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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.5 Belo Horizonte Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352000000500016 

Avaliação da silagem de sete genótipos de sorgo (Sorghum bicolor (L) Moench).
III. Valor nutritivo

[Evaluation of silages from seven sorghum genotypes [(Sorghum bicolor (L) Moench)]. III. Nutritive value]

 

A.F. Brito1, L.C. Gonçalves2*, J.A.S. Rodrigues3, V.R. Rocha Jr.4, I. Borges2, N.M. Rodriguez2

1Mestre em Zootecnia pela Escola de Veterinária da UFMG
2Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970-Belo Horizonte, MG
3EMBRAPA/CNPMS
4Doutorando – Dep. de Zootecnia da UFV

 

Recebido para publicação, após modificações, em 9 de março de 2000.
*Autor para correspondência

 

 

RESUMO

Foram estudadas as silagens de quatro genótipos de sorgo de porte alto, colmo suculento e com açúcar e três de porte baixo, colmo seco e sem açúcar com o objetivo de estudar fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA), hemicelulose, celulose, lignina e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS). A percentagem média de FDN foi de 63,3% para os sorgos de porte alto e 65,5% para os de porte baixo. Os valores de FDA variaram de 33,1 a 35,7% no material original e de 30,1 a 34,3% aos 56 dias de ensilagem. Houve redução nos teores de hemicelulose com o avanço do processo fermentativo indicando sua utilização como fonte adicional de carboidratos. Observou-se variação nos conteúdos de celulose ao longo da fermentação em alguns dos genótipos avaliados. Os teores médios de lignina encontrados no material original e aos 56 dias de fermentação foram, respectivamente, de 5,9 e 4,6%. Em relação à DIVMS apenas o sorgo BR506 não modificou os valores com a fermentação, e o teor médio nas silagens aos 56 dias de fermentação foi de 54,8%, variação de 51,3 a 58,5%.

Palavras Chave: Silagem, sorgo, composição química, DIVMS

 

ABSTRACT

Four sorghums of high size, moist and sugary stem, and three sorghums of small size, dry and sugarless stem were used in order to determine the neutral detergent fiber (NDF), acid detergent fiber (ADF), hemicellulose, cellulose, lignin and in vitro dry matter digestibility (IVDMD) values. The mean value of NDF was 63.3% for high size sorghums and 65.5% for low size sorghums. The ADF values ranged from 33.1 to 35.7 in the fresh matter and from 30.1 to 34.3% in silages with 56 days of fermentation. There was a decrease in the hemicellulose values with the advance of fermentative process showing their utilization as an extra sources of carbohydrates. It was observed variation in the cellulose contents with the fermentation progress in some sorghums. The lignin means in the fresh material and on 56 days were, respectively, 5.9 and 4.6%. The mean IVDMD on 56 days of fermentation was 54.8% ranging from 51.3 to 58.5%.

Keywords: Silage, sorghum, chemical composition, IVDMD

 

 

INTRODUÇÃO

Os carboidratos são as principais reservas de energia fotossintética das plantas e constituem de 50 a 80% da matéria seca das forragens e cereais. (Van Soest, 1994). Segundo Pichard & Alcalde (1990), as plantas possuem carboidratos em diferentes estádios de polimerização, que vão desde monossacarídeos até polímeros de alto peso molecular como o amido, celulose, hemicelulose e pectina. De acordo com esses autores, a celulose e a hemicelulose são insolúveis em água, apresentam lenta velocidade de fermentação e por esses motivos não estão disponíveis para o metabolismo energético da planta. Para Meeske et al. (1993), com o avanço da maturidade há redução da digestibilidade das plantas de sorgo forrageiro. Uma relação inversa entre os constituintes da parede celular e digestibilidade foi encontrada em vários cultivares de sorgo. Segundo Danley & Vetter (1973), quando o conteúdo da parede celular se encontra acima de 55% a digestibilidade diminui. Entretanto, no sorgo existe uma diluição do efeito dos componentes fibrosos à medida que a planta envelhece devido ao maior acúmulo de carboidratos solúveis no caule (McBee & Miller, 1993) e formação de amido nos grãos (Meeske et al., 1993). O objetivo deste trabalho foi o de avaliar a composição química e a DIVMS das silagens de quatro genótipos de sorgo de porte alto, colmo suculento e com açúcar e três de porte baixo, colmo seco e sem açúcar.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A descrição do experimento (local, época, sorgos usados, cortes do material processo de silagem e de abertura) encontra-se em Brito et al. (2000a,b).

Nas amostras pré-secas determinaram-se a DIVMS (Tilley & Terry, 1963) e os componentes da parede celular FDN, FDA, hemicelulose, celulose e lignina pelo método seqüencial, utilizando-se 2ml por amostra de uma solução a 1% de amilase "Termamyl 120L 1%", na determinação da FDN segundo Van Soest et al. (1991).

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente ao acaso em esquema fatorial 7´ 5 (genótipos ´ períodos) e três repetições, sendo confeccionados 84 silos no total. Utilizaram-se a análise de variância para o processamento dos dados e o teste SNK (Student-Newman-Keuls) para a comparação entre as médias dos genótipos, dentro de cada período de abertura, e entre as médias dos diferentes períodos, dentro de cada genótipo (P<0,05), e estimou-se a correlação entre as variáveis estudadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os teores de FDN do material original e das silagens encontram-se na Tab. 1. No material original, a única diferença significativa observada foi entre os genótipos CMSXS156 ´ CMSXS227 e CMSXS156 ´ CMSXS607 que não diferiram dos demais. Aos 56 dias de ensilagem os sorgos BR601, CMSXS156 ´ CMSXS607 e BR506 diferiram (P<0,05) de CMSXS156 ´ CMSXS506, CMSXS156 e CMSXS227. CMSXS156 ´ CMSXS227 foi semelhante (P>0,05) a todos os outros genótipos nesse período. Com o avanço do processo fermentativo os genótipos CMSXS227 e BR506 mostraram queda no teor de FDN entre o material original e o material com sete dias de ensilagem, mantendo-se inalterados a partir desse momento. CMSXS156 ´ CMSXS607 aumentou o conteúdo de FDN entre 7 e 14 dias e redução entre 14 e 28 dias. CMSXS156 ´ CMSXS506 diminuiu a percentagem de FDN entre 0 e 7 dias de ensilagem, seguida de elevação aos 14 dias. Os outros genótipos (BR601, CMSXS156 ´ CMSXS227 e o CMSXS156) também diminuíram os teores de FDN entre o material verde e 7 dias de ensilagem. No entanto, BR601 e CMSXS156 estabilizaram-se aos 28 dias e CMSXS156 ´ CMSXS227 reduziu significativamente a percentagem de FDN entre 28 e 56 dias de ensilagem. Segundo Silva (1997), houve diminuição nas concentrações de FDN de todos os tratamentos com a ensilagem, sugerindo a ocorrência de hidrólise dos componentes estruturais. Muck (1978) e Morrisson (1979) citam que a redução no teor de hemicelulose é a principal responsável pela diminuição dos valores de FDN nas silagens. Os genótipos CMSXS156 ´ CMSXS607 e CMSXS156 ´ CMSXS506 mostraram elevação nos teores de FDN entre 7 e 14 e uma provável explicação para esse fato seria um aumento na percentagem de celulose, possivelmente decorrente de um erro de amostragem. Além disso, a redução dos carboidratos solúveis em álcool (CHOS) ao longo da fermentação pode aumentar a concentração dos componentes da parede celular resultando em elevação relativa dos teores de FDN.

 

Tabela 1. Valores de fibra em detergente neutro (FDN) no material original e nas silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05); CV=4,48%.

 

A percentagem média de FDN encontrada foi de 63,3% para os sorgos forrageiros e 65,5% para os graníferos. Gomide et al. (1987) (53,6%) e Borges (1995) (58,6%) trabalharam com sorgos forrageiros e encontraram valores de FDN inferiores à média observada neste trabalho. Gaggiotti et al. (1992), Silva (1997) e Pesce (1998) também avaliaram genótipos de porte alto e encontraram, respectivamente, 66,7, 64,6 e 62,0% de FDN, resultados bastante semelhantes aos deste experimento no material verde. Com relação aos sorgos de porte baixo, Gomide et al. (1987) (48,8%) e Hart (1990) (43,2%) obtiveram valores de FDN inferiores e Silva (1997) (65,04%) valores semelhante aos registrados neste trabalho.

Segundo Corrêa (1996), existe uma tendência de associar a altura da planta à percentagem de panícula na massa ensilada e, conseqüentemente, ao nível de fibra na silagem. No presente trabalho não foram encontradas correlações significativas entre o teor de FDN e a altura da planta e entre o teor de FDN e as percentagens de colmo, folha e panícula. Então, pode-se supor que o estádio de maturação em que os sorgos foram colhidos, isto é o grão leitoso/pastoso, não permitiu que as características agronômicas como altura e proporções de colmo, folha e panícula fossem correlacionados com a porcentagem de FDN pois a colheita em estádios mais precoces ou mais tardios poderia resultar em alterações nas diferentes partes da planta, podendo modificar o teor de FDN e, conseqüentemente, as suas correlações.

Os resultados de FDA antes e após a ensilagem podem ser observados na Tab. 2. No material original e nos tempos de abertura do silo não houve diferença significativa entre os genótipos de sorgo. Com relação ao avanço do processo fermentativo, apenas os genótipos BR506 e o CMSXS227 não modificaram os valores de FDA. O valor médio de FDA (material verde e silagens) de 33,1% encontrado neste trabalho esteve acima dos teores obtidos por Borges (1995) (20,5%) e Nogueira (1995) (26,3%) que utilizaram, respectivamente, sorgos de porte alto e baixo, e semelhantes aos resultados de Corrêa (1996) (32,7%), Silva (1997) (33,3%) e Pesce (1998) (33,5%).

 

Tabela 2. Valores de fibra em detergente ácido (FDA) no material original e nas silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05); CV=6,24%.

 

Não se observou correlação significativa entre o teor de FDA e a altura da planta e entre o teor de FDA e porcentagens de colmo, folhas e panícula, semelhante ao que ocorreu com FDN.

Na Tab. 3 encontram-se os resultados de hemicelulose no material verde e nas silagens. No material original o genótipo CMSXS156 ´ CMSXS227 diferiu significativamente de BR601, CMSXS156 ´ CMSXS607, BR506 e CMSXS156 ´ CMSXS506. BR601 não diferiu (P>0,05) de CMSXS156, CMSXS227 e BR506 que, por sua vez, apresentou valores de hemicelulose semelhante (P>0,05) aos genótipos CMSXS156 ´ CMSXS607 e CMSXS156 ´ CMSXS506. Todos os genótipos reduziram significativamente os teores de hemicelulose entre 0 e 7 dias de ensilagem. Nos experimentos de Nogueira (1995), Silva (1997) e Pesce (1998) as percentagens de hemicelulose também declinaram ao longo da fermentação indicando que elas foram utilizadas como fonte extra de carboidratos. Segundo Muck (1988) e Henderson (1993) a hemicelulose parece ser a principal fonte adicional de substratos para a fermentação, ocorrendo o desaparecimento de até 40% dessa fração. As percentagens de hemicelulose obtidas no material original (28,5 a 32,3%) e nas silagens (21,7 a 26,3%) foram inferiores às encontradas por Borges (1995), superiores às obtidas por Silva (1997) e semelhantes às de Pesce (1998).

 

Tabela 3. Valores de hemicelulose no material original e nas silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05), CV=4,14%.

 

Os resultados de celulose na forragem fresca e no material ensilado são apresentados na Tab. 4. No material original a única diferença significativa observada foi entre os genótipos BR601 e CMSXS156 ´ CMSXS227 que não diferiram dos demais (P>0,05). Nos outros períodos também houve diferenças significativas entre os genótipos quanto aos teores de celulose. Com relação ao avanço do processo fermentativo, os genótipos CMSXS156 ´ CMSXS227, BR506 e CMSXS227 não modificaram os valores de celulose. CMSXS156 ´ CMSXS607 e CMSXS156 ´ CMSXS506 aumentaram as percentagens de celulose entre os 7 e 14 dias, estabilizando-se aos 28 dias de ensilagem. Os sorgos BR601 e CMSXS156 apresentaram redução significativa dos teores de celulose. O primeiro entre 14 e 28 e 14 e 56 dias e o segundo entre zero e 56 e 14 e 56 dias. De acordo com Van Soest (1994) e Nogueira (1995), a celulose é tida como um carboidrato estrutural estável frente aos processos fermentativos no silo. Porém, Borges (1995) observou no híbrido H1 (forrageiro, alto tanino e colmo suculento) aumento no teor de celulose com a ensilagem, o mesmo ocorrendo no trabalho de Danley & Vetter (1973). Uma tentativa para explicar essa situação seria a formação de efluentes com conseqüente perda de compostos solúveis em água, causando elevação proporcional na fração menos fermentável, particularmente nos constituintes da parede celular.

 

Tabela 4. Valores de celulose no material original e nas silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05); CV=6,37%.

 

Essa explicação, sugerida por Van Soest (1994), é pouco aplicável neste estudo já que foram utilizados silos de laboratório e as perdas de MS podem ser consideradas desprezíveis. Morrison (1988), avaliando cinco silagens de alfafa com diferentes aditivos, observou perda de celulose durante o processo de ensilagem em todos os tratamentos. Borges (1995) e Silva (1997) também registraram reduções significativas das percentagens de celulose na maioria dos híbridos pesquisados. Portanto, existem vários indícios da utilização de celulose durante a fermentação ou possíveis erros de amostragem.

Os valores obtidos para celulose (27,2 a 30,2%) observados no material original foram superiores aos obtidos por Borges (1995) (20,1 a 23,4) e Bernardino (1996) (24,3 a 25,8%), inferiores aos de Silva (1997) (32,6 a 36,6%) e semelhantes aos de Pesce (1998) (27,6 a 31,7%). Aos 56 dias de ensilagem as percentagens de celulose foram de 25,6 a 29,7%, superior às obtidas por Borges (1995) (20,0 a 23,1%), Bernardino (1996) (23,7 a 27,3%) e Silva (1997) (22,0 a 25,6%) e semelhante à constatada por Pesce (1998) (27,0 a 30,3%).

Os resultados de lignina antes e após a ensilagem são apresentados na Tab. 5. No material original o genótipo CMSXS156 ´ CMSXS227 apresentou o valor mais alto de lignina diferindo dos demais (P<0,05). Os sorgos CMSXS156 ´ CMSXS607 e CMSXS156 ´ CMSXS506 não diferiram de BR506, CMSXS156 e CMSXS227. BR601 mostrou a menor percentagem de lignina (P<0,05) quando comparado a todos os outros genótipos. Nos períodos restantes (7, 14, 28 e 56 dias) também houve diferenças significativas entre os sorgos estudados. Os genótipos CMSXS156 ´ CMSXS227, CMSXS156, BR506, CMSXS156 ´ CMSXS506 e o CMSXS227 reduziram (P<0,05) os valores de lignina nas silagens em relação ao material original e as silagens. Os sorgos BR601 e CMSXS156 ´ CMSXS607 apresentaram, respectivamente, diferenças significativas entre o material original e 28 dias de ensilagem e entre os períodos de 7 e 14 e de 14 e 56 dias. Segundo Van Soest (1994), a lignina só é utilizada durante o processo fermentativo se houver contaminação das silagens por fungos aeróbicos. Pesce (1998) observou que em 17 dos 20 genótipos pesquisados, não foi encontrada diferença significativa entre os teores de lignina do material original. Borges (1995) constatou que os teores de lignina não apresentaram variações significativas entre os híbridos e nem ao longo do período de fermentação, com exceção do híbrido H2 (forrageiro, baixo tanino e colmo seco), que teve menor concentração na forragem fresca. Nogueira (1995) e Silva (1997) observaram, respectivamente, redução e aumento nos teores de lignina com a ensilagem. Como já foi mostrado neste experimento, ocorreu redução das percentagens de lignina com a ensilagem e, segundo Nogueira (1995), a explicação para esse fato estaria na determinação da fração lignina do material original. Para esse autor, o tanino poderia superestimar os valores, uma vez que ligado à lignina não seria solubilizado pelos detergentes neutro e ácido. Com a degradação dos taninos pela fermentação no silo, tal interferência diminuiria, explicando os menores teores de lignina encontrados nas silagens (Van Soest, 1994). Entretanto, essa hipótese não pode ser aplicada como regra geral, pois no trabalho de Silva (1997) houve aumento de taninos com a ensilagem, resultando em elevação da concentração de lignina ao longo da fermentação. Além disso, existem genótipos de sorgo que não possuem taninos e qualquer inferência em relação a eles pode estar comprometida, já que as técnicas atualmente disponíveis para a sua determinação não são eficientes. Por esse motivo, os taninos não foram quantificados nesta pesquisa.

 

Tabela 5. Valores de lignina do material original das silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05); CV=10,23%.

 

Os teores médios de lignina encontrados no material original e aos 56 dias de ensilagem foram de 5,9 e 4,6%, respectivamente e são relativamente próximos aos obtidos por Borges (1995) (4,9 e 5,4%) e Bernardino (1996) (5,0 e 4,5%). No entanto, foram inferiores aos encontrados por Gomide et al. (1987) (8,0%) e Bruno et al. (1992) (9,3%).

Os resultados de DIVMS são mostrados na Tab. 6. Foram observadas diferenças significativas quanto a percentagem de DIVMS entre os genótipos em todos os períodos avaliados. Contrariamente, Borges (1995), trabalhando com híbridos de porte alto, encontrou valores de DIVMS semelhantes nos diferentes períodos pesquisados. Silva (1997) e Pesce (1998) não observaram alterações dos teores de DIVMS entre os genótipos no material original, porém foram constatadas diferenças significativas aos 56 dias de ensilagem. Com o avanço do processo fermentativo, apenas o genótipo BR506 não modificou os valores de DIVMS. Os genótipos CMSXS156 ´ CMSXS227 e CMSXS156 ´ CMSXS607 mostraram queda na percentagem de DIVMS aos 28 e 56 dias. Os sorgos BR601, CMSXS156 ´ CMSXS506 e CMSXS156 elevaram significativamente as percentagens de DIVMS. CMSXS227 apresentou tendência de queda da DIVMS ao longo da fermentação. Nogueira (1995), Silva (1997) e Pesce (1998) constataram que os teores de DIVMS não modificaram com a ensilagem. No experimento de Bernardino (1996) houve redução nos valores de DIVMS com a ensilagem e, segundo o autor, o fator responsável pode ter sido a diminuição das concentrações de CHOS durante o processo fermentativo. Neste trabalho, a variação dos teores de DIVMS para os genótipos de porte alto foi de 51,5 a 60,9% e dos sorgos de porte baixo de 51,3 a 61,8%. Borges (1995) e Pesce (1998) encontraram, respectivamente, para os genótipos forrageiros os seguintes valores de digestibilidade: 54,4 a 58,4% e 54,1 a 62,9%. Para os genótipos de porte baixo, Nogueira (1995) obteve valor médio de DIVMS de 62,3% e Silva (1997) de 61,7%. Então, de forma geral os teores de DIVMS deste trabalho estão de acordo com os dados encontrados na literatura.

 

Tabela 6. Teores de digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) no material original e nas silagens de sete genótipos de sorgo, expressos em percentagem da matéria seca.

Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha e letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste SNK (P>0,05); CV=3,17%.

 

A digestibilidade das partes da planta (colmo, folha e panícula) tem marcada influência sobre a digestibilidade da planta inteira. Zago (1992) avaliou a digestibilidade das várias partes da planta de quatro cultivares de sorgo e encontrou a digestibilidade do colmo variando de 25,0 a 44,0%, da folha de 46,0 a 51,0% e da panícula de 68,0 a 78,0%, evidenciando o valor da fração panícula como componente para melhorar o valor nutritivo da silagem. Neste experimento, observou-se correlação positiva (P<0,0296; r=0,47) entre a DIVMS e a proporção de folhas e não foram observadas correlações significativas entre DIVMS e as percentagens de colmo e panícula. No entanto, o sorgo BR506, apesar de ter apresentando a menor percentagem de folhas (8,9%), estava entre os genótipos com maior valor de DIVMS, que pode ser explicado pelo fato de ele ser de ciclo tardio e a colheita no estádio de grão leitoso/pastoso, o que o beneficiou em relação aos mais precoces. Silva (1997), trabalhando com sorgos de porte baixo, médio e alto, constatou que os menores valores de DIVMS ocorreram no tratamento com 100% de colmo/folhas e 0% de panícula e que os valores de DIVMS aumentaram progressivamente com a inclusão de panículas nas silagens. Entretanto, Hart (1990) não encontrou diferenças na digestibilidade mesmo quando a proporção de grãos foi elevada. Foi observada neste trabalho correlação negativa (P<0,004; r=–0,60) entre a DIVMS e a percentagem de folhas mortas, concordando com Corrêa (1996) que também encontrou correlação negativa (P<0,01; r=–0,43) entre essas mesmas características. Realmente, os genótipos que apresentaram as maiores proporções de folhas mortas foram os que mostraram no material verde os menores teores de DIVMS.

Não se observou correlação significativa entre a DIVMS e a altura da planta. Segundo Zago (1992), híbridos mais altos produzem maior quantidade de MS mas possuem alta proporção de colmo em relação às folhas e panículas, comprometendo o valor nutritivo da planta. No entanto, de acordo com Corrêa (1996), a altura da planta pode não retratar a proporção de grãos e principalmente a digestibilidade do material, já que no trabalho desse autor o híbrido BR601 (porte alto) apresentou maior digestibilidade que o híbrido CMSXS756 de porte médio e digestibilidade semelhante ao AG 2006 também de porte médio. No presente experimento, tanto no material original como no material ensilado pôde-se observar maior valor de DIVMS para alguns genótipos de porte alto quando comparados a determinados sorgos graníferos. Então, ficou claro que a percentagem de panícula, a proporção de colmo e a altura da planta, que segundo vários autores (Cummins, 1971; Gourley & Lusk, 1978; Zago, 1992 e Silva, 1997) estão interrelacionados e têm influência marcante sobre a DIVMS, foram menos importantes neste estudo pois não se observaram correlações significativas entre essas características e a DIVMS.

Os componentes fibrosos têm sido inversamente relacionados à digestibilidade e, à medida que a planta envelhece, ocorre aumento na percentagem dos componentes estruturais da parede celular em detrimento do conteúdo celular resultando em queda do valor nutritivo. Alguns autores têm afirmado que o aumento da proporção de panícula com o avanço do estádio de maturação da planta compensa a elevação dos teores de carboidratos estruturais e lignina, mantendo e até mesmo aumentando a qualidade nutricional da planta. Neste trabalho foi encontrada correlação negativa (P<0,0323; r=–0,21) entre lignina e DIVMS, concordando com Corrêa (1996) e Silva (1997) que observaram correlações negativas e significativas entre essas mesmas características. Também foram constatadas correlações negativas entre DIVMS e fibra em detergente neutro (P<0,0209; r=–0,23) e entre DIVMS e hemicelulose (P<0,0436; r=–0,20) evidenciando a interferência dos componentes da parede celular na DIVMS.

Borges (1995) classifica as silagens de sorgo, quanto a DIVMS, como muito boa (>65%), boa (65 a 55%), média (55 a 40%) e ruim (<40%). Seguindo esse critério, as silagens dos sorgos BR506, CMSXS156 x CMSXS506 e CMSXS227 são consideradas como de boa qualidade, enquanto que as demais são tidas como de média qualidade.

 

CONCLUSÕES

A não correlação entre a altura e a DIVMS e entre a DIVMS e as percentagens de colmo e panícula mostra que os genótipos de porte alto têm grande potencial para produção de silagens de bom valor nutritivo além de serem mais produtivos que os sorgos graníferos.

A redução significativa dos teores de hemicelulose com o avanço do processo fermentativo comprova que ela é uma importante fonte adicional de carboidratos para a fermentação.

Baseando-se na DIVMS, as silagens dos sorgos BR506, CMSXS156 x CMSXS227 e CMSXS227 são consideradas como de boa qualidade e as silagens dos demais genótipos são tidas como de média qualidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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