistema circular com o animal em respiração espontânea. Os pacientes foram mantidos nesse protocolo por 60 minutos, durante os quais o plano anestésico foi rigorosamente observado, realizando-se os ajustes necessários no vaporizador para manter o mesmo plano anestésico durante toda a fase de manutenção. A identificação do plano anestésico foi feita por meio do pinçamento da cauda e da região interdigital, constatando-se ausência de resposta a esse estímulo (movimento do membro pinçado ou reflexo de retirada) associada à observação da posição do globo ocular (rotação) e ausência dos reflexos palpebral e corneal.

Findo o período proposto (60 minutos), foi interrompida a vaporização do anestésico, realizado o lavado pulmonar com oxigênio 100% durante cinco minutos, desconectada a sonda endotraqueal do sistema anestésico mas mantida no animal até a recuperação do reflexo laringotraqueal, quando, então, realizou-se a extubação. No decorrer do procedimento experimental, foram avaliados as seguintes características: freqüência cardíaca (FC) em batimentos por minuto (bpm), fornecida pelo monitor de pressão (Dixtal Mod. DX 2710 - Dixtal do Brasil; Monitor de pressão arterial invasiva – FUNBEC) e pelo oxímetro (Oxímetro/capnógrafo: ETCO2 / SpO2 Monitor mod. DX 7100 - Dixtal do Brasil.), pressões arteriais sistólica (PAS), média (PAM) e diastólica (PAD) não-invasivas, obtidas através de manguito colocado na região proximal do úmero nos dois primeiros tempos (antes do início da manutenção anestésica) e conectados a um monitor de pressão oscilométrico (Dixtal Mod. DX 2710 – Dixtal do Brasil). Após o início da manutenção anestésica, a mensuração da pressão arterial foi realizada por método invasivo pela colocação de um cateter nº 18G ou 20G, colocado na artéria femoral, conectado a um monitor de pressão invasiva (Monitor de pressão arterial invasiva – FUNBEC). Os tempos de avaliação ocorreram com intervalo de 15 minutos, sendo os dois primeiros, T1 e T2, os momentos que antecederam a MPA e a indução, respectivamente, e o período compreendido entre T3 e T7, o de manutenção anestésica.

Finda a manutenção anestésica, o animal, ainda intubado, era colocado em decúbito lateral observando-se o tempo necessário para o aparecimento dos sinais indicadores de recuperação anestésica, tais como: reflexos protetores, tônus postural e tentativa de deambulação, assim como a observação da qualidade da recuperação anestésica (excitação/ganidos/tremores/pedalagem). Os dados obtidos foram analisados estatisticamente pela análise de perfil (Morrison, 1967; Curi, 1980) para a interpretação dos possíveis efeitos que levaram à alteração nas médias de cada variável estudada nos diversos tempos, incluindo os testes das hipóteses de interação entre grupos e tempos, efeito de grupos, efeito de tempos, efeito de grupo em cada tempo e efeito de tempo dentro de cada grupo.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Contrariando o que ocorre no homem (Frink et al., 1992a), os valores de freqüência cardíaca durante a administração do sevofluorano foram sempre superiores aos basais, ainda que os resultados não tenham apresentado significância estatística no grupo 1 (Fig. 1).

 

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O aumento significativo dos valores de freqüência cardíaca após a indução pode ser explicado pelo emprego do tiopental que, segundo Fantoni et al.(1996), produz esse efeito no cão. Os valores médios durante a fase de manutenção no grupo 1, no qual a concentração média de sevofluorano foi 1,03 CAM, foram ligeiramente superiores aos relatados por Kazama & Ikeda (1985) com 1 CAM de sevofluorano (106± 17,44bpm e 92,1± 19,4bpm), porém naquele estudo não foram referidos os valores basais, o que dificulta a comparação dos resultados. A elevação significativa dos valores médios de freqüência cardíaca nos grupos 2 e 3 na fase de manutenção anestésica confirmam os achados de Wouters et al. (1989), Bernard et al. (1990), Mutoh et al. (1995) e Mutoh et al. (1997). Nesses estudos, contudo, houve indução direta com sevofluorano, sem utilização de outras drogas, e o sevofluorano foi vaporizado em concentrações mais altas do que as utilizadas neste trabalho. A elevação da freqüência cardíaca produzida por 1,2 CAM de sevofluorano associado ao óxido nitroso foi de 58± 5,8%, no trabalho de Bernard et al. (1992), muito superior à ocorrida neste trabalho em qualquer um dos grupos. A variação ocorrida também foi menor do que a relatada por Frink et al. (1992b) pelos quais 1 CAM de sevofluorano promoveu elevação de 27,4%, 1,5 CAM 20,2% e 2 CAM 14,3%, o que talvez possa ser explicado pelas diferentes concentrações empregadas. Por outro lado, foi muito semelhante à observada por Frink et al. (1992b), quais também utilizaram indução com tiopental, porém em dose inferior (4 a 6mg/kg).

Quando comparados os três grupos, encontrou-se variação semelhante na freqüência cardíaca dos animais de todos os grupos, com tendência para maior variação no grupo 2, e menor no grupo 1, no qual o óxido nitroso não foi empregado. Isso contraria a literatura que afirma que o óxido nitroso, quando utilizado junto aos demais halogenados, produziria maior estabilidade em todas as características fisiológicas.

Os valores médios de pressão arterial sistólica durante a vaporização com sevofluorano foram de 104mmHg no G1, 111mmHg no G2 e 104mmHg no G3. A pressão arterial diastólica foi de 68mmHg no G1, 73mmHg no G2 e 68mmHg no G3 e a pressão arterial média de 80, 84 e 77,2mmHg, respectivamente para G1, G2 e G3. Esses valores são muito próximos aos relatados por Martis et al. (1981) os quais utilizaram concentrações bem mais elevadas de sevofluorano (3 a 4%).

Nota-se que ocorreu diminuição durante todo o período em que o sevoflurano foi utilizado, semelhante ao que ocorre no homem (Jones et al., 1990 apud Jones, 1990). Porém, a afirmação desses autores de que a depressão sobre a pressão arterial diastólica é maior do que sobre a sistólica diverge dos resultados presentes, nos quais isso ocorreu somente no grupo 3, com concentração de N2O de 63%. Nos demais grupos os resultados foram exatamente inversos (Fig. 2).

 

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A concentração do sevofluorano não influenciou a redução da pressão arterial sistólica, pois em todos os grupos as variações foram iguais no decorrer do experimento. Também em relação às pressões arteriais diastólica e média pode-se dizer o mesmo, ao menos durante a fase de manutenção anestésica, o que sugere que o efeito não foi dose-dependente mesmo com concentrações de sevofluorano diferentes nos três grupos. Já em relação à pressão arterial média, os valores evidenciam a hipotensão produzida pelo sevofluorano, o que confirma os achados de Bernard et al. (1992), ao usarem 1,2 e 2 CAM de sevofluorano. Desse modo, a estabilidade dessa característica, mencionada no trabalho de Mutoh et al. (1995) em cães da raça Beagle, com a utilização de 2,5 CAM de sevofluorano não se confirmou neste estudo. A redução da pressão arterial média citada por Wounters et al. (1989) foi maior do que a deste estudo, de –10,1% no G1, –16% no G2 e –22,8% no G3, contudo, aqueles autores utilizaram concentrações maiores de sevofluorano (2,8 e 4,7%). Quanto à depressão da pressão arterial média, verifica-se similaridade de variação entre o ocorrido no G3 e o que foi relatado por Bernard et al. (1990), em estudo em cães com a utilização de 1,2 CAM de sevofluorano. Convém ainda notar que a depressão ocorrida deve ter sido agravada pelo efeito das drogas empregadas na MPA e na indução, especialmente pela levomepromazina com seu potente efeito hipotensor, como afirmou Spinosa et al. (1996).

Importante salientar, no entanto, que o método de mensuração da pressão arterial basal utilizado neste estudo até a indução anestésica foi não-invasivo, em decorrência da dificuldade em se cateterizar a artéria femoral do paciente desperto. Já na fase de manutenção anestésica utilizou-se o método invasivo e isso impediu a comparação dos valores obtidos no decorrer da vaporização do sevofluorano aos valores basais.

Ao serem comparadas as variações da pressão arterial média dos animais estudados com os resultados obtidos por Frink et al. (1992b), tendo o tiopental também sido utilizado como agente indutor, verifica-se que no trabalho citado houve redução significativa da pressão arterial somente a partir de 1,5 CAM de sevofluorano, enquanto que a diminuição significativa neste trabalho ocorreu nas três diferentes concentrações, todas menores que a utilizada por aqueles autores. Kazama & Ikeda (1985) relataram redução da PAM decorrente do uso do sevofluorano superior à encontrada neste estudo.

Apesar da afirmação de Berdnarski (1992) de que a associação de óxido nitroso aos agentes halogenados reduz a depressão da pressão arterial, os resultados obtidos não evidenciaram essa influência, uma vez que a variação de cada uma das pressões arteriais ocorreu de maneira semelhante entre os grupos, apesar das diferentes misturas utilizadas em cada um deles.

Não houve diferença significativa entre os tempos decorridos do final da anestesia até o reaparecimento do reflexo palpebral (G1=3,6min, G2=4,6min e G3=3,5min), demonstrando não haver diferenças nesta avaliação com a utilização do óxido nitroso junto ao sevofluorano. A indução com tiopental, utilizada por Frink et al. (1992a), prolongou o tempo de recuperação em homens. Deve-se ressaltar, porém, que o método de avaliação da recuperação anestésica na espécie humana difere do utilizado em animais, uma vez que naqueles o grau de percepção de estímulos e as respostas a comandos podem ser melhor avaliadas. A extubação traqueal foi conseguida, em média, aos 8, 5 e 5,5 minutos decorridos do final da vaporização em G1, G2 e G3, respectivamente, sem se observar diferença estatisticamente significativa entre tempos. A redução da CAM necessária para manter os animais em um mesmo plano anestésico nos grupos que receberam 50 ou 63% de óxido nitroso foi de 12,6% e 42,7%, respectivamente, quando comparada à necessária no grupo em que se utilizou exclusivamente o oxigênio. Verificou-se que a redução da concentração foi estatisticamente significativa somente no G3, 63% de óxido nitroso, demonstrando portanto que, quando este gás é utilizado junto ao sevofluorano com a finalidade de reduzir o consumo deste último, essa deve ser a proporção indicada. Pode-se notar ainda que com 50% de óxido nitroso a redução da concentração de sevofluorano necessária foi inferior à relatada por Steffey et al. (1974), ao estudarem a influência do óxido nitroso no consumo de halotano em cães. O valor médio de redução da concentração de sevofluorano com 63% de óxido nitroso foi superior ao relatado por aqueles autores com a utilização de 75% de óxido nitroso junto ao halotano.

Nas condições experimentais empregadas, os resultados indicam que o sevofluorano provoca discreta elevação da freqüência cardíaca e alterações biologicamente aceitáveis nos valores de pressão arterial, tanto em fluxos de oxigênio puro quanto em misturas com óxido nitroso. A adição de 50 ou 63% de óxido nitroso ao fluxo diluente não altera a intensidade das alterações fisiológicas produzidas pelo sevofluorano na espécie canina quando comparadas às que ocorrem com a utilização de oxigênio a 100%.

Com o objetivo de diminuir a necessidade de sevofluorano, a adição de 50% de óxido nitroso ao fluxo diluente não apresenta vantagens, mas com 63% de óxido nitroso, pode-se conseguir diminuição de 43% na concentração do sevofluorano. Esta última seria, portanto, a proporção entre oxigênio e óxido nitroso indicada para o uso clínico rotineiro, contudo, sugere-se um melhor estudo sobre sua utilização perante o estímulo cirúrgico.

 

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