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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.5 Belo Horizonte Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352000000500010 

Características físicas e morfológicas de sêmen de touros jovens das raças Gir, Guzerá, Nelore (Bos taurus indicus) e Caracu (Bos taurus taurus)

[Physical and morfhological semen characteristics in Gir, Guzera and Nelore (Bos taurus indicus) and Caracu (Bos taurus taurus) young bulls]

 

J. Schmidt-Hebbel1, G.H. Toniollo1, F.G. Leite1, A.S. Ferraudo1, D. Perecin, L.J. Pacola2

1Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp
Rodovia Paulo D. Castellane km 5
14870-000 – Jaboticabal-SP
2Estação Experimental de Zootecnia de Sertãozinho, SP

 

Recebido para publicação, após modificações, em 23 de maio de 2000.
Projeto Financiado pela Fapesp - Processo nº 96/02085-6
E-mail: toniollo@fcav.unesp.br

 

 

RESUMO

Foram utilizados 38 tourinhos com idade inicial entre 426 e 462 dias e final entre 751 e 781 dias das raças Nelore, Guzerá, Gir e Caracu, subdivididos em sete grupos genéticos conforme o método de seleção, com o objetivo de comparar o desenvolvimento reprodutivo, avaliado pelas características físicas e morfológicas do sêmen (volume, aspecto, turbilhonamento, motilidade progressiva e vigor, morfologia e concentração espermáticas), em 11 colheitas com intervalos de 29 dias. Os touros dos grupos Nelore seleção (NeS, n=6), Nelore tradicional (NeT, n=9) e Caracu seleção (CaS, n=6), com 415, 430 e 419kg de peso, respectivamente, apresentaram diferenças em todas as características quando comparados com o Nelore controle (NeC, n=4), com 302kg de peso, na segunda colheita, e este foi o único a diferir dos outros seis grupamentos na décima primeira colheita (P<0,05). Foram registradas diferenças na motilidade progressiva média dos espermatozóides na terceira colheita entre o grupamento CaS (68,3%) e o Guzerá tradicional (GuT, n=5) (10,0%), assim como entre o CaS (76,7%) e o NeS (45,0%) na quarta colheita (P<0,05). Não foram registradas diferenças no total de defeitos de espermatozóides nas segunda e última colheitas. Com base na morfologia espermática pode-se concluir que os tourinhos dos grupos genéticos NeT, CaS, Gir Seleção (GiS, n=4), Guzerá Seleção (GuS, n=4), NeC, GuT e NeS alcançaram a maturidade sexual com idades de 547, 532, 578, 544, 547, 572 e 600 dias, e pesos corporais de 430, 440, 389, 420, 336, 451 e 438kg, respectivamente.

Palavras-Chave: Bovino, sêmen, morfologia, maturidade sexual

 

ABSTRACT

This study was carried out with 38 young bulls, with initial ages between 426 and 462 days, and final ages between 745 to 781 days, and from several breeds (Nelore, Guzerá, Gir and Caracu). They were divided into seven genetic groups. It was compared reproductive development considering the morphological and physical characteristics of the ejaculate (volume, aspect, motility and strenght, morphology and concentration of spermatozoa) collected at 29-day-interval (stage). The bulls from Selection Nelore (NeS, n=6), Traditional Nelore (NeT, n=9) and Selection Caracu (CaS, n=6), (415, 430 and 419kg of weight, respectively) groups showed significant differences in all characteristics when compared to Control Nelore (NeC, n=4) group at the second stage, which was also the only group with significant difference in relation to the other six groups on the eleventh stage (P<0.05). Significant differences in the average of progressive motility of the spermatozoa were registered in the third stage between groups CaS (68.3%) and Traditional Guzera (GuT, n=5) (10.0%) as well as between CaS (76.7%) and NeS (45.0%) on the fourth stage (P<0.05). Differences in the total defects of the spermatozoa were not found on the second and eleventh stages. Based on the morphology of the spermatozoa, it is concluded that the young bulls from genetic groups NeT, CaS, Selection Gir (GiS, n=4), Selection Guzera (GuS, n=4), NeC, GuT and NeS reached sexual maturity at 547, 532, 578, 544, 547, 572 and 600 days of age and body weight of 430, 440, 389, 420, 336, 451 and 438kg, respectively.

Keywords: Bovine, semen, morphology, sexual maturity.

 

 

INTRODUÇÃO

Touros com sêmen de baixa qualidade geralmente têm pequeno perímetro escrotal (Smith et al., 1981; Bourdon & Brinks, 1986), que por sua vez tem sido relacionado com alterações patológicas específicas nos túbulos seminíferos (Veeramachaneni et al., 1986; Madrid et al., 1988). Menor fertilidade ocorre em touros sexualmente maduros com testículos reduzidos (hipoplasia) ou em touros com testículos pequenos devido a severas lesões do parênquima testicular (Madrid et al., 1988). O tamanho dos testículos também é indicativo da puberdade em touros jovens, mais até que a idade ou o peso corporal (Lunstra et al., 1978). O perímetro escrotal é apontado como a característica mais precisa para indicação do desenvolvimento sexual em bovinos, e está correlacionado com o peso e a idade do animal (Lunstra et al., 1978; Mies Filho et al., 1980; Pimentel et al., 1984; Oba et al., 1989; Vale Filho et al., 1989; Martins Filho et al., 1990).

Machos puros de origem das raças Guzerá, com idade entre 8 e 110 meses, e Nelore, com 8 a 30 meses, mantidos sob condições de pastagem e suplementados com concentrado comercial (2kg/cabeça/dia) durante o período seco, foram usados para estudar o desenvolvimento e a consistência testicular, as alterações de peso corporal, a puberdade e as características do sêmen (Trocóniz et al., 1991). As medições de perímetro escrotal (PE) e as colheitas de sêmen foram realizadas por eletroejaculação a cada 28 dias. A idade e o peso corporal afetaram o PE em ambas as raças, aumentando com a idade e o peso corporal, tendendo a alcançar o tamanho maduro mais rapidamente do que o peso corporal. O PE e a idade à puberdade de touros Guzerá e Nelore foram, em média, de 25,6± 2,2cm aos 18,0± 2,0 meses e 23,6± 0,2cm aos 18,5± 2,7 meses, respectivamente. Os touros Nelore foram 42kg mais leves que os Guzerá à puberdade. A porcentagem de espermatozóides anormais foi maior dos 13 aos 15 meses de idade no Guzerá (11,1%) e no Nelore (14,4%) do que dos 22 aos 24 meses (6,7% e 8,0%, respectivamente) (Trocóniz et al., 1991).

Chenoweth et al. (1984) avaliaram o efeito de raça e idade sobre características reprodutivas de touros das raças Hereford e Angus. Encontraram os seguintes valores para touros de um, dois e três ou mais anos de idade: motilidade 67,3± 3,2, 72,1± 4,0 e 75,6± 2,9%; defeitos primários, 15,1± 1,7, 9,2± 2,1 e 9,8± 1,6%; defeitos secundários, 15,2± 1,9, 9,1± 2,4 e 6,5± 1,8% e total de defeitos, 30,6± 2,8, 18,2± 3,5 e 16,5± 2,6%. Observaram que, embora a motilidade apresentasse tendência em aumentar com a idade, a diferença não foi significativa e que touros de um ano tiveram maior porcentagem de anomalias espermáticas primárias, secundárias e total do que touros mais velhos (P<0,05).

O objetivo desta pesquisa foi o de comparar o desenvolvimento reprodutivo, avaliado pelas características físicas e morfológicas do sêmen, de touros jovens das raças Gir, Guzerá, Nelore e Caracu, subdivididos em sete grupamentos genéticos, conforme o método de seleção a que foram submetidos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 38 tourinhos com idades inicial entre 426 e 462 dias e final entre 745 e 781 das raças Nelore (n=19), Guzerá (n=9), Gir (n=4) e Caracu (n=6), pertencentes à Estação Experimental de Zootecnia de Sertãozinho, provenientes da 45a Prova de Ganho de Peso (PGP) realizada de abril a outubro de 1995.

A seleção dos machos é feita quando do término das provas de ganho de peso. Durante períodos de 168 dias os animais ficaram confinados, consumindo alimento constituído de 45% de feno de gramínea, 33% de milho triturado e 22% de farelo de algodão, com 11% de proteína bruta (PB) e 67,5% de nutrientes digestivos totais (NDT) (Figueiredo, 1997 - Estação Experimental de Zootecnia de Sertãozinho. Comunicação pessoal, 1997.), mais suplementação mineral (MMPGP - Base. Ribeirão Preto, SP) e água ad libitum. Os animais foram pesados no início e no fim do período de adaptação, e aos 112 e 168 dias (pesagem final). O peso foi então ajustado para a idade de 378 dias (P378), que é basicamente uma composição do peso inicial, tomado aos 210 dias de idade, mais ganho total obtido em 168 dias de prova. O P378 é o critério de seleção dos machos, futuros reprodutores da Estação (Razook, 1993). O rebanho das raças Gir, Guzerá, Nelore e Caracu (respectivamente, GiS, GuS, NeS e CaS) é constituído por machos selecionados no final da PGP com alto diferencial no peso aos 378 dias de idade; o rebanho controle da raça Nelore (NeC) é formado pelos machos escolhidos ao redor da média de seu desempenho nas provas de ganho de peso, também aos 378 dias de idade, enquanto o rebanho tradicional das raças Guzerá e Nelore (GuT e NeT, respectivamente), destina-se a testes complementares que porventura possam ser desenvolvidos na Estação.

Os touros jovens das raças zebuínas, pré-selecionados, foram mantidos em pastos de 10 e 15 alqueires, onde o capim predominante era colonião (Panicum maximum), até a idade de 22 meses. Em agosto de 1996 foram então confinados até o final do período experimental, recebendo alimentação constituída por 52,6% de feno de gramínea, 28,4% de milho triturado, 9,5% de farelo de algodão e 9,5% de farelo de soja, conferindo à ração 11,1% PB e 54,1% de NDT (Pacola, 1997 - Estação Experimental de Zootecnia de Sertãozinho. Comunicação pessoal, 1997). Os da raça Caracu permaneceram em piquete com a mesma alimentação por todo o período experimental.

Os ejaculados foram obtidos com eletroejaculador do tipo comercial (Eletrovet, Sertãozinho, SP ) e mantidos em temperatura entre 32 e 34°C em banho-maria (Fanem modelo 100 - Fanem Ltda., São Paulo, SP ). Foram feitas as avaliações de volume, aspecto, turbilhonamento, motilidade progressiva e vigor.

Para avaliação da morfologia espermática foram utilizados 20ml de sêmen de cada ejaculado, fixados em 0,5ml de solução tamponada de glutaraldeído a 0,2% e estocado a 4°C para posterior avaliação sob microscopia de interferência de fase (Olympus, modelo IM - Olympus Optical Co., Tóquio, Japão), com aumento de 1000´ . A classificação das patologias seguiram padrões preestabelecidos por Barth & Oko (1989). Para a concentração tomaram-se 20ml de sêmen de cada ejaculado que foram fixados em 1,0ml de solução tamponada de glutaraldeído a 0,2%, resultando em diluição 1:50 e com análise feita em câmara hematocitométrica de Neubauer.

A idade e as características físicas e morfológicas do sêmen segundo o grupamento genético e a colheita foram submetidas a análise de variância, em função da colheita, usando o Proc GLM do SAS (1995).

 

RESULTADOS

A idade média dos touros no início do experimento, a qual corresponde à segunda colheita, nos grupos genéticos GiS, GuS, GuT, NeC, NeS, NeT e CaS foram, respectivamente, 462, 428, 427, 431, 426, 460 e 445 dias. Foram observadas diferenças na idade média entre os grupos NeT e NeS na primeira colheita, e entre NeS e os grupos NeT e GiS na décima primeira colheita mensal (P<0,05).

Na primeira colheita não se logrou colher o sêmen dos animais dos grupos GuS, GuT e NeS pelo fato de eles se apresentarem muito inquietos. Conseqüentemente, os resultados da avaliação do sêmen fresco são apresentados a partir da segunda colheita (início do experimento) para facilitar a visualização da evolução do quadro espermático no início e no final do trabalho.

No início do experimento o sêmen colhido apresentou aspecto seroso, exceto o dos rebanhos GiS e CaS. Nestes observaram-se, logo na primeira colheita, aspectos marmóreo a citrino e marmóreo, respectivamente.

A Tab. 1 apresenta os valores do volume (em ml), turbilhonamento, vigor (escala 1-5) e motilidade progressiva (%) do sêmen segundo o grupo genético, na segunda colheita, que ocorreu aos 426 dias de idade, e na 11ª colheita, aos 751 dias de idade.

 

Tabela 1. Características físicas do sêmen de touros jovens segundo o grupamento genético, aos 426 (2ª colheita) e 751 (11ª colheita) dias de idade

Diferenças não significativas entre grupos genéticos para todas as características, em ambas as colheitas

 

Não foram observadas diferenças nas médias dessas características entre os grupos genéticos em ambas as colheitas (P>0,05).

A Tab. 2 apresenta os valores de defeitos maiores (%), defeitos menores (%) e células espermáticas normais (%) do sêmen segundo o grupo genético, na segunda e na 11ª colheitas.

 

Tabela 2. Características morfológicas do sêmen de touros jovens segundo o grupo genético, aos 426 (2ª colheita) e 751 (11ª colheita) dias de idade.

 

Observou-se que até a terceira colheita mensal o defeito maior predominante nas raças zebuínas foi a gota protoplasmática proximal (GPP), e no grupamento CaS na segunda e terceira colheitas a maior incidência foi de cauda dobrada ou enrolada com gota protoplasmática distal (GPD). Ainda, na quarta colheita mensal houve predominância da GPP nos grupos GuS, GuT, NeS e NeT e cauda dobrada ou enrolada com GPD nos grupos GiS e CaS. A partir da quinta colheita até a última os defeitos maiores não foram tão evidentes, mas ainda assim registraram-se principalmente GPP, cauda enrolada na cabeça, "knobbed sperm", patologias da peça intermediária (fratura), cauda dobrada ou enrolada com GPD e cauda fortemente dobrada ou enrolada. Os três últimos defeitos foram os mais freqüentemente observados nesse período. Com menor freqüência observaram-se cabeça estreita na base, formas teratológicas e "pouch formation". A partir da quinta colheita verificou-se queda na porcentagem dessas patologias.

 

DISCUSSÃO

A idade média dos touros jovens dos grupamentos genéticos GiS, GuS, GuT, NeC, NeS, NeT (Bos taurus indicus) e CaS (Bos taurus taurus) foram semelhantes entre si. A maior variação foi de 34 dias entre os grupos NeS e NeT, semelhante às variações verificadas nos trabalhos de Morris et al. (1989) e muito inferiores às de Mies Filho (1980) e Perry et al. (1991), que compararam machos bovinos em grupos de dois a seis meses de diferença na idade média. Assim, é possível admitir que a pequena variação de idade possibilitou maior segurança aos resultados aqui registrados.

O aspecto do sêmen avaliado fresco, que no início do experimento mostrou-se seroso na maioria dos rebanhos, exceto nos grupos GiS e CaS, a partir da quarta colheita passou a apresentar aspecto branco leitoso, permanecendo assim até a última colheita mensal.

Os valores médios de turbilhonamento observados em todos os grupamentos genéticos na última colheita foram inferiores aos valores registrados por Oba et al. (1989) em touros da raça Nelore com idades acima de 24 meses (4,08), ressaltando-se que os autores trabalharam com touros com idade superior às deste experimento.

A motilidade média verificada nos rebanhos na décima primeira colheita foi mais elevada do que as observadas por Igboeli & Rakha (1971) em touros da raça Angoni, de três e quatros anos de idade, nas estações chuvosa, fria e quente (59,3; 58,4 e 57,0%, respectivamente), por Fields et al. (1979) em touros da raça Brahman, de 16 a 20 meses de idade, nos meses de abril e agosto (37,0 e 59,0%, respectivamente), por Makarechian et al. (1985) em touros das raças Hereford e Beef Synthetic de um e dois anos de idade, touros jovens tanto de alta como de baixa fertilidade (48,5 e 26,6, respectivamente) e por Smith et al. (1981) em touros da raça Santa Gertrudes, de dois anos de idade, nos primeiro e segundo ejaculados (49,4 e 41,2%, respectivamente). No entanto, foram similares às observadas por Chenoweth et al. (1984) em touros das raças Hereford e Angus de um, dois, três ou mais anos de idade (67,3; 72,1 e 75,6%, respectivamente), por Fields et al. (1979) para touros das raças Angus, Hereford linhagem Montana e Santa Gertrudes no mês de agosto, todos de 16 a 20 meses de idade (70,0; 82,0; 61,0 e 64,0%, respectivamente), por Oba et al. (1989) em touros da raça Nelore acima de 24 meses de idade (73,2%) e por Evans et al. (1995) em touros da raça Hereford com 50 meses de idade (76,7%) e inferiores às médias observadas por Fields et al. (1979) para touros da raça Hereford linhagem Flórida de 16 a 20 meses de idade (82,0%).

As médias de vigor anotadas para os rebanhos na última colheita mensal foram mais baixas do que as observadas por Oba et al. (1989) em touros da raça Nelore acima de 24 meses de idade (4,0), provavelmente em decorrência da idade mais elevada.

Ao analisar todas as características físicas do sêmen fresco constatou-se, por estimativa em todos os grupos genéticos e em cada uma das colheitas, que quedas verificadas no turbilhonamento acarretavam diminuições na motilidade e no vigor, e que aumentos no turbilhonamento foram acompanhados por incrementos na motilidade e no vigor. Deve-se destacar que apesar dessas inter-relações entre as características ocorrerem com freqüência em cada colheita, elas necessariamente não apresentam a mesma proporção.

Quanto à morfologia espermática, os valores de defeitos maiores e menores na décima primeira colheita guardam certa relação. São valores semelhantes, com raras exceções, aos verificados na literatura. Smith et al. (1981) encontraram em touros da raça Santa Gertrudes de dois anos de idade, no primeiro e segundo ejaculados, 13,8 e 12,1% de alterações morfológicas maiores e 41,6 e 27,3% de menores, respectivamente. Segundo Chenoweth et al. (1984), em touros das raças Hereford e Angus com um, dois ou três anos ou mais, os valores foram 15,1, 9,2 e 9,8% para defeitos maiores e 15,2, 9,1 e 6,5% para menores, respectivamente. Para Oba et al. (1989), em touros da raça Nelore com idade acima de dois anos, os valores para defeitos maiores e menores foram respectivamente 12,9 e 11,5%. Os resultados encontrados por Evans et al. (1995) para machos da raça Hereford com 50 meses de idade foram da ordem de 20,4% de defeitos maiores. Madrid et al. (1988), em touros da raça Angus entre 11 e 13 meses de idade, encontraram 47,1 e 15,2% de alterações morfológicas denominadas maiores e 17,4 e 11,9% qualificadas de menores, respectivamente.

A soma dos defeitos espermáticos menores e maiores na 11ª colheita para os rebanhos GiS, GuS, GuT, NeC, NeS, NeT e CaS foram, respectivamente, 12,2, 10,5, 12,2, 11,1, 10,9, 10,0 e 15,7%. Comparados com os valores da literatura eles são bastante diversificados. Chenoweth et al. (1984) encontraram 30,6, 18,2 e 16,5%, respectivamente, para touros das raças Hereford e Angus de 1, 2 e 3 anos ou mais. Trocóniz et al. (1991) encontraram em touros da raça Guzerá de 13 a 15 e de 22 a 24 meses de idade 11,1 e 6,7% de média do total de defeitos espermáticos, respectivamente, e nas mesmas condições, observaram na raça Nelore, 14,4 e 8,0%. Tomar & Gupta (1984), em touros da raça Hariana entre quatro e seis anos de idade nas estações de inverno e verão, encontraram médias de 9,5 e 10,8%, respectivamente.

A discrepância de valores encontrados na literatura com os deste trabalho são, provavelmente, decorrentes do manejo imposto a cada animal ou aos grupos de touros. Para esses resultados, têm-se que considerar, além da escolha prévia dos progenitores, a qual contribui com uma possível seleção ou mesmo a eliminação de situações desfavoráveis, também os aspectos de adaptação das raças às condições de ambiente. Igualmente importante, senão a mais importante, é a idade dos animais, que deve ser considerada em cada comparação. A qualidade do sêmen, analisada quanto à morfologia espermática, modifica-se bruscamente na idade jovem.

Na avaliação morfológica dos espermatozóides notou-se queda dos defeitos maiores a valores inferiores a 20%, nível recomendado pelo Colégio Brasileiro de Reprodução Animal (CBRA) (Colégio..., 1992). Isso ocorreu após a quarta colheita mensal nos grupos NeT e CaS, após a quinta nos grupos GiS, GuS e NeC e somente na sexta colheita nos grupos GuT e NeS. Quanto aos defeitos menores, não se identificou queda evidente ao longo do experimento, pois eles mantiveram-se, aproximadamente, entre 10% (maior valor na segunda colheita) e 3,0% (menor valor na segunda colheita).

Para o total de defeitos, importante na determinação da maturidade sexual, o CBRA recomenda níveis inferiores a 30%. Eles foram obtidos na quarta colheita nos grupos NeT e CaS, quando os tourinhos tinham idade de 547 e 532 dias e peso de 430 e 440kg, respectivamente; na quinta colheita nos grupos GiS, GuS e NeC, com idade entre 578, 544 e 547 dias e peso de 389, 420 e 436kg, respectivamente; na sexta colheita no grupo GuT, com idade de 572 dias e peso de 451kg; e na sétima colheita no grupo NeS, com idade de 600 dias e peso de 438kg. Os valores da morfologia espermática indicam a precocidade dos machos jovens do grupo CaS, de origem européia, em relação à maioria dos de raças zebuínas. Essa precocidade do Bos taurus taurus foi relatada na literatura por Godinho (1970) e Nolan et al. (1990). Idade e peso corporal, indicadores da maturidade sexual, observados neste experimento, foram superiores aos mencionados por Garcia et al. (1987) em touros da raça Guzerá, os quais atingiram a maturidade aos 774,7 dias de idade e 316,7kg de peso corporal.

A média de espermatozóides normais nos diversos grupos analisados constitui uma síntese dos fatores que a influenciam, ou seja, idade e manejo imposto aos animais, seleção dos progenitores, adaptabilidade ao ambiente entre outros.

Quanto à concentração espermática, as médias observadas na última colheita dependem de vários outros fatores como método de obtenção do ejaculado, tempo de estimulação do reprodutor, ambiente, freqüência do ejaculado, volume dos testículos, idade do animal (fase reprodutiva), raça, dentre outros. A literatura registra em touros da raça Angoni de três a quatro anos de idade nas estações chuvosa, fria e quente, 1,74, 1,81 e 1,89 espermatozóides ´ 109/ml, respectivamente (Igboeli & Rakha, 1971), e em touros da raça Ariana de quatro a seis anos de idade nas estações de inverno e verão, 822,70 e 1193,30 células x 106/ml (Tomar & Gupta, 1974), respectivamente. Fields et al. (1979) registram na segunda colheita de sêmen de touros das raças Angus e Hereford linhagem Flórida de 16 a 20 meses de idade, 632 e 666 células ´ 106/ml, respectivamente. Em condições semelhantes, os autores destacam para touros das raças Brahman, Hereford linhagem Montana e Santa Gertrudes, respectivamente, 337, 378 e 255 células ´ 106/ml. Evans et al. (1995) relatam concentração de 10,0 e 126,2 espermatozóides ´ 106/ml, para machos da raça Hereford quatro semanas antes da puberdade e oito após, respectivamente.

A caracterização reprodutiva plena nesta pesquisa, determinada pelos aspectos físicos do sêmen e morfológicos dos espermatozóides, provavelmente constitui um reflexo do grupo genético ao qual pertence o animal. Os grupos CaS, de origem européia, e NeC, constituído por machos escolhidos ao redor da média de seu desempenho na prova de ganho de peso aos 378 dias de idade, foram os que se destacaram. O rebanho GiS, constituído por animais superiores dentro da raça, caracterizou-se pelo bom desempenho reprodutivo quanto aos aspectos do sêmen, em comparação aos outros grupos zebuínos.

 

CONCLUSÕES

Os resultados da presente pesquisa permitem concluir que: 1- as características físicas do sêmen fresco, exceto a motilidade, não são indicadores confiáveis para a avaliação reprodutiva de tourinhos jovens, quando analisadas independentes das características morfológicas; 2- a maturidade fisiológica, representada pelos aspectos morfológicos do sêmen, depende do grupo genético ao qual o animal pertence.

 

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