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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.4 Belo Horizonte July/Aug. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000400007 

Compactação no intestino grosso de eqüinos: estudo comparativo de três protocolos de indução

[Equine large intestine impaction: comparative study of three inducion protocols]

 

J.D. Ribeiro Filho1, G.E.S. Alves2

1Departamento de Veterinária
Universidade Federal de Viçosa
36571-000 – Viçosa,MG

2
Escola de Veterinária da UFMG

 

Recebido para publicação em 5 de setembro de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 23 de maio de 2002
E-mail:dantas@ufv.br

 

 

RESUMO

Avaliou-se a associação de amitraz (formamidina) e furosemida, administradas em eqüinos sob jejum hídrico e alimentados com feno ad libitum, para induzir compactação reversível do intestino grosso. Utilizaram-se 18 eqüinos de ambos os sexos, sem raça definida, idade de 3 a 16 anos, escore corporal médio ( 3,0 ) e clinicamente saudáveis. Os eqüinos foram divididos em três grupos com seis animais. Cada grupo foi submetido a um dos seguintes protocolos: I – amitraz (0,5mg/kg IV, três aplicações de 12/12h), furosemida (1mg/kg IV, duas aplicações de 12/12h) e jejum hídrico por 48h; avaliações na 0, 12, 24, 36 e 48ª hora; II – amitraz (0,5mg/kg IV, quatro aplicações de 12/12h), furosemida (1mg/kg IV, quatro aplicações de 12/12h) e jejum hídrico por 48h; avaliações na 0, 12, 24, 36 e 48a hora; III – amitraz (0,5mg/kg IV, sete aplicações de 8/8h), furosemida (1mg/kg IV, quatro aplicações de 8/8h) e jejum hídrico por 72h; avaliações na 0, 8, 16, 24, 32, 40, 48 e 72ª hora. A avaliação clínica constou de tomadas da temperatura retal e das freqüências cardíaca e respiratória, e verificação do tempo de enchimento capilar, da motilidade intestinal, da distensão do abdome, das características das fezes, da dor e do grau de compactação. Na avaliação de laboratório foram mensurados o hematócrito e as proteínas plasmáticas totais. Concluiu-se que o protocolo III foi o mais eficiente para induzir compactação reversível, podendo ser utilizado como modelo para estudos controlados na área de gastrenterologia.

Palavras-chave: Eqüino, compactação, intestino grosso, amitraz, furosemida

 

ABSTRACT

The aim of this study was to evaluate the induction of reversible impaction of the large intestine of horses submitted to restricted water intake and treatment with amitraz (formamidine) associated with furosemide. Eighteen crossbred animals of both sexes ranging from 3 to 16 years old were used. They received hay ad libitum, showed an intermediate body condition score, and were considered clinically healthy. The animals were divided into three groups of six animals. Each group was submitted to one of the following protocols: I – amitraz (0.5 mg/kg IV, three injections q12h), furosemide (1 mg/kg IV, two injections q12h), and no water intake for 48 hours. Clinical examinations were performed at 0, 12, 24, 36 and 48 hours after the beginning of the treatment; II - amitraz (0.5 mg/kg IV, four injections q12h), furosemide (1 mg/kg, four injections q12h), and no water intake for 48 hours. Clinical examinations were performed at 0, 12, 24, 36 and 48 hours after the beginning of the treatment; III – amitraz (0.5 mg/kg IV, seven injections q 8h), furosemide (1 mg/kg IV, four injections q 8h), and no water intake for 72 hours. Clinical examinations were preformed at 0, 8, 16, 24, 32, 40, 48 and 72 hours after the beginning of the treatment. Clinical assessment was based on rectal temperature, cardiac and respiratory rates, capillary refill time, intestinal motility, abdominal distention, fecal evaluation, pain, and the degree of impaction. Laboratory tests included hematocrit and concentration of total plasmatic proteins. In conclusion, the protocol III was the most efficient for induction of reversible impaction. This protocol could be a useful tool in controlled studies in the area of equine gastroenterology.

Keywords: Equine, impaction, large intestine, amitraz, furosemide

 

 

INTRODUÇÃO

A compactação é uma afecção gastrintestinal comum que acomete os eqüídeos, sendo considerada importante causa da síndrome cólica. Pode ocorrer em qualquer segmento intestinal mas em eqüinos é particularmente freqüente no intestino grosso, sobretudo no cólon maior (White, 1990; Dabareiner & White, 1995). Os mecanismos envolvidos na ocorrência de compactação do cólon maior não são completamente conhecidos, mas alguns fatores predisponentes já foram identificados. A ingestão de alimentos com elevado teor de lignina e alterações dentárias e da motilidade do cólon favorecem o desenvolvimento de compactação (Sellers & Lowe, 1986; Schlipf & Baxter, 1992). Redução da ingestão de água, desidratação ou fatores que diminuem o trânsito intestinal resultam em ressecamento do conteúdo intestinal, contribuindo para a ocorrência de compactação (Pugh & Thompson, 1992; Doran, 1993). Não raramente a compactação no colón maior decorre do emprego de amitraz para controle de ectoparasitas (Roberts & Seawright, 1979, 1983; Auer et al., 1984; Dearo & Gandolfi, 1995).

O amitraz [N-metil-N-2,4-xilil-N-(N-2,4-xililfomamidil) formamidina] (AMZ) é uma formamidina acaricida amplamente usada no controle de ectoparasitas em animais. Sintetizado na Inglaterra em 1969, é uma base fraca relativamente estável em pH alcalino, porém instável em meio ácido (Sakate et al., 1992). A farmacocinética do AMZ e seus metabólitos em eqüinos ainda é pouco conhecida. Entre as hipóteses sobre o mecanismo de ação, a principal é o seu efeito estimulante sobre os receptores alfa2-adrenérgicos (Hugnet et al., 1996; Kennel et al., 1996).

Consideradas como moderadamente tóxicas para mamíferos (Davey et al.,1984), as formamidinas produzem, após intoxicação aguda, sedação, depressão cardiovascular e respiratória, ataxia, tremores musculares, anorexia, inapetência, vômitos, midríase, hipotermia, poliúria e hiperglicemia. O AMZ apresenta elevada capacidade de absorção cutânea em eqüinos (Roberts & Seawright, 1979) e efeito acumulativo durante dias a semanas, podendo ocasionar intoxicação após uma ou mais aplicações (Cummings et al., 1985). Os sinais de intoxicação pelo AMZ em eqüinos variam de acordo com a dose e podem se apresentar entre 24 e 48 horas após a administração. Estudos experimentais com AMZ em eqüinos permitiram verificar redução dos borborigmos intestinais e da defecação, compactação e timpanismo no cólon maior, depressão do SNC, sudorese, respiração com estertores, fasciculações musculares, ataxia e paresia dos membros com flacidez da cabeça e do pescoço (Roberts & Seawright, 1983). Apesar disso, o AMZ continua sendo usado em eqüinos para o controle de ectoparasitas, por causa da sua eficácia e baixo custo. O objetivo do presente estudo foi avaliar a eficácia da associação formamidina, furosemida, jejum hídrico e feno ad libitum para a indução de compactação reversível do intestino grosso em eqüinos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 18 eqüinos de ambos os sexos, de diferentes raças e com idade variando de 3 a 16 anos, com escore corporal de 2,5 a 3,5 (Speirs, 1997) e clinicamente saudáveis. Foram distribuídos em três grupos e cada grupo com seis animais (dois machos castrados e quatro fêmeas). O modelo experimental estudado foi constituído por três protocolos especificados a seguir:

Os momentos das avaliações clínicas e de laboratório relativos ao tempo nos diferentes protocolos são descritos abaixo:

As características clínicas avaliadas foram temperatura retal, freqüência cardíaca e respiratória, tempo de enchimento capilar, motilidade intestinal, distensão do abdome, grau de compactação, características das fezes e dor. No laboratório fizeram-se avaliações do hematócrito (Centimicro Mod. 211 – Fanem) e das proteínas plasmáticas totais (Refratômetro SPR – T2 – Atago). O escore para o grau de compactação é descrito a seguir: Grau I (discreto) - flexura pélvica com conteúdo palpável de consistência amolecida ou firme, possível de ser envolvida com a mão, fezes em quantidade normal ou diminuída porém ressecadas, dor ausente ou discreta; Grau II (moderada) - flexura pélvica com conteúdo palpável de consistência amolecida ou firme, sem ser possível envolvê-la com a mão, reto vazio ou com poucas fezes ressecadas ou amolecidas e podendo conter muco, dor discreta a moderada; Grau III (grave) - flexura pélvica com conteúdo palpável de consistência firme, sem ser possível envolvê-la com a mão; usualmente outro segmento apresenta-se palpável como o cólon ventral esquerdo, cólon ventral direito ou cólon dorsal direito, reto vazio mas se há fezes nota-se uma ou duas síbalas com muco, dor moderada a grave.

O delineamento foi inteiramente ao acaso, com os dados submetidos à análise de variância. Para a comparação das médias entre os protocolos utilizou-se o teste Tukey. Para as variáveis não paramétricas (dor, grau de compactação, motilidade intestinal, características das fezes e distensão do abdome) foi utilizado o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis e para a verificação de diferença entre os protocolos foi utilizado o teste t (Sampaio, 1998), sendo consideradas significativas quando P<0,05. As análises paramétricas e não-paramétricas foram realizadas pelo programa computacional SAS, 1985.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos na avaliação clínica e de laboratório de eqüinos com compactação reversível do intestino grosso induzida experimentalmente, segundo os protocolos, estão sumarizados nas Tab. 1 e 2.

 

 

 

 

Após a administração do AMZ os eqüinos de todos os protocolos apresentaram sedação, inapetência, bradicardia, ataxia, poliúria, hipomotilidade intestinal, ausência ou redução da defecação com fezes ressecadas ou amolecidas com ou sem muco, o que está de acordo com os resultados de Roberts & Seawright (1983).

Compactação do cólon maior e cólica ocorreram em todos os animais exceto em um animal do protocolo I, embora ele tenha apresentado hipomotilidade intestinal, desidratação, fezes ressecadas e no final do período de indução ausência de fezes no reto. Este achado deveu-se à não ingestão do feno pelo eqüino, certamente por não estar adaptado à dieta. Ficou evidente que o grau de compactação foi diretamente proporcional à quantidade de feno ingerida. Os eqüinos que se alimentavam mais desenvolviam compactação em maior grau. Como o AMZ ocasionou sedação e inapetência e por ser o tempo de indução relativamente curto, 48 a 72 horas, a ingestão reduzida de feno constituiu obstáculo importante na indução da compactação. Isso demonstra que a adaptação e a ingestão de feno em quantidades adequadas durante o período de indução também são fatores essenciais no desenvolvimento da compactação. Resultados semelhantes foram obtidos por Lowe et al. (1980) que trabalharam com pôneis fistulados para indução de compactação do cólon; a simples troca da dieta, ração peletizada por feno, aumentou a taxa de animais com compactação.

A hipomotilidade intestinal predominou durante a indução da compactação, estando presente em todos os eqüinos dos três protocolos, mas não durante toda a fase de indução. Segundo Hugnet et al. (1996) e Kennel et al. (1996), ela é ocasionada pela ação estimulante do AMZ sobre os receptores alfa2-adrenérgicos. Porém, em dois eqüinos do protocolo I na 48a hora de indução, término do período, a motilidade intestinal já havia se restabelecido ao padrão basal verificado durante a pré-indução, o que coincidiu com a redução do grau de compactação. Isto provavelmente foi ocasionado pelo intervalo de administração do AMZ, três aplicações de 12/12 horas. Como a duração do protocolo I foi de 48 horas e a ação do AMZ segundo Roberts & Seawright (1983) é de 8-12 horas, os eqüinos ficavam as últimas 12 a 16 horas sem a ação da droga (Fig. 1), proporcionando o aparecimento de resultados indesejáveis.

 

 

A dose de 0,5mg/kg IV de 8/8h ou de 12/12h de AMZ, quando comparada à maior dose utilizada por Roberts & Seawright (1983), 1,67mg/kg IV, teve o objetivo de evitar o decúbito, a sedação e a inapetência prolongados, o que levaria à menor ingestão de feno e conseqüente influência negativa na formação da compactação e, principalmente, na ocorrência de íleo irreversível como descrito por Roberts & Seawright (1979) e Dearo & Gandolfi (1995). Os períodos curtos de indução, 48 a 72 horas, tiveram o objetivo de prevenir o aparecimento de compactação e choque hipovolêmico irreversíveis, além de endotoxemia.

O achado clínico característico no diagnóstico de compactação do intestino grosso, segundo White (1990) e Dabareiner & White (1995), é a presença de massa compacta de alimento no intestino, que se traduz à palpação transretal por aumento de volume de consistência firme. Essa foi a única variável a apresentar diferença significativa ao se compararem os três protocolos (Tab. 2). Embora o protocolo III não tenha apresentado diferença significativa com relação ao protocolo II, os valores obtidos em PIII indicaram maior grau de compactação. Isto provavelmente foi ocasionado pelo maior tempo de indução (72 horas), redução do intervalo de administração (8/8h) e maior número de doses do AMZ (sete). Além disso, as diferenças ocorridas nas características tempo de enchimento capilar, hematócrito e proteínas plasmáticas totais, apesar de não significativas entre os protocolos, estão sinalizando nos eqüinos do PIII a ocorrência de desidratação mais acentuada (Tab. 1). Como a desidratação é um fator que aumenta o ressecamento do conteúdo intestinal (Pugh & Thompson, 1992; Doran, 1993), os resultados sugerem que nos animais do PIII, além do maior grau de compactação do cólon maior, seu conteúdo apresenta-se mais ressecado, dificultando a resolução espontânea da afecção.

 

CONCLUSÕES

Nas condições deste estudo pode-se concluir que o protocolo III é mais eficiente do que os protocolos I e II como modelo de compactação do intestino grosso em eqüinos destinados a estudos de gastrenterologia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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