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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.2001 no.5 Belo Horizonte Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000500005 

Ação in vitro dos fungos Beauveria bassiana (Bals) Vuill e Metarhizium anisopliae (Metsch) Sorok sobre ninfas e adultos de Amblyomma cajennense (Fabricius, 1787) (Acari: Ixodidae)

[In vitro action of the fungi Beauveria bassiana (Bals) Vuill and Metarhizium anisopliae (Metsch) Sorok on ninphs and adults of Amblyomma cajennense (Fabricius, 1787) (Acari: Ixodidae)]

 

R.C.S. Reis1, D.R. Melo1, E.J. Souza1, V.R.E.P. Bittencourt2*

1Curso de Pós Graduação em Medicina Veterinária – Parasitologia Veterinária, UFRRJ
2Departamento de Parasitologia Animal do Instituto de Veterinária da UFRRJ
Br 465, km 7
23890-000 – Seropédica, RJ

 

Recebido para publicação em 2 de janeiro de 2001
* autor para correspondência
E-mail: vaniabit@ufrrj.br

 

 

RESUMO

O trabalho teve por objetivo verificar a mortalidade in vitro de ninfas e adultos de Amblyomma cajennense frente à ação de isolados dos fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae. Foram avaliados três isolados de M. anisopliae (959, 319 e E9) e dois de B. bassiana (986 e 747). As suspensões de conídios foram preparadas a partir de fungos produzidos em meio de arroz, e cada bioensaio foi constituído de quatro tratamentos nas concentrações 105, 106, 107, 108 conídios/ml e um grupo-controle. A análise constou da observação do percentual de mortalidade, 15 dias após o tratamento ou após a ecdise de adultos. Foram observadas diferenças significativas entre os tratamentos quanto à mortalidade para todos os isolados e todos os instares. Nos grupos tratados houve aumento considerável na mortalidade à medida que se aumentava a concentração de conídios na suspensão. Conclui-se que todos os isolados testados causaram mortalidade em testes in vitro sobre esses estádios evolutivos, sugerindo o controle do A. cajennense pela ação desses fungos.

Palavras-chave: Carrapato, Amblyomma cajennense, Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, controle biológico

 

ABSTRACT

This work aimed at the evaluation of the in vitro susceptibility of Amblyomma cajennense nimphs and adults to isolates of Beauveria bassiana and Metarhizium anisopliae fungi. Three isolates of M. anisopliae (959, 319 e E9) and two of B. bassiana (986 e 747) were used. Conidia suspensions were made from fungi grown up in a rice culture medium and each test consisted of four treated groups (105, 106, 107, 108 conidia/ ml) plus a control group. Viability of individuals was assessed 15 days after treatment or after adult ecdisis. Significative differences were found for all treatments and for all stages studied. A large reduction in the viability of ticks was observed, and this effect increased as conidia concentration raised. Based upon the results obtained, it can be concluded that all isolates tested presented an in vitro lethality for the biological stages of A. cajennense evaluated, suggesting a potential use in the biological control of this tick species.

Keywords: Tick, Amblyomma cajennense, Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, biological control

 

 

INTRODUÇÃO

Amblyomma cajennense (Fabricius, 1787) é um carrapato amplamente distribuído no continente americano, desde o Sul do Texas, nos Estados Unidos, até a América do Sul (Robinson, 1926). Além dos danos diretos determinados pelo parasitismo, a espécie é responsável pela transmissão de patógenos causadores da erliquiose (Massard, 1984) e da febre maculosa (Monteiro et al., 1931) dentre outras doenças, o que torna fundamental o conhecimento aprofundado de sua biologia, visando estabelecer estratégias racionais e eficazes para o seu controle. O Brasil, em decorrência de suas condições climáticas, é uma região potencialmente favorável ao desenvolvimento de alta infestação por ixodídeos, onde áreas de pastagens apresentam elevada incidência dos estádios não parasitários de A. cajennense, durante todo o ano (Serra Freire, 1982).

Os fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana são comprovadamente patogênicos para insetos (Alves, 1998) e sua patogenidade foi testada em carrapatos das espécies Boophilus microplus (Bittencourt et al., 1997), Rhipicephalus sanguineus (Monteiro et al., 1998a) e Anocentor nitens (Monteiro et al., 1998b). Nessas espécies provocaram mortalidade ou alterações em algumas fases de seu ciclo biológico.

Este trabalho objetivou verificar a mortalidade in vitro de ninfas não alimentadas e alimentadas e adultos não alimentados de A. cajennense frente à ação de diferentes isolados dos fungos Beauveria bassiana (isolados 747 e 986) e Metarhizium anisopliae (isolados 319, 959 e E9).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Para a manutenção da colônia de A. cajennense foram utilizados coelhos da espécie Oryctolagus cuniculus (Linnaeus,1758), mestiços Califórnia x Nova Zelândia, com idade entre 60 e 90 dias, de ambos os sexos, com peso médio de 2kg, cedidos pelo setor de cunicultura do Instituto de Zootecnia da UFRRJ. Os ínstares utilizados no experimento foram obtidos por meio de infestação artificial dos coelhos, utilizando a técnica de Neitz et al. (1971), que se baseia na colocação de um saco feito de tecido fixado ao redor da base de suas orelhas, onde são colocadas as larvas e ninfas para a alimentação.

Após cinco dias de ingurgitamento, as larvas e/ou ninfas alimentadas foram retiradas do saco de tecido e levadas ao laboratório, contadas e acondicionadas em tubos de ensaio em número de 10 larvas/ninfas alimentadas, e mantidas sob condições controladas (temperaturas de 27ºC, umidade relativa superior a 80%).

Os isolados de B. bassiana e M. anisopliae utilizados no experimento foram obtidos do Departamento de Entomologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. Foram avaliados três isolados de M. anisopliae, denominados 959 (isolado de carrapato), 319 (isolado de formiga), e E9 (isolado padrão) e dois isolados de B. bassiana, denominados 986 (isolado de carrapato) e 747 (isolado de formiga).

As suspensões de conídios foram preparadas a partir de fungos produzidos em meio de arroz em sacos de polipropileno, e cada bioensaio com ninfas não alimentadas foi constituído de um grupo, realizado em condições controladas de temperatura e umidade (27°C e > 80%UR), com cinco diferentes tratamentos, sendo quatro com suspensões com fungos nas concentrações de 105, 106, 107, 108 conídios/ml, e um grupo-controle tratado com solução de água esterilizada com 0,1% de espalhante adesivo.

Para cada tratamento foram feitas 10 repetições e utilizadas 10 ninfas/adultos em cada repetição. Os tubos de ensaio foram vedados com algodão hidrófilo e devidamente identificados com a concentração e o isolado do fungo em questão. Cada grupo de ninfas/adultos recebeu um mililitro da suspensão de conídios ou da solução 0,1% de espalhante adesivo, de acordo com o tratamento, sendo mantidos imersos durante cinco minutos.

A ação dos fungos B. bassiana e M. anisopliae sobre ninfas e adultos não alimentados de A. cajennense foi avaliada pela observação da viabilidade das ninfas/adultos 15 dias após o tratamento com os fungos. A avaliação da ecdise ninfal das ninfas alimentadas tratadas foi feita 15 dias após a completa ecdise dos adultos do grupo-controle.

Foram realizadas análises de variância para determinar as variações dentro de um mesmo tratamento e entre tratamentos com os diferentes isolados e concentrações. Aplicou-se o teste Tukey para comparação entre as médias. Para calcular a concentração letal (CL) 50 e 90 foi usada a análise de próbites (Litchfield & Wilcoxon, 1949).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos experimentos com ninfas não alimentadas foram observadas diferenças significativas no percentual de mortalidade entre os tratamentos em todos os isolados testados (Tab. 1). Nos grupos tratados houve aumento considerável na mortalidade das ninfas à medida que se aumentava a concentração de conídios na suspensão. Estes resultados são semelhantes aos encontrados por outros autores (Bittencourt et al., 1997; Monteiro et al., 1998a, b; Barbosa et al., 1997), que mesmo trabalhando com outras espécies de carrapatos e outros estádios parasitários, verificaram que esses fungos exerciam efeito deletério sobre as espécies de carrapato avaliadas. Barbosa et al. (1997), ao avaliarem o efeito de fungos entomopatogênicos sobre o estádio de ninfa não alimentada de Rhipicephalus sanguineus, encontraram mortalidade de 100% nos grupos tratados com as suspensões de 106 e 108 dos mesmos isolados de B. bassiana utilizados neste trabalho, bem superior às mortalidades de 56 e 73% encontradas para os isolados Bb986 e Bb747, respectivamente. Kaaya et al. (1996) realizaram experimento semelhante com R. appendiculatus e encontraram resultados semelhantes, porém a mortalidade não ultrapassou 96%. Estes resultados demonstram que ocorrem diferenças com relação à susceptibilidade aos entomopatógenos em diferentes espécies de carrapatos.

 

 

Em relação à mortalidade de ninfas alimentadas foram observadas diferenças significativas entre os tratamentos em todos os isolados, reduzindo o percentual de ecdise à medida que se aumentava a concentração de conídios na suspensão. Esse estádio foi o menos susceptível aos fungos. Na literatura não há trabalhos realizados com ninfas ingurgitadas de nenhuma espécie de carrapato. A mortalidade verificada no grupo com concentração de conídios mais elevada (108) não foi superior a 65%, observada no isolado M. anisopliae 959. Castro et al. (1997) verificaram que em Boophilus microplus os estádios alimentados foram menos susceptíveis à ação do isolado 959 de M. anisopliae devido à perda de cutícula durante a ecdise. Em outro trabalho (Bittencourt et al., 1999) foi comprovado que esses fungos penetram nos carrapatos através da cutícula, o que justifica os resultados do presente trabalho.

Nos adultos não alimentados foram observadas diferenças significativas entre os tratamentos em todos os isolados testados, reduzindo o percentual de sobrevivência à medida que se aumentava a concentração de conídios na suspensão. A mortalidade verificada no grupo com concentração de conídios mais elevada (108) foi superior a 63% em todos os isolados. Estes resultados, mais uma vez, confirmam os encontrados por Castro et al. (1997) e Bittencourt et al. (1999).

As CL 50 e CL90 obtidas com todos os isolados para os três instares podem ser observadas na Tab. 2. Os valores mais baixos foram para adultos não alimentados. As CL 50 e 90 obtidas por Souza et al. (1999a, b) com esses mesmos isolados em experimento realizado com ovos e larvas dessa mesma espécie de carrapato foram bem inferiores. Esses autores verificaram que a CL 50 para viabilidade de ovos variou de 3,23 x 107 a 3,82 x 108conídios/ml entre os diferentes isolados e para mortalidade de larvas variou de 1,8 x 105 a 3,9 x 107 conídios/ml.

 

 

Com base nos resultados apresentados neste trabalho pode-se concluir que os isolados de fungos testados demostraram causar efeito deletério em testes in vitro sobre os estádios avaliados de A. cajennense, sugerindo o controle dessa espécie de carrapato pela ação microbiana dos fungos B. bassiana e M. anisopliae.

 

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