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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.5 Belo Horizonte Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352000000500006 

COMUNICAÇÃO

[Communication]

Efeito colateral da anestesia local subcutânea com vasoconstritores em bovinos

[Colateral effects of local anesthesia with vasoconstritors in bovine]

 

P.C. Soares1, N.A. Costa2

1Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco
Rua Dom Manoel de Medeiros, S/N, Dois Irmãos
52171-090 – Recife, PE
2UFRPE - Campus Garanhuns

 

Recebido para publicação, após modificação, em 11 de maio de 2000

 

 

Muitos trabalhos relatam a anestesia local como prática veterinária de grande importância. Segundo Massone (1994), 70 a 80% das intervenções cirúrgicas em bovinos podem ser resolvidas por anestesia local, devido ao grande número de modalidades aplicáveis em tal espécie, favorecidas pelas condições anatômicas assim como pelas características de comportamento.

O conhecimento dos riscos que acompanham o uso de qualquer droga, no caso particular de anestésicos locais e de substâncias que eventualmente os acompanham, é indispensável para que se possa evitar, dentro do possível, a ocorrência de acidentes (Casoy, 1989). Os anestésicos locais geralmente são acompanhados de adrenalina, noradrenalina ou de congêneres sintéticos apropriados (Corbett et al., 1966). De modo geral, a concentração de agentes vasoconstritores deve ser mantida em um nível mínimo eficaz, evitando-se, dessa forma, os efeitos colaterais, como as isquemias. Assim, o conhecimento e o estudo das reações desejáveis e indesejáveis desses fármacos tornam-se obrigatórios na prática médica (Casoy, 1989).

Com o objetivo de avaliar o efeito de diferentes bases anestésicas associadas ou não a vasoconstritores em diferentes concentrações na anestesia local subcutânea, foram utilizados 20 vacas, mestiças, adultas, provenientes do Plantel Bradesco – PECPLAN. Os animais foram contidos em brete, depilados na região toracolombar esquerda, em área retângular, lavada com água e sabão neutro e anti-sepsia com solução de álcool iodado a 2%. O experimento foi conduzido com o respectivo protocolo: tratamento 1 - água destilada (controle), tratamento 2 - cloridrato de lidocaína (20 mg/ml) com epinefrina (0,005 mg/ml), tratamento 3 - cloridrato de lidocaína (20 mg/ml) com epinefrina (0,02 mg/ml), tratamento 4 - cloridrato de lidocaína (20 mg/ml) com epinefrina (0,05 mg/ml), tratamento 5 - cloridrato de lidocaína (20 mg/ml) sem epinefrina, tratamento 6 - cloridrato de procaína (22 mg/ml) com epinefrina (0,02 mg/ml), tratamento 7 - cloridrato de procaína (22 mg/ml) sem epinefrina

A técnica anestésica consistiu de punção da pele, na área depilada, com auxílio de agulha 100´ 12, introduzida no sentido dorsoventral ao ponto de punção. Distribuição uniforme de 10ml dos respectivos produtos com distância entre os tratamentos de aproximadamente 10cm.

Preconizou-se a observação dos locais de infiltração anestésica decorridas 72 horas da aplicação, quando foi anotada, em protocolo individual, a presença de lesões de pele e respectivos graus das lesões, quando presentes, obedecendo à seguinte classificação: grau 0 - ausente (–), grau 1 - reação leve (+), grau 2 - reação forte (++), grau 3 - reação muito forte (+++).

Os dados foram avaliados por meio de análise não paramétrica de Kruskal – Wallis com médias comparadas pelo teste t de Student (Conover, 1980). Os dados foram considerados significativos ao nível de 5%.

Verifica-se na Tab. 1 a presença de lesões epiteliais, bem como os respectivos graus das lesões pós-anestésicas nos diversos tratamentos. Os tratamentos 1, 5, 6 e 7 não determinaram alterações macroscópicas no epitélio, decorridas 72 horas da infiltração anestésica. Quanto aos tratamentos 2, 3 e 4, foram observadas alterações de diferentes graus, com variação significativa entre eles. O tratamento 4 foi o protocolo que determinou maior número de reações e os maiores graus de lesões, enquanto que os tratamentos 3 e 2 apresentaram ordem decrescente de número e grau de lesões. Embora tenha havido diferença entre os tratamentos 3 e 4, ela foi relativamente pequena.

 

Tabela 1. Isquemia epitelial e respectivo grau após anestesia infiltrativa subcutânea em bovinos com cloridratos de lidocaína e procaína com e sem vasoconstritor.

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Reações: - ausente, + leve, ++ forte, +++ muito forte

 

Como o respectivo modelo experimental foi estabelecido com bases anestésicas com e sem vasoconstritor, verificou-se que as reações colaterais pós-anestésicas foram determinantes com relação à associação da base anestésica com vasoconstritor e que os maiores graus de lesões foram proporcionais à concentração da base vasoconstritora. Geralmente a dose de epinefrina associada aos anestésicos é de 1:200.000, pois doses mais baixas (1:400.000) não promovem ação vasoconstritora (Guanais, 1989; Massone, 1994), e uma vez que é importante considerar o grau de vasoconstrição que ela provoca na área infiltrada, o excesso de vasoconstrição causa isquemia exagerada e excessivamente prolongada, capaz de provocar alterações tróficas nos tecidos infiltrados, que podem chegar à necrose (Corbett et al., 1966; Lorenzo, 1982).

Embora não tenham sido realizados exames histopatológicos para caracterizar a reação colateral do tipo necrose isquêmica, com aumento do consumo de oxigênio dos tecidos pelas aminas simpatomiméticas e conseqüente constrição, hipóxia e lesões locais dos tecidos (Santos, 1974; Guanais, 1989), neste experimento as lesões macroscópicas características de isquemia epitelial observadas nos locais de infiltração, com as variações de 0,005 a 0,05 mg/ml de bases vasoconstritoras, confirmam as observações feitas por Soares & Costa (1999), quando observaram reações de pele em bovinos submetidos a anestesia subcutânea com anestésicos associados com vasoconstritor, mostrando diferenças entre tratamentos com menor e maior concentração de base vasoconstritora.

A epinefrina, que esteve presente nos fármacos utilizados neste experimento, é considerada potente vasoconstritor, dotada de alta densidade venosa sob controle adrenérgico (Myers et al., 1986), capaz de estabelecer injúrias tissulares resultantes de alteração no fluxo sangüíneo local por esses adjuvantes vasopressores (Myers et al., 1986; Partridge & Phil, 1991). Quanto à base anestésica, verificou-se melhor resultado do cloridrato de procaína quando comparado com cloridrato de lidocaína, provavelmente em conseqüência de melhor assimilação e melhor metabolismo celular. Segundo Corbett et al. (1966), se uma droga anestésica não for por si vasoconstritora, ela deve permitir a associação com outra dotada com essa propriedade, especialmente as escolhidas entre os agentes simpatomiméticos.

Conclui-se, portanto, que o uso de anestésicos locais sem vasoconstritor e cloridrato de procaína podem ser utilizados com segurança, enquanto que a utilização de cloridrato de lidocaína associado a epinefrina, em diferentes concentrações, pode determinar o aparecimento de lesões tissulares em bovinos.

Palavras-chave: Bovino, anestesia local, lidocaína, epinefrina, isquemia

 

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Ivan Barbosa Machado Sampaio, do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG, pela orientação estatística; à BRADESCO PECPLAN, unidade Garanhuns – PE, pela cessão dos animais e uso das instalações; à Clínica de Bovinos – Campus Garanhuns – UFRPE, pelo apoio; ao Prof. Enrico Lipi Ortolani, do Departamento de Clínica Médica da USP, pela redação do abstract

 

 

ABSTRACT

In order to study the effects of different local anaesthetics with and without vasoconstritor (epinefrine), 20 adult crossbred cows were used. The following treatments were carried out:T1 – control (bidistilled water); T2 – chloridrate of lidocaine (20 mg/ml) with epinephrine (0.005 mg/ml); T3 – chloridrate of lidocaine (20 mg/ml) with epinephrine (0.02 mg/ml); T4 – chloridrate of lidocaine (20 mg/ml) with epinephrine (0.05 mg/ml); T5 – chloridrate of lidocaine(20 mg/ml); T6 – chloridrate of procaine (22 mg/ml) with epinefrine (0.02 mg/ml); T7 – chloridrate of procaine (22 mg/ml). The different solutions were injected, at the same time, into the subcutaneous space of the medial chest line, 10cm apart, of all cows. Observation at the infiltration sites was made 72 hours later, for the presence or not of tissue reaction, as well as lesion degrees. No differences were found among T1, T5, T6, and T7 , which did not cause tissue reaction. On the other hand, lower lesion tissue degrees were found in cows treated with T2 as compared to T3 and T4. It can be concluded that the use of both local anaesthetics alone or chloridrate of procaine with epinefrine are harmless to the skin while chloridrate of lidocaine associated with any concentration of vasoconstritor may give rise to tissue lesions in cattle.

Keywords: Bovine, local anesthesia, lidocaine, epinephrine, tissue ischemia

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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