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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.1 Belo Horizonte fev. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000100016 

COMUNICAÇÃO
[COMMUNICATION]

 

Freqüência de Malassezia pachydermatis em otite externa de cães

 

[Frequency of Malassezia pachydermatis in canine external otitis]

 

 

C.A.L. LeiteI; V.L.V. AbreuII; G.M. CostaI

IDepartamento de Medicina Veterinária, UFLA, Campus Universitário Caixa Postal 37  37200-000, Lavras, MG
IIEscola de Veterinária da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

The occurrence of Malassezia pachydermatis in the ears of dogs with otitis externa, comparing both direct exam and growth on culture method was evaluated. Auditory cerumen/exsudate specimens of 50 dogs with otitis externa were analized for M.pachydermatis. Stained by Giemsa, were prepared and microscopically analysed for budding yeasts. Each sample was cultured on modified Sabouraud glucose agar incubated at 28°C (82.4 F) for detection of M. pachydermatis. The frequency of M. pachydermatis from auditory meatus of otitic dogs was 79% (direct microscopy) and 88% (growth on modified Sabouraud glucose agar), and no difference between the results provided by both methods used in the fungus detection was observed.

Keywords: dog, otitis externa, Malassezia pachydermatis, mycology

Palavras-chave: cão, otite externa, Malassezia pachydermatis, micologia


 

 

A otite externa é uma afecção do epitélio do conduto auditivo, podendo também acometer o pavilhão auricular (Bornand, 1992). Clinicamente observa-se dor regional, formação de exsudato e/ou cerúmen em excesso e balançar constante da cabeça. Possui etiologia multifatorial, sendo isolados vários agentes no conduto auditivo doente, como bactérias, fungos e ácaros (White, 1992).

As otites fúngicas primárias são raras nos animais domésticos e, quando ocorrem, são causadas por Candida sp. e Malasseziapachydermatis (Jungerman, Schwartzman, 1972). O fungo leveduriforme M. pachydermatis é um microrganismo comumente presente no epitélio auditivo de cães sadios e naqueles com otite externa (Rausch, Skinner, 1978). August (1993) relata que as infecções por M. pachydermatis levam ao acúmulo de cerúmen de odor característico e coloração castanha.

As freqüências para isolamento de M. pachydermatis no ouvido de cães otopatas variam de 3% a 78% (Leite, 1995; Staroniewics et al., 1995; Blanco et al., 1996; Cândido et al., 1996; Breitwieser, 1997; Kiss et al., 1997).

A detecção e o isolamento de M. pachydermatis podem ser feitos por meio de observação microscópica direta do material suspeito (White, 1992) e cultura do agente em meios especiais (Huang, Little, 1993). A observação microscópica é o meio mais adequado para a detecção de M. pachydermatis, pois segundo Bornand (1992), a morfologia é característica e há menor possibilidade de erro quando comparada à cultura isoladamente.

Abou-Gabal et al. (1979) citam que M. pachydermatis necessita de lipídeos, encontrados no cerúmen canino, para o seu desenvolvimento. Salcedo (1980) e Huang e Little (1993) sugerem que a cultura do fungo deve ser feita em meios contendo uma fonte lipídica como promotora de crescimento, já que o fungo não se desenvolve satisfatoriamente em meios micológicos simples. Estes autores recomendam a utilização de ácidos graxos constituintes do cerúmen dos cães (ácidos margárico, esteárico, oléico e linoléico) como lípides preferenciais na fabricação do meio de cultura.

O objetivo principal deste estudo foi determinar a freqüência de isolamento de M.pachydermatis do conduto auditivo de cães otopatas, comparando os métodos de observação microscópica direta e de cultura em meio especial.

Foram examinados 50 cães de diversas raças com sintomatologia compatível com otite externa, atendidos no Hospital Veterinário da Escola de Veterinária/UFMG e na Clínica Veterinária São Francisco de Assis (Belo Horizonte, MG). Após avaliação clínica procedeu-se o exame otológico detalhado. A colheita do material foi realizada introduzindo-se uma zaragatoa estéril o mais profundamente possível no canal auditivo vertical de cada ouvido. Após este procedimento, foi feita também a colheita de exsudato e/ou cerúmen para a confecção de esfregaços e posterior observação microscópica.

O material colhido foi semeado em ágar Sabouraud dextrosado (Sabouraud Dextrose 2% Agar, Merck #7315) acrescido de cloranfenicol (50 m g/ml) e azeite de oliva estéril (película superficial). Os meios de cultura foram deixados em incubação por até 28 dias à temperatura ambiente após inoculação. As colônias crescidas no meio de cultura foram identificadas segundo Kreger-Van Rij (1984).

As lâminas com os esfregaços foram fixadas por metanol e coradas pelo Giemsa. Os tipos microbianos foram caracterizados procedendo-se à identificação e contagem de células leveduriformes compatíveis com a morfologia de M. pachydermatis.

Todos os animais examinados apresentaram sintomatologia clínica de otite externa, caracterizada principalmente por hiperalgia periauricular, eritema de escafa e balançar constante da cabeça. O aspecto clínico predominante (42 animais) foi a presença de exsudato abundante e de consistência pastosa, com hiperplasia e hiperemia do epitélio do conduto auditivo. O excessivo exsudato formava concreções na escafa, trago e antitrago, às vezes obstruindo o óstio do canal horizontal. Estes achados confirmam as descrições de White (1992) e Bornand (1992).

Oito cães (16%) apresentaram otite externa ceruminosa como descrita por August (1993). Esta baixa freqüência encontrada com relação às características sugeridas em infecções monotípicas por M. pachydermatis pode ser explicada devido à associação entre o fungo e bactérias, especialmente cocos. White (1992) cita o caráter etiológico dessa entidade nosológica, também comprovado neste trabalho, por meio da observação de bactérias nos esfregaços corados por Giemsa. Em todos os casos estudados, verificou-se a presença da flora bacteriana associada a M. pachydermatis. Apesar de não ter sido apontada a presença isolada do fungo nos animais desta pesquisa, é possível que a otomicose primária raramente ocorra em cães, conforme afirmaram Jungerman e Schwartzman (1972).

A freqüência de isolamento de M. pachydermatis por meio da observação microscópica foi de 78% (39 animais) e por meio da cultura foi de 88% (44 animais). Estes números confirmam a citação de Rausch e Skinner (1978) de que o fungo é um microrganismo comumente presente em condutos auditivos enfermos.

Os dados obtidos pelo isolamento por meio dos dois métodos preconizados não diferem entre si. A freqüência de isolamento de M. pachydermatis por meio da cultura aproxima-se dos dados citados por Leite (1995), Breitwieser (1997) e Kiss et al. (1997). Esses autores possivelmente utilizaram meios de cultura mais adequados ao crescimento fúngico, já que M. pachydermatis é lípide-dependente, conforme relataram Abou-Gabal et al. (1979), Salcedo (1980) e Huang e Little (1993). O meio utilizado neste experimento continha azeite de oliva como fonte de ácido graxo. Tal substância possui teor de ácidos oléico e linoléico de 63% e 18%, respectivamente (Salcedo, 1980). A presença e a alta concentração dessas fontes lipídicas pode ter promovido maior desenvolvimento de M. pachydermatis. Além disso, esses ácidos graxos apresentam-se como constituintes normais do cerúmen de cães (Huang, Little, 1993).

Os dados encontrados por Staroniewics et al. (1995), Blanco et al. (1996), Cândido et al. (1996) e Jinhee et al. (1996) apresentaram freqüências de M. pachydermatis mais baixas do que as encontradas neste estudo. É possível que a fonte de ácido graxo utilizada por esses autores não tenha sido a mais adequada para o crescimento do fungo, já que estes lípides variaram qualitativamente em relação às pesquisas que apresentaram índices de diagnóstico mais elevados.

Pode-se afirmar que o fungo leveduriforme M. pachydermatis apresenta-se como um constituinte da flora de cães otopatas, e sua observação por meio da microscopia óptica ou cultura não difere quando se utiliza o ágar Sabouraud dextrosado, acrescido de cloranfenicol e azeite de oliva.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem o CNPq, FEPMVZ e Clínica Veterinária São Francisco de Assis (Belo Horizonte, MG).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
C.A.L. Leite
E-mail: caca@ufla.br

Recebido para publicação em 7 de novembro de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 16 de julho de 2002

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