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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.6 Belo Horizonte Dec. 2002

https://doi.org/10.1590/S0102-09352002000600017 

COMUNICAÇÃO

[Communication]

 

Pododermatite de contato em frangos de corte

 

[Contact pododermatitis in broilers]

 

 

R.L. Santos; V.A. Nunes; N.C. Baião

Escola de Veterinária da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


Dermatite de contato e pododermatite têm sido relatadas como problema econômico para a avicultura industrial de frangos e perus no Reino Unido, na América do Norte e na Austrália (Riddell, 1997), atribuídas às condições inadequadas da cama, particularmente o excesso de umidade (Martland, 1984; Greene et al., 1985; McIlroy et al., 1987). Outros fatores, como alta densidade (Martrenchar et al., 1997; McIlroy et al., 1987) e deficiência de biotina (Harms et al., 1977), podem predispor à ocorrência de pododermatite. Com a abertura de novos mercados para a exportação de pés de frango, tem havido maior preocupação em identificar as lesões que levam à condenação do corte, algo negligenciado até recentemente em virtude do baixo valor comercial do corte. No período de janeiro a março de 2002 foram observados casos de pododermatite em várias granjas no Estado de Minas Gerais. A ocorrência de lesões podais variou de 20 a 80% dos animais nas diversas faixas etárias. Foi colhido material em abatedouro e em granjas afetadas para avaliação anátomo-histopatológica. Para a colheita do material foram selecionadas três faixas etárias, 13, 20 e 45 dias de idade, na tentativa de se observar o processo em várias fases de evolução.

Aos 13 dias observaram-se alterações macroscópicas discretas caracterizadas por fissuras cutâneas no coxim plantar (Fig 1A). A freqüência de alterações macroscópicas nessa faixa etária foi baixa, de 10 a 30%, conforme a granja. Histologicamente, observou-se degeneração hidrópica (vacuolização citoplasmática com deslocamento excêntrico do núcleo) nas células da camada basal e espinhosa da epiderme associada à infiltração focal intra-epidérmica de heterófilos, mais evidente na camada subcórnea (Fig 1B), além de intensa hiperemia na junção derme-epiderme com aparente angioplasia e infiltração inflamatória perivascular discreta de células inflamatórias mononucleares na derme adjacente à área da alteração epidérmica.

 

 

Aos 20 dias as alterações macroscópicas foram caracterizadas por erosão com formação de crostas nos coxins plantares e na face plantar das regiões articulares dos dígitos (Fig 2A). A incidência nesta faixa etária variou aproximadamente de 50 a 70% entre as granjas. Histologicamente, observou-se acantose e hiperceratose, predominantemente ortoceratótica, com formação de projeções papilares da epiderme sustentadas por conjuntivo bem vascularizado, hiperêmico e com evidente angioplasia. A ceratinização precoce do epitélio nessas áreas caracterizou-se pelo acúmulo de material eosinofílico intracitoplasmático nos ceratinócitos. Observaram-se ainda fendas na superfície do estrato córneo, preenchidas por grumos bacterianos e material aparentemente de origem vegetal, e hiperplasia da epiderme associada à degeneração hidrópica de células das camadas basal e espinhosa. A infiltração de heterófilos na epiderme foi mais acentuada na camada subcórnea e no estrato córneo, com infiltração multifocal a coalescente ou difusa de heterófilos na derme, principalmente na junção derme-epiderme, e infiltração perivascular tipo manguito ou de forma nodular de células inflamatórias mononucleares na derme.

 

 

Aos 45 dias o aspecto macroscópico foi semelhante ao observado aos 20 dias (Fig. 3A). As amostras apresentavam alterações semelhantes àquelas observadas nos animais com 20 dias de idade. Histologicamente, foram observadas extensas áreas de ulceração, infiltração superficial difusa de heterófilos e deposição de grande quantidade de exsudato contendo grumos bacterianos e restos de material vegetal na superfície das úlceras. Também foi observada hiperceratose paraceratótica adjacente às áreas de ulceração e infiltração perivascular de células mononucleares, com padrão nodular na derme.

 

 

A cronologia das lesões sugere um processo inicialmente inflamatório associado à resposta proliferativa secundária do componente epidermal/juncional, que progride para ulceração das áreas de atrito, com sobreposição de infecção bacteriana secundária. Com base nos achados anátomo-histopatológicos, histórico e casos relatados previamente na literatura (Martland, 1984; Greene et al., 1985), estabeleceu-se o diagnóstico presuntivo de pododermatite de contato. Embora pododermatite em aves silvestres possa estar associada a vírus, supostamente papilomavírus, nesses casos a lesão é essencialmente proliferativa, sem ocorrência de inflamação ou ulceração significativas (Daoust et al., 2000). A mais provável causa desta lesão foi o excesso de umidade da cama nas áreas de aquecimento dos pintos. Os possíveis efeitos da pododermatite no ganho de peso e conversão alimentar não foram avaliados.

Palavras-chave: Frango de corte, pododermatite


ABSTRACT

Occurrence of contact pododermatitis in broilers in the State of Minas Gerais, Brazil, is reported. Lesions in the footpad were detected as early as 13 days of age and progressed to ulceration. Histologically, primarily inflammatory and degenerative changes mostly at the epidermal-dermal junction were observed. Retrospective evaluation indicated that pododermatitis in these cases were associated with exposure to high litter moisture during the first days of life.

Keyword: Broiler, contact pododermatitis


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAOUST, P.; WADOWSKA, D.; KINBENGE, F. et al. Proliferative pododermatitis associated with virus-like particles in a northen gannet. J. Wildlife Dis., v.36, p.378-382, 2000.        [ Links ]

GREENE, J. A.; McCRACKEN, R. M.; EVANS, R. T. Contact dermatitis of broilers – clinical and pathological findings. Avian Pathol., v.14, p.23-38, 1985.        [ Links ]

HARMS, R. H.; DAMRON, B. L.; SIMPSON, C. F. Effect of wet litter and supplemental biotin and/or whey on the production of foot pad dermatitis in broilers. Poult. Sci., v.56, p.291-296, 1977.        [ Links ]

MARTLAND, M. F. Wet litter as a cause of plantar pododermatitis leading to foot ulceration and lameness in fattening turkeys. Avian Pathol., v.13, p.241-252, 1984.        [ Links ]

MARTRENCHAR, A.; MORISSE, J. P.; HUONNIC, D. et al. Influence of stocking density on some behavioural, physiological and productivity traits of broilers. Vet. Res., v.28, p.473-480, 1997.        [ Links ]

McILROY, S. G.; GOODALL, E. A.; McMURRAY, C. H. A contact dermatitis of broilers – epidemiological findings. Avian Pathol., v.16, p.93-105, 1987.        [ Links ]

RIDDELL, C. Developmental, metabolic, and other noninfectious disorders. In: CALNEK, B. W.; BARNES, H. J.; BEARD, C. W. (Eds). Diseases of poultry. 10.ed. Ames: Iowa State University, 1997. p.940-941.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
R.L. Santos
Caixa Postal 567
30123-970 - Belo Horizonte, MG
E-mail: rsantos@vet.ufmg.br

Recebido para publicação em 13 de junho de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 23 de setembro de 2002

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