SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.53 issue1Cardiorespiratory effects of tiletamine-zolazepan in hypovolemic dogsExperimental intoxication of pregnant goats with Tetrapterys multiglandulosa A. Juss. (Malpighiaceae) author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.1 Belo Horizonte Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000100008 

Estudo clínico, cirúrgico e anatomopatológico de intussuscepção em quatro bovinos

[Clinical, surgical, and anatomopathologic study of four intussusception cases in cattle]

 

L.C. Marques1, J.W. Cattelan1, D.G. Macoris1, J.A. Marques1, E.S. Portugal2, F.A. Cadioli2

1Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP
Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane -km5
14884-900 – Jaboticabal, SP
2Pós-graduandos - Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP

 

Recebido para publicação, após modificações, em 18 de maio de 2000.
E-mail: lmarques@fcav.unesp.br

 

 

RESUMO

Descrevem-se os achados clínico, cirúrgico e anatomopatológico de intussuscepção em quatro bovinos fêmeas. Observaram-se intussuscepção do jejuno, com obstrução total, em três animais, e intussuscepção do cólon, com obstrução parcial, em um animal. A presença de parasitismo intenso por Oesophagostomum sp. em dois animais sugere a participação desse parasita na gênese da intussuscepção.

Palavras-chave: Bovino, intussuscepção, intestino

 

ABSTRACT

The clinical, surgical, and anatomopathologic findings of four cases of intussusception in cattle are described. In three cows it was observed jejunum intussusception with total obstruction, and in one cow, intussusception of the colon with partial obstruction. The presence of massive parasitism by Oesophagostomum sp. in two animals suggests the participation of this parasite in the genesis of the intussusception.

Keywords: Cattle, intussusception, bowel

 

 

INTRODUÇÃO

A intussuscepção, apesar de ser uma alteração rara em bovinos (Pearson, 1971; Blond, 1984; Serteyn & Mottart, 1987; Hoffsis & McGuirk, 1993), comparada a outros distúrbios digestivos, é uma das causas mais freqüentes de obstrução intestinal nessa espécie (Pearson, 1971; Smith, 1985a; Ramachandriah et al., 1993).

A intussuscepção é a invaginação de um segmento intestinal para o lúmen do segmento adjacente, geralmente distal. A porção invaginada do intestino é denominada intussuscepto e o segmento invaginante é reconhecido como intussuscepiente. Ocasionalmente, pode ocorrer intussuscepção dupla ou composta, na qual a intussuscepção original age como intussuscepto (Smith, 1985a).

A intussuscepção do jejuno ou íleo é a mais comumente relatada no bovino adulto, sendo a porção distal do jejuno mais freqüentemente afetada, provavelmente devido ao maior comprimento das alças intestinais e à mobilidade dos ligamentos mesentéricos. As intussuscepções ileocecocólica (Serteyn & Mottart, 1987), cecocólica (Pearson & Pinsent, 1977) e de cólon (Horne, 1991; Strand et al., 1993) raramente ocorrem devido à deposição de gordura no mesentério e pelo fato de o ligamento ileocecal estabilizar o intestino, prevenindo a invaginação (Smith, 1985a).

A patogenia proposta para a intussuscepção envolve atividade hiperperistáltica no segmento proximal do intestino em decorrência de parasitismo, alterações na dieta e enterites bacterianas ou virais, associada ao relaxamento do segmento distal. Adicionalmente, as lesões murais ou intraluminais como tumores, hiperplasia linfóide, abscessos, corpos estranhos ou nodulações na musculatura intestinal têm sido apontadas como fatores predisponentes (Pearson, 1971; Smith, 1985a; Archer et al., 1988).

Os sintomas iniciais da intussuscepção caracterizam-se por cólica, anorexia e rápido decréscimo na produção de leite (Pearson, 1971; Smith,1985a; Smith et al., 1992; Ortolani et al., 1995). A dor inicial é intensa e manifesta-se por movimentos incessantes de pedalagem dos membros pélvicos, chutes ou coices no abdome e, ocasionalmente, decúbito (Pearson, 1971; Pearson & Pinsent, 1977). Há diminuição da evacuação (Pearson, 1971; Pearson & Pinsent, 1977; Smith et al., 1992; Hoffsis & Mc Guirk, 1993; Strand et al., 1993; Ortolani et al., 1995; Rebhun, 1995), presença de fezes com sangue e muco (Pearson, 1971; Pearson & Pinsent, 1977) e distensão intestinal (Smith et al., 1992; Ramachandriah et al., 1993; Strand et al., 1993; Ortolani et al., 1995). O bovino com intussuscepção no intestino delgado desenvolve alcalose metabólica, hipocalemia e hipocloremia. Após a cólica, nota-se somente desconforto abdominal discreto, fraqueza e letargia progressivas. A morte sobrevém em 5 a 10 dias, entretanto, alguns animais sobrevivem por até 14 dias (Smith, 1985a).

A intussuscepção é identificada à laparotomia como uma estrutura sólida, cilíndrica ou nodular, com aproximadamente três polegadas de diâmetro. A parte proximal encontra-se dilatada e a distal vazia e contraída (Pearson, 1971). O diagnóstico diferencial deve ser feito com vólvulo da raiz do mesentério e com hérnia inguinal estrangulada (Hoffsis & McGuirk, 1993).

A ressecção cirúrgica e posterior enteranastomose é indicada, já que a redução manual da intussuscepção pode causar ruptura intestinal. Além disso, deve-se considerar a possibilidade de que a intussuscepção tenha sido desencadeada por lesões intramurais, e que o segmento intestinal afetado deve ser removido para prevenir recidiva (Smith, 1985b).

O presente trabalho tem por objetivo descrever os achados clínicos, cirúrgicos e anatomopatológicos de intussuscepção em quatro bovinos atendidos no Hospital Veterinário (HV) da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP - Campus de Jaboticabal.

 

CASUÍSTICA

Caso 1. Vaca Girolanda, de aproximadamente cinco anos de idade, em lactação por aproximadamente dois meses, criada em regime extensivo e em pastagem de grama-batatais (Paspalum notatum). Inicialmente foram observadas diminuição acentuada da produção de leite, inapetência, prostração, olhar para o flanco direito, escoiceamento do abdome e diminuição da evacuação. Dois dias após o início dos sintomas o animal foi encaminhado ao HV. O exame clínico revelou temperatura retal (TR) de 38,6ºC, movimento ruminal (MRu) a cada cinco minutos, freqüência cardíaca (FC) de 80 batimentos/minuto, freqüência respiratória (FR) de 24 movimentos/minuto, discreta retração do globo ocular e diminuição da elasticidade cutânea. Ao toque retal notou-se ausência de fezes no reto e abundante quantidade de muco. O animal apresentava ainda abdome retraído, o que sugeria pequena quantidade de alimentos no rume/retículo. O hemograma revelou hematócrito (Ht) de 38% e neutrofilia discreta (64%). O animal foi submetido à laparotomia exploratória, abordada pela fossa paralombar direita, e à palpação foi identificada uma estrutura sólida, cilíndrica e de coloração vermelho intensa (Fig. 1), localizada na porção distal do jejuno. A porção oral à estrutura identificada encontrava-se repleta de conteúdo, enquanto na porção aboral o conteúdo era escasso. Numerosos nódulos mineralizados (Fig. 1), sugestivos de parasitismo por Oesophagostomum sp., também foram visualizados em vários segmentos da serosa dos intestinos delgado e grosso. Realizou-se enterectomia do segmento comprometido e enteranastomose término-terminal. O segmento intestinal removido foi minuciosamente examinado, constatando tratar-se de intussuscepção que envolvia 60cm da porção distal do jejuno. O intussuscepiente apresentava-se de coloração vermelho intensa devido à congestão, enquanto o intussuscepto encontrava-se necrótico, recoberto por fibrina e com o lúmen repleto de coágulos sangüíneos. Quatro horas após o ato cirúrgico, o trânsito intestinal foi restabelecido e constatado pela evacuação de fezes amolecidas, enegrecidas e de odor desagradável. No pós-operatório, o animal foi alimentado exclusivamente com capim-elefante (Penisetum purpureum var. Napier) e medicado com a associação penicilina/estreptomicina (Agrovet - Ciba-Geigy Quimica SA) na dose de 20.000UI/kg e 8mg/kg PV, via intramuscular, respectivamente, durante sete dias. A limpeza da ferida cirúrgica foi realizada com tintura de timerosal. Após esse período o animal foi vermifugado com levamisole (Ripercol - Cyanamid Quimica do Brasil Ltda) na dose de 3,5 mg/kg PV e retornou à propriedade de origem.

 

 

Caso 2. Vaca Girolanda, de aproximadamente seis anos de idade, em lactação por aproximadamente quatro meses, criada em regime semi-extensivo, em pastagem de Brachiaria spp., e suplementada com cana-de-açúcar triturada, rolão de milho, farelo de soja e sal mineralizado. Inicialmente o animal apresentou anorexia e distensão do flanco esquerdo, particularmente na fossa sublombar (timpanismo). Apesar da anorexia, a ingestão de água não foi suprimida. O animal foi medicado na fazenda com éster tributílico do ácido-2-acetoxi 1-2-3 propano tricarboxilico (Blo-trol - Labs. Pfizer Ltda) durante três dias consecutivos, diminuindo a distensão da fossa paralombar. No entanto, a distensão no quadrante inferior do abdome pronunciou-se, notando-se também a distensão do lado direito. Uma semana após o início dos sintomas, o animal foi encaminhado ao HV já em decúbito esterno-abdominal. O exame clínico revelou TR de 37,6ºC, movimentos de rúmen ausentes e com discretos borborigmos, e abdome distendido no quadrante inferior bilateral e no quadrante médio do antímero esquerdo. À auscultação, percussão e balotamento (sucussão) do rúmen foi observado ruído de chapinhar, sugerindo presença de conteúdo pouco estratificado e liqüefeito. Os movimentos respiratórios eram predominantemente tóraco-abdominais com FR de 40 movimentos/minuto e FC de 100 batimentos/minuto. Apresentava ainda acentuada retração dos globos oculares, mucosas visíveis congestas, diminuição da elasticidade cutânea, fraqueza, tremores musculares e inatividade. À palpação retal notou-se ausência de fezes no reto, abundante quantidade de muco e distensão do saco dorsal do rúmen que estava deslocado para a pelve. O hemograma revelou hematócrito de 42% e neutrofilia (68%). O animal foi submetido à laparotomia exploratória pela fossa sublombar direita, e à palpação foi identificada na porção distal do jejuno uma estrutura sólida, cilíndrica e de coloração vermelho enegrecida, recoberta por grande quantidade de fibrina. O segmento cranial à estrutura identificada encontrava-se repleto de conteúdo, enquanto nas porções caudais o conteúdo era escasso. Numerosos nódulos mineralizados, sugestivos de oesofagostomose, também foram visualizados na serosa dos intestinos delgado e grosso. Realizou-se enterectomia do segmento intestinal comprometido e enteranastomose término-terminal. O segmento intestinal removido foi examinado, constatando-se intussuscepção de 85cm da porção distal do jejuno. O intussuscepto apresentava-se de coloração enegrecida e recoberto por fibrina enquanto o intussuscepiente encontrava-se necrosado, com a mucosa hemorrágica e ulcerada e o lúmen preenchido por fibrina e coágulos sangüíneos. Aproximadamente duas horas após o ato cirúrgico o trânsito intestinal foi restabelecido, constatado pela eliminação de fezes amolecidas, de coloração enegrecida, com presença de pequenos coágulos sangüíneos e de odor desagradável. O pós-operatório foi realizado como no caso anterior, porém o animal morreu no terceiro dia após a cirurgia devido à peritonite fibrinopurulenta difusa, constatada pelo exame de necropsia.

Caso 3. Vaca Girolanda, de aproximadamente oito anos de idade, criada em regime extensivo, em pastagem de Brachiaria spp., com histórico de inapetência, prostração, olhar para o flanco direito, escoiceamento do abdome e diminuição da evacuação. Três dias após o início dos sintomas o animal foi encaminhado ao HV. Ao exame clínico foram observados TR de 39,2ºC, FC de 80 batimentos/minuto, FR de 24 movimentos/minuto, discreta retração do globo ocular e diminuição da elasticidade cutânea. Ao toque retal notou-se ausência de fezes no reto e grande quantidade de muco. O animal apresentava ainda abdome distendido bilateralmente no quadrante inferior e no quadrante médio do antímero esquerdo. À auscultação, percussão e balotamento do rúmen foi identificado ruído de chapinhar, sugerindo a presença de conteúdo pouco estratificado e liquefeito. O hemograma revelou hematócrito de 37% e neutrofilia discreta (58%). À laparotomia exploratória pela fossa paralombar direita foi identificada uma estrutura sólida, cilíndrica, localizada na porção distal do jejuno. A porção oral à estrutura identificada encontrava-se repleta de conteúdo, enquanto no segmento aboral o conteúdo era bastante escasso. Após tentativas de exteriorização das alças intestinais envolvidas, ocorreu ruptura do segmento intestinal que se apresentava desvitalizado e friável, optando-se pelo sacrifício do paciente. Ao exame de necropsia, foi observada intussuscepção que atingia 40cm da porção distal do jejuno, com necrose de todo o segmento envolvido e grande quantidade de coágulos sangüíneos no lúmen intestinal.

Caso 4. Novilha da raça Pardo-Suíça, com 19 meses de idade, criada em regime semi-extensivo, em pastagem de tifton (Cynodon spp.) e suplementada com rolão de milho e farelo de soja na proporção de 3:1, com histórico de defecação de fezes sanguinolentas há 15 dias, anorexia, decúbitos prolongados e perda de peso. O animal foi tratado com soro polieletrolítico, polivitamínico1 e antitóxico2 durante três dias, não apresentando melhora aparente. O exame clínico revelou a presença de edema de barbela, mucosas visíveis pálidas, inapetência, letargia, fezes escuras, TR de 37,8ºC, FC de 70 batimentos/minuto, três MRu a cada cinco minutos. O hemograma revelou hematócrito de 23%, leucocitose (24.900/mm3) com neutrofilia discreta (51%) e hipoproteinemia (6,5g%). A suspeita clínica inicial era de úlcera de abomaso perfurada com peritonite focal. O animal foi medicado durante sete dias consecutivos com oxitetraciclina3 na dose de 10 mg/kg de peso corporal e sais de ferro4 na dose de 300mg, em dias alternados, até completar cinco aplicações.

Com a melhora do quadro clínico o paciente retornou à propriedade. Vinte dias após ter recebido alta hospitalar, o paciente foi readmitido no HV com hiporexia, caquexia pronunciada, edema submandibular, TR de 39,5ºC, FR de 24 movimentos/minuto, FC de 80 batimentos/minuto e dois MRu a cada cinco minutos. Um novo hemograma revelou hematócrito de 20% e neutrofilia (77%). O animal foi sacrificado e submetido a exame anatomopatológico. Verificou-se intussuscepção que envolvia 80cm do cólon ascendente. A porção oral à intussuscepção encontrava-se repleta de conteúdo fecal amolecido e de coloração escura, enquanto na porção aboral o conteúdo era escasso. Os segmentos intestinais envolvidos na intussuscepção apresentavam-se bastante friáveis e de coloração enegrecida (Fig. 2). Não se observou interrupção da passagem de conteúdo fecal, o qual se realizava por uma dilatação originada no sítio da invaginação.

 

 

DISCUSSÃO

A incidência de intussuscepção em bovinos é relativamente pequena, representando menos de 1% das afecções cirúrgicas do trato digestivo (Pearson, 1971) e 18% das desordens obstrutivas intestinais (Pearson & Pinsent, 1977). No Brasil, faltam estudos sobre a ocorrência dessa afecção em ruminantes, todavia, em outras espécies animais a intussuscepção ocorre com mais freqüência em animais jovens. Entretanto, alguns autores sugerem não haver predisposição etária para essa afecção (Pearson, 1971; Pearson & Pinsent, 1977; Smith, 1985a). A maioria dos casos descritos da enfermidade foi em fêmeas (Pearson, 1971; Blond, 1984; Serteyn & Mottart, 1987; Archer et al., 1988; Horne, 1991; Ortolani et al., 1995). Este relato identificou casos somente em fêmeas.

A intussuscepção é causada por anormalidades do peristaltismo intestinal devido a parasitismo (King, 1987 citado por Rebhun, 1995), alterações na dieta (Pearson, 1971), enterites (Smith, 1985a) e lesões localizadas na parede ou no lúmen dos intestinos (Pearson, 1971; King, 1987 citado por Rebhun, 1995; Archer et al., 1988). Dos animais acometidos, dois apresentavam numerosos nódulos mineralizados distribuídos por vários segmentos intestinais. Possivelmente, nesses casos, as lesões intramurais representadas pelos nódulos parasitários possam ter contribuído para o desencadeamento da intussuscepção. De acordo com King (1987), citado por Rebhun (1995), é relativamente comum encontrar alterações da motilidade intestinal, provocadas por nódulos de Oesophagostomum sp. Nos demais casos não foram encontradas massas intraluminais, corpos estranhos ou parasitismo gastrointestinal, o que sugere a presença de outros fatores não identificados, principalmente alimentares, envolvidos na gênese da intussuscepção, já que Pearson (1971) aponta a ingestão de forragens suculentas como capaz de promover hipermotilidade e produção de gases intestinais, condições consideradas predisponentes para a ocorrência de intussuscepção em bovino.

Dos quatro bovinos estudados, três apresentaram intussuscepção de intestino delgado, acometendo segmentos aborais do jejuno, e uma novilha apresentava intussuscepção do cólon proximal. A intussuscepção de intestino delgado é a mais freqüentemente relatada no bovino adulto (Pearson & Pinsent, 1977; Smith, 1985a; Archer et al., 1988; Hoffsis & Mc Guirk, 1993; Ramachandriah et al., 1993), provavelmente devido ao maior comprimento das alças intestinais e mobilidade dos ligamentos mesentéricos (Smith, 1985a). Os demais tipos de intussuscepção raramente ocorrem (Ortolani et al., 1995; Pearson & Pinsent, 1977; Serteyn & Mottart, 1987; Horne, 1991; Strand et al., 1993). Nas vacas portadoras de invaginação do jejuno (casos 1, 2 e 3) observou-se interrupção total do fluxo da digesta, todavia, na novilha com intussuscepção do cólon (caso 4), não ocorreu obstrução completa da passagem de fezes, que acontecia por uma dilatação que se formou, provavelmente devido à necrose do intussuscepto.

Com exceção do animal 4, todos os demais apresentavam sintomas semelhantes, representados por anorexia, diminuição da produção de leite, olhar para o flanco direito, escoiceamento do abdome e diminuição da evacuação, com fezes recobertas por grande quantidade de muco. As freqüências cardíaca e respiratória e a temperatura retal encontravam-se dentro dos limites normais. Os animais apresentavam desidratação moderada ou grave, baseada na retração dos globos oculares, na diminuição da elasticidade cutânea e na hemoconcentração. Os efeitos da intussuscepção sobre o funcionamento do rúmen foram variáveis, confirmando as observações de Pearson (1971).

Alterações do leucograma foram verificadas somente pela contagem diferencial das células, notando-se apenas neutrofilia, semelhante aos achados descritos por Pearson (1971) e Smith (1985a). Embora os sinais clínicos tenham sido sugestivos de processo obstrutivo gastrointestinal, o diagnóstico conclusivo somente foi estabelecido por laparotomia exploratória. O animal com intussucepção do cólon não apresentou interrupção da passagem de fezes e somente foi examinado após 15 dias do início dos sintomas, fase em que apresentava outras complicações como anemia e hipoproteinemia, provavelmente em decorrência da perda de sangue total pelas fezes e leucocitose devido à inflamação e desvitalização das alças intestinais envolvidas. Estes sinais dificultaram o estabelecimento do diagnóstico, somente confirmado pelo exame de necropsia.

Sucesso absoluto no tratamento foi observado exclusivamente no caso 1, com tratamento cirúrgico imediato, ou seja, no segundo dia após o início dos sintomas. Os demais animais foram assistidos tardiamente e apresentaram evolução clínica desfavorável devido a complicações como desequilíbrio hidroeletrolítico intenso, peritonite, gangrena de alças intestinais e endotoxemia. Smith (1985b) e Smith et al. (1992) consideram que o prognóstico, após a reparação cirúrgica da intussuscepção, é bom, contanto que o enfermo não apresente colapso metabólico e peritonite em fase avançada, e a anastomose intestinal tenha sido realizada sem contaminação acentuada.

Conclui-se que a intussuscepção entérica envolvendo o jejuno é a forma mais freqüente de invaginação intestinal em bovinos, e que a ocorrência de parasitismo intenso por Oesophagostomum sp., observada em dois animais, sugere a participação desse parasita na gênese da afecção.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARCHER, R.M., COOLEY, A.J., HINCHCLIFF, K.W. et al. Jejunojejunal intussusception associated with a transmural adenocarcinoma in an aged cow. J. Am. Vet. Med. Assoc., v.192, p.209-211, 1988.        [ Links ]

BLOND, S. Bovine intussusception. Agr. Pract., v.5, p.28-33, 1984.        [ Links ]

HOFFSIS, G.F., McGUIRK, S.M. Intussusception. In: HOWARD, J.L. Current veterinary therapy. Philadelphia: W.B. Saunders, 1993. 3. Food animal practice. p.733-734.        [ Links ]

HORNE, M.M. Colonic intussusception in a Holstein calf. Can. Vet. J., v.32, p.493-495, 1991.        [ Links ]

ORTOLANI, E.L., JULY, J.R., FEITOSA, L.F. A rare case of intussusception in a dairy cow. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci., v.32, p.27-30, 1995.        [ Links ]

PEARSON, H. Intussusception in cattle. Vet. Rec., v.89, p.426-437, 1971.        [ Links ]

PEARSON, H., PINSENT, P.J.N. Intestinal obstruction in cattle. Vet. Rec., v.101, p.162-166, 1977.        [ Links ]

RAMACHANDRIAH, K., BHASKARA REDDY, P., MOHAN REDDY, A.R. Surgical correction of intussusception in cattle. Indian Vet. J., v.70, p.755-756, 1993.        [ Links ]

REBHUN, W.C. Obstructive diseases of the small intestine. In: REBHUN, W.C. Diseases of dairy cattle. Baltimore: Williams & Wilkins, 1995. p.138-141.        [ Links ]

SERTEYN, D., MOTTART, E. Resection of an ileocecal intussusception in a cow. Agri Pract., v.8, p.30-31, 1987.        [ Links ]

SMITH, D.F. Bovine intestinal surgery - Part 5. Mod. Vet. Pract., v.66, p.405-409, 1985a.        [ Links ]

SMITH, D.F. Bovine intestinal surgery - Part 6. Mod. Vet. Pract., v.66, p.443-446, 1985b.        [ Links ]

SMITH, D.F., BECHT, J.L., WHITLOCK, R.H. Intussusception. In: ANDERSON, N.V. Veterinary gastroenterology. 2.ed. Philadelphia: Lea & Febiger, 1992. p. 746-747.        [ Links ]

STRAND, E., WELKER, B., MODRANSKI, P. Spiral colon intussusception in a three-year-old bull. J. Am. Vet. Med. Assoc., v.202, p.971-972, 1993.        [ Links ]

 

 

1 Stimovit - Schering - Plough Veterinária.
2 Mercepton - Lab. Bravet Ltda.
3 Terramicina Solução Injetável - Labs. Pfizer Ltda.
4 Phenodral - Usinas Chimicas Brasileiras.