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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.1 Belo Horizonte fev. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000100015 

COMUNICAÇÃO
[COMMUNICATION]

 

Aglutininas anti-Brucella abortus no soro e em secreção de bursite cervical em eqüinos

 

[Anti-Brucella abortus agglutinins in serum and secretion of fistulous withers in horses]

 

 

M.G. Ribeiro; G. Nardi Júnior; J. Megid; A.C. Paes; F.J.P. Listoni

Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP Caixa Postal 560 18618-000, Botucatu, SP

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

Fistulous wither secretions from three horses were tested by the plate agglutination (PAT), tube agglutination (SAT), buffered plate-Rose Bengal (RBPT) and 2-mercaptoethanol (2-ME) tests, comparatively with standard agglutination tests. In the modified tests, titers were increased in the PAT, SAT and 2-ME tests and positive reaction was observed in RBPT. Brucella abortus was isolated from the secretion of fistulous withers collected from one animal. These results suggest that the modified tests may be used as alternative tests to diagnose brucellosis in horses with fistulous withers.

Keywords: horse, brucellosis, Brucella abortus, fistulous withers, serodiagnosis

Palavras-chave: eqüino, brucelose, bursite cervical, sorodiagnóstico


 

 

A brucelose dos eqüídeos domésticos caracteriza-se como doença infecto-contagiosa crônica, de potencial zoonótico, causada principalmente pela Brucella abortus (B. abortus) (Acha, Szyfres, 2001).

Na espécie eqüina, os prejuízos econômicos advindos da infecção por Brucella spp são considerados menores se comparados aos de outras espécies de interesse zootécnico, visto que nos equídeos são raros os transtornos da esfera reprodutiva. A brucelose eqüina merece preocupação em virtude das lesões debilitantes, pela indicação de sacrifício dos animais acometidos, ou como fonte de infecção para outras espécies domésticas ou para o homem (Radostits et al., 2000).

Ainda que o mecanismo de transmissão da brucelose eqüina não esteja bem esclarecido, considera-se que a infecção seja favorecida pela coabitação com outras espécies domésticas. Sugere-se que a transmissão ocorra pela ingestão de água e alimentos contaminados por descargas vaginais, restos de aborto e de placenta, principalmente das espécies bovina e suína (Langenegger, Szechy, 1961).

Na espécie eqüina a brucelose manifesta-se sob a forma de lesões articulares crônicas e, raramente, por abortamentos. As lesões mais sugestivas da doença são representadas por inflamações em ligamentos (Vasconcellos et al., 1987), como bursites cervicais, nucais e interescapulares, popularmente denominadas "mal da cernelha", "mal da cruz", "mal da nuca" ou "abscesso de cernelha".

Diferentes procedimentos têm sido utilizados no diagnóstico da brucelose em equídeos, embora o diagnóstico definitivo seja fundamentado no isolamento de bactérias do gênero Brucella,a partir de material procedente de lesões articulares e/ou em ligamentos. A dificuldade de isolamento do agente em determinadas lesões, a contaminação por organismos oportunistas (Cohen et al., 1992), ou o envolvimento do parasita Onchocerca cervicalis em lesões cervicais são fatores considerados limitantes no diagnóstico da brucelose eqüina (Radostits et al., 2000). Face a essas dificuldades, o diagnóstico sorológico tem sido amplamente recomendado. Apesar da disponibilidade de vários testes sorológicos, diferentes autores assinalam a ocorrência de reações inespecíficas e a dificuldade de padronização de título sérico significativo de doença. Esses fatores tendem a dificultar o diagnóstico da brucelose eqüina utilizando exclusivamente métodos sorológicos (Vasconcellos et al., 1987; Radostits et al., 2000).

No Brasil, são escassos os estudos conduzidos na investigação da brucelose eqüina, o que limita delinear claramente a situação da enfermidade no país (Langenegger, Szechy, 1961; Godoy, Barg, 1976; Viana et al., 1981). Langoni e Silva (1997), ao realizarem inquérito sorológico da brucelose eqüina utilizando as provas de soroaglutinação rápida em placa, lenta em tubos e 2-mercaptoetanol, salientaram a falta de padronização de título considerado positivo em provas de soroaglutinação no diagnóstico da brucelose eqüina, sugerindo título igual ou superior a 100 como indicativo de doença. Face às limitações do sorodiagnóstico da brucelose eqüina, objetivou-se investigar a ocorrência de aglutininas anti-Brucella abortus na secreção de eqüinos com bursite cervical, comparando-a com a resposta sérica em provas convencionais.

Foram encaminhados ao serviço de enfermidades infecciosas dos animais da FMVZ-UNESP/Botucatu, SP, três eqüinos entre sete e oito anos de idade, um da raça Quarto de Milha e dois da Mangalarga, os quais apresentavam bursite cervical não fistulada. Da secreção purulenta aspirada das lesões, em condições de assepsia, foi realizado o cultivo microbiológico nos meios de ágar-sangue ovino (5%) desfibrinado e ágar MacConkey, em condições de aerofilia, mantidos à 37oC por cinco dias. Concomitantemente, semeou-se o mesmo material em ágar sangue e ágar Brucella, em condições de microaerofilia, à 37oC por cinco dias (Quinn et al., 1994; Krieg, Holt, 1994).

O soro sangüíneo dos animais foi submetido às provas de soroaglutinação rápida em placa (SAR), soroaglutinação lenta em tubos (SAT), 2-mercaptoetanol (2-ME) (Alton et al., 1976) e antígeno tamponado acidificado em placa, corado com Rosa Bengala (RBPT) (Alton et al., 1975). Simultaneamente, uma alíquota da secreção das lesões cervicais de cada animal foi centrifugada a 107 X g, por 10 minutos. Em seguida realizaram-se as quatro provas sorológicas, substituindo o mesmo volume de soro sangüíneo, indicado para cada prova, por sobrenadante das lesões cervicais.

Em um eqüino (animal 1; Tab. 1) foi observado, a partir de 96h de cultivo em microaerofilia nos meios de ágar-sangue e ágar Brucella, isolamento de colônias de tonalidade branco-amareladas, não hemolíticas. Com base nas características morfo-tintoriais, bioquímicas e de cultivo o microrganismo foi identificado como Brucella abortus. O isolamento do agente da lesão cervical de somente um animal coincide com os achados de outros estudos, que também mencionaram a dificuldade de isolamento do gênero Brucella de lesões articulares ou em ligamentos em eqüinos acometidos de brucelose (Langenegger, Szechy, 1961;Radostits et al., 2000), ainda que nos três eqüinos estudados tenha-se verificado a presença de aglutininas nas provas sorológicas.

 

 

A Tab. 1 apresenta os resultados das diferentes provas sorológicas e modificadas. Nas provas padrões verificaram-se títulos séricos iguais ou superiores a 100 na SAR, SAT e 2-ME nos três animais, acompanhados de positividade no RBPT. Os resultados ratificam a indicação de provas sorológicas confirmatórias, como o 2-ME, em eqüinos reagentes na SAR e/ou na SAT, mesmo em baixos títulos, em virtude da maior especificidade das provas confirmatórias (Langoni, Silva, 1997).

Na espécie bovina, os machos infectados por B. abortus podem apresentar baixos títulos séricos ou mesmo ausência de reação em provas convencionais de soroaglutinação, ainda que eliminem o agente pelo sêmen (Vasconcellos et al., 1987). Entretanto, o diagnóstico nesses animais pode ser firmado pela prova de aglutinação utilizando-se plasma seminal. Nessa espécie, considera-se que a ocorrência de lesões preferencialmente nos órgãos da esfera reprodutiva induziria maior produção de imunoglobulinas (Ig) locais em relação à produção sérica (Radostits et al., 2000). De maneira análoga, utilizando sobrenadante da secreção cervical, observou-se reação nos três eqüinos estudados nas quatro provas modificadas e, principalmente, elevação dos títulos em dois animais. Essa maior produção de Ig nas lesões cervicais, em comparação aos títulos séricos, poderia ser atribuída à alta produção de Ig das classes IgM e IgG nas lesões, em detrimento da menor produção sérica. Com base nestes achados sugere-se a indicação dessas provas modificadas, utilizando a secreção de bursites, como método adicional ao sorodiagnóstico da brucelose em eqüinos, ou mesmo confirmatório, na impossibilidade de isolamento de B. abortus.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
M.G. Ribeiro
E-mail: mgribeiro@fmvz.unesp.br

Recebido para publicação em 2 de maio de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 24 de setembro de 2002