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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.5 Belo Horizonte Oct. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000500016 

COMUNICAÇÃO

[Communication]

 

Infecção experimental de cães com amostras de Babesia canis isoladas em Minas Gerais

[Dog experimental infection of Babesia canis isolated in Minas Gerais State]

 

K.A. Bicalho1, L.M.F Passos1, M.F.B Ribeiro2*

1Escola de Veterinária da UFMG
2
Instituto de Ciências Biológicas da UFMG
Caixa. Postal 486
31270-910 - Belo Horizonte, MG

 

*Autor para correspondência
Recebido para publicação em 22 de outubro de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 22 de abril de 2002

 

 

Atualmente são reconhecidas três subespécies de Babesia canis: Babesia canis canis, encontrada na Europa e transmitida por Dermacentor reticulatus, Babesia canis vogeli, encontrada no Nordeste da África e Norte da América, transmitida por Rhipicephalus sanguineus e Babesia canis rossi, encontrada no Sul da África e transmitida por Haemaphysalis leachi. (Uilemberg, 1986; Uilemberg et al., 1989; Lewis et al., 1996; Lobbeti, 1998; Carret et al., 1999). Apesar da similaridade morfológica, relatos sugerem que as duas primeiras subespécies possuem de baixa a moderada patogenicidade, com animais apresentando parasitemia transiente e infecção inaparente, enquanto que B. canis rossi possui alta patogenicidade, que induz doença fulminante, com aumento exponencial da parasitemia (Schetters et al., 1997).

No Brasil, o carrapato trioxeno R. sanguineus é considerado o transmissor da B. canis (O’Dwyer, 2000) e até o presente momento não existem estudos que identifiquem subespécies desse parasito. O objetivo deste trabalho foi avaliar a parasitemia e as alterações do volume globular em cinco cães infectados experimentalmente com amostras de B. canis isoladas em Minas Gerais, uma proveniente de Belo Horizonte e outra de Lavras.

Foram utilizados cães esplenectomizados, com idade inferior a um ano, criados em isolamento desde o nascimento e sorologicamente negativos para B. canis pela reação de imunofluorescência indireta (RIFI). Três animais foram inoculados com a amostra de Belo Horizonte e um inoculado com a de Lavras, todos por via endovenosa, com aproximadamente 2,0x107 hemácias parasitadas. Os animais foram acompanhados diariamente durante 21 dias, exceto um cão inoculado com a amostra de Belo Horizonte, acompanhado por 28 semanas. Nesse período, foram examinados esfregaços com sangue capilar e venoso (coloração Giemsa) e determinado o volume globular (VG). Um animal foi mantido como controle negativo.

Os resultados mostraram que as primeiras hemácias parasitadas foram detectadas entre dois e três dias após a inoculação (PI), observando-se um pico de parasitemia no terceiro dia ( =9,12± 6,34%). A partir do quarto dia ocorreu redução drástica da parasitemia, tornando-se um achado inconstante devido aos seus baixos níveis (<0,01%). Na Tab. 1 são mostrados dados referentes às parasitemias e VG. Pela amplitude observou-se que a parasitemia foi maior no sangue capilar. Os animais apresentaram valores normais de VG no início do experimento. Após o pico de parasitemia esses valores foram reduzidos, não se observando valor inferior a 13%. Os cães permaneceram aparentemente normais, exceto um, inoculado com a amostra de BH, o qual apresentou sinais clínicos clássicos de babesiose (fraqueza, anemia, hemoglobinúria e depressão).

 

 

Na Fig. 1 são mostradas as médias semanais da parasitemia capilar e venosa e do VG do cão inoculado com a amostra de Belo Horizonte acompanhado por 28 semanas. A parasitemia do sangue capilar foi sempre superior à do sangue venoso (P< 0,05), e variou de 0,01 a 2,34% no sangue capilar e de 0,01 a 0,24% no sangue venoso. Após o pico de parasitemia, a presença de Babesia nos esfregaços sangüíneos passou a ser inconstante, não obedecendo a um padrão de comportamento. A partir da 17a semana PI não foi detectada parasitemia nos esfregaços. O VG, com valores normais no início do experimento, apresentou queda brusca após o início da parasitemia e oscilou durante o período de acompanhamento do animal. A média semanal do VG variou de 17,71 a 34,51%. O animal permaneceu aparentemente normal.

 

 

As amostras de B. canis causaram baixa parasitemia. Esse perfil associado à ausência de manifestações clínicas dos animais foi semelhante ao descrito por Assis (1993), que utilizou um isolado de B. canis de São Paulo, e por Ribeiro et al. (1990), que utilizaram um isolado de B. canis de Belo Horizonte. Estes resultados e os valores de hematócrito observados sugerem que as amostras existentes nesse meio são de baixa patogenicidade, provavelmente causando infecções inaparentes. Como no Brasil o único vetor de B. canis descrito é o R. sanguineus, e não existem estudos de caracterização molecular relatando a ocorrência de subespécies, sugere-se que a amostra estudada seja B. canis vogeli, que apresenta virulência semelhante à da B. canis canis (Shaw et al., 2001). O presente estudo aponta a necessidade de novas pesquisas para identificação das subespécies de B. canis presentes no Brasil.

Palavras-chaves: Cão, Babesia canis, infecção experimental

 

ABSTRACT

The objective of the present study was to evaluate parasitemia and packed cell volume patterns of dogs experimentally inoculated with two isolates of Babesia canis: one from Belo Horizonte (BH) and the other from Lavras (Lv), Minas Gerais State, Brazil. Both isolates showed similar patterns, with the peak of parasitemia occurring three days post-infection. From the fourth day, parasitemia was detected in low levels (0.01%) with small periodical increases. The packed cell volume decreased after the parasitemia beginning, with oscillations during the experimental period. All dogs remained apparently normal, except one, which had been inoculated with the BH isolate and presented classical clinical signs of babesiosis (weakness, anemia, hemoglobinuria and depression). The results suggest that the studied isolates have low pathogenicity, and point to the need for further studies aiming to characterize the subspecies of Brazilian isolates.

Keywords: Dog, Babesia canis, experimental infection

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SCHETTERS, T.P.M.; MOUBRI, K.; PRÉCIGOUT, E. et al. Different Babesia canis isolates, different diseases. Parasitology, v.115, p.485-493, 1997.        [ Links ]

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