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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.1 Belo Horizonte Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000100007 

Efeitos cardiorrespiratórios da tiletamina-zolazepam em cães hipovolêmicos

[Cardiorespiratory effects of tiletamine-zolazepan in hypovolemic dogs]

 

C.A.A. Valadão1, C.E. Pacchini2

1Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP
Via de Acesso Prof. Paulo D. Castelane, s/n
14884-900 – Jaboticabal, SP
2Universidade de Marília, SP

 

Recebido para publicação, após modificações, em 26 de junho de 2000.
E-mail: valadao@fcav.unesp.br
Apoio: Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP – Processo nº 96/12830-0)

 

 

RESUMO

O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da associação tiletamina-zolazepam em cães hipovolêmicos. Estudaram-se as alterações cardiovasculares em 14 cães, divididos em grupo A (controle, n=7) e grupo B (experimental, n=7). Os cães foram anestesiados com sevoflurano (1,5 concentração alveolar mínima - CAM) para a implantação dos cateteres venosos, arteriais e da termodiluição. A concentração do sevoflurano foi reduzida (0,5 CAM) e nos cães do grupo B, induziu-se hipovolemia retirando-se sangue na proporção de 30ml/kg de peso corpóreo. Subseqüentemente, registraram-se as freqüências cardíaca (FC) e respiratória (FR), a pressão arterial (PAM) e o débito cardíaco (DC), e aplicaram-se 10 mg/kg de tiletamina-zolazepam, pela via intravenosa. Aos cães do grupo A aplicou-se igual tratamento. Os cães foram observados por 120 minutos. A associação tiletamina-zolazepam produziu apnéia transitória e manteve estável a FC, PAM e DC. O resultados permitem concluir que a associação manteve estáveis as pressões arteriais sistólica, diastólica e média, e não alterou o débito cardíaco, podendo vir a ser usada com segurança na anestesia de cães com hipovolemia.

Palavras-chave: Cão, tiletamina-zolazepam, hipovolemia, anestesia dissociativa

 

ABSTRACT

Cardiovascular alterations were studied in 14 mongrel dogs divided into two groups (A n=7 control; B n=7, with hypovolemic dogs) under sevoflurane anesthesia (0.5 minimal alveolar concentration - MAC). Thirty minutes after the induction, blood was removed from right femural artery, equivalent to 30ml/bw (body weight). Thirty minutes past bleeding 10 mg/kg tiletamine-zolazepan (TZ) were given intravenously. No changes were noticed in heart rate, arterial blood pressure and cardiac output but TZ had induced transitory apnea immediately after injection. It was observed that tiletamine- zolazepan produced transitory breathing depression and it seems that it do not induce significant cardiovascular changes in hypovolemic dogs.

Keywords: Dog, tiletamine-zolazepan, hypovolemia, dissociative anesthetics

 

 

INTRODUÇÃO

As associações anestésicas têm sido bastante utilizadas com o objetivo de promover a somatória de efeitos benéficos, diminuir os riscos e os efeitos colaterais inerentes à ação isolada de algumas substâncias anestésicas. O grupo de substâncias anestésicas formado pela fenciclidina, cetamina e tiletamina produz um tipo de anestesia classificada como dissociativa, caracterizada pela interrupção do fluxo de informações para o córtex sensitivo, deprimindo seletivamente alguns centros cerebrais (Lumb & Jones, 1996). A anestesia dissociativa é caracterizada por analgesia, manutenção dos reflexos oculares (palpebral e corneal), faríngeo e laríngeo, associado ao aumento do tônus muscular (catalepsia), nistagmo, sialorréia e lacrimejamento (Muir III & Hubbell, 1995).

Esses anestésicos interferem com a neurotransmissão gabaérgica e bloqueiam o processo de transporte neuronal da serotonina, dopamina e norepinefrina (Paddleford, 1988). A ação simpatomimética das ciclo-hexaminas eleva a freqüência cardíaca e produz vasoconstrição periférica, aumentando a pressão arterial (Massone, 1994).

Segundo Booth (1992), a tiletamina induz efeitos farmacológicos mais potentes e duradouros do que aqueles observados com o uso de outros agentes dissociativos. Chen et al. (1969) notaram que tanto a freqüência cardíaca (FC) como a pressão arterial (PA) elevaram-se em cães tratados com a tiletamina.

O cloridrato de zolazepam possui propriedades sedativa, hipnótica, relaxante muscular e anticonvulsiva, com efeito mínimo sobre o sistema cardiovascular e respiratório (Hatch et al., 1988; Hellyer et al., 1991; Lin et al., 1993; Muir iii & Hubbell, 1995). Alguns benzodiazepínicos podem produzir diminuição da pressão arterial e subseqüente aumento da freqüência cardíaca, sem alterar o débito cardíaco (DC) ou, ainda, depressão da ventilação alveolar (Rall, 1991). Quando administrado na dose de 2,0 mg/kg, o zolazepam não altera a função cardiovascular em cães, e somente em doses superiores a 10 mg/kg produz diminuição da resistência vascular, hipotensão e taquicardia (Kolata & Rowling, 1982; Lin et al., 1993). Esse benzodiazepínico é complementar à ação da tiletamina, melhorando a indução, o miorrelaxamento e a analgesia, reduzindo a incidência de episódios catalépticos, sem abolir os reflexos protetores e corneal, produzindo sialorréia (Fieni et al., 1988; Lin et al., 1993). Foi observado aumento da freqüência cardíaca com diminuição concomitante da pressão arterial após a injeção da associação, tanto em cães como em outras espécies (Hatch et al., 1988).

O sevoflurano é um anestésico halogenado que produz indução anestésica rápida e suave, cujas características farmacodinâmicas e seu baixo coeficiente de solubilidade favorecem a rápida indução por máscara e asseguram a estabilidade cardiovascular (Scheller, 1992; Conzen & Nuscheler, 1996; Smith et al., 1996).

A concentração alveolar mínima do sevoflurano recomendada para cães é de 2,4 vol. % (Muir III & Hubbell, 1995; Paddleford, 1999). esse anestésico reduz a pressão arterial de maneira dose-dependente, sem interferir com a função cardíaca e arterial (Kazama & Ikeda, 1985; Bernard et al., 1990; Mutoh et al., 1995; Smith et al., 1996).

Ao estudar a hipovolemia experimental em cães anestesiados com 30 mg/kg de cetamina, Nam (1977) registrou aumento da duração da anestesia e elevação da freqüência cardíaca sem observar alterações na freqüência respiratória. Reis-Oliveira et al. (1980) observaram aumento na freqüência cardíaca e redução do débito cardíaco e da pressão arterial após a indução da hipovolemia em cães. Essas alterações normalizaram-se após a injeção de cetamina. Haskins & Patz (1990) observaram, após hemorragia experimental, aumento da freqüência cardíaca com diminuição da pressão arterial e do débito cardíaco. A aplicação de cetamina restabeleceu o valor normal do débito cardíaco e aumentou a pressão arterial e a freqüência cardíaca.

Apesar dos inúmeros trabalhos já realizados com a associação tiletamina-zolazepam, a literatura carece de informações consistentes relativas aos efeitos cardiovasculares dessa associação em animais com perda de sangue por traumas ou por outras causas que induzam hipovolemia. Dessa forma, objetivou-se avaliar os efeitos cardiocirculatórios e respiratório em cães submetidos a hipovolemia e anestesiados com a associação tiletamina-zolazepam (TZ).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 14 cães, machos, pesando 13,5 ± 4,5 quilos, adultos, de idade inferior a cinco anos, sem raça definida, fornecidos pelo Serviço Municipal de Combate à Raiva e de Outras Zoonoses do Município de Jaboticabal. Após triagem, eles foram alimentados, vermifugados e mantidos em canis por aproximadamente dois meses, visando estabelecer uma boa condição clínica e nutricional. No período de uma semana antes do início do experimento os animais foram manipulados e condicionados ao ambiente experimental. Para a execução do experimento, os cães foram divididos aleatoriamente em dois grupos de igual número (n=7), um com animais normovolêmicos (controle) e outro com animais submetidos a hipovolemia (experimental), denominados A e B, respectivamente.

Na véspera da realização do experimento, os animais selecionados foram submetidos a exame clínico e submetidos a jejum alimentar e hídrico por seis horas.

As seguintes características foram mensuradas: freqüência cardíaca (FC), pressão arterial média (PAM), pressão arterial sistólica (PAS), pressão arterial diastólica (PAD), débito cardíaco (DC) e freqüência respiratória (FR) nos intervalos de tempos determinados, T-45 (imediatamente antes da indução com sevoflurano, em ambos os grupos), T-30 (imediatamente após preparação experimental do animal, já induzido por sevoflurano, em ambos os grupos), T0 (imediatamente antes da aplicação da associação TZ e no caso do grupo B, após a realização da sangria para produção de hipovolemia), T15 (decorridos 15 minutos da aplicação da associação TZ, em ambos os grupos), T30 (decorridos 15 minutos do T15, em ambos os grupos), T45 a T120 (mensurações sucessivas em intervalos de 15 minutos até o período final de observação, 120 minutos, em ambos os grupos).

Cada animal do grupo A foi pesado e conduzido à sala de experimentação onde foram aferidas a FC e a FR. Na seqüência, os cães foram mantidos sob contenção manual sobre uma mesa cirúrgica e então foi-lhes administrado sevoflurano (Sevorane – Lab Abbot – SP), por máscara, para a indução da anestesia. Após a perda dos reflexos posturais, faríngeos e laríngeos, os animais foram então posicionados em decúbito dorsal e intubados, mantendo-se a anestesia com 1,5 concentração alveolar mínima (CAM) de sevoflurano, estabelecida por meio de leitura da concentração da mistura anestésica expirada, exibida pelo monitor (POET IQ - Criticare - WI, USA). Subseqüentemente, após preparo do campo operatório, dissecou-se e cateterizou-se a artéria femoral direita, aplicando-se um cateter (16 G - Abocart - Lab. Abbot – SP) no seu lúmen, para posteriormente realizar-se a mensuração da pressão arterial (Digimax - Digicare – RJ). A seguir, após raspagem dos pêlos e antisepsia da região cervical ventral, procedeu-se a dissecação da veia jugular direita, praticando-se pequena incisão nela. Tal incisão foi suficiente para a introdução do cateter de Swan Ganz (Swan Ganz 5 F - Baxter – USA), que foi passado pelo átrio e ventrículo direitos, cuja extremidade foi posicionada na artéria pulmonar. Este cateter foi conectado ao aparelho para a mensuração do débito cardíaco por termodiluição (Dixtal Mod. 2010 com módulo para débito cardíaco), mediante injeção de 3ml de solução salina (Soro fisiológico - Aster - Sorocaba – SP) a 3± 1ºC. Esse procedimento foi repetido por mais duas vezes consecutivas, para cada momento de mensuração do débito cardíaco. Após se obterem os três valores, determinou-se o valor médio, o qual foi utilizado como valor do débito cardíaco. Em seguida, a concentração alveolar mínima de sevoflurano foi reduzida para 0,5 CAM, aguardando-se um período de 30 minutos para a estabilização da anestesia. Imediatamente após esse tempo procedeu-se a mensuração das características cardiorrespiratórias (T-30). Os valores de freqüência cardíaca (bat/min) foram obtidos por meio de leitura direta no monitor de eletrocardiografia (Dixtal Mod. 2010 com módulo para eletrocardiografia). Para medir as pressões arteriais sistólica (PAS), diastólica (PAD) e média (PAM) utilizou-se o método invasivo, através do cateter colocado na artéria femoral, o qual foi conectado ao transdutor do aparelho. A freqüência respiratória foi mensurada pela leitura direta no monitor de gases expirados. Imediatamente antes da injeção intravenosa de 10 mg/kg de TZ9, foram repetidas as mensurações (T0).

Decorridos 15 minutos (T15) da injeção da associação TZ, as mesmas características foram reavaliadas e, subseqüentemente, repetiram-se essas avaliações em intervalos de 15 minutos, até o tempo de 120 minutos (T120). Durante o procedimento experimental os animais receberam solução de Ringer lactato (Soro Ringer com lactato - Aster - Sorocaba – SP) por via intravenosa, na dose de 5ml/kg/hora.

Os animais do grupo B, após pesagem, foram conduzidos à sala de experimentação e manipulados experimentalmente de forma idêntica aos do grupo A. Decorrido o tempo de estabilização da anestesia com sevoflurano em 0,5 CAM, foi procedida a hipovolemia, retirando-se um volume de sangue arterial equivalente a 30ml/kg de peso corpóreo, por meio de cateter aplicado na artéria femoral. Imediatamente após a retirada do sangue, procedeu-se a leitura das características (T0) e aplicou-se a associação TZ na mesma dose e via utilizada para o grupo A. A partir desse momento, repetiram-se as leituras das características nos mesmos intervalos já descritos para o grupo A.

Fez-se análise de variância e os valores médios de cada tempo no mesmo grupo foram comparados entre si aplicando-se o teste de Student-Newman-Keuls com nível de significância P<0,05. Para a comparação dos valores médios de cada momento entre os grupos foi utilizado o teste t-Student.

 

RESULTADOS

No grupo B (hipovolêmico) não houve aumento da freqüência cardíaca até o final do período de observação. No grupo A (normovolêmico), apesar da freqüência cardíaca ter apresentado valores maiores após a aplicação da associação TZ, também não foi registrado aumento significativo dessa característica (Tab. 1).

 

 

A pressão arterial média não se alterou significativamente nos dois grupos, embora no grupo B (hipovolêmico) tenha sido restabelecido o mesmo valor inicial após a injeção da associação TZ. Nas comparações entre os grupos não foram observadas alterações significativas na pressão arterial média (Tab. 2).

 

 

Nos dois grupos a pressão arterial sistólica permaneceu sem alterações até o final do período de observação e no grupo B, a pressão retornou aos valores basais após a injeção da associação TZ. Não se evidenciaram alterações significativas nas comparações entre os grupos em nenhum dos momentos estudados (Tab. 3). No grupo B, após a retirada do sangue, a pressão arterial diastólica diminuiu 25% e a injeção da associação TZ restabeleceu essa pressão próximo ao valor inicial, até os primeiros 15 minutos seguintes. Nos períodos subseqüentes, a pressão arterial diastólica retornou a valores 25% menores que o inicial. Não foram registradas diferenças significativas entre os intervalos estudados e tampouco entre os grupos (Tab. 4).

 

 

 

No grupo A, o débito cardíaco manteve-se acima dos valores iniciais, sendo 33% maior durante os primeiros 30 minutos. No grupo B, após a retirada de sangue, o débito cardíaco foi 50% menor, apesar dessa redução não ter sido estatisticamente significativa. A aplicação da associação TZ aumentou o débito cardíaco em 53%. Não foram observadas alterações nessa característica, nas comparações dentro dos grupos ou entre eles (Tab. 5)

 

 

Em ambos os grupos observou-se depressão respiratória transitória após a aplicação da associação tiletamina-zolazepam. No grupo B a FR aumentou em relação ao grupo A após a produção da hipovolemia (T0). No grupo A, após a aplicação da associação tiletamina-zolazepam, a FR aumentou entre T15 e T30 em relação ao T0 (Tab. 6).

 

 

DISCUSSÃO

A alta incidência de traumas e condições sépticas impingidas aos cães se traduz pelas muitas emergências que adentram as clínicas veterinárias. Não é incomum que tal condição leve à perda ou seqüestro sangüíneo ou ao inadequado quadro de perfusão tecidual, denominado choque (Waddell et al., 1998). Diante de muitos desses casos, o clínico se vê obrigado a intervir cirurgicamente, quando quase que inevitavelmente utiliza os agentes dissociativos, pela praticidade, custo e segurança. Nessa condição, hoje, quase que obrigatoriamente emprega-se a associação TZ. Embora alguns estudos já tenham sido concluídos com o uso de cetamina em cães hipovolêmicos, pouco se sabe a respeito dos efeitos da associação TZ em cães.

Hellyer et al. (1989) declararam que o isoflurano usado durante a instrumentalização dos animais pode influenciar os resultados, porém eles asseguram uma posição mais humanitária para a execução da experimentação. Ao se considerar os prováveis efeitos do sevoflurano empregado neste estudo, deve-se ressaltar que esse agente não induz estimulação cardíaca ou autonômica, embora possa diminuir a PAM (Oliva, 1997; Frink, 1998). Todavia, diante das baixas concentrações aqui empregadas e a adoção da mesma condição anestésica para os dois grupos estudados, supõe-se que, os dois grupos de animais foram tratados de forma padronizada, assegurando-se um período de observação de 120 minutos, evitando-se, assim, a contenção mecânica dos cães no período de retorno da anestesia.

Diante da retirada de um considerável volume sangüíneo (37,5%) ocorre aumento da freqüência cardíaca e da resistência vascular periférica, por vasoconstrição mediada pelas catecolaminas e ainda mobilização de líquidos do interstício para dentro dos vasos, diminuição do débito cardíaco e da pressão arterial, podendo ainda causar aumento da pressão parcial de dióxido de carbono arterial e diminuição da pressão parcial de oxigênio arterial (Muir, 1998). Nam (1977) procedeu a retirada de sangue equivalente a 2% do peso corpóreo dos animais. Esse modelo de hipovolemia produz perda do volume vascular, sendo portanto o modelo experimental que mais se aproxima da realidade clínica, por permitir uma resposta simpatoadrenal (Reis-Oliveira et al., 1980; Ingwersen et al., 1988; Haskins & Patz, 1990).

A indução anestésica intravenosa em pacientes cirúrgicos em estado de choque hemorrágico representa um desafio, pois um dos principais problemas que podem surgir nessas condições é o da depressão cardiovascular após a administração da substância anestésica, com a possibilidade de agravamento do quadro de diminuição da perfusão tecidual já existente. Sabe-se que os agentes anestésicos comumente usados para os procedimentos de indução anestésica causam alterações cardiorrespiratórias e hemodinâmicas, sujeitando os pacientes cirúrgicos emergenciais ao agravamento do quadro de hipovolemia com hipotensão (Reis-Oliveira et al., 1980; Ingwersen et al., 1988; Haskins & Patz, 1990).

Diferentemente dos anestésicos gerais convencionais, os agentes dissociativos aumentam a freqüência cardíaca e a pressão arterial devido a uma atividade simpatomimética descrita por vários autores (Hellyer et al., 1991; Massone, 1994, Paddleford, 1999). Similarmente, a tiletamina quando injetada isoladamente por via intravenosa também produz aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial (Soma, 1971). Em associação com o zolazepam, esse agente dissociativo tem sido amplamente empregado em diferentes espécies e, segundo Tracy et al. (1988), essa combinação induz aumento da freqüência cardíaca e diminuição da pressão arterial, podendo ou não alterar o débito cardíaco (Almeida, 1998). Esse aumento na freqüência cardíaca tem sido atribuído ao aumento do tônus simpático por estimulação do sistema nervoso central ou, talvez, por um decréscimo do tônus vagal (McGrath et al., 1975). A associação TZ pode também induzir a um efeito bifásico sobre a pressão arterial após a injeção intravenosa, que muito provavelmente esteja relacionado à tiletamina (Lin et al., 1993). Neste estudo foi observado que a injeção da associação TZ nos cães normovolêmicos, embora não tenha induzido um aumento significativo da freqüência cardíaca, estabilizou essa função em valores superiores aos registrados inicialmente. Poucos são os relatos da literatura sobre o uso da associação TZ em cães hipovalêmicos. Neste trabalho observou-se que a freqüência cardíaca manteve-se sempre próxima da faixa de normalidade após a injeção do composto. Estes achados talvez possam ser justificados pelos relatos de Fieni et al. (1988), que, entre outros autores, descreveram o aumento da freqüência cardíaca depois da injeção da associação TZ, à semelhança de Haskins & Patz (1990), que afirmaram ser a cetamina uma alternativa para a indução de anestesia em pacientes potencialmente hipovolêmicos, por manter a função cardiovascular. A freqüência respiratória é estimulada na maioria das espécies após a injeção da associação TZ (Lin, 1993). Neste estudo, a associação TZ produziu depressão respiratória transitória imediatamente após a injeção, à semelhança do observado por Haskins & Patz (1990).

 

CONCLUSÕES

Pode se concluir que a associação TZ produziu depressão respiratória transitória logo após a injeção, manteve estáveis as pressões arteriais sistólica, diastólica e média e não alterou o débito cardíaco e a freqüência cardíaca, sendo portanto eficiente para anestesia de cães hipovolêmicos.

 

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