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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.3 Belo Horizonte June 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-09352000000300012 

Influência da dieta sobre o desaparecimento in situ da matéria seca, da matéria orgânica e da fibra em detergente neutro do bagaço de cana-de-açúcar auto-hidrolisado

[Influence of the diet on in situ disappearance of dry matter, organic matter, and neutral detergent fiber of hydrolysed sugar cane bagasse]

 

I. Borges1, L.C. Gonçalves2, M.G. Morais2, L.M. Zeoula3, G.L. Franco4

1Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG
2Departamento de Produção Animal da UFMS - Campo Grande, MS
3Universidade Estadual de Maringá – Maringá, PR
4Doutorando em Zootecnia da UNESP-Jaboticabal, SP

 

Recebido para publicação, após modificações, em 24 de novembro de 1999.
Trabalho financiado pelo CNPq

 

 

RESUMO

Utilizaram-se seis carneiros sem raça definida, adultos, castrados e portadores de cânula permanente de rume do tipo "T", para estudar os efeitos de duas dietas (T1 = 64% de bagaço de cana-de-açúcar auto-hidrolisado + 36% de caroço de algodão integral e T2 = 14% de bagaço de cana-de-açúcar auto-hidrolisado + 36% de caroço de algodão integral + 50% de feno de aveia) sobre o desaparecimento in situ da matéria seca (MS), da matéria orgânica (MO) e da fibra em detergente neutro (FDN) do bagaço de cana-de-açúcar auto-hidrolisado (BAH). Os tempos de incubação dos alimentos utilizados foram de 3, 6, 9, 12, 24, 48 e 72 horas. Observou-se que a dieta que continha feno de aveia apresentou os maiores índices de desaparecimento só para a FDN. A degradação máxima dos constituintes do BAH foi atingida geralmente às 48 horas de incubação. A degradabilidade potencial para todos os nutrientes não teve influência do tipo de dieta, enquanto a degradabilidade efetiva foi superior quando se empregou feno de aveia na ração.

Palavras-chave: Ovino, cana-de-açúcar, bagaço hidrolizado, FDN, degradabilidade in situ

 

ABSTRACT

The effects of two diets based on hydrolysed sugarcane bagasse (HSB) and whole cottonseed (WCS), with or without oat hay, were analyzed for the in situ disappearance of dry matter (DM), organic matter (OM) and neutral detergent fiber (NDF) of HSB. Six mature castrated rams with a permanent T ruminal cannula were used in a complete randomized split plot design. The incubation times were 3, 6, 9, 12, 24, 48 and 72h. The diet with oat hay showed higher disappearance indexes for the NDF fraction. Furthermore, the maximum degradation of HSB constituents was reached around 48h of incubation. The diets were T1=64% hydrolyzed sugarcane + 36% whole cottonseed and T2=14% hydrolyzed sugarcane bagasse + 36% cottonseed + 50% oat hay.

Keywords: Sheep, sugar cane, in situ degradability, hydrolysed bagasse, NDF

 

 

INTRODUÇÃO

A sazonalidade climática no Brasil promove grandes oscilações na oferta de alimentos aos animais domésticos, refletindo em sua produtividade e desempenho, já que a ação direta sobre a produção de forragens torna, por vezes, a exploração de herbívoros vulnerável nessa região. As técnicas de conservação de volumosos têm-se mostrado incapazes de superar a deficiência de forrageiras no período seco, quando este torna-se prolongado, uma vez que os produtores dimensionam suas reservas sem considerar uma boa margem de sobras. Nesses casos, a utilização de alimentos considerados estratégicos pode solucionar, em parte, esse tipo de problema, minimizando as perdas ou mesmo proporcionando ganhos na produção zootécnica. Os resíduos agroindustriais têm-se prestado para essa prática de manejo, sendo cada vez mais empregados no País. Destaca-se que no Brasil a produção nacional de algodão em 1989 ultrapassou as 47 mil toneladas para o algodão arbóreo, e superou 1,8 milhão de tonelada de algodão herbáceo em caroço (Anuário..., 1992-93), estimando-se uma produção de 1,23 milhão de tonelada de caroço de algodão integral (CAI). Este tem sido usado como alimento para ruminantes há vários anos, particularmente em áreas onde se explora essa oleaginosa. Outra cultura que teve um grande impulso é a da cana-de-açúcar, principalmente após a implantação do Proálcool, colocando o Brasil como o recordista mundial, superando 250 milhões de toneladas em 1989. Minas Gerais surge como o terceiro maior produtor nacional, com aproximadamente 18 milhões de toneladas (Anuário..., 1992-93). Várias foram as tecnologias geradas em decorrência desse programa, destacando-se o bagaço de cana auto-hidrolisado (BAH). Desde então o BAH tem sido utilizado como volumoso único ou como parte da fração fibrosa da dieta de ruminantes, principalmente nas épocas de escassez de forragens ou nos confinamentos de bovinos.

O presente estudo teve por objetivo estudar os efeitos de dietas com diferentes tipos de fibra e altos teores de extrato etéreo sobre a degradabilidade in situ do bagaço de cana auto-hidrolisado.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Empregaram-se seis carneiros adultos sem raça definida, castrados, com peso vivo entre 35 e 42kg (média de 40,5kg), portadores de cânula permanente de rume do tipo T, alojados em gaiolas de metabolismo. Aos 15 dias precedentes ao ensaio, os animais receberam vermífugo e um complexo vitamínico injetável (ADE). O período de adaptação foi de 35 dias, controlando-se consumo para garantir que a relação fixada para cada alimento na dieta fosse mantida, sem ocorrerem sobras em demasia. O período de colheita foi de cinco dias. No tratamento 1 (T1) os animais receberam uma dieta à base de 64% de BAH e 36% CAI, calculada na base da MS. Para o tratamento 2 (T2), alterou-se a ração para 14% de BAH, 36% de CAI e 50% de um feno de aveia (FA) feito após o estádio de florescimento. Em ambos os casos forneceram-se água e sal mineralizado à vontade, este último formulado de acordo com as exigências nutricionais apontadas pelo Nutrient... (1975). Restringiu-se o fornecimento das dietas a 78g de MS/kg0,75, valor baseado na ingestão voluntária dessas mesmas dietas aplicadas a outros carneiros (Valério, 1992). Ministraram-se duas refeições diárias, uma às 7h30min e outra às 17h30 min. As amostras, de aproximadamente 2,0g BAH, foram incubadas em sacos de náilon por períodos de 0, 3, 6, 9, 12, 24, 48 e 72 horas, seguindo-se as recomendações de Nocek (1988). A introdução dos saquinhos no rume deu-se sempre antes da primeira refeição. Para a determinação do desaparecimento das frações nutritivas, optou-se pela adaptação feita por Sampaio (1990) sobre a equação sugerida por Mehrez & Ørskov (1977).

Utilizando-se o software SAEG 5.0 estimaram-se os valores da equação mencionada acima, para as diversas frações do BAH, a partir do método iterativo do algoritmo de Marquardt, específico para análise de regressão não-linear. Após conhecidos os parâmetros A, B e c do modelo anterior, estimou-se o tempo de colonização (TC) conforme preconizado por McDonald (1981). Para se conhecer a degradabilidade efetiva usou-se o modelo preconizado por Ørskov & McDonald (1979).

Os teores de matéria seca foram determinados em estufa a 105ºC por 24 horas, após pré-secagem a 65ºC por 72 horas, a matéria orgânica por incineração em mufla a 600ºC até peso constante e fibra em detergente neutro conforme o método de Van Soest (1967).

Os parâmetros foram analisados para cada alimento por meio de um delineamento de blocos ao acaso num esquema de parcelas subdivididas, no qual o tipo de ração constituiu-se nas parcelas, os animais nos blocos dentro das parcelas e o tempo estudado nas subparcelas. As médias foram comparadas pelo teste SNK a 5% de probabilidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A composição bromatológica e o teor de NDT das dietas experimentais constam da Tab. 1. As exigências de PB (9,6 %) e NDT (63%), para ovinos adultos em mantença, foram atendidas (Nutrient, 1975). A dieta com feno de aveia teve níveis de PB cerca de 23,4% acima da dieta sem feno de aveia e para o NDT esta superioridade foi de apenas 3,4%. FDN também mostrou valores muito próximos entre os tratamentos. Ambos os tratamentos superaram os 5% de EE considerados por Vieira et al. (1981), os 2 a 5% por Pereira et al. (1983) como normais nas dietas de ruminantes e os 5 a 7% previstos por Van Soest (1994) como limite máximo nas rações de ruminantes.

 

 

Pela Tab. 2 evidencia-se a pouca degradabilidade da matéria seca e da matéria orgânica do BAH para ambas as dietas testadas. Nota-se ainda que o tipo de dieta não influiu no desaparecimento de ambas as frações, exceto até as 3h no T2 e na 48ªh para o T1. Ambas as rações atingiram o máximo de degradação a partir de 48h de incubação, não sendo, porém, o ponto mais indicado para se estimar sua degrabadilidade. De acordo com Ørskov (1988) o ideal é considerar até 72h para forrageiras de baixa qualidade. Sampaio (1990) preconizou 96h para estudos de avaliação in situ de volumosos, por considerar que até nesse tempo de incubação é possível detectar mudanças na degradação.

 

 

As equações geradas pelo modelo Deg = A – B ´ e(-ct) foram:

Deg. MS T1 = 49,8156 – 30,0061 ´ exp (-0,01 ´ t) R2=0,417

Deg. MS T2 = 41,7133 – 35 ´ exp (-0,04284 ´ t) R2=0,717

Mesmo convergindo, estas informações são pouco confiáveis e devem ser avaliadas com cautela devido ao R2 das equações. Não há diferença entre os parâmetros A das equações 1 e 2, porém os valores de c foram superiores (P<0,05).

A despeito de o T2 apresentar a menor degradabilidade inicial, verifica-se que ela aumentou, mesmo sem um padrão muito constante, a uma taxa fracional de degradação de 4,3%h-1, conforme se determinou pela equação exponencial.

Deve-se registrar que Andrade et al. (1990) encontraram 27,0% de desaparecimento da MS após 48h de incubação quando utilizaram BAH. Silva (1990) atribuiu essas diferenças da literatura à composição da dieta, pois isso também ocorreu em seus ensaios. Os dados de Queiroz (1990) reforçam esse aspecto, com valores de somente 12,4% de degradação ao suplementar o BAH com 2% de uréia e de 29,2% ao suplementar com 20% de concentrado à base de milho e soja.

Houve a mesma tendência apresentada pelos dados da MS e MO, já que apenas o valor obtido para as 72h não corresponde ao esperado, visto que, normalmente, a MO apresenta digestibilidade superior à MS, fato inverso ao aqui ocorrido. Essa resposta também foi observada por Andrade et al. (1990) ao estudarem o BAH, cujo valor médio situou-se em 27%.

Ao avaliar o desaparecimento da MO do capim-elefante incubado no rume de ovinos alimentados com esse alimento suplementado com uréia, Martini (1993) obteve números médios de 8,5, 22,2 e 37,7% para os respectivos tempos de 6, 24 e 96h. São valores muito próximos aos aqui encontrados, principalmente para os maiores tempos de incubação. Segundo os dados de Silva (1990), a superioridade do BAH para os primeiros tempos certamente deveu-se à hidrólise imposta sobre ele, o que aumentou a quantidade de material solúvel e mesmo aos danos causados à fibra já previamente danificada pelo processo físico, no que encontra respaldo no trabalho de Andrade et al. (1990).

Rodriguez (1984), utilizando dieta com teor de extrato etéreo de 9,1%, ou seja, quase 10% acima dos valores resultantes na dieta T2 do presente ensaio, verificou que o desaparecimento da MO foi de 15,0 e 49,5% para 3 e 72h, respetivamente, superiores aos aqui encontrados. O autor registrou ainda redução na fermentação da MO do feno quando a dieta continha mais óleo, incorporado pela inclusão de farelo de arroz. Essa evidência não se mostrou significativa (P>0,05) entre T1 e T2, talvez pelo fato de serem os níveis de extrato etéreo (EE) usados, 7,8 e 8,3%, respectivamente, muito próximos. Se houve supressão da degradação da MO, ela pode ter ocorrido em ambos os tratamentos.

A degradabilidade efetiva e o tempo de colonização da MS do BAH estão na Tab. 3, empregando-se a solubilidade de 18,4% para a MS e 21,4% para a MO, para se calcular a degradabilidade efetiva.

 

 

A degradabilidade efetiva sob as várias taxas de passagem foram superiores (P<0,05) para o T2, muito embora os dados expressos na Tab. 2 não tenham demonstrado tal efeito. Isto reforça as afirmações de Van Soest (1994) sobre a importância de se considerar a taxa de passagem na avaliação nutritiva de alimentos para ruminantes.

O tempo de colonização de 9h29 min apresentado pelo T2 confirma que até 3h não se alcançou a porção solúvel do tempo zero (18,4%), talvez devido à inconstância apresentada pelo tratamento.

Os valores do desaparecimento da fibra em detergente neutro do BAH encontram-se na Tab. 4.

 

 

Em ambas as dietas a fermentação tornou-se estável às 48 horas, novamente coincidindo com o quadro apresentado para a MS.

A resposta apresentada pela porção fibrosa do BAH foi diferente daquela apresentada para MS, uma vez que se evidenciou superioridade (P<0,05) na fermentação da FDN quando se incubou sob os efeitos da dieta T2, exceto no tempo de 3h. É provável que o melhor valor nutritivo favoreceu o desaparecimento da porção fibrosa, em detrimento do conteúdo celular, pois em ambas as rações o teor de FDN aproximava-se de 2/3 dos constituintes totais da MS. Segundo Czerkawski (1986), há uma estreita relação entre bactérias proteolíticas e celulolíticas, e tal sinergismo poderia estar agindo nos tratamentos, de sorte que no T2 houve melhor aproveitamento da FDN em função desta e de outras interrelações da microflora ruminal. Church (1988) afirmou que interações entre cepas de bactérias celulolíticas e não celulolíticas podem ser responsáveis por respostas atípicas que porventura venham ocorrer, ao se trabalhar com dietas ou muito ricas em fibra ou em fontes de amido, registrando a presença de determinados microrganismos ruminais, quando o meio não lhes era propício.

Andrade et al. (1990) relataram degradações médias da ordem de 6,4% para o BAH incubado às 3, 6, 12, 24 e 48 horas, muito inferiores às médias de 17,3 e 28,1% aqui obtidas para T1 e T2, respectivamente. A diferença pode dever-se ao fato de terem os autores trabalhado com bovinos, que, segundo Ørskov (1988), influenciaria no resultado, além de estarem oferecendo dietas compostas por BAH e concentrado (38,0% de milho, 59,4% de farelo de algodão e 2,5% de uréia).

Ao avaliar o desaparecimento in situ da FDN do feno de braquiária, incubado no rume de ovinos alimentados apenas com esse feno mais uréia ou com feno mais concentrado (50:50), de modo que esta última ração apresentasse 9,1% de EE na MS, Rodriguez (1984) notou que o efeito negativo dos lípides da dieta sobre a fermentação da fibra apareceu após as 12h de permanência no rume, fato que não ocorreu no presente experimento, tendo em vista que a ração com mais óleo (T2) mostrou os maiores índices de degradabilidade.

A degradabilidade apresentada pelo BAH foi semelhante àquelas relatadas por Guimarães (1986), ao estudar a palhada de milho tratada com 0,6% de hidróxido de amônio, para os tempos de até 24 horas de incubação, porém foram inferiores quando se consideraram os demais tempos. Isto sugere que talvez o BAH tenha uma porção de FDN solúvel equivalente à palhada, mas a fração insolúvel, mas degradável, apresenta menor taxa fracional de degradação. Em ambos os estudos há concordância com os relatos de Waldo et al. (1972), sugerindo existir diferentes gradientes de fermentação para as várias porções que compõem a fibra de alguns volumosos. Porém, ao se comparar o desaparecimento do FDN com palhada de soja, exposto por Carneiro (1994), nota-se que o BAH teve melhor degradabilidade. É importante ressaltar que tal alimento não teve tratamento para melhorar o seu aproveitamento fibroso, conforme sucedeu com os trabalhos anteriores.

Outras forrageiras avaliadas têm demonstrado possuir FDN que degrada mais rapidamente nas primeiras horas, quando comparadas ao BAH aqui estudado, como é o caso da cana-de-açúcar (Figueira, 1991), do capim-gordura (Savastano, 1993) e do feno de capim-elefante (Martini, 1993). Com períodos de incubação de 72 horas, os dados de Savastano (1993) foram ligeiramente superiores (em média 53,1%), enquanto os de Figueira (1991) e de Martini (1993) mostraram-se inferiores após 72 (43,1) e 96 horas (33,8%), respectivamente.

Calculando-se a curva exponencial de degradação do FDN para o BAH, chegou-se às seguintes respostas:
Deg. FDN T1 =60,4323 - 65,3605 ´ exp (-0,0256 ´ t) R2=0,933
Deg. FDN T2 =61,8122 - 66,9773 ´ exp (-0,0492 ´ t) R2=0,995

Os valores de A não diferiram (P>0,05) entre os tratamentos, mas o valor de c mostrou-se superior (P<0,05) no T2, indicando que a dieta com melhor volumoso e valor nutritivo contribuiu para que a taxa fracional de degradação da porção fibrosa fosse maior.

Verifica-se que a degradabilidade potencial (A) teve valor médio de 61,1% para os dois tratamentos, próximo aos 55,9, 62,4 e 57,1% mencionados por Savastano (1993), quando trabalhou com feno de capim-gordura suplementado com níveis alto, médio e baixo de concentrado, pela ordem. Porém, superou as degradabilidades 56,1, 46,4 e 45,4% relatadas por Figueira (1991), que avaliou a degradabilidade in situ da cana-de-açúcar suplementada com 1, 1,5 e 2,0% de uréia, respectivamente. Foram bem superiores aos 36,1% obtidos por Martini (1993) ao estudar o feno de capim-elefante.

Mesmo não havendo diferença neste parâmetro, prevalece ainda a superioridade da dieta mais rica em óleo (Tab. 4), fato que torna esta resposta similar à do trabalho em questão, ou seja, os teores mais elevados de EE numa dieta podem, às vezes, contribuir para a melhor degradabilidade da fibra. Mesmo não sendo de senso comum, a suposição é que tal efeito dos lípides sobre a fibra dar-se-ia em função não só do tipo de ácido graxo incorporado na dieta, mas também relacionado com o tipo de fibra e forma de veiculação desses lípides, conforme já foi levantado por Mertens (1992).

Os resultados da degradabilidade efetiva, obtidos a partir da curva exponencial, são mostrados no Tab. 5.

 

 

O T2 teve a degradabilidade efetiva superior, diferentemente do relatado para a degradabilidade potencial entre os dois tratamentos.

Apesar de ter-se usado o mesmo valor para a solubilidade (11,4%), evidencia-se pelo tempo de colonização que o T1 apresentou menor quantidade de fibra prontamente degradável. Este aspecto, aliado à maior taxa fracional de degradação da FDN ocorrida em T2, pode ser usado como explicação da maior fermentação da porção fibrosa no tratamento onde se empregou BAH mais feno de aveia como volumosos, o que reforça a opinião de Waldo et al. (1972) já mencionada anteriormente.

De um modo geral poder-se-iam considerar os valores observados aqui, para ambos os tratamentos, como elevados para fermentação da fibra, pois trata-se de um resíduo agroindustrial. No entanto, devem ser ressaltadas as observações de Silva (1990), de que a auto-hidrólise modifica bastante a conformação da fibra, o que poderia explicar o fato de um alimento com 69,6% de FDA e 13,5% de lignina apresentar esses níveis de degradabilidade.

Após a observação dos dados relativos ao desaparecimento da FDN do BAH, fica a suspeita de que há certo efeito associativo entre esse alimento e o feno de aveia, pois a inclusão deste último serviu como fator de melhoria para esse parâmetro. Respostas semelhantes já foram relatadas por Rodriguez (1984), ao encontrar efeito cúbico no aproveitamento do feno de braquiária, após inclusão crescente de concentrado. A despeito de mera coincidência, tanto naquela oportunidade quanto agora, teores de EE elevados estavam sendo usados, o que parece sugerir que tal efeito associativo deva-se à interação entre as porções fibrosa e lipídica da dieta.

 

CONCLUSÕES

A degradação potencial do bagaço de cana auto-hidrolisado não foi influenciada pelo tipo de dieta, enquanto que a degradação efetiva foi maior quando a dieta apresentava melhor volumoso e melhor valor nutritivo. O desaparecimento in situ da FDN foi a única porção afetada pelo tipo de dieta. A degradação máxima dos componentes do bagaço de cana auto-hidrolisado ocorreu às 48h, e os tempos de colonização foram sempre maiores quando se ofereceu dieta de pior qualidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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