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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.2 Belo Horizonte Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000200006 

a06v53n2

Valores de referência do eritrograma de bovinos da raça Jersey criados no Estado de São Paulo

[Reference values of the erythrogram of Jersey breed, raised in São Paulo state]

 

E.H. Birgel Junior, J.L. D’Angelino, F.J. Benesi, E.H. Birgel

Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87
05508-900 - Cidade Universitária - São Paulo, SP

 

Recebido para publicação, após modificações, em 11 de dezembro de 2000.
E-mail: ehbirgel@usp.br

 

 

RESUMO

Com o objetivo de estabelecer os valores de referência do eritrograma de bovinos da raça Jersey, criados no Estado de São Paulo, e avaliar a influência exercida pelos fatores etários realizaram-se exames em amostras de sangue colhidas de 253 fêmeas clinicamente sadias (não reagentes ao antígeno glicoprotéico gp 51 da cápsula do vírus da leucose dos bovinos). Nas amostras de sangue, que continham EDTA como anticoagulante, foram realizadas as seguintes provas: contagem do número de hemácias em câmara de Neubauer modificada, utilizando líquido de Gower como diluidor; determinação do volume globular pelo método do microematócrito; dosagem de hemoglobina pelo método de cianometaemoglobina e cálculo dos índices hematimétricos absolutos (volume corpuscular médio - VCM, hemogloina corpuscular média - HCM, concentração de hemoglobina corpuscular média - CHCM). Observou-se influência dos fatores etários sobre os valores do eritrograma, sendo o número de hemácias e o volume globular significativamente maiores nos animais jovens, enquanto que os teores de hemoglobina não variaram em função da idade. Os valores de referência para o número de hemácias, volume globular e hemoglobina foram, respectivamente, 6,62±1,47 células ´ 106/mm3, 31,6±3,5% e 10,45±1,29 g/dl. Os resultados médios dos índices hematimétricos absolutos aumentaram com o desenvolvimento etário, sendo os valores de referência para o VCM, HCM e CHCM, 49,18±8,28mm3; 16,37±3,37pg e 33,14±2,57%, respectivamente.

Palavras-chave: Bovino, Jersey, eritrograma, hematologia, valor de referência

 

ABSTRACT

In order to determine erythrogram reference values for Jersey cattle raised in São Paulo State, Brazil, and the influence of bovine of leukosis virus (BLV), 253 BLV-negative blood samples were obtained from clinically healthy females. Samples were collected with EDTA and submitted to erythrocyte counting (Neubauer chamber; Gower diluent), determination of the packed cell volume (microhematocrit), evaluation of hemoglobin content (cyanmethemoglobin) and calculation of MCV (mean capsular volume), MCH (mean capsular hemoglobin) and MCHC (mean capsular hemoglobin concentration). Results showed influence of age on the erythrogram values. The number of erythrocytes and packed cell volume were significantly higher in younger animals, while the hemoglobin content did not vary with age. The reference values for erythrocyte counts were respectively, 6.62±1.47 cells ´ 106/mm3; 31.6±3.5% e 10.45±1.29g/dl. The mean results for the absolute erythrocytic indexes increased with age, the reference values of MCV, MCH and MCHC were, respectively, 49,18±8.28mm3, 16.37±3,37pg e 33.14±2.57%.

Keywords: Bovine, Jersey, erythrogram, hematology, reference value

 

 

INTRODUÇÃO

A importância da hematologia como meio semiológico, auxiliando os veterinários a estabelecer diagnósticos, firmar prognósticos e acompanhar os tratamentos das inúmeras enfermidades que atingem os animais domésticos é reconhecida e consagrada mundialmente. Entretanto, para que esses objetivos possam ser alcançados e utilizados na plenitude, tornou-se fundamental o conhecimento dos valores de referência do hemograma dos animais sadios, bem como dos fatores causadores de suas variações, sendo o quadro hemático de bovinos da raça Jersey considerado peculiar e diferente das demais raças de bovinos (Birgel Junior, 1991).

Na bibliografia consultada foram encontradas apenas 15 publicações científicas que determinaram valores do quadro eritrocitário de bovinos da raça Jersey (Hibbard & Neal, 1911; McGay, 1931; Russof & Piercy, 1946; Russof & Frye, 1951; Byers et al., 1952; Russof et al., 1954; Greatorex, 1957; Schalm, 1964; Theilen et al., 1967; Ryan, 1971; Alencar Filho et al., 1972; Schiessler et al., 1977; Mammerickx et al., 1978; Meneses et al., 1980; Birgel Junior, 1991). Entre essas pesquisas, sete estabeleceram o eritrograma completo (Russof et al., 1954; Schalm, 1964; Theilen et al., 1967; Alencar Filho et al., 1972; Schiessler et al., 1977; Mammerickx et al., 1978; Birgel Junior, 1991) mas apenas quatro delas utilizaram mais de 50 animais, estratificando-os segundo a idade (Schalm, 1964; Theilen et al., 1967; Mammerickx et al., 1978; Birgel Junior, 1991) e apenas duas foram desenvolvidas por pesquisadores brasileiros (Alencar Filho et al., 1972; Birgel Junior, 1991).

Após um século de estudos sobre hematologia veterinária, outras pesquisas sobre o assunto seriam desnecessárias e não se justificariam se não fossem apresentados novos conhecimentos, invalidando a generalização de inúmeros conceitos hematológicos. Entre estes um que merece destaque é a significativa influência dos fatores ambientais sobre o quadro hemático dos animais, havendo concordância quase unânime entre os pesquisadores que os animais criados sob diferentes condições ambientais, climáticas e de manejo podem apresentar evidentes variações dos elementos constituintes do hemograma (Russof & Piercy, 1946; Russof et al., 1954; Holmann, 1955; Schalm, 1964). Assim, os valores obtidos para os animais criados em uma região não podem ser considerados, sem uma adequada avaliação, como padrão de referência fora dessa região (Birgel Junior, 1991). Outro conhecimento de fundamental importância para a interpretação do hemograma de bovinos criados em regiões tropicais e subtropicais refere-se ao fato de os bovinos criados nessas regiões, como é o caso do Brasil, serem premunidos contra Anaplasma sp. e Babesia spp., condição que, supostamente, determina variação mais ou menos intensa no quadro hemático (Hibbard & Neal, 1911; Alencar Filho et al., 1971; Birgel et al., 1974 a,b), invalidando o uso dos valores de referência do hemograma estabelecidos no hemisfério norte.

A realização da presente pesquisa visa o estabelecimento de valores de referência e a avaliação da influência de fatores etários sobre o eritrograma de bovinos da raça Jersey criados no Estado de São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 253 amostras de sangue de fêmeas Jersey consideradas clinicamente sadias e não reagentes ao antígeno do vírus da leucose dos bovinos, de acordo com o manejo tradicional empregado nas propriedades produtoras de leite tipo B e C no Estado de São Paulo.

Para avaliar as variações que ocorrem sob a influência de fatores etários, a população examinada foi reunida em diferentes grupos experimentais, definidos a seguir: 38 bezerras com até 3 meses de idade; 46 bezerras com idade variando de 3 a 6 meses; 43 bezerras com idade variando de 6 a 12 meses; 38 novilhas com idade variando de 12 a 24 meses; 44 vacas com idade variando de 24 a 48 meses; 31 vacas com idade variando de 48 a 72 meses; 13 vacas com mais de 72 meses de idade.

As amostras de sangue foram colhidas por meio de punção da veia jugular, sem garroteamento excessivo do vaso, em tubos de vidro siliconizados, com vácuo suficiente para aspirar 5ml de sangue, contendo 0,05ml de uma solução aquosa de etilenodiamino-tetracético-di-sódica (EDTA) a 10%. Essas amostras foram mantidas refrigeradas até o momento da realização dos exames, sendo estes concluídos antes de decorridas 24 horas de conservação e efetuadas as seguintes provas: contagem do número de hemácias em Câmara de Neubauer modificada, diluídas em pipeta hematimétrica específica, utilizando-se como solução diluidora o líquido de Gower; determinação do volume globular pelo método do microematócrito; dosagem de hemoglobina pelo método que transforma a hemoglobina em cianometaemoglobina; cálculo dos índices hematimétricos absolutos - volume corpuscular médio (VCM), hemoglobina corpuscular média (HCM) e concentração hemoglobínica corpuscular média (CHCM). As técnicas empregadas na determinação do eritrograma seguiram as recomendações de Birgel (1982a).

A seleção dos animais não reagentes ao antígeno do vírus da leucose dos bovinos foi realizada por meio de avaliação sorológica, utilizando-se a prova de imunodifusão dupla de Ouchterlony, em gel de ágar, empregando-se o antígeno glicoprotéico (gp 51) da cápsula do vírus, conforme técnica descrita por Birgel (1982b).

Para calcular os valores da média aritmética e o desvio-padrão, assim como avaliar a influência dos fatores etários sobre os elementos constituintes do eritrograma, utilizou-se o programa BMDP-P7D, em computador Burroughs 6900 do Centro de Computação Eletrônica da Universidade de São Paulo, aplicando-se, inicialmente, análise de variância, sendo a seguir utilizado para comparação entre os pares de médias o teste de Bonferroni, com nível de significância a 5% (Bailey, 1977).

 

RESULTADOS

Os valores de referência do eritrograma de bovinos da raça Jersey estabelecidos em 253 fêmeas são apresentados na Tab. 1.

 

 

O número de hemácias no sangue de fêmeas bovinas sadias da raça Jersey diminui de forma significativa com a idade (Tab. 2). No grupo de animais com até três meses de idade observa-se valor médio igual a 7,57±1,11´106 hemácias/mm3 que decresce de forma signifícativa, até atingir, nos animais com idade variando de 12 a 24 meses, um número igual a 5,80±0,74´106 hemácias/mm3. A seguir, nos grupos com animais com mais de 24 meses de idade, os valores estabilizam-se, deixando de sofrer influência dos fatores etários. O valor mínimo para o número de hemácias foi encontrado no grupo de vacas com mais de 72 meses de idade e o valor máximo foi obtido em bezerras com idade entre 3 e 6 meses.

 

 

Os valores do volume globular (Tab. 2) sofrem influência de fatores etários, sendo significativamente maiores nos animais jovens, atingindo no grupo de animais com idade variando de 3 a 6 meses, o valor máximo igual a 34,2±3,3%. Este valor diminui de forma significativa para 30,8±2,7% no grupo de animais cuja idade variava de 6 a 12 meses. A seguir, os resultados obtidos para os grupos experimentais constituídos por animais mais velhos flutuaram sem demonstrar diferenças estatisticamente significativas. Os valores mínimos do volume globular, 29,9±3,1%, foram detectados nos animais com mais de 72 meses de idade.

Os teores de hemoglobina durante o desenvolvimento etário mostram variações entre 9,79±1,34 g/dl e 11,18±1,22 g/dl. Na Tab. 2 salientam-se dois picos: o primeiro verificado no grupo de bezerras com idade variando de 3 a 6 meses e o segundo, no grupo constituído por animais com idade variando de 24 a 48 meses. Apesar dessas variações, os resultados obtidos nos vários grupos experimentais não permitiram o estabelecimento de um padrão típico de variação atribuível à idade.

Os resultados apresentados na Tab. 3 mostram que os valores do volume corpuscular médio das hemácias aumentam de forma significativa com a idade. Os menores valores foram obtidos nos animais jovens: 42,90 ± 6,07mm3, nos bezerros com até três meses de idade, e 41,86 ± 6,48mm3, nos animais com idade entre 3 e 6 meses. A seguir os valores aumentaram de forma significativa, estabilizando-se a partir de 24 meses de idade, quando o volume corpuscular médio deixa de sofrer influência dos fatores etários, atingindo o valor máximo nas vacas com mais de 72 meses de idade.

 

 

Os valores da hemoglobina corpuscular média das hemácias (Tab. 3) aumentam de forma gradativa e significativa com a idade, sendo o valor mínimo observado nos animais com até três meses de idade e o máximo nas vacas com idade entre 24 e 48 meses, quando se estabilizam.

Os valores da concentração de hemoglobina corpuscular média das hemácias sofrem influência dos fatores etários. Os valores mínimos observados nos animais com até três meses de idade aumentaram gradativa e significativamente, atingindo o valor máximo no grupo experimental constituído por vacas com idade variando de 24 a 48 meses. A seguir, houve diminuição constante e significativa dos valores, sendo observado nos animais com mais de 72 meses de idade valor médio igual a 33,55 ± 1,33%.

 

DISCUSSÃO

O Estado de São Paulo está localizado em região de clima subtropical, onde os bovinos devem estar natural e continuadamente premunidos contra anaplasmose e babesiose, sendo sobejamente conhecidas as alterações hematológicas causadas por essas enfermidades (Hibbard & Neal, 1911; Alencar Filho et al., 1971), ou durante a premunição induzida artificialmente para proteção dos animais susceptíveis (Birgel et al., 1974 a,b). Nessas circunstâncias poder-se-ia imaginar que os valores de referência do hemograma encontrados em bovinos da raça Jersey, criados no Estado de São Paulo, fossem expressivamente diferentes daqueles referidos na literatura estrangeira. Entretanto, considerando-se o eritrograma, a esperada ligeira anemia não pôde ser demonstrada.

Os valores encontrados para o eritrograma e os referidos na literatura compulsada para o gado Jersey (Hibbard & Neal, 1911; McGay, 1931; Russof & Piercy, 1946; Russof & Frye, 1951; Byers et al., 1952; Russof et al., 1954; Greatorex, 1957; Schalm, 1964; Theilen et al., 1967; Ryan, 1971; Alencar Filho et al., 1972; Schiessler et al., 1977; Mammerickx et al., 1978; Meneses et al., 1980) variaram dentro de um razoável limite, sendo aceita a afirmação de que existiria um grau de semelhança entre os mencionados valores. As diferenças poderiam ser atribuídas à influência do meio ambiente e do manejo de criação dos animais, além de variações inerentes às técnicas hematológicas utilizadas. Como fonte de grandes variações dos resultados deveriam ser ressaltados: a determinação do volume globular utilizando o método macroematócrito (Russof & Frye, 1951; Russof et al., 1954; Alencar Filho et al., 1972; Schiessler et al., 1977); a determinação da taxa de hemoglobina pelo método da hematina ácida (Russof & Piercy, 1946; Russof & Frye, 1951; Russof et al., 1954) ou do número de hemácias por meio de contadores eletrônicos de células (Theilen et al., 1967; Alencar Filho et al., 1972; Mammerickx et al., 1978).

Dessa forma, se por um lado o uso de valores de referência para o eritrograma estabelecidos em condições de ambiente e manejo diferentes das brasileiras poderiam ser utilizados, com restrições, na interpretação do eritrograma, o mesmo não ocorreria para os valores de referência do leucograma, pois o quadro leucocitário de bovinos da raça Jersey, criados no Estado de São Paulo (Birgel Junior, 1991), apresenta diferenças relacionadas ao número de leucócitos e linfócitos que impediriam o uso de valores de referência estabelecidos no hemisfério norte sem que erros grosseiros de interpretação fossem cometidos (Birgel Junior, 1991).

Na presente pesquisa demonstrou-se que o número de hemácias diminui de forma significativa com o desenvolvimento etário dos animais, tendo sido tal fato anteriormente relatado em bovinos da raça Jersey e de outras raças (Greatorex, 1954, 1957; Holmann, 1956; Theilen et al., 1967; Wingfield & Tumbleson, 1973; Mammerickx et al., 1978; Marçal, 1989). O sentido dessa variação não concorda com as observações apresentadas por Katunguka-Rwakishaya et al. (1985), que salientaram haver aumento diretamente proporcional ao desenvolvimento etário. Apesar de muitos autores terem verificado em bovinos a diminuição do número de hemácias em função da idade, existem poucas afirmações relativas ao momento em que esses valores se estabilizam e deixam de sofrer influência desse fator. Associando as observações das pesquisas que não constataram a influência de fatores etários, em bovinos com mais de dois anos de idade (Braun 1946; Penny et al., 1966; Conner et al., 1967), às dos autores que afirmaram que esses valores estabilizaram-se aos dois anos de idade (Wingfield & Tumbleson, 1973; Marçal, 1989) e aos resultados apresentados nesta pesquisa, pode-se aceitar, como fato real, a estabilização do número de hemácias a partir dos 24 meses de idade. Entre 3 e 6 meses de idade, observou-se nos bezerros da raça Jersey um pico do número das hemácias, fato verificado também para o volume globular e para a taxa de hemoglobina, já descritos por Greatorex (1954, 1957) e Holmann (1956), atribuindo-se essa variação mais à influência dos fatores ambientais. Para a elucidação desse fenômeno e uma conclusão definitiva, recomenda-se uma pesquisa com delineamento específico para estudar a influência dos fatores etários sobre o hemograma de bezerros, do nascimento até seis meses de idade.

Os resultados para o volume globular demonstram que os valores observados nas bezerras com até seis meses de idade foram maiores do que os obtidos nos bovinos mais velhos e concordam com os resultados obtidos por Meneses et al. (1980) que verificaram fenômeno semelhante em sua pesquisa. Da mesma forma, esses resultados concordam com os obtidos por inúmeros autores que não detectaram influência da idade sobre o volume globular de bovinos com mais de 12 meses de idade. As observações efetuadas nesta pesquisa discordam de pesquisadores que afirmaram a não existência da influência dos fatores etários sobre o volume globular dos bezerros com até seis meses de idade (Theilen et al., 1967; Wingfield & Tumbleson, 1973), bem como daqueles que verificaram que os referidos valores aumentam até 24 meses de idade (Greatorex, 1954, 1957; Holmann, 1956; Wingfield & Tumbleson, 1973). Cabe ainda afirmar que não se observou a destacada diminuição dos valores do volume globular observada entre 6 e 24 meses de idade, no gado Holandês criado em São Paulo (Marçal, 1989); essa diferença poderia, em parte, ser conseqüente das normas de manejo praticadas na criação das duas raças.

A dinâmica da taxa de hemoglobina durante o desenvolvimento etário não apresentou variação gradativa e uniforme, por isso não existe razão biológica razoável para se atribuir a fatores etários as isoladas diferenças encontradas. Esta afirmação é reforçada e encontra apoio nas observações referidas por outros autores em várias raças de bovinos (Penny et al., 1966; Theilen et al., 1967; Mammerickx et al., 1978; Katunguka - Rwakishaya et al., 1985; Marçal, 1989). Em contraposição discorda da opinião dos autores que afirmaram existir aumento nos valores da taxa de hemoglobina com o desenvolvimento etário (Wingfield & Tumbleson, 1973). Da mesma forma, discorda dos resultados referidos na literatura que consideram a taxa de hemoglobina expressivamente maior nos animais jovens (Braun, 1946; Meneses et al., 1980).

Os índices hematimétricos absolutos obtidos nesta pesquisa sofreram influência dos fatores etários, pois o VCM e o HCM aumentaram gradativamente com o evoluir da idade. As variações dos índices hematimétricos concordam com as observações apresentadas para o VCM e o HCM (Theilen et al., 1967; Mammerickx et al., 1978; Marçal, 1989), e com as observações feitas por autores que calcularam apenas o VCM (Greatorex, 1954, 1957; Holmann, 1956; Wingfield & Tumbleson, 1973). Em contraposição, discordam dos valores que mencionam uma diminuição do VCM e do HCM ou que não verificaram variações significativas dos índices hematimétricos absolutos (Penny et al., 1966; Wingfield & Tumbleson, 1973; Katunguka-Rwakishaya et al., 1985).

Os valores do CHCM, após aumentarem gradativamente até 24-48 meses, diminuíram, abruptamente, em função da variação da idade, sendo esse fato observado anteriormente apenas por Marçal (1989), em bovinos da raça Holandesa criados em São Paulo. Os resultados para o CHCM obtidos nesta pesquisa discordam das várias pesquisas que não verificaram influência de fatores etários sobre o CHCM (Greatorex, 1954, 1957; Penny et al., 1966; Theilen et al., 1967; Wingfield & Tumbleson 1973; Mammerickx et al., 1978).

A avaliação dos resultados obtidos na presente pesquisa, bem como sua comparação com aqueles referidos na literatura especializada, permitem afirmar que os índices hematimétricos absolutos apresentaram, nos bovinos da raça Jersey criados em São Paulo, tendência à estabilização a partir dos 24 meses de idade.

 

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