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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.53 no.2 Belo Horizonte Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000200009 

Mesotelioma peritoneal em cão: relato de caso

[Peritoneal mesothelioma in dog: a case report]

 

R. Serakides1, G.D. Cassali2, F.J.F. Sant’Ana1, E.F. Nascimento1

1Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG

2
Instituto de Ciências Biológicas da UFMG

 

Recebido para publicação, após modificações, em 5 de julho de 2000.
E-mail: serakide@dedalus.lcc.ufmg.br

 

 

RESUMO

Este estudo descreve os achados anatomopatológicos e imuno-histoquímicos do mesotelioma peritoneal em um cão da raça Setter, de nove anos de idade e sem histórico clínico. À necropsia, foram observados vários nódulos que variavam de alguns milímetros a 2cm de diâmetro, de superfície lisa, esbranquiçados, firmes e distribuídos amplamente pelos peritônios parietal e visceral dos órgãos abdominais e pelo funículo espermático. Histologicamente foram evidenciados ninhos de células mesoteliais neoplásicas envoltos por grande quantidade de tecido conjuntivo fibroso. Essas células apresentavam-se fusiformes ou epitelióides com citoplasma vacuolizado e núcleo oval com cromatina frouxa e nucléolo evidente. Havia também algumas formações císticas revestidas por uma ou mais camadas de células neoplásicas achatadas ou colunares e com o lúmen ocupado por debris celulares e material eosinofílico, PAS-positivo. Áreas de metaplasia cartilaginosa e de necrose também foram visualizadas. O resultado das reações imuno-histoquímicas revelou a presença de células neoplásicas com imunomarcações fortes e difusas para proteína S100 e para citoqueratina (AE1/AE3) e ausência de marcação para vimentina e para o antígeno carcinoembrionário (CEA). A imunomarcação das células neoplásicas com a utilização do anticorpo contra célula mesotelial humana (HBME-1) foi forte e multifocal. Com base nos achados anatomopatológicos e imuno-histoquímico, firmou-se o diagnóstico de mesotelioma peritoneal esclerosante.

Palavras-chave: Cão, mesotelioma, peritônio, imuno-histoquímica

 

ABSTRACT

This study describes the anatomopathological and immunohistochemical findings of a canine peritoneal mesothelioma. A nine-year-old male Setter with no clinical history was submitted to necropsy. Macroscopically, many whitish firm nodules ranging from a few milimeters to 2cm in diameter were found in the abdominal cavity. These nodules had a smooth surface and were scattered throughout the parietal and visceral peritoneum and also on the spermatic cord. Histologically, neoplastic mesothelial cell groups surrounded by a large amount of fibrous connective tissue were observed. These cells were either spindle shaped or epithelioid with a vacuolated cytoplasm and oval nuclei with granular chromatin and prominent nucleoli. Many cystic spaces lined by a single or many layers of flat or columnar neoplastic cells were observed. These cysts were filled with PAS-positive eosinophilic material. Cartilaginous metaplasia and necrosis were also detected. The mesothelial cells showed intense and diffuse immunoreactivity for protein S100 and cytokeratin (AE1/AE3), however there were no reactivity for vimentin and CEA and the reactivity for human mesothelial anti-cell (HBME-1) was strong and multifocal. Based on the histopathological and immunohistochemical findings the diagnosis of sclerosing peritoneal mesothelioma was made.

Keywords: Dog, mesothelioma, peritoneum, immunohistochemistry

 

 

INTRODUÇÃO

O mesotelioma é uma neoplasia rara originária das células mesodérmicas que revestem as cavidades pleural, pericárdica e peritoneal (Meyer & Franks, 1987; Moulton, 1990) e a túnica vaginal do testículo (Thrall & Goldschmidt, 1978), sendo mais comumente observado em bovinos e menos freqüentemente em caninos e eqüinos (Moulton, 1990).

No cão, esse tumor ocorre com maior freqüência na pleura e no pericárdio, e raramente no peritônio (Moulton, 1990). Aparentemente não há predisposição de raça ou de sexo. A maior parte dos casos ocorre em animais adultos ou velhos, com exceção de alguns relatos em bezerro com 10 dias de vida (Magnusson & Veit, 1987) e em cão com sete semanas de idade (Leisewitz & Nesbit, 1991).

Apesar de a etiologia do mesotelioma ainda não ter sido elucidada, especula-se que a inalação crônica de partículas de amianto possa ser responsabilizada pela gênese do mesotelioma pleural no homem (Bhandarkar et al., 1993). No entanto, parece que a origem do mesotelioma peritoneal está relacionada a irritações crônicas e laparotomias freqüentes (Demopoulus et al., 1986). Embora também não haja comprovação de que esses fatores estejam envolvidos na etiopatogenia do mesotelioma nos animais domésticos, existem suspeitas de que essa neoplasia possa ser congênita naqueles casos em que animais jovens são acometidos (Magnusson & Veit, 1987; Leisewitz & Nesbit, 1991).

Histologicamente o mesotelioma é classificado como epitelial ou sarcomatoso, dependendo do tipo celular predominante (Moulton, 1990). O termo mesotelioma misto é designado quando há combinação desses dois tipos no mesmo tumor (Van Gelder et al., 1991). Embora alguns autores considerem que a classificação seja apenas uma informação adicional, para outros ela tem sido importante para definir o prognóstico do paciente (Van Gelder et al., 1991).

O mesotelioma deve ser diferenciado de carcinomas primários dos tratos digestivo, genital ou urinário com metástase para o peritônio (Moulton, 1990). Nesses casos, o exame anatomopatológico pode ser associado à análise imuno-histoquímica para a diferenciação (Bateman et al., 1997). A carência de estudos imuno-histoquímicos do mesotelioma nos animais domésticos motivou realizar, no presente caso, além do estudo anatomopatológico, a caracterização imuno-histoquímica dessa neoplasia.

 

CASUÍSTICA E DISCUSSÃO

Este estudo descreve os achados anatomopatológico e imuno-histoquímico de mesotelioma peritoneal em um cão da raça Setter, de nove anos de idade e sem histórico clínico. À necropsia, foram observados vários nódulos que variavam de alguns milímetros a 2cm de diâmetro, de superfície lisa, esbranquiçados, firmes e distribuídos amplamente pelos peritônios parietal e visceral dos órgãos abdominais e pelo funículo espermático. Foram colhidos vários fragmentos da neoplasia e de outros órgãos em formalina neutra e tamponada a 10% para processamento pela técnica rotineira de inclusão em parafina e coloração pelas técnicas da hematoxilina-eosina e do ácido periódico de Shiff (Prophet et al., 1992).

Secções histológicas da neoplasia e de órgãos revestidos por mesotélio normal também foram submetidas a reações imuno-histoquímicas pela técnica da estreptoavidina-biotina-peroxidase e contra-coradas com hematoxilina de Harris. Com o objetivo de proporcionar a exposição antigênica dos tecidos e aumentar a imunorreatividade com os anticorpos primários, foi utilizada a técnica de recuperação antigênica pelo calor da panela de pressão (Alves et al., 1999).

Como anticorpos primários foram utilizados: antivimentina (Vim 3B4), antiproteína S100 (policlonal), anticitoqueratina (AE1/AE3), antiantígeno carcinoembrionário (anti-CEA) (A5B7) e anticorpo contra célula mesotelial humana (HBME-1) (Dako, USA).

Histologicamente foram evidenciadas células mesoteliais neoplásicas distribuídas num padrão sólido ou tubular e envoltas por grande quantidade de tecido conjuntivo fibroso (Fig.1). Essas células apresentavam-se fusiformes com núcleo alongado ou epitelióides com citoplasma vacuolizado e núcleo oval, com cromatina frouxa e nucléolo evidente (Fig.2). Algumas dessas células apresentavam pigmento intracitoplas-mático de coloração acastanhada. Havia ainda várias formações císticas preenchidas por debris celulares e material eosinofílico, PAS-positivo e revestidas por uma ou várias camadas de células neoplásicas (Fig.3), achatadas ou colunares, às vezes formando projeções papiliformes para o lúmen. Também foram evidenciadas áreas de metaplasia cartilaginosa e de necrose.

 

 

O padrão histológico mais comum do mesotelioma caracteriza-se pela proliferação neoplásica das células mesoteliais em meio a pequena quantidade de tecido conjuntivo fibroso (Forbes & Matthews, 1991). O termo esclerosante foi introduzido para classificar aqueles mesoteliomas constituídos por grande quantidade de tecido conjuntivo (Dubielzig, 1979), semelhante ao observado no presente caso.

Definir o grau de malignidade desse tumor pode ser difícil, já que a aparência histológica do mesotelioma maligno, na maioria dos casos, é enganosa em decorrência da presença de células pouco pleomórficas e com pequeno número de mitoses. Assim, essa neoplasia é classificada como malígna em decorrência da sua capacidade para disseminar-se pelas superfícies serosas e pela presença de metástase (Leisewitz & Nesbit, 1991). No entanto, quando existe o acometimento da serosa de vários órgãos da cavidade, é difícil definir se se trata de um mesotelioma benigno multicêntrico ou das metástases do mesotelioma maligno (Moulton, 1990). No presente caso, a grande extensão da neoplasia e sua aparência histológica, caracterizada por pleomorfismo celular moderado, sugerem tratar-se de mesotelioma maligno, mesmo na ausência de metástases para sítios distantes.

O resultado das reações imuno-histoquímicas apresenta-se sumarizado na Tab. 1. Enquanto as células mesoteliais normais marcaram-se unicamente para proteína S-100, as células neoplásicas apresentaram imunomarcações fortes e difusas para proteína S100 (Fig.4) e para citoqueratina (AE1/AE3) (Fig.5) e ausência de marcação para o CEA. A ausência de imunorreatividade para o CEA é um achado importante para o diagnóstico de mesotelioma em comparação ao carcinoma, que geralmente é positivo (Alves et al., 1999). Também não foi observada imunorreatividade para vimentina nas células mesoteliais neoplásicas, em contraste aos resultados apresentados por Di Pinto et al. (1995). No presente estudo, somente as células do estroma do tumor, principalmente aquelas da parede vascular, marcaram-se com o anticorpo contra vimentina, servindo como controle interno positivo.

 

 

A imunorreatividade das células neoplásicas com a utilização do anticorpo contra célula mesotelial humana (HBME-1) foi forte e multifocal, com padrão de marcação de membrana (Fig.6). Essa reação focal associada à ausência de marcação das células mesoteliais normais sugerem a presença de reação cruzada discreta entre esse anticorpo e as células mesoteliais de cão. Apesar de as células mesoteliais neoplásicas no homem apresentarem marcação forte e difusa para o HBME 1, esse marcador não é específico para o mesotelioma, já que uma porcentagem elevada de adenocarcinomas também são imunorreativos (Bateman et al., 1997).

No homem, o mesotelioma caracteriza-se pela ausência de imunomarcação para o CEA e pela positividade para as citoqueratinas AE1 e AE3 (Villaschi et al., 1990), semelhante ao observado neste estudo. Assim, em decorrência da inexistência de um marcador específico de células mesoteliais neoplásicas, a escolha correta de um painel de anticorpos, que inclua o uso do CEA e das citoqueratinas AE1 e AE3, pode ser mais importante para a confirmação do mesotelioma no cão.

Com base nos achados anatomopatológico e imuno-histoquímico, firmou-se o diagnóstico de mesotelioma peritoneal esclerosante.

 

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