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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.6 Belo Horizonte Dec. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000600012 

Efeito do período de jejum entre o nascimento e o alojamento e da adição de óleo à ração sobre o desempenho de pintos de corte e digestibilidade da ração

 

[Effects of fasting period between hatching and housing and addition of oil to the feed on performance of broiler chicks and digestibility of the ration]

 

 

S.V. Cançado; N.C. Baião

Escola de Veterinária da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Com o objetivo de verificar os efeitos de três períodos de jejum (zero, 24 e 48 horas) entre o nascimento e o alojamento e da adição de óleo à ração sobre o desempenho de pintos de corte e a digestibilidade da ração, foram utilizados 360 aves de corte machos, criados de um a 21 dias em gaiolas metálicas próprias para coleta de excretas. O delineamento experimental foi em arranjo fatorial 3 x 2 (três períodos de jejum e dois tipos de ração). As aves submetidas ao jejum apresentaram melhor desempenho aos 21 dias quando comparadas com as não submetidas ao jejum. O intervalo entre o nascimento e o alojamento não teve efeito sobre os coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca, da proteína bruta e do extrato etéreo da ração, enquanto que as aves que se alimentaram com dieta contendo óleo apresentaram maior coeficiente de digestibilidade aparente do extrato etéreo.

Palavras-chave: Pintos de corte, desempenho, digestibilidade, jejum


ABSTRACT

In order to evaluate the effects of three fasting periods (zero, 24 and 48 hours) between hatching and housing of broiler chicks and the addition of oil to the feed, 360 male broiler chicks were used, raised during a period ranging from 1 to 21 days in cages designed for collecting feces. The performance and digestibility of the feed ration were evaluated. A factorial 3 x 2 (three periods of fasting and two types of ration) experimental design was used. It was concluded that the fasting birds had better results at 21 days when compared with not fasting birds. The interval between hatching and housing did not have a clear effect on the coefficients of apparent digestibility of the dry mater, crude protein and ether extract of the feed, while the birds which were fed with the diet containing oil showed higher coefficients of apparent digestibility for the ether extract of the feed.

Keywords: Broiler chicks, performance, digestibility, fasting


 

 

Introdução

Entre o nascimento e o alojamento os pintos são submetidos a jejum forçado e desidratação, com conseqüente perda de peso aproximada de 5 e 10%, respectivamente (Baião & Cançado, 1998).

Nir & Levanon (1993), ao trabalharem com pintos de corte machos submetidos a períodos de jejum de 24 e 48 horas após o nascimento, concluíram que aos 21 e 40 dias de idade o consumo de ração e o peso corporal foram inversamente relacionados com o período de jejum, e que o retardo no crescimento causado pelas 24 e 48 horas de jejum equivaleu a um ou dois dias de ganho de peso, respectivamente.

De acordo com Pinchasov & Noy (1993), a perda de peso dos pintos submetidos ao jejum de 48 horas corresponde a 10% do peso inicial e afeta o crescimento posterior dos pintos. Esses autores verificaram que a composição corporal de aves recém-nascidas não foi diferente da de aves que ficaram 24 horas em jejum. Entretanto, depois de 48 horas a gordura corporal se reduziu quando comparada com a das aves recém-nascidas ou com as de 24 horas de vida.

Stamps & Andrews (1974), Baião & Borges (1995), Casteel et al. (1995), Nilipour (1995) e Baião et al. (1998a) concluíram que o período de jejum entre o nascimento e o alojamento dos pintos não teve influência ou favoreceu o ganho de peso dos frangos, quando a idade de abate foi considerada a partir da data do alojamento.

Zelenka (1995) demonstrou em dois experimentos (com 2,9 e 3,3% de extrato etéreo na ração) que a digestibilidade aparente da gordura é alta durante a primeira semana, baixa durante a segunda e volta a subir durante a terceira semana de vida dos frangos. A digestibilidade da proteína das rações apresentou comportamento semelhante, embora com queda menos acentuada na segunda semana.

Baião et al. (1998b), utilizando pintos sexados alojados no dia do nascimento com um e dois dias após o nascimento, avaliaram o desempenho dos frangos, a digestibilidade da matéria seca, o nitrogênio metabolizável e a energia metabolizável aparente da ração nos períodos de um a sete, oito a 14 e 15 a 21 dias de alojamento. Concluíram que o intervalo entre o nascimento e o alojamento não teve efeito definido sobre os coeficientes de digestibilidade da matéria seca da ração e do nitrogênio metabolizável, nem sobre os valores de energia metabolizável. O melhor ganho de peso dos pintos alojados com dois dias após o nascimento não foi em função da maior digestibilidade da ração.

Segundo Freitas (1999), os frangos de corte apresentam alta digestibilidade da gordura na primeira semana de vida, e a presença de óleo na ração inicial promove melhor desempenho nos frangos de corte até os 21 dias de idade.

O objetivo deste trabalho foi determinar o efeito do período de jejum após o nascimento dos pintos sobre o desempenho e a digestibilidade da ração até 21 dias de idade.

 

Material e Métodos

Foram utilizados 360 pintos de corte, machos, distribuídos em seis tratamentos com seis repetições de 10 aves cada, criados entre um e 21 dias em baterias metálicas com bandejas próprias para coleta de fezes. A idade considerada foi a partir do dia do alojamento, quando as aves começaram a receber água e ração. Cada bateria estava equipada com comedouro e bebedouro o que permitiu livre acesso ao alimento e a água.

A descrição do tipo, a composição e respectivos valores nutricionais das rações e os tratamentos encontram-se em Cançado & Baião (2002).

As avaliações de digestibilidade das rações foram realizadas nos períodos de um a três, de quatro a seis, de sete a nove, de 10 a 12, de 13 a 15, de 16 a 18 e de 19 a 21 dias de idade das aves. Para essas avaliações as excreta foram colhidas, pesadas e identificadas de acordo com os tratamentos e repetições e colocadas em estufa de ventilação forçada (55oC) durante 48 horas. Após a pré-secagem, o material foi exposto à temperatura ambiente por 14 horas e em seguida pesado e homogeneizado para a colheita de amostra para as análises de matéria seca (MS), de proteína bruta (PB) e de extrato etéreo (EE).

Foram obtidos os dados de ganho de peso ao final de cada período, ou seja, de um a três, de um a seis, de um a nove, de um a 12, de um a 15, de um a 18 e de um a 21 dias de alojamento.

A conversão alimentar foi calculada com base no consumo médio de ração e no ganho de peso em cada período.

Os teores de MS, PB e EE da ração e das fezes foram determinados segundo os métodos descritos pelo manual de métodos analíticos para controle de alimento para uso animal do Ministério da Agricultura (Brasil, 1991). Para a análise de EE das fezes foi realizado previamente a hidrólise ácida com ácido clorídrico 3N de acordo com a metodologia descrita por Stoldt (1952), citado por Jorgensen et al. (1992), posteriormente seguindo-se a análise de rotina.

A determinação de digestibilidade aparente das rações baseou-se no consumo de MS, PB e EE da ração, na excreção de MS e no teor de EE e de PB da excreta usando-se a fórmula recomendada por Schneider & Flatt (1975).

O delineamento experimental foi inteiramente ao acaso, em arranjo fatorial 3 x 2 (três períodos de jejum x dois tipos de ração), com seis repetições de 10 aves cada. Os resultados obtidos foram submetidos à análise de variância, e as diferenças entre as médias foram analisadas pelo teste de Student-Newman-Keuls (Sampaio, 1998).

 

Resultados e Discussão

Os dados de ganho de peso de um a 21 dias de alojamento encontram-se na Tab.1. Os pintos submetidos a jejum forçado entre o nascimento e o alojamento de 24 e 48 horas tiveram ganho de pesos semelhantes entre si e superiores aos das aves alojadas no dia do nascimento (P<0,05). Os animais que receberam óleo na ração apresentaram ganhos de peso superiores aos das aves que receberam dieta com baixo teor de óleo. Estes resultados sugerem que o período de jejum entre o nascimento e o alojamento não afeta ou até melhora o ganho de peso das aves e que a adição de gordura à ração inicial de frangos de corte melhora o seu desempenho. Nir & Levanon (1993) concluíram que o retardo no crescimento causado pelas 24 ou 48 horas de jejum equivaleram a um ou dois dias de ganho de peso, respectivamente. Segundo Baião & Borges (1995), Casteel et al. (1995) e Nilipour (1995), o maior intervalo entre o nascimento e o alojamento dos pintos não teve influência ou favoreceu o ganho de peso dos frangos, quando a idade foi considerada a partir da data do alojamento.

 

 

As aves alimentadas com ração com óleo, independente do período de jejum tiveram os melhores índices de conversão alimentar (Tab. 2) em relação às que consumiram a ração sem óleo (P<0,05). Maiorka et al. (1997) concluíram que não foi pertinente o emprego de altos níveis de energia proveniente de lipídios na primeira semana de idade, pois esse uso não resultou em melhor conversão alimentar. Baião et al. (1998a), trabalhando apenas com um tipo de ração, verificaram que o índice de conversão alimentar não foi afetado pelo período de jejum entre o nascimento e o alojamento.

 

 

Os valores de digestibilidade aparente da MS das rações apresentados na Tab.3 são inconsistentes e não apresentaram efeitos definidos do período de jejum e do uso de óleo na ração. Eles são compatíveis com os encontrados por Doeschate et al. (1993) que, ao avaliarem os efeitos da idade sobre o coeficiente de digestibilidade da MS, observaram que a influência da idade não foi consistente. Na literatura não foi encontrada referência sobre os efeitos da adição de óleo à ração sobre a digestibilidade aparente da MS. Com relação ao efeito do período de jejum entre o nascimento e o alojamento, Baião et al. (1998b) não observaram efeito definido sobre a digestibilidade aparente da MS da ração.

 

 

Os resultados de coeficiente de proteína metabolizável da ração (Tab.4) também se mostraram inconsistentes e não apresentaram efeito definido do período de jejum e do uso de óleo na ração. Entretanto, nas idades de 13 a 15 e de 16 a 18 dias, independente do período de jejum, as aves que receberam ração sem óleo revelaram valores de proteína metabolizável (P<0,05) mais baixos do que aquelas alimentadas com a ração contendo óleo. Segundo Doeschate et al. (1993), os efeitos da idade sobre o coeficiente de digestibilidade do nitrogênio da ração não foi consistente. Zelenka (1995), trabalhando com dois níveis de gordura nas rações (2,9 e 3,3% de extrato etéreo), demonstrou que a digestibilidade da proteína das rações é alta na primeira semana, mais baixa na segunda e volta a subir durante a terceira semana de vida dos frangos.

 

 

Os resultados de digestibilidade aparente do EE da ração de acordo com os períodos estudados encontram-se na Tab. 5. Não houve efeito do período de jejum, ou seja, as aves que permaneceram em jejum entre o nascimento e o alojamento apresentaram a mesma capacidade de absorção de gordura do que as aves alojadas logo após o nascimento. Entretanto, as aves que receberam ração com óleo apresentaram valores de digestibilidade aparente do EE superiores (P<0,05) ao das que não receberam óleo na ração. Estes resultados são semelhantes aos de Freitas (1999), que ao estudar a digestibilidade aparente do EE num período de um a 21 dias, observou que as aves alimentadas com óleo na ração apresentaram maior índice de digestibilidade, indicando que aves de corte possuem plenas condições para a digestão de gorduras nos primeiros dias de vida. Os resultados de Carew et al. (1972), contudo, mostraram que os pintinhos recém-nascidos não possuíam completa capacidade fisiológica para absorção de gordura.

 

 

Conclusões

O jejum forçado entre o nascimento e o alojamento promove melhor desempenho das aves, apesar de não afetar os coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca, da proteína metabolizável e do extrato etéreo da ração. O uso de óleo na dieta resulta em maior coeficiente de digestibilidade do extrato etéreo da ração desde os primeiros dias de vida das aves.

 

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Endereço para correspondência
S.V. Cançado
N.C.
Baião

Avenida Antônio Carlos, 6627
30161-970 – Belo Horizonte, MG

E-mail: Silvana@vet.ufmg.br

Recebido para publicação em 22 de janeiro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 4 de setembro de 2002

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