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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.52 n.6 Belo Horizonte Dec. 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-09352000000600010 

Eletrocardiografia computadorizada em cães

[Computerized electrocardiography in dogs]

 

R. Wolf1, A.A. Camacho2*, R.C.A. Souza3

1Aprimoranda em Medicina Veterinária da FCAV - Unesp- Campus de Jaboticabal
2Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) – Unesp – Campus de Jaboticabal
Via de acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n
14884-900 – Jaboticabal, SP
3Mestranda em Patologia Animal da FCAV – Unesp

 

Recebido para publicação, após modificação, em 6 de setembro de 2000.
E-mail: camacho@fcav.unesp.br
*Autor para correspondência

 

 

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi analisar e comparar os registros eletrocardiográficos de cães clinicamente normais, obtidos pelos métodos convencional, computadorizado e pela leitura direta do registro computadorizado impresso, visando padronizar o método informatizado e confrontá-lo com o convencional. Concluiu-se que existem diferenças quanto a amplitude e duração da onda P e duração do complexo QRS entre diferentes métodos, especialmente em relação ao computadorizado, devendo-se sempre levar em consideração esse fato durante a interpretação dos exames.

Palavras-Chave: Cão, eletrocardiografia computadorizada, eletrocardiografia convencional

 

ABSTRACT

The objective of this work was to analyze and to compare the electrocardiograms of normal dogs, obtained by conventional and computerized methods and by reading the computerized registration printed on paper. The obtained results showed that there are differences among the three methods on P wave and QRS complex.

Keywords: Dog, computerized electrocardiography, conventional electrocardiography

 

 

INTRODUÇÃO

Os primeiros estudos sobre fisiologia cardíaca datam do início do século XVII por William Harvey, mas só em 1887 Augustus Waller registrou pela primeira vez o potencial elétrico cardíaco a partir da superfície corpórea, sendo o primeiro a usar o termo eletrocardiograma. A partir daí, outros estudiosos como Eithoven e Nürr desenvolveram novos aparelhos para registro da atividade elétrica cardíaca e conceitos na eletrocardiografia, passando a ser utilizada como auxílio no diagnóstico. Em 1949, Lannek efetivou um estudo sistemático dos registros em cães saudáveis e doentes, introduzindo um sistema de derivações pré-cordiais (Tilley, 1992; Ferreira et al., 1998).

O eletrocardiógrafo, por definição, é um aparelho (voltímetro) que capta o potencial elétrico gerado pela atividade cardíaca que se propaga até a superfície do corpo, convertendo-a num registro gráfico da amplitude em função do tempo, o qual denomina-se eletrocardiograma (Ferreira et al., 1998).

A eletrocardiografia (ECG) é o mais importante método de diagnóstico das arritmias cardíacas, podendo determinar a origem do ritmo e a freqüência de despolarização do coração, fornecendo informações do estado clínico do miocárdio, uma vez que as deflexões P-QRS-T do traçado podem ser alteradas por uma patologia ou fator fisiológico. As arritmias são comuns em cães, produzindo sinais clínicos como fadiga, intolerância ao exercício, perda de peso e em casos mais severos podem causar ataxia, colapso, coma e morte súbita. As informações obtidas por meio da ECG são essenciais para a determinação do tipo, origem e severidade das arritmias cardíacas, bem como no direcionamento terapêutico (Edwards, 1987; Stepien, 1994; Ettinger, 1997).

Com o avanço da informática, a eletrocardiografia computadorizada tem sido utilizada na medicina humana como método de diagnóstico auxiliar e, atualmente, vem sendo cada vez mais empregada na medicina veterinária. Segundo Skoula (1996), a literatura é relativamente escassa em dados sobre a eletrocardiografia computadorizada em cães. Não há estudo prévio de diagnóstico de freqüência cardíaca em cães pela ECG computadorizada.

A eletrocardiografia computadorizada tem apresentado maior acurácia em relação ao método convencional, conforme citam Shiwen et al. (1996), pois a mensuração computadorizada da ECG detecta leituras de 1 milissegundo, enquanto na convencional a leitura só pode ser feita a partir de 5 milissegundos, com papel em velocidade de 100 mm/s.

Quanto às vantagens, a ECG computadorizada possibilita sua utilização em serviços eletrocardiográficos de emergência, apresentando reprodutibilidade de medidas, progresso em controle de qualidade, diminuição no tempo requerido para exame e capacidade para manejar grandes volumes de ECGs em menor tempo (Tilley, 1992).

O objetivo deste trabalho foi analisar e comparar os registros eletrocardiográficos obtidos pelos métodos convencional, computadorizado e pela leitura do registro computadorizado impresso de cães clinicamente normais, visando padronizar o método informatizado e confronta-lo com o tradicional.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa foi realizada no Serviço de Cardiologia do Hospital Veterinário da FCAV- Unesp, Campus de Jaboticabal (SP), onde foram utilizados 49 cães adultos, machos e fêmeas, sem raça definida, clinicamente normais, mantidos em canis apropriados, com ração e água ad libitum.

Os animais foram submetidos a exames eletrocardiográficos pelos métodos convencional e computadorizado. Pelo método convencional, utilizou-se o aparelho monocanal (ECG 6 - ECAFIX), munido de papel termossensível milimetrado próprio para traçados eletrocardiográficos. No estudo pelo método informatizado, os exames foram efetuados pelo eletrocardiógrafo computadorizado (Módulo de Aquisição de ECG Para Computador (ECG - PC versão Windows 95) - Tecnologia Eletrônica Brasileira (TEB)) composto por um circuito eletrônico ligado externamente a um microcomputador padrão IBM-PC (Pentium, 1660 MHz, 32 MB) e de um software instalado no disco rígido do micro. Após a realização do exame eletrocardiográfico pelo método computa-dorizado, foram obtidos traçados impressos dos trechos registrados de cada animal, para leitura dos parâmetros eletrocardiográficos em papel (denominado método computadorizado B). Este papel impresso possui milimetragem para leitura das ondas, intervalos e segmentos definidas pelo programa eletrônico, utilizando-se impressora tipo jato de tinta (Impressora HP Deskjet 692) acoplada ao eletrocardiógrafo computadorizado para impressão dos registros.

Para o delineamento experimental, os cães foram divididos em três grupos de acordo com o peso corpóreo, conforme o descrito a seguir: grupo 1 composto por 13 cães com pesos até 9,9kg, grupo 2 composto por 26 cães com pesos entre 10 e 20kg e grupo 3 formado por 10 animais com peso acima de 20kg.

A partir desse protocolo, pôde-se analisar os dados da atividade elétrica cardíaca de uma maneira correta e mais adequada, uma vez que foram considerados padrões de peso durante a leitura e interpretação dos exames eletrocardiográficos.

Para a tomada dos parâmetros eletrocardiográficos, prosseguiu-se com o posicionamento dos animais em decúbito lateral direito sobre mesa apropriada, colocando-se agulhas hipodérmicas metálicas finas (Agulhas hipodérmicas metálicas finas Becton Dickinson B-D (25´6)) (25´6) no tecido subcutâneo, para fixação dos eletrodos (Becton Dickinson B-D) e para obtenção de registros livres de interferência. Para as derivações de membros bipolares e unipolares aumentadas, os eletrodos torácicos direito e esquerdo foram posicionados acima do olécrano, no seu aspecto caudal e os eletrodos pélvicos direito e esquerdo, acima dos ligamentos patelares no aspecto anterior de cada membro. A velocidade usada para os registros foi de 50mm por segundo, com calibração da voltagem de 1 centímetro para cada milivolte (1mV=1cm).

Os exames eram sempre feitos de modo que, em cada cão, realizavam-se seqüencialmente ambos os registros.

Os eletrocardiogramas foram analisados na derivação bipolar II (DII), observando-se as características do ritmo cardíaco e os valores referentes a freqüência cardíaca, duração (milisegundos - ms) e amplitude (milivolts - mV) da onda P, duração do intervalo PR e do complexo QRS, amplitude da onda R, duração do intervalo QT, características da polaridade da onda T, presença ou não de desnivelamento do segmento ST e valor em graus do eixo médio de P e QRS. As medidas eletrocardiográficas foram analisadas segundo a descrição feita por Tilley (1992).

A análise estatística foi realizada por meio de teste t pareado para interpretação dos possíveis efeitos que levaram a alterações nas médias de cada variável em relação aos métodos eletrocardiográficos estudados (Snedecor & Cochran, 1967).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados obtidos foram organizados em seis tabelas, distribuídos de acordo com os parâmetros analisados de medidas eletrocardiográficas, como freqüência e ritmos cardíacos, polaridade da onda T e nivelamento do segmento ST, obtidos nos diversos grupos de cães e por meio de diferentes métodos eletrocardiográficos estudados.

A Tab. 1 mostra os valores médios das eletrocardiografias convencional e computadorizada. Não se verificou diferença significativa nos valores de freqüência cardíaca entre os grupos. A amplitude e a duração da onda P e do complexo QRS foram maiores (P<0,01) na ECG computadorizada. Contudo, ocorreu diferença (P<0,05) na amplitude da onda R somente nos grupos 1 e 2, com valores superiores no método computadorizado.

 

 

Os intervalos PR e QT não apresentaram diferenças significativas nos grupos. O eixo elétrico de P apresentou valores menores no grupo 1 e maiores no grupo 3 em ambos os tipos de eletrocardiograma. Os valores foram maiores na ECG convencional no grupo 2 (P<0,05) e no grupo 3 (P<0,01). Do mesmo modo, o eixo elétrico de QRS apresentou valores maiores na ECG convencional apenas no grupo 2 (P<0,05).

A Tab. 2 apresenta os valores médios das eletrocardiografias convencional e computa-dorizada B. Não houve diferença significativa entre grupos em relação à freqüência cardíaca, ao intervalo PR e ao eixo de QRS. A duração da onda P foi diferente (P<0,05) apenas no grupo 1, com maior valor para a ECG convencional. A amplitude da onda P mostrou maiores valores na ECG computadorizada B no grupo 2 (P<0,01) e no grupo 3 (P<0,05). O complexo QRS apresentou valores maiores quando realizado pela ECG computadorizada B apenas no grupo 2 (P<0,01). A amplitude da onda R apresentou valores maiores pela ECG computadorizada B nos grupos 1 e 2 (P<0,05). O intervalo QT apresentou valores maiores na ECG convencional no grupo 1 (P<0,01) e no grupo 2 (P<0,05). Quanto ao eixo elétrico de P, o método convencional apresentou valores maiores apenas no grupo 3 (P<0,05).

 

 

Os valores médios e erros-padrão dos parâmetros dos três grupos de cães obtidos a partir das eletrocardiografias computadorizada e computadorizada B são apresentados na Tab. 3. Neste estudo observou-se que não houve diferença significativa quanto à freqüência cardíaca, amplitudes da onda P e onda R e eixo QRS. Com relação à duração da onda P e do intervalo QT, os valores foram maiores pelo método computadorizado (P<0,01) em todos os grupos de cães estudados e em ambas as variáveis. A ECG computadorizada mostrou maiores valores quanto à duração do intervalo PR (P<0,01) no grupo 1 e do complexo QRS (P<0,01) nos grupos 2 e 3. Quanto ao eixo de P, o maior valor obtido foi pelo método computadorizado B (P<0,05).

 

 

A porcentagem de ocorrência das características de polaridade da onda T, do nivelamento do segmento ST e do tipo de ritmo cardíaco, respectivamente, nos animais dos grupos submetidos a eletrocardiografias convencional, computadorizada e computadorizada B podem ser observados nas Tab. 4, 5 e 6.

 

 

 

 

 

 

Quanto a polaridade da onda T (Tab. 4), verificou-se porcentagem maior de ondas bifásicas pelo método computadorizado e porcentagem menor de ondas negativas pelo método computadorizado B, exceto para os grupos 2 e 3, cujos valores foram iguais ao método computadorizado. Esses achados podem ser explicados pela maior acurácia do registro computadorizado em relação ao convencional e pela menor capacidade visual humana durante a leitura pelas eletrocardiografias computadorizada B e convencional. Segundo Pelter et al. (1997), o ser humano só consegue mensurar desníveis a partir de 0,05 milivolts, enquanto que o computador detecta desde 0,01 milivolts.

Em relação ao nivelamento do segmento ST (Tab. 5), observaram-se variações, tendo-se detectado menor porcentagem de segmentos isoelétricos no método computadorizado em todos os grupos. Isso decorre também da menor capacidade de percepção do homem durante as leituras pelo método convencional, ressaltando-se ainda que os valores de ST estavam sempre dentro dos limites de normalidade referidos por Tilley (1992).

Os dados da Tab. 6 revelam que o ritmo cardíaco mostrou-se praticamente constante nos três tipos de ECG, o que evidencia uma prevalência de arritmia sinusal respiratória (ASR) em todos os grupos (84,2%) com declínio percentual no grupo 3 (60 a 70%), ou seja, animais acima de 20kg. Além disso, a observação do marcapasso migratório em relação ao ritmo cardíaco foi mais freqüente em animais de menor peso, estando associada à ASR nesses indivíduos, confirmando a citação de Tilley (1992), a qual aponta a presença de marcapasso migratório geralmente associada à arritmia sinusal respiratória.

 

CONCLUSÕES

Considerando-se as diferenças entre as leituras (em especial a do método computadorizado em relação aos demais, cujos valores médios de duração da onda P e do complexo QRS apresentaram-se no limite superior ou fora do padrão de normalidade preconizado para o método convencional), deve-se atentar a essas diferenças durante a interpretação eletrocardiográfica computadorizada de cães clinicamente normais e cardiopatas, fundamentando-se a interpretação nos valores padronizados para o método informatizado.

 

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