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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.3 Belo Horizonte June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352002000300010 

Fertilidade de novilhas após aborto induzido com cloprostenol

[Fertility of heifers after abortion induced by cloprostenol]

 

C.A.C. Fernandes1, J.H.M. Viana2, A.M. Ferreira2, W.F. 2

1Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Alfenas
MG 179, km 0, Campus Universitário
37130-000 - Alfenas, MG

2
Embrapa Gado de Leite

 

Recebido para publicação em 9 de março de 2001.
Recebido para publicação, após modificações, em 10 de maio de 2002
E-mail:
cacf@biotran.com.br

 

 

RESUMO

O efeito da interrupção da gestação sobre a fertilidade foi avaliada em 50 novilhas da raça Holandesa, gestantes de fetos do sexo masculino entre 55 e 90 dias de idade. O aborto foi induzido pela administração de cloprostenol sódico, após o diagnóstico do sexo fetal. Os animais foram inseminados no segundo estro normal após o aborto. A interrupção da gestação ocorreu em 86% dos animais tratados e a via de administração, intramuscular ou intravulvar, não afetou a taxa de aborto. Os intervalos do aborto à primeira inseminação e do aborto à concepção foram de 38,94± 4,96 e 47,32± 15,89 dias, respectivamente. Não houve diferença no número médio de serviços por concepção pré e pós-interrupção da gestação (1,22 vs. 1,34; P>0,05). Conclui-se que a indução do aborto no terço inicial da gestação em novilhas não compromete a fertilidade dos animais.

Palavras-chave: Bovino, gestação, aborto induzido, prostaglandina, taxa de concepção

 

ABSTRACT

The effect of interruption of pregnancy on fertility was evaluated in 50 Holstein heifers, carrying male fetuses ranging from 55 to 90 days post conception. Abortion was induced by administration of sodic cloprostenol after fetal gender diagnosis. Heifers were inseminated on the second normal estrus after abortion. The interruption of gestation was 86% in treated animals, and route of administration, IM ou IV (intra-vulvar), did not affect the rate of abortion. The abortion to first insemination and abortion to conception intervals were 38.94± 4.96 and 47.32± 15.89 days, respectively. No difference on the number of inseminations per conception before or after the interruption of pregnancy (1.22 vs. 1.34; P>0.05) was observed. It was conclude that abortion induction in the first third of pregnancy did not affect heifer fertility.

Keywords: Bovine, pregnancy, abortion induction, prostaglandin, conception rate

 

 

INTRODUÇÃO

Na pecuária leiteira, o nascimento de animais do sexo masculino é normalmente indesejado, pois eles não são incorporados ao sistema de produção e apresentam pouco valor comercial, sendo freqüentemente descartados poucos dias após o nascimento. A porcentagem de nascimentos de machos em rebanhos leiteiros é igual ou eventualmente até ligeiramente maior que a porcentagem de fêmeas (Viana et al., 2000). A identificação precoce e a interrupção de gestações de fetos do sexo masculino poderiam ser uma alternativa para aumentar a proporção de nascimentos de fêmeas nesses rebanhos.

O desenvolvimento da técnica da sexagem através da ultra-sonografia transretal possibilitou a identificação do sexo fetal, inicialmente pela visualização das estruturas genitais no período de 75 a 90 dias da gestação (Müller & Wittkowski, 1986), e posteriormente pela identificação do tubérculo genital após apenas 54 a 55 dias de gestação (Curran et al., 1989). Essa técnica é não invasiva, de execução rápida, pouco traumática para os animais gestantes e de risco mínimo para o feto examinado. A eficiência da sexagem fetal pela ultra-sonografia é próxima de 100%, tanto na caracterização de fetos do sexo masculino como feminino (Gregory et al., 1985; Viana et al., 2000).

Nos bovinos, o corpo lúteo é a principal fonte de progesterona plasmática, sendo a presença de um corpo lúteo funcional imprescindível para o estabelecimento e a manutenção da gestação (Niswender et al., 1994). A descoberta do papel da prostaglandina F2a; na indução da luteólise nos bovinos (Knickerbocker et al., 1988) possibilitou aos técnicos o controle exógeno da função lútea e, conseqüentemente, a interrupção de gestações após sua administração ou a de seus análogos sintéticos (Kastelic & Ginther, 1989; Lavoir & Betteridge, 1996).

Os benefícios de identificação precoce e interrupção de gestações de fetos do sexo masculino, contudo, dependeriam do não comprometimento da fertilidade dos animais submetidos ao aborto. Diversos relatos apontam para a associação entre aborto e redução da fertilidade no período subseqüente (Lewis, 1997). Esses estudos, entretanto, consideram abortos que ocorreram em diversas fases da gestação e por etiologias variadas, não sendo parâmetros adequados para comparação.

Os objetivos deste trabalho foram avaliar o efeito da indução do aborto com cloprostenol sódico no início da gestação e o efeito da via de aplicação sobre a fertilidade de novilhas da raça Holandesa.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 50 novilhas da raça Holandesa, gestantes e que apresentavam fetos do sexo masculino. A determinação do sexo do feto foi realizada no período de 55 a 90 dias de gestação, pela identificação e caracterização da posição relativa do tubérculo genital, conforme descrito por Curran et al. (1989). Os diagnósticos foram realizados utilizando-se um aparelho de ultra-som equipado com transdutor linear retal bifreqüencial de 6/8 MHz (Scanner 100LC, Pie Medical).

A interrupção das gestações foi induzida pela administração de 250m g de cloprostenol sódico (Ciosin, Coopers) pelas vias intramuscular (n=26) ou intravulvar (n=24), após o diagnóstico do sexo do feto. Os animais foram avaliados por palpação retal sete a oito dias após a administração do luteolítico, para se determinar a efetividade da indução do aborto e verificar as estruturas ovarianas presentes. Nos casos em que a gestação não foi interrompida após o tratamento inicial, administrou-se uma segunda dose de cloprostenol. Confirmado o aborto, foi realizada uma segunda aplicação de cloprostenol, idêntica à primeira, 12 dias mais tarde.

Durante o período experimental, a detecção de estro foi feita pelo método visual, três vezes ao dia, utilizando-se um rufião preparado pela técnica de aderência de pênis. Os animais foram inseminados a partir do segundo estro regular (intervalo de 19 a 22 dias) manifestado após o término do tratamento.

A eficiência de indução do aborto e o percentual de animais em estro após cada aplicação de cloprostenol foram avaliados pelo teste do qui-quadrado (Zar, 1984). O efeito da interrupção da gestação sobre a fertilidade foi determinado pela diferença no número de serviços por concepção antes e após a aplicação do produto para indução do aborto, utilizando-se o teste de Wilcoxon para dados pareados. Usou-se análise de variância para estudar o efeito da via de aplicação (intramuscular ou intravulvar) sobre os intervalos do aborto à primeira inseminação, do aborto à concepção e entre concepções.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A administração da primeira dose de cloprostenol sódico resultou na interrupção da gestação em 86% das novilhas, com eficiência semelhante entre as vias de aplicação (Tab. 1). Estes resultados são coerentes com a observação de que a administração de cloprostenol induz a regressão morfológica e funcional do corpo lúteo, com queda na concentração de progesterona para valores inferiores a 1ng/ml (Viana et al., 1999). A não interrupção da gestação em alguns animais foi provavelmente atribuída a falhas na indução da luteólise, ou luteólise parcial, com a manutenção de produção mínima de progesterona. Sabe-se que a redução na concentração desse esteróide para valores basais é considerada incompatível com a manutenção da gestação em bovinos (Sreenan & Diskin, 1983; Lulai et al., 1994). O percentual de animais que manifestaram estro após a segunda aplicação de cloprostenol foi maior em relação aos que exibiram estro após a primeira aplicação (84% vs. 46%, P<0,001), indicando que na maioria dos animais o aborto foi seguido da atividade lútea cíclica, com a ocorrência de nova ovulação e formação de corpo lúteo. O intervalo entre os tratamentos (12 dias) possivelmente indicou, dessa forma, que no momento da segunda aplicação o novo corpo lúteo estava no período de maior sensibilidade à ação da prostaglandina (Watts & Fuquay, 1985).

 

 

O intervalo médio do aborto à primeira inseminação foi de 38,94± 4,96 dias e o coeficiente de variação de 12,7%. Considerando-se o período de espera voluntário estabelecido, o restabelecimento da atividade ovariana não se caracterizou como fator limitante para a fertilidade subseqüente ao aborto. Não houve diferença no número de serviços por concepção antes ou após a interrupção da gestação (1,22 vs. 1,34; P>0,05), o que resultou em diferença de apenas 17% entre os intervalos do aborto à primeira inseminação e do aborto à concepção (38,94± 4,96 e 47,32± 15,89 dias, respectivamente). O intervalo médio entre as concepções, calculado pelo número médio de dias entre as inseminações que determinaram as gestações pré e pós-aborto foi de 115,06± 17,73 dias. Esse intervalo foi influenciado pelo período de gestação em que se induziu o aborto, e variou de 55 a 90 dias. O tempo necessário para o estabelecimento de nova gestação não foi afetado pelo período da gestação anterior, quando foi induzido o aborto.

A possibilidade de nova concepção após uma gestação depende da involução uterina, que é negativamente influenciada pela ocorrência de patologias puerperais (Lewis, 1997). Quando o aborto é induzido em fases mais adiantadas da gestação não ocorrem alterações necessárias para o descolamento normal entre a carúncula e o cotilédone (Santos & Marques Júnior, 1996), e a presença de restos placentários retarda a involução uterina e propicia o desenvolvimento de infeções que reduzem a fertilidade (Van Werven et al., 1992; Laven & Peters, 1996). Nos primeiros dois meses de gestação, entretanto, o processo de implantação está entre as fases de justaposição e aderência, e os placentomas ainda estão em formação (Santos & Marques Júnior, 1996). Lavoir & Betteridge (1996) observaram que a indução do aborto em gestações com menos de 40 dias era seguida da rápida eliminação do feto e anexos, e com mais de 50 dias a expulsão do feto era mais lenta, pois dependia de maior dilatação cervical e contração uterina. Esses autores não observaram comprometimento da fertilidade em animais submetidos ao aborto entre 31 e 60 dias de gestação. No presente experimento, o aborto foi induzido em uma fase um pouco mais tardia da gestação (55 a 90), mas com resultados semelhantes em relação à fertilidade subseqüente.

A via de aplicação não influenciou (P>0,05) as características avaliadas (Tab. 1). A aplicação intravulvar é uma alternativa para a administração de luteolíticos, apresentando resultados similares à via intramuscular na sincronização de estro. Quando se utiliza a mesma dose não há diferenças na eficiência (Fernandes & Figueiredo, 2000). A eficiência da aplicação intravulvar na indução da luteólise acarreta resultados semelhantes aos observados com a aplicação intramuscular quanto aos intervalos do aborto à primeira inseminação e do aborto à concepção.

 

CONCLUSÕES

A interrupção da gestação em novilhas pela administração de cloprostenol no terço inicial da gestação não compromete a fertilidade subseqüente e pode ser utilizada em casos de gestações indesejadas. A via de aplicação, intramuscular ou intravulvar, não altera sua eficiência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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