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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.5 Belo Horizonte Oct. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000500003 

Biopsia hepática em cães: relação entre qualidade da amostra e grau de conclusão do diagnóstico

[Hepatic biopsy in dogs: relationship between sampling and degree of diagnosis conclusiveness]

 

R.A. Tostes1, E.P. Bandarra2

1Universidade do Oeste Paulista – Campus II/HV
Serviço de Anatomia Patológica.
Rod. Raposo Tavares km 572 - Bairro Limoeiro
19001-970 – Presidente Prudente, SP
2
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP
Campus de Botucatu

 

Recebido para publicação em 11 de janeiro de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 28 de janeiro de 2002
Projeto financiado pela FAPESP (Proc. 95/6577-8).

 

 

RESUMO

O presente estudo objetivou analisar a qualidade do diagnóstico de biopsias colhidas com agulhas tipo aspirativa e cortante, comparando-as ao exame histológico post-mortem do fígado de cães portadores de afecções hepáticas. Foram utilizados 60 cães, sem distinção de sexo, raça ou idade. As biopsias foram procedidas com agulhas tipo MenghiniÒ (de natureza aspirativa) e agulhas tipo Tru-CutÒ (de natureza cortante). As biopsias foram colhidas utilizando-se a técnica percutânea transabdominal. O diagnóstico referente à agulha tipo Tru-CutÒ não diferiu do diagnóstico referente à agulha tipo MenghiniÒ. O referente à agulha tipo Tru-CutÒ foi o que apresentou maior índice de concordância, 88,3% de acertos. A agulha tipo Tru-CutÒ apresentou excelentes resultados independente da natureza das lesões, enquanto que a agulha tipo MenghiniÒ falhou nos casos de fibrose.

Palavras-chave: Cão, biopsia hepática, doença hepática

 

ABSTRACT

The aim of this study was to evaluate the diagnostic effectiveness of biopsies collected with aspiration or cutting needles, which were compared to the post-mortem histologic examination of the liver from dogs with hepatic diseases. Sixty mixed breed dogs of several ages and of both sexes were studied. Biopsies were collected with Menghini needles (aspiration) or Tru-Cut needles (cutting). The diagnoses obtained with the Tru-Cut needle did not differ statistically from diagnoses obtained with the Menghini needle. The diagnoses obtained with the Tru-Cut needle had a better agreement index, totaling 88.3% of correct diagnoses. The Tru-Cut needle provided excellent results, regardless of the nature of the lesions, whereas the Menghini needle failed when fibrosis was present.

Keywords: Dog, hepatic disease, hepatic biopsy

 

 

INTRODUÇÃO

As pesquisas em gastroenterologia veterinária aumentaram significativamente nas duas últimas décadas, privilegiando também a hepatologia, que considera a biopsia hepática importante na busca pelo diagnóstico. As técnicas variam de "fechadas" (biopsias cegas que comumente utilizam a via percutânea) a "semi-abertas" (biopsias mais invasivas, tendo como exemplo a realizada por laparoscopia). As técnicas "fechadas" são mais utilizadas nas doenças hepáticas difusas, em que a possibilidade da amostra ser representativa é maior. As "semi-abertas" são mais utilizadas na tentativa de se obter amostra de lesões focais, pouco acessíveis em técnicas "fechadas" (Jones et al., 1985; Hitt et al., 1992).

Diferentes agulhas de biopsia têm sido usadas para obtenção de amostras do tecido hepático (Jones et al., 1985). Duas prevaleceram como as mais utilizadas pela sua praticabilidade e por oferecer menor risco ao paciente. O primeiro tipo refere-se às agulhas tipo Tru-CutÒ, de natureza cortante; o segundo refere-se às do tipo MenghiniÒ, de natureza aspirativa. Os acessos mais utilizados incluem as vias percutânea, transtorácica ou transabdominal (Jones et al., 1985; Hitt et al., 1992). A técnica de MenghiniÒ tem sido amplamente aplicada em pacientes humanos, sobretudo em pediatria (Sherlock, 1989), e oferecem a vantagem da rapidez e de serem acessíveis, com agressão mínima ao parênquima hepático (Jones et al., 1985). As biopsias por agulha tipo Tru-CutÒ têm sido comuns em medicina veterinária, com excelentes resultados em casos que apresentam fibrose (Jones et al., 1985) e com episódios mais raros de fragmentação da amostra (Thung & Schaffner, 1994). Zawie & Gilbertson (1985) enfatizaram alguns aspectos essenciais para a realização da biopsia hepática em cães: aplicabilidade, momento para a biopsia, técnica mais adequada e possíveis complicações decorrentes da punção. O tipo de agulha e seu calibre também devem ser avaliados, considerando-se a natureza da lesão hepática (Plecha et al., 1997).

Herrtage (1994) aponta que a escolha da técnica de biopsia deve levar em conta a natureza da doença hepática, havendo necessidade de indicação prévia da silhueta do fígado por recursos de imagem que minimiza a possibilidade de iatrogenia no momento da punção, por haver delimitação precisa do órgão.

O objetivo deste estudo foi avaliar a qualidade de amostras obtidas por meio de biopsia aspirativa (agulha tipo MenghiniÒ) contraposta às amostras obtidas por biopsia cortante (agulha tipo Tru-CutÒ).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisadas 120 amostras de biopsia hepática, obtidas de cães sem distinção de sexo, raça ou faixa etária. Obtiveram-se 60 amostras por meio de agulha tipo MenghiniÒ de natureza aspirativa e 60 amostras por meio de agulha tipo Tru-CutÒ, de natureza cortante. As amostras eram submetidas inicialmente a exame macroscópico, avaliando-se cor, forma e comprimento. Em seguida, após processamento, eram analisadas histologicamente para definição do diagnóstico, quantificação de tratos portais e avaliação do tipo de inflamação, atividade necro-inflamatória, fibrose, degeneração, alterações biliares e lesões neoplásicas. Os aspectos quantitativos levaram em consideração o comprimento, o contorno e o volume das amostras e sua correlação com a concordância do diagnóstico. Após a biopsia, os animais foram submetidos à necropsia completa a fim de comparar o diagnóstico das biopsias com o diagnóstico histológico post mortem.

As amostras obtidas foram avaliadas quanto ao comprimento e contorno. Conforme essas características, foram agrupadas em: 1) amostras obtidas por agulha tipo Tru-Cut (cortante); grupo 1 - espécimes cilíndricos medindo entre 0,5 e 0,7cm de comprimento, grupo 2 - espécimes cilíndricos medindo entre 0,8 e 0,9cm de comprimento e grupo 3 - espécimes cilíndricos medindo 1,0 ou mais cm de comprimento e 2) amostras obtidas por agulhas do tipo MenghiniÒ (aspirativa); grupo 1 - espécimes cilíndricos medindo entre 0,5 e 0,7cm de comprimento, grupo 2 - espécimes cilíndricos medindo entre 0,8 e 0,9cm de comprimento e grupo 3 - espécimes cilíndricos medindo 1,0 ou mais cm de comprimento.

As amostras obtidas por meio de agulhas foram mensuradas para verificação da correlação entre o seu volume e a concordância do diagnóstico. O volume foi calculado pela fórmula V=pr2.h, em que na agulha tipo MenghiniÒ o raio (r) corresponde a 0,8mm e na agulha tipo Tru-CutÒ corresponde a 1,0mm e h corresponde ao comprimento da amostra.

No estudo histológico também foram quantificados os números de tratos portais (TP) presentes em cada amostra.

A correlação entre volume das biopsias e concordância do diagnóstico foi determinada utilizando-se o teste exato de Fisher para as proporções de concordância acima e abaixo da mediana observada (Zar, 1984). A comparação entre número de tratos portais nas amostras obtidas com agulhas tipo Tru-CutÒ e tipo MenghiniÒ foi obtida por meio do teste de Wilcoxon para dados pareados (Zar, 1984).

Para determinação da concordância do diagnóstico das técnicas frente ao diagnóstico final post mortem, utilizou-se o delineamento experimental com medidas repetidas e com aplicação do teste Q de Cochran para testar a hipótese de que a proporção de diagnósticos concordantes seja a mesma para todos os métodos (Zar, 1984).

O índice de concordância foi utilizado neste estudo para definir o percentual de diagnósticos concordantes em relação ao diagnóstico final post mortem.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As amostras quanto ao comprimento e contorno apresentaram-se assim distribuídas: 1 - amostras obtidas por agulha tipo Tru-Cut (cortante); grupo 1 (5 amostras), grupo 2 (10 amostras) e grupo 3 (45 amostras) e 2 - amostras obtidas por agulhas do tipo MenghiniÒ (aspirativa); grupo 1 (22 amostras), grupo 2 (12 amostras) e grupo 3 (26 amostras).

O número médio de tratos portais foi de 10,9 unidades na biopsia tipo MenghiniÒ e de 11,5 unidades na biopsia tipo Tru-CutÒ. Não houve diferença significativa (P>0,05) entre eles.

A correlação entre o volume das biopsias obtidas e a concordância frente ao diagnóstico histológico post mortem foi significativa em ambas as agulhas (Tab. 1).

 

 

Na comparação entre as amostras de biopsia frente ao diagnóstico final com relação à atividade inflamatória, atividade necro-inflamatória e presença de fibrose observou-se superioridade dos resultados obtidos com a agulha tipo Tru-Cut. As proporções de achados concordantes nas biopsias frente ao diagnóstico histológico final são apresentadas na Tab. 2. As demais variáveis observadas como tipo de degeneração, alterações biliares e neoplasia não caracterizaram diferenças relevantes.

 

 

Dos 60 casos observados neste estudo, 53 (88,3%) foram concordantes com o diagnóstico histológico post mortem de acordo com a biopsia por agulha tipo Tru-CutÒ e 46 (76,7%) concordantes de acordo com a biopsia por agulha tipo MenghiniÒ. Contudo, o estudo da concordância entre os diagnósticos de biopsia frente ao diagnóstico histológico post mortem concluiu que o diagnóstico referente à agulha tipo Tru-CutÒ não diferiu (P>0,05) do diagnóstico referente à agulha tipo MenghiniÒ, a despeito do número menor de casos concordantes obtidos com essa última, conforme é visto na Tab. 3.

 

 

Os aspectos quantitativos levaram em consideração o comprimento, contorno e volume das amostras e sua correlação com a concordância do diagnóstico. Com efeito, os melhores espécimes de biopsia foram aqueles superiores a 1,0cm. Com relação ao volume, ficou caracterizado que para maiores volumes maior a concordância do diagnóstico. Em termos de volume os espécimes obtidos com agulha tipo Tru-CutÒ foram quase 100% superiores aos espécimes obtidos com agulha tipo MenghiniÒ e isso se traduziu na maior concordância do diagnóstico nos casos em que a agulha usada foi do tipo Tru-CutÒ.

Bateson et al. (1980), trabalhando com agulhas tipo MenghiniÒ e Tru-CutÒ, concluíram que o volume das amostras não interferiu nos resultados de biopsia hepática em 77 pacientes. Baunsgaard et al. (1979), Holund et al. (1980) e Gayotto & Alves (1995) sustentam haver estreita relação entre o tamanho da amostra e o resultado final. Conforme afirmam Gayotto et al. (1989), a quantidade adequada de tecido é fundamental para sua correta interpretação. De fato, em 1873 biopsias, Gayotto et al. (1989) observaram que os diagnósticos conclusivos predominaram nos grupos em que os espécimes de biopsia eram superiores a 0,5cm, contudo predominaram os diagnósticos sugestivos e inconclusivos nos grupos em que os espécimes eram inferiores. Gayotto & Alves (1995) propuseram que o tamanho ideal de um espécime de biopsia hepática, colhido por agulha, seja de 1,0 a 4,0cm, na forma cilíndrica, e que tenha a representação de no mínimo quatro tratos portais. Soloway et al. (1971), Abdi et al. (1979), Theodossi et al. (1980), Maharaj et al. (1986) e Center (1995) afirmaram que pode haver variação na intensidade das alterações nas diferentes áreas do fígado. Essa variação, quando considerada uma técnica isolada, não foi caracterizada no presente estudo visto que não foram realizadas biopsias seriadas de uma mesma técnica, porém foi caracterizada quando comparados os achados nas diferentes técnicas.

Não houve diferença significativa quanto ao número de tratos portais nos espécimes obtidos tanto com agulha tipo Tru-CutÒ como com agulha tipo MenghiniÒ. A média de tratos portais (10,9 para agulha tipo MenghiniÒ e 11,65 para agulha tipo Tru-CutÒ) pode ser considerada excelente. Gayotto & Alves (1995) consideram necessária uma representação mínima de quatro tratos portais nas biopsias em que a arquitetura lobular esteja preservada. Entretanto, as biopsias hepáticas não são tão rigorosas como as biopsias renais, por exemplo, em que a quantificação dos glomérulos é classificatória (Roth & Meyer, 1995). Considera-se que a biopsia hepática representa o fígado, na ampla maioria das vezes, em função da predominância das lesões difusas como resposta homogênea do parênquima hepático.

 

CONCLUSÕES

A agulha de biopsia tipo Tru-CutÒ permite diagnósticos corretos independentemente da natureza da lesão. Há estreita relação entre volume da biopsia e concordância do diagnóstico, considerando-se que para maiores volumes maior a possibilidade de acerto do diagnóstico.

 

AGRADECIMENTO

Os autores agradecem o auxílio do Prof. Dr. José Adalberto Crocci pelo auxílio na análise estatística.

 

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