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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.6 Belo Horizonte Dec. 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-09352000000600008 

Leiomiossarcoma pulmonar e renal em cão: relato de caso

[Pulmonary and renal leiomyosarcoma in dog: a case report]

 

R. Serakides, F.J.F. Sant’Ana, R.A. Carneiro, G.E. Lavalle

Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 - Belo Horizonte, MG

 

Recebido para publicação, após modificações, em 7 de julho de 2000.
E-mail: serakide@dedalus.lcc.ufmg.br

 

 

RESUMO

Este relato descreve um caso de leiomiossarcoma pulmonar e renal em cão da raça Husky Siberiano, macho, de nove anos de idade e com histórico de emagrecimento progressivo há mais de três meses. Ao exame clínico, o animal apresentava palidez discreta das mucosas e dor intensa à palpação abdominal, além de aumento de volume acentuado dos rins. No hemograma, foi evidenciada anemia discreta e na urinálise foram observados isostenúria e grumos de células do epitélio renal. Os níveis plasmáticos de uréia e creatinina estavam dentro dos limites considerados normais. O animal foi sacrificado após a confirmação de neoplasia renal bilateral por laparotomia exploratória. À necropsia, os rins apresentavam vários nódulos de 0,5 a 4cm de diâmetro, esbranquiçados e firmes. Na região do hilo e no lobo apical esquerdo dos pulmões havia aumento de volume, com 11 ´ 7cm de extensão, de superfície irregular e bem vascularizada, esbranquiçada e com áreas de consistência ora firmes, ora friáveis. No lobo apical direito também havia um nódulo com 1cm de diâmetro, firme e esbranquiçado. Secções histológicas dos pulmões e dos rins foram coradas pela hematoxilina-eosina, Masson e Van Gieson. Foi detectada positividade, pela imuno-histoquímica, para a vimentina e actina alfa de músculo liso. Não houve imunomarcação para citoqueratinas 1, 5, 10, 14, 8 e 7, proteína S100 e para CD68. Com base nos achados anatomopatológicos e imuno-histoquímicos foi firmado o diagnóstico de leiomiossarcoma pulmonar e renal, sem, no entanto, definir o sítio primário da neoplasia.

Palavras-chave: Cão, rins, pulmões, leiomiossarcoma, imuno-histoquímica

 

ABSTRACT

This report describes a case of pulmonary and renal leiomyosarcoma in a nine-year-old Siberian Husky male dog with a history of progressive weight loss. Clinically, the animal had mildly pale mucosae and severe abdominal pain. Kidneys enlargement also was observed. On hemogram, a mild anemia was observed. On urinalysis, isosthenuria and renal epithelial cells were detected. Urea nitrogen and creatinine levels were normal. Bilateral renal neoplasia was diagnosed by laparotomy and the animal was submitted to euthanasia. On necropsy, many whitish firm nodules ranging from 0.5 to 4cm in diameter were found in the kidneys. The region of the hilum and the left apical lobe of the lungs had a mass with 11´ 7cm in area which was well vascularized and had an irregular whitish surface with either firm or friable areas. There was also a whitish firm nodule with 1cm in diameter in the right apical lobe. Histological sections were stained by hematoxilin-eosin, Masson and van Gieson. Positivity for the vimentin and smooth muscle actin were detected by immunohistochemistry. Cytokeratin 1, 5, 10, 14, 8 and 7, protein S100 and CD68 markers showed negative reactions. The anatomopathological and immunohistochemistry features allowed the diagnosis of pulmonary and renal leiomyosarcoma. However, it was not possible to determine the primary site of the neoplasia.

Key words: Dog, kidneys, lungs, leiomyosarcoma, immunohistochemistry

 

 

INTRODUÇÃO

As neoplasias mesenquimais primárias dos rins e dos pulmões são raras nos animais domésticos (Moulton, 1990). Osteossarcoma (Brodey, 1971), hemangiossarcoma e schwanoma (Moulton, 1990) pulmonares já foram diagnosticados em cães. No entanto, na literatura veterinária, o único relato de leiomiossarcoma primário dos pulmões foi descrito por Shortridge & Cordes (1971) em bovinos.

Apesar das neoplasias mesenquimais primárias dos rins também serem consideradas raras, as mais freqüentemente diagnosticadas têm sido o fibroma e o fibrossarcoma, seguidas pelo hemangioma e pelo hemangiossarcoma (Nielsen et al., 1976). Neoplasias benignas e malignas das células musculares lisas estão entre as neoplasias renais mais raras (Nielsen et al., 1976; Moulton, 1990). O único relato de leiomiossarcoma renal em bovino também foi descrito por Shortridge & Cordes (1971).

Leiomioma e leiomiossarcoma são neoplasias mais freqüentemente diagnosticadas nos tratos intestinal e reprodutivo. Embora os vasos sangüíneos estejam entre os sítios com maior quantidade de fibras musculares lisas, é difícil reconhecer a origem vascular dessas neoplasias (Moulton, 1990). Leiomiossarcomas vasculares originários das artérias (Marchetti et al., 1996) e das veias pulmonares (Oliai et al., 1999) somente foram diagnosticados no homem.

Algumas neoplasias renais têm sido diagnosticadas como sarcomas em decorrência da impossibilidade de se definir a origem das células mesenquimais neoplásicas (Rudd et al., 1991). O leiomiossarcoma é uma dessas neoplasias que pode ser de difícil reconhecimento, quando se utiliza somente o exame histológico. Ela requer, portanto, o uso de técnicas imuno-histoquímicas para seu diagnóstico seguro (Bures et al., 1981; Moulton, 1990).

Este relato tem por objetivo descrever as características clínicas, anatomopatológicas e imuno-histoquímicas de um caso de leiomiossarcoma pulmonar e renal, que parece ser o primeiro relato em cão, confirmado pela imuno-histoquímica.

 

CASUÍSTICA

Um cão da raça Husky Siberiano, macho, de nove anos de idade e com histórico de emagrecimento progressivo há mais de três meses, foi o objeto deste estudo. Ao exame clínico, o animal apresentava palidez discreta das mucosas e dor intensa à palpação abdominal, além de aumento de volume acentuado dos rins. No hemograma, foi evidenciada anemia discreta (4,93´106 de hemácias/mm3). Na urinálise foram observados isostenúria e grumos de células do epitélio renal. As concentrações de uréia e creatinina plasmáticas estavam dentro dos limites considerados normais. O animal foi sacrificado após a confirmação de neoplasia renal bilateral por laparotomia exploratória.

À necropsia, os pulmões apresentavam na região do hilo e no lobo apical esquerdo aumento de volume, de 11´7cm de extensão, muito invasivo, de coloração esbranquiçada, de superfície irregular e bem vascularizada (Fig. 1) e com áreas de consistência ora firmes, ora friáveis. No lobo apical direito havia também um nódulo de 1cm, esbranquiçado e firme. Nas regiões cortical e medular dos rins havia alguns nódulos bem delimitados, de 0,5 a 4cm de diâmetro, esbranquiçados e firmes (Fig.2). Nenhuma alteração macroscópica foi observada nos linfonodos bronquiais e mediastinais.

 

 

 

Fragmentos dos pulmões e dos rins foram fixados em formalina a 10% neutra e tamponada, processados pela técnica de inclusão em parafina e corados pelas técnicas da hematoxilina-eosina, Van Gieson e Masson (Prophet et al., 1992).

A fim de estabelecer um diagnóstico definitivo e seguro da neoplasia, secções histológicas dos pulmões e dos rins também foram submetidas a reações imuno-histoquímicas pela técnica da estreptoavidina-biotina-peroxidase e contra-coradas com hematoxilina de Harris. Com o objetivo de proporcionar a exposição antigênica dos tecidos e aumentar a reatividade com os anticorpos primários, foi utilizada a técnica de recuperação antigênica pelo calor da panela de pressão (Alves et al., 1999).

Como anticorpos primários foram utilizados: antivimentina (V9), antialfa actina de músculo liso (1A4)1, anticitoqueratina 8 (35b H11), anticitoqueratina 1, 10, 5 e 14 (34b E12), anticitoqueratina 7 (OV-TL 12/30), anti-CD68 (KP1) e antiproteína S100 (policlonal)1.

Ao exame histológico, os pulmões apresentavam proliferação intensa de células ora fusiformes com citoplasma escasso, ora epitelióides com citoplasma abundante e com núcleos intensamente pleomórficos (Fig.3), com cromatina densa e com mais de um nucléolo. Células gigantes multinucleadas e figuras mitóticas também estavam presentes em grande quantidade. Em algumas áreas, as células fusiformes apresentavam-se dispostas em pequenos feixes com orientação variada (Fig.4). Ainda nos pulmões foram observadas algumas células neoplásicas presentes no lúmen e aderidas ao endotélio de uma árteria de grande calibre. Havia também algumas áreas de necrose.

Nos rins, as células neoplásicas apresentavam as mesmas características daquelas presentes no pulmões. No entanto, havia menor número de células gigantes multinucleadas e não foram observadas áreas de necrose. Havia ainda entre as células neoplásicas alguns focos de células inflamatórias, representadas principalmente por neutrófilos. No parênquima renal adjacente afora os sinais de compressão, devido à proliferação neoplásica, nenhuma outra alteração significativa foi evidenciada.

Pela coloração de Masson, secções da neoplasia pulmonar e renal apresentavam predomínio de feixes de células fusiformes corados em verde e alguns feixes corados em vermelho, de permeio a inúmeras células epitelióides com citoplasma corado em verde. As secções coradas pelo Van Gieson apresentavam somente alguns feixes corados em amarelo.

O resultado das reações imuno-histoquímicas apresenta-se sumariado na Tab.1. Secções dos rins e dos pulmões apresentaram reatividade intensa e difusa para vimentina presente nas células epitelióides, fusiformes e nas células gigantes multinucleadas (Fig.5). As células fusiformes e epitelióides, presentes tanto nos pulmões quanto nos rins, também revelaram reatividade intensa e difusa para actina alfa de músculo liso (Fig.6). Vasos sangüíneos dos parênquimas renal e pulmonar, adjacentes à proliferação neoplásica, apresentaram a camada muscular marcada intensamente para actina alfa de músculo liso, servindo como controle positivo interno (Fig.7). As células neoplásicas não apresentaram reatividade para CD68, proteína S100 e para as citoqueratinas. Já as células do epitélio dos túbulos renais, adjacentes à proliferação neoplásica, apresentaram reatividade para as citoqueratinas, servindo também como controle positivo interno.

 

 

DISCUSSÃO

Alguns tumores renais têm sido responsabilizados pelo desencadeamento de policitemia absoluta, por conduzirem ao aumento dos níveis plasmáticos de eritropoietina (Nelseon & Hager, 1983; Gorse, 1988). Entretanto, sinais de anemia, também observados no presente caso, já foram descritos como conseqüência de carcinoma renal (Lappin & Latimer, 1988).

Apesar dos fatores etiológicos envolvidos na gênese do leiomiossarcoma serem desconhecidos, receptores para estrógeno já foram identificados no leiomiossarcoma uterino (Oliai et al., 1999), sugerindo que essa neoplasia no útero seja responsiva a variações desse esteróide sexual. Essa assertiva também é atestada pelo fato de leiomiossarcomas uterinos serem menos agressivos em mulheres que estão na pré-menopausa (Wick et al., 1982). No entanto, a literatura humana e veterinária carece de mais estudos sobre a influência desses hormônios na gênese do leiomiossarcoma localizado em outros sítios.

O exame anatomopatológico conduziu a suspeitas de fibrossarcoma, fibro-histiocitoma e de leiomiossarcoma, não permitindo a diferenciação entre eles nem o estabelecimento de um diagnóstico definitivo. Colorações especiais como Van Gieson e Masson, utilizadas rotineiramente para diferenciar tumores das fibras conjuntivas daqueles oriundos das fibras musculares lisas, apesar de reforçar ainda mais a suspeita de leiomiossarcoma, não definiram o diagnóstico. Somente o resultado das reações imuno-histoquímicas permitiu firmar o diagnóstico de leiomiossarcoma pulmonar e renal.

Embora alguns leiomiossarcomas de aspecto epitelióide também possam expressar citoqueratinas (Alves et al., 1999), neste caso nenhuma das células, tanto epitelióides quanto fusiformes, apresentou reatividade para os anticorpos anticitoqueratinas. No entanto, a utilização do anticorpo contra actina alfa de músculo liso, considerado o marcador imuno-histoquímico mais sensível para o diagnóstico dos tumores das fibras musculares lisas, foi essencial para o diagnóstico seguro de leiomiossarcoma.

O leiomiossarcoma pulmonar pode originar-se da musculatura de brônquios e de grandes vasos (Marchetti et al., 1996; Oliai et al., 1999), mas, no presente caso, apesar de a neoplasia acometer a região do hilo pulmonar, não foi possível definir seu sítio de origem, em decorrência de suas características invasivas. A imuno-histoquímica também pode ser utilizada para definir o sítio primário de neoplasias, já tendo sido utilizada para confirmar a origem renal de alguns carcinomas com metástase pulmonar (Kelley et al., 1996; Serakides et al., 1999). Apesar de não ter sido possível definir o sítio primário, existe a possibilidade de o leiomiossarcoma ter tido origem ou nos pulmões ou nos rins, embora ambos sejam considerados sítios raros de desenvolvimento primário dessa neoplasia (Moulton, 1990).

Com base nos achados anatomopatológicos e imuno-histoquímicos foi firmado o diagnóstico de leiomiossarcoma pulmonar e renal sem, no entanto, definir o sítio primário da neoplasia.

 

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