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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.53 n.2 Belo Horizonte abr. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000200019 

Predição da taxa de gestação de novilhas da raça Nelore acasaladas com um ano de idade

[Prediction of pregnancy rate of Nellore heifers mated at yearling age]

 

P.F.A. Machado1, J.A.G. Bergmann2, J.C.C. Pereira2, M.A. Silva2

1Mestrando em Melhoramento Animal - EV UFMG. Bolsista da CAPES
Rua Oscarlina Prado, 125- Bom Pastor
37014-400 – Varginha, MG

2
Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG. Bolsistas do CNPq

 

Recebido para publicação, após modificações, em 25 de abril de 2001
Pesquisa parcialmente financiada com recursos da FAPEMIG e do CNPq.
E-mail: paulofam@hotmail.com

 

 

RESUMO

Os objetivos deste trabalho foram quantificar o relacionamento entre variáveis observadas antes da estação de monta e a fertilidade de 321 novilhas e usar tais variáveis no desenvolvimento de equações para predizer a fertilidade das novilhas usando-se metodologia de regressão logística. As variáveis foram: pesos ao nascer, à desmama e a um ano de idade, ganhos de peso diários na pré e pós-desmama e no total, taxas de crescimento relativo (TCR) na pré e pós-desmama e no total, idade da novilha no início da estação de monta (IDCOB) e idade da vaca ao parto. As novilhas que conceberam eram 18 dias mais velhas do que as que não conceberam na estação. As novilhas que ficaram gestantes eram 1,1kg mais leves ao nascer do que as que falharam em conceber. As que tiveram diagnóstico de gestação positivo apresentaram, em média, 0,01% a mais nas taxas de crescimento relativo pré-desmama e total do que as que falharam em conceber. Novilhas que ficaram gestantes eram filhas de vacas mais jovens ao parto e o modelo completo explicou 26,6% da variação na fertilidade delas. A combinação dos efeitos lineares da IDCOB e da TCR total foi o melhor modelo para predizer a fertilidade das novilhas.

Palavras-chave: Novilha, Nelore, fertilidade, precocidade sexual, taxa de gestação

 

ABSTRACT

The objectives of this experiment were to quantify the relationships among variables observed before the breeding season and fertility of 321 Nelore heifers and to use these variables to fit prediction equations for heifers fertility, using logistic regression methodology. Variables analysed were: birth weight, weaning weight, yearling weight and birth-weaning, birth-yearling and weaning-yearling average daily gains and relative growth rates, age of heifer at breeding and age of cow at calving. Heifers conceiving in the breeding season were 18 days older at the beginning of the breeding season than those failing to conceive. Pregnant heifers in the breeding season were 1.1kg lighter at birth than not pregnant heifer. Heifers conceiving in the breeding season had, on the average, 0.01% more preweaning and birth-yearling relative growth rates than those that failed to conceive and they were daughters of younger cows at calving. The full model accounted for 26.6% of the total variation in heifers fertility. Fitted model including linear effect of age of heifer at the beginning of the breeding season and birth-yearling relative growth rate was the best model to predict heifers fertility.

Keywords: Heifer, Nellore, fertility, sexual precocity, pregnancy rate

 

 

INTRODUÇÃO

A idade à primeira cria é importante na determinação da eficiência reprodutiva dos rebanhos. Idades menores indicam maior eficiência reprodutiva e proporcionam maior lucro pela redução dos custos de manutenção das novilhas. Segundo Albuquerque & Fries (1997), aumentos no desfrute e na receita podem ser obtidos pela antecipação da idade ao primeiro parto das novilhas de corte.

Recentemente, várias pesquisas na raça Nelore têm abordado aspectos da precocidade. Segundo Fries & Albuquerque (1999), seria necessário alterar geneticamente as três precocidades em conjunto, ou seja, a sexual, a de crescimento e a de terminação, adequando-as ao sistema de produção e aproveitando a estrutura de correlações entre elas. Os autores advertiram ainda que a alteração e/ou maximização em apenas uma delas pode criar desequilíbrios para o componente econômico.

Numa pecuária com ciclo de produção completo, as características reprodutivas têm impacto econômico cerca de 10 vezes maior que as associadas ao crescimento. Assim, a produtividade da pecuária seria ditada pela eficiência reprodutiva das fêmeas (Hill, 1998). Além disso, os índices reprodutivos seriam os principais fatores limitantes da eficiência produtiva em gado de corte (Bergmann, 1992) e as maiores perdas do potencial de produção de bezerros ocorrem porque as fêmeas não se tornam gestantes na estação de monta.

O melhoramento genético da fertilidade tem sido considerado limitado face às baixas estimativas de herdabilidade para taxa de parto. Entretanto, as estimativas de herdabilidade para características reprodutivas em rebanhos zebus são maiores que as observadas para taurinos. Isto, associado à elevada variação fenotípica, sugere a possibilidade de melhoramento da fertilidade pela seleção dentro das raças zebus.

Buscas pela precocidade produtiva e reprodutiva têm sido objeto de recentes trabalhos de melhoramento, principalmente em fazendas de gado de corte detentoras de animais com elevado potencial genético. Desse modo, Hill (1998) considerou que toda novilha tem idade à puberdade que lhe é inerente, associada ao seu patrimônio genético, e que esse potencial só não é expresso se houver limitações de ordem nutricional, sanitária e de manejo.

Os objetivos deste trabalho foram identificar e quantificar a importância das características de desenvolvimento observadas até o início da época de acasalamento sobre a probabilidade de gestação das novilhas na estação de monta e obter equações para predizer a gestação de novilhas da raça Nelore acasaladas dos 11 aos 15 meses de idade em estações de monta de 90 dias, utilizando modelos não lineares de regressão logística

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados utilizados neste trabalho referem-se a animais do rebanho Nelore da Colonial Agropecuária. Em dezembro de 1997, 173 (primeiro lote) novilhas começaram a ser expostas aos touros. A distribuição das fêmeas quanto ao mês e ano de nascimento pode ser vista na Tab. 1. Deve-se acrescentar que o desempenho reprodutivo dos touros não foi considerado fator que pudesse influir na fertilidade das novilhas, pressuposição feita pela maioria dos autores quando analisam fertilidade das fêmeas. Na estação de monta de dezembro de 1998, 135 (segundo lote) novilhas foram expostas aos touros (Tab. 1).

 

 

Resolveu-se agrupar os dois arquivos em um único e acrescentar o efeito do ano da estação de monta no modelo estatístico. Restrições foram impostas para gerar dados consistentes e com qualidade, utilizando procedimentos do programa Statistical Analysis System (SAS, 1990). Para cálculos, a fertilidade foi codificada como um se a fêmea teve diagnóstico de gestação positivo e como zero se o diagnóstico foi negativo.

A partir de peso e data ao nascimento, foram determinadas outras características para cada novilha, descritas a seguir: peso ao nascer (PN), peso à desmama (peso ajustado para 205 dias de idade, P205), peso a um ano de idade (P365), ganho de peso diário na pré-desmama, ganho de peso diário do nascimento a um ano de idade (ganho de peso diário total), ganho de peso diário na pós-desmama, taxa de crescimento relativo do nascimento à desmama, taxa de crescimento relativo do nascimento a um ano de idade, taxa de crescimento relativo da desmama a um ano de idade, idade da vaca ao parto e idade da novilha no início da estação de monta (IDCOB).

A taxa de crescimento relativo (TCR) foi calculada segundo Fitzhugh Jr. & Taylor (1971) e Smith & Cundiff (1976). Ela calcula a porcentagem de mudança no peso corporal por dia, de acordo com a fórmula:

O efeito do ano foi codificado como 1 para as novilhas do primeiro lote e como 2 para as do segundo lote. A fertilidade na primeira estação de monta foi analisada usando-se a metodologia da regressão logística. Admitiu-se que a fertilidade segue distribuição binomial com a probabilidade da i-ésima fêmea estar gestante (Pi) e a probabilidade de não estar gestante ao final da estação Q(i) = 1 - P(i). Para ajustar a resposta binária foi usado o modelo de regressão logística (Myers, 1990), que produz as estimativas pelo método da máxima verossimilhança dos coeficientes, de acordo com a seguinte expressão:

em que n é o número de novilhas cujos registros de fertilidade estão disponíveis e o modelo linear é da forma b0 + bjXij, com o intercepto (b0) e k coeficientes de regressão (bj), associados com as variáveis regressoras individuais ou combinação de variáveis (X ij).

Na avaliação da contribuição individual de variáveis regressoras, dois modelos foram inicialmente ajustados para cada uma, o primeiro somente com o efeito linear da variável e o segundo com os efeitos linear e quadrático. O modelo com o maior nível de significância estatística foi o escolhido. Além da avaliação do impacto das variáveis individuais sobre a fertilidade na estação de monta, procedimentos do tipo "stepwise" foram usados para selecionar os modelos mais apropriados para a predição da fertilidade. O nível de 5% de significância foi usado na seleção de variáveis.

Para cada modelo, o R2 foi calculado pelo desvio do modelo com o intercepto (b0) e l variáveis regressoras em relação ao desvio produzido por aquele com somente o intercepto. A qualidade dos modelos de regressão logística, em termos de predição, também foi determinada usando-se a associação entre as probabilidades de predição e as respostas observadas. A associação entre probabilidades de predição e respostas observadas considera todos os pares possíveis de observações (yi,yj), i ¹ j, de tal maneira que as respostas observadas para os yi’s sejam iguais a um (gestante), e as respostas observadas para os yj’s sejam iguais a zero (não gestante). Há, portanto, ni x nj pares possíveis de observações (número de novilhas gestantes ´ número de novilhas não gestantes) e cada par poderia estar em uma de três categorias: concordante, se < ; discordante, se > ; e empate, se = . A proporção de cada categoria foi calculada em relação ao número total possível de pares, de acordo com Myers (1990).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A média de fertilidade observada ao final das duas estações de monta foi de 12%. Este valor parece ser baixo, no entanto, deve-se salientar que o grupo de novilhas analisadas era constituído exclusivamente por fêmeas puras da raça Nelore e expostas à monta natural com média de idade no início da estação de monta de apenas 394 dias (12,95 meses).

O efeito do ano da estação de monta sobre a fertilidade das novilhas foi importante (P<0,01). Ele explicou 6,1% da variação na taxa de gestação. A fertilidade pode variar muito entre anos por causa de flutuações nos níveis de nutrição e de manejo, embora outros fatores tais como variação na eficiência do inseminador ou da fertilidade do touro podem também ser importantes. Neste estudo, o efeito significativo do ano era esperado face aos problemas ocorridos na segunda estação (ataques de cigarrinhas e de lagartas) que prejudicaram as pastagens.

As médias observadas das 11 variáveis regressoras, de acordo com o diagnóstico de gestação, são apresentadas na Tab. 2, e a importância dos modelos de regressão logística com única variável independente na explicação da variação na fertilidade (R2, teste de significância e estimativa do coeficiente de regressão) está ilustrada na Tab. 3.

 

 

 

 

Para compor a Tab. 3, o nível de 5% de significância estatística foi usado na seleção das variáveis mais importantes. A taxa de gestação das novilhas da raça Nelore foi influenciada significativamente pelas seguintes variáveis: peso ao nascer, ganho de peso diário pré-desmama, taxa de crescimento relativo pré-desmama, taxa de crescimento relativo total, idade da novilha no início da estação de monta e idade da vaca ao parto. As variáveis idade da novilha no início da estação de monta, taxa de crescimento relativo pré-desmama, taxa de crescimento relativo total, peso ao nascer e idade da vaca ao parto apresentaram, nesta ordem, os maiores valores do coeficiente de determinação (R2), sendo portanto as que mais adequadamente explicaram variações da fertilidade.

A idade da novilha no início da estação de monta foi o fator mais importante na variação da sua fertilidade (Tab. 5). A média de idade no início da estação de monta foi de 394 dias, com amplitude de variação entre 309 e 465 dias, correspondendo a probabilidades de predição da fertilidade, respectivamente, de 0,7 e 44%. As novilhas gestantes ao final da estação de monta eram, em média, 18 dias mais velhas do que as que não conceberam (Tab. 2). Embora o efeito da idade da novilha no início da estação de monta sobre a taxa de gestação tenha sido modelado linearmente, seu efeito sobre a probabilidade de predição da gestação não foi linear em razão do relacionamento não linear entre a variável dependente e a variável regressora no modelo logístico. Portanto, maior idade no início da estação (por exemplo, de 309 para 319 dias) corresponderia ao aumento de 0,3 pontos percentuais (de 0,7 para 1,0%) na predição da fertilidade. No segmento de novilhas mais velhas, o mesmo aumento de 10 dias (por exemplo, de 455 para 465 dias) foi associado à elevação de 7 pontos percentuais (de 37 para 44%) da fertilidade. Dessa maneira, pode-se considerar que novilhas mais velhas no início da temporada de acasalamento tiveram maior probabilidade de se tornarem gestantes ao final da estação de monta do que as mais jovens e que a probabilidade de conceber das novilhas abaixo de 13 meses de idade no início da estação de monta foi muito pequena (menos de 10%). Essa relação entre idade da novilha e probabilidade de concepção reflete a importância das estações de nascimento e de monta de curta duração.

 

 

 

 

O peso ao nascer também foi importante fonte de variação da fertilidade (Tab. 3). A média de peso ao nascer das novilhas foi de 31,1kg. A variação observada no peso ao nascimento de 24 a 40kg, estava associada com a probabilidade de predição da fertilidade de 32 a 4%, respectivamente. As novilhas que conceberam na estação de monta eram, em média, 1,1kg mais leves ao nascer do que as que falharam em conceber (Tab. 2). Apesar do efeito do peso ao nascer sobre a fertilidade ter sido ajustado linearmente, seu efeito sobre a probabilidade de predição de concepção não foi linear em função do relacionamento não linear entre essas duas variáveis. Dessa forma, aumento no peso ao nascer de 5kg em animais mais leves (por exemplo, de 24 para 29kg) resultaria em decréscimo de 14 pontos percentuais (de 32 para 18%) na predição da fertilidade, ao passo que o mesmo aumento de 5kg para peso ao nascer em animais mais pesados (de 34 para 39kg) proporcionaria redução de apenas 5 pontos percentuais (de 9 para 4%). Com isso, pode-se considerar que novilhas mais leves ao nascimento apresentaram maior probabilidade de ficar gestantes na estação de monta quando expostas à reprodução com um ano de idade.

O efeito do desenvolvimento pré-desmama sobre a fertilidade na estação de monta foi avaliado por meio das variáveis peso à desmama, ganho de peso diário pré-desmama e taxa de crescimento relativo pré-desmama. A fertilidade foi influenciada significativamente pelo ganho de peso diário pré-desmama e pela taxa de crescimento relativo pré-desmama (Tab. 3). Essas variáveis contribuíram, respectivamente, com 1,7 e 4,4% para explicar a variação da fertilidade. A média de ganho de peso diário pré-desmama foi de 0,805kg. Variação de ganho de peso pré-desmama de 0,500 a 1,110kg, estava associada à variação de fertilidade de 4 a 26%. As novilhas que ficaram gestantes na estação de monta ganharam, em média, 0,040 kg/dia a mais no período pré-desmama do que as não gestantes (Tab. 2). Embora o efeito do ganho de peso diário pré-desmama sobre a fertilidade tenha sido ajustado linearmente, seu efeito sobre a probabilidade de predição da concepção teve comportamento não linear. Assim, ganho diário de peso no período pré-desmama de 0,500 para 0,600kg proporcionou aumento de 2 pontos percentuais (de 4 para 6%) na predição de gestação, enquanto que o mesmo aumento de 0,100kg para ganho de peso diário na pré-desmama de 1,000 para 1,100kg resultou em elevação de 6 pontos percentuais (de 20 para 26%) na predição de fêmeas gestantes. Portanto, pode-se considerar que novilhas que ganharam mais peso durante o período pré-desmama mostraram maiores chances de se tornarem gestantes na estação de monta.

A média da taxa de crescimento relativo pré-desmama foi de 0,39% por dia. A amplitude observada nessa taxa de crescimento, de 0,31 a 0,45% por dia, estava associada à probabilidade de predição da fertilidade de 2 a 32%, respectivamente. As novilhas que ficaram gestantes na estação de monta apresentaram, em média, 0,01% a mais na taxa de crescimento relativo pré-desmama do que as novilhas que falharam em conceber (Tab. 2). Apesar do efeito linear da taxa de crescimento relativo pré-desmama sobre a fertilidade ter sido significativo, a associação foi não linear no modelo logístico. Dessa forma, um aumento de 0,05% quando a taxa de crescimento relativo pré-desmama é baixa, por exemplo de 0,31 a 0,36%, causaria aumento de 4 pontos percentuais (de 2 para 6%) na predição da fertilidade, enquanto que o mesmo aumento de 0,05% a taxas mais elevadas, por exemplo de 0,40 a 0,45%, proporcionaria aumento de 19 pontos percentuais (de 13 para 32%). Assim, pode-se considerar que novilhas com maior taxa de crescimento relativo pré-desmama apresentam maior probabilidade de ficar gestantes na estação de monta do que as com menor taxa durante os primeiros 205 dias de vida.

A taxa de crescimento relativo total também foi importante fonte de explicação na variação da fertilidade (Tab. 3). A média da taxa de crescimento relativo total das novilhas foi de 0,24% por dia. Os extremos na taxa de crescimento relativo total, de 0,20 e 0,28% por dia, corresponderam às probabilidades de gestação de 2 e 30%, respectivamente. Novilhas que se tornaram gestantes na estação de monta apresentaram, em média, taxa de crescimento relativo total superior em 0,01% do que as novilhas que não conceberam na temporada de acasalamento (Tab. 2). O efeito da taxa de crescimento relativo total sobre a fertilidade foi ajustado linearmente. Todavia, seu efeito sobre a probabilidade de predição da gestação seguiu perfil não linear. Assim, aumento na taxa de crescimento relativo total de 0,20 para 0,24% proporcionou aumento de 7 pontos percentuais (de 2 para 9%) na predição da fertilidade e taxa de crescimento relativo total ainda maior, de 0,24 para 0,28%, resultou em aumento de 21 pontos percentuais (de 9 para 30%). Portanto, pode-se considerar que novilhas com maior taxa de crescimento relativo total apresentaram maior probabilidade de se tornarem gestantes na estação de monta do que novilhas com menor taxa durante o primeiro ano de vida. O efeito da taxa de crescimento relativo total sobre a fertilidade foi diferente dos relatados por Etienne & Martin (1979) e Bergmann & Hohenboken (1992).

A idade da vaca ao parto influenciou significativamente a fertilidade da sua filha exposta com um ano de idade na primeira estação de monta (Tab. 3). A média de idade ao parto das mães das novilhas foi de 6,3 anos. Novilhas que ficaram gestantes ao final da estação de monta eram filhas de vacas mais jovens, em média 1,1 anos a menos (Tab. 2) do que as mães das novilhas não gestantes. A variação na idade da vaca ao parto, de 2 a 17 anos, estava associada à probabilidade de predição da gestação de 20% a 3%, respectivamente. Como observado com as outras cinco variáveis, o efeito da idade da vaca ao parto não foi linear. Vacas mais jovens ao parto, por exemplo de 2 e 4 anos, tiveram novilhas com probabilidade de se tornarem gestantes de 20 e 16%, respectivamente, enquanto que vacas mais velhas ao parto, por exemplo de 10 e 12 anos, tiveram filhas cujas as predições foram de 7,4% e 5,7%, respectivamente. Dessa forma, pode-se considerar que novilhas filhas de vacas mais jovens apresentaram maior probabilidade de conceberem na estação de monta do que novilhas filhas de vacas mais velhas.

A importância das combinações de variáveis na explicação da variação da fertilidade foi descrita por oito modelos de regressão (Tab. 4). O efeito do ano da estação de monta foi excluído do primeiro para o segundo modelo porque esta variável não pode ser usada para predizer a taxa de gestação das novilhas. Assim, o modelo 7 teve por objetivo quantificar o efeito isolado do ano da estação de monta sobre a fertilidade (R2= 6,1%), uma vez que nas duas estações houve diferenças importantes nas taxas de gestação das novilhas.

O modelo completo (modelo 1), que incluiu os efeitos linear e quadrático de todas as 11 variáveis observadas desde o nascimento até o início da estação de monta e mais o efeito do ano da estação, explicou 26,6% da variação na fertilidade das novilhas Nelore (Tab. 4). Esse modelo apresentou ainda 85,4% de pares concordantes das combinações entre as novilhas gestantes e as não gestantes ao final da temporada de acasalamento.

O modelo 2 incluiu os efeitos linear e quadrático de todas as 11 variáveis, porém sem o efeito do ano da estação. Houve redução de 23%, em relação ao modelo 1, na explicação da variação da fertilidade (R2= 20,5%).

No modelo 3 os efeitos linear e quadrático da idade da novilha no início da estação de monta foram excluídos, o que reduziu a magnitude da variação da fertilidade em 31% (R2= 14,1%), em relação ao segundo modelo.

No modelo 4, os efeitos linear e quadrático da idade da vaca, mãe da novilha, ao parto foram eliminados, e a variação na fertilidade das novilhas explicada pelo modelo apresentou decréscimo de 15% (R2= 12%) em relação ao terceiro modelo, além de produzir 74,8% de pares concordantes (Tab. 4). O quarto modelo foi constituído pelos três pesos (ao nascer, à desmama e a um ano de idade), pelos três ganhos de peso (pré e pós-desmama e total) e pelas três taxas de crescimento relativo (pré e pós-desmama e total). Dessa forma, ele refletiu diretamente a associação entre as características de desenvolvimento das novilhas e a fertilidade. Pode-se observar a partir da redução de 15% na explicação da variação na fertilidade que o efeito da idade da vaca ao parto foi importante fator relacionado à taxa de gestação das novilhas, porém com menor grau de importância em relação aos efeitos idade da novilha no início da estação e ano da estação de monta.

Para avaliar separadamente os efeitos das variáveis de desenvolvimento pré e pós-desmama sobre a fertilidade, o quarto modelo foi dividido em outros dois: o modelo 5, contendo os efeitos lineares e quadráticos do peso à desmama, do ganho de peso pré-desmama e da taxa de crescimento relativo pré-desmama e o modelo 6, contendo os efeitos lineares e quadráticos do peso a um ano de idade, do ganho de peso pós-desmama e da taxa de crescimento relativo pós-desmama. Apesar dos efeitos do peso ao nascer das novilhas e da taxa de crescimento relativo total terem sido estatisticamente significativos, estes efeitos foram eliminados para que a comparação entre os modelos pré e pós-desmama fosse realizada com o mesmo número de variáveis. O modelo 5 apresentou R2 de 6,6%, enquanto o modelo 6 explicou apenas 2,9% da variação da fertilidade das novilhas Nelore. Além disso, o modelo 5 propiciou 70,7% de pares concordantes contra 67,1%, do modelo 6. Assim, pode-se considerar que o modelo 5, contendo características pré-desmama, foi mais eficiente em justificar a variação na fertilidade.

O modelo mais apropriado para predizer a fertilidade (modelo 8), em termos de significância estatística das variáveis regressoras, incluiu os efeitos lineares da idade da novilha no início da estação de monta e da taxa de crescimento relativo total (Tab. 4 e 5).

O comportamento das duas variáveis envolvidas no modelo selecionado não foi diferente do observado quando usadas como regressoras individuais. A fertilidade aumentou à medida que a idade da novilha no início da estação de monta foi maior, mas não de maneira linear. Do mesmo modo, a fertilidade apresentou tendência de aumento em novilhas que tiveram maior taxa de crescimento relativo total, porém, também de forma não linear. Pela Tab. 5 pode-se constatar que a probabilidade máxima de concepção (93%) verificou-se em novilhas com maior idade no início da estação de monta (465 dias) e com maior taxa de crescimento relativo total (0,28% por dia). Novilhas com 309 dias de idade no início da estação de monta e com menor taxa de crescimento relativo total (0,20% por dia) apresentaram probabilidade de concepção de apenas 0,37%.

O pecuarista poderia usar os modelos logísticos de predição da fertilidade de duas maneiras. A primeira seria classificar as novilhas de reposição de acordo com a probabilidade de concepção, isto é, manter aquelas com maior probabilidade de se tornarem gestantes e descartar as com menor probabilidade de conceberem. A segunda possibilidade seria considerar qualquer novilha cuja probabilidade de concepção fosse maior ou igual a 50% como passível de conceber, e aquela cuja probabilidade de gestação fosse menor que 50%, como passível de não conceber. A escolha das fêmeas de reposição seria feita de acordo com um desses dois critérios. Se este último tivesse sido adotado neste estudo, a concordância entre a predição de fertilidade e a fertilidade observada seria a mostrada na Tab. 6.

 

 

A fertilidade observada nas duas estações de monta foi de 11,5% (36 de 312 fêmeas). Usando-se o modelo selecionado, foi possível obter 88,45% de predição de fertilidade (276 acertos em 312 fêmeas). Portanto, a utilização do modelo selecionado resultaria em superioridade na predição da fertilidade de 76,9% (88,4% menos 11,5%) em relação à não utilização de modelo algum. A importância desse aumento na precisão de identificar novilhas que ficariam gestantes ou que não conceberiam durante a estação de monta depende do tamanho da população na qual o modelo foi aplicado. Adicionalmente, como o limiar de probabilidade para determinar se uma fêmea ficaria não gestante foi de 50%, o modelo selecionado classificou menos 2 novilhas acima dessa probabilidade para se tornarem gestantes. Assim, para a presente situação, a principal utilidade do modelo de predição da gestação seria a classificação das novilhas.

 

CONCLUSÕES

Novilhas mais velhas no início da estação de monta apresentaram maior probabilidade de gestação que as mais jovens. Novilhas com maior taxa de crescimento relativo pré-desmama e total, com menor peso ao nascer e filhas de vacas mais jovens também apresentaram maior probabilidade de fertilidade na estação de monta. Em geral, os efeitos das variáveis de desenvolvimento pré-desmama foram mais importantes na explicação da fertilidade do que os das variáveis observadas após a desmama. O modelo selecionado para predizer a fertilidade das novilhas Nelore incluiu as variações idade da novilha no início da estação de monta e taxa de crescimento relativo total.

 

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