SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.55 issue2Ecopathological study to identify risk factors associated with arthritis in slaughtered pigs author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.2 Belo Horizonte Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000200001 

Fraturas vertebrais em grandes animais: estudo retrospectivo de 39 casos (1987-2002)

 

Vertebral fractures in large animals: retrospective study of 39 cases (1987-2002)

 

 

A.S. BorgesI; D.P.G. SilvaI; R.C. GonçalvesI; S.B. ChiacchioI; R.M. AmorimI; M.R.G. KuchembuckI; L.C. VulcanoII; E.P. BandarraI; R.S. LopesI

IDepartamento de Clínica Veterinária da FMVZ/UNESP – Botucatu Caixa Postal 560 - Distrito de Rubião Jr s/n 18618-000 – Botucatu, SP
IIDepartamento de Reprodução Animal e Radiologia Veterinária da FMVZ/UNESP - Botucatu

 

 


RESUMO

Realizou-se estudo retrospectivo (1987-2002) dos aspectos clínicos das fraturas vertebrais em eqüinos, bovinos, ovinos, caprinos e suínos atendidos no hospital veterinário da FMVZ-Unesp de Botucatu. Todos os casos tiveram confirmação radiográfica ou post-mortem. Segundo a espécie, a ordem de acometimento foi: bovina, eqüina, ovina, caprina e suína. As lesões ocorreram desde os 12 dias de idade até os 10 anos, com maior freqüência até os 12 meses. O segmento torácico foi o mais comprometido seguido dos segmentos lombar, cervical e sacral. As fraturas vertebrais devem fazer parte da lista de diagnósticos diferenciais de animais em decúbito, independente da espécie, sexo ou idade.

Palavras-chave: fratura vertebral, neurologia, mielopatia, decúbito


ABSTRACT

It was performed a retrospective study (1987–2002) of clinical features of spinal fractures in the equine, bovine, ovine, caprine and swine referred to the Veterinary Hospital – FMVZ–Unesp in Botucatu, SP, Brazil. All the cases were confirmed by necropsy or radiographic evaluation. Bovines were the most affected species, followed by horses, sheep, goats and swines, and lesions occurred from 12 days to 10 years of age, being more frequent up to 12 months of age. Thoracic vertebrae were the most affected, followed by lumbar, cervical and sacral segments. Vertebral fractures should be included for differential diagnosis of recumbent animals, independently on species, sex or age.

Keywords: vertebral fracture, neurology, mielopathy, recumbency


 

 

INTRODUÇÃO

Fraturas vertebrais acometem todas as espécies domésticas, com quadro clínico agudo e não progressivo (Rebhun, 1995). Podem resultar de trauma associado ou não à fragilidade óssea, decorrente de deficiência crônica de cálcio e fósforo (Sherman, 1987), ou à presença de abscessos vertebrais (George, 1996).

Algumas condições de manejo podem predispor à ocorrência de fraturas vertebrais, como pisos escorregadios, lotes de animais de diferentes tamanhos ou idades e animais com crescimento muito rápido (Sherman, 1987). Vacas que demonstrem sinais de cio ou que apresentem cisto ovariano podem acidentalmente sofrer fraturas vertebrais, quando montadas por animais mais pesados (Rebhun, 1995).

A ocorrência das fraturas vertebrais em grandes animais, apesar de freqüente, é pouco descrita na literatura. Tyler et al. (1993), ao estudarem as etiologias das doenças neurológicas em cavalos, verificaram que 13,3% dos animais pesquisados apresentaram lesão espinhal e destes cerca de 76% foram resultados de fraturas vertebrais.

Comumente observa-se episódio de paresia ou paralisia de aparecimento súbito, que auxilia na diferenciação de outras condições compressivas da medula espinhal, como neoplasias e abscessos, os quais apresentam piora progressiva dos sinais (Sherman, 1987).

Os sinais clínicos são variáveis, dependendo do local lesado, do grau de compressão medular e do envolvimento dos tratos anatômicos espinhais (George, 1996). Desse modo, torna-se necessário a realização de um exame neurológico preciso, visando a determinação correta do local da lesão, tomando-se cuidado com enfermidades não-neurológicas que simulem a ocorrência de lesões espinhais (Sweeney, 1999).

Apesar de as fraturas vertebrais serem freqüentes na clínica veterinária, são escassos os estudos relatando seus aspectos clínicos. O objetivo deste estudo foi o de descrever os achados clínicos e epidemiológicos dos casos de fraturas vertebrais ocorridos em várias espécies, no período de 1987 a 2002.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizado levantamento da ocorrência de casos de fraturas vertebrais em animais de produção, atendidos pela clínica de grandes animais na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP, Campus Botucatu, no período de 1987 a 2002. Todos os animais foram submetidos à avaliação neurológica segundo critérios descritos por Mayhew et al. (1978). Foram analisadas informações referentes à espécie, aos sinais clínicos, ao segmento vertebral lesado, à idade e ao sistema de produção. O exame do líquido cefalorraquidiano, quando realizado, foi processado de acordo com Mayhew e Beal (1980). Os casos incluídos neste estudo possuíam confirmação diagnóstica por exame radiográfico ou necropsia.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os locais das fraturas, a espécie, a idade e o sexo dos animais estão descritos na Tab. 1. As lesões variaram de fraturas de uma (36 casos) ou mais vértebras (três casos), com ou sem secção da medula espinhal. A espécie bovina foi a mais afetada (41% - 16/39), seguida pela eqüina (30,8% - 12/39), ovina (23,1% - 9/39), caprina (2,6% - 1/39) e suína (2,6% - 1/39).

 

 

Todas as fraturas apresentaram provável origem traumática, com início súbito dos sinais clínicos. Em 36 casos observou-se decúbito lateral ou esternal permanente. Em três animais o trauma não levou ao decúbito, observando-se alterações na locomoção. O tempo decorrido entre o episódio traumático e o atendimento no hospital veterinário variou de 12 horas a 21 dias. Estes achados confirmam a importância do histórico clínico para a avaliação de animais em decúbito ou com incoordenação, o qual pode auxiliar no estabelecimento do diagnóstico diferencial das causas que provoquem incapacidade de manutenção em posição quadrupedal ou alterem a locomoção em grandes animais.

O segmento torácico (51,3% - 20/39) foi o mais acometido, seguido do lombar (33,3% - 13/39), cervical (12,8% - 5/39) e sacral (2,6% - 1/39). Estes achados confirmam a predisposição da área torácica às fraturas, uma vez que esta região apresenta maior movimento dorso-ventral, além de corresponder ao principal local de sustentação do peso corporal (Hahn et al., 1999). Tyler et al. (1993) descreveram maior prevalência do segmento cervical.

Não houve diferença significativa em relação à faixa etária. A idade variou de 12 dias a 10 anos, com maior ocorrência para a faixa até 12 meses (22/39 -56,4%). Quanto ao sexo, houve predominância das fraturas em fêmeas (25/39 - 64,1%), e as lesões foram mais freqüentes nos animais submetidos ao sistema extensivo de criação em relação aos sistemas intensivo e semi-intensivo, provavelmente devido ao predomínio daquele sistema nas fazendas atendidas na região.

Na espécie bovina o principal local de lesão foi o segmento vertebral lombar (50% - 8/16). Isto talvez possa ser atribuído à monta natural, já que todos os bovinos acometidos eram fêmeas. Nas espécies eqüina (75% - 9/12) e ovina (55,6% - 5/9) predominaram as fraturas torácicas. Em caprinos e suínos ocorreram fraturas no segmento cervical e torácico, respectivamente (Tab. 2).

 

 

Os sinais clínicos variaram de acordo com o local da lesão (Tab. 3). Os animais com fraturas cervicais apresentaram decúbito lateral permanente, tetraparesia e hiperreflexia. Em alguns casos foram observados diminuição de sensibilidade superficial e aumento de volume local. Quanto mais cranial a lesão, menor era a capacidade de movimentação do pescoço.

 

 

As fraturas toracolombares provocaram decúbito lateral ou esternal permanente, paraparesia espástica, hiperreflexia e ausência de sensibilidade superficial caudal à lesão, pelo fato de as lesões afetarem principalmente os neurônios motores superiores dos membros posteriores e os neurônios sensoriais da medula espinhal. Estes achados são semelhantes aos de De Lahunta (1983) e Mayhew (1989). Foram ainda observados dor local à palpação e aumento de volume com desvios no eixo vertebral em alguns casos.

Um dos bovinos apresentou politraumatismo vertebral, com fratura nos segmentos torácico e lombar, com intensa fragilidade da matriz óssea. Neste caso, a extensão da lesão provavelmente estava associada à carência crônica de macrominerais, como o cálcio e o fósforo. Dois eqüinos apresentavam sinais de hiperparatireoidismo nutricional secundário. Estes achados confirmam a participação de deficiências nutricionais como fatores predisponentes de fraturas vertebrais em grandes animais (Sherman, 1987).

Os animais com fraturas lombares apresentaram decúbito esternal permanente, paraplegia flácida com arreflexia patelar e sensibilidade superficial ausente caudal à lesão. Os membros anteriores estavam normais.

Três animais, dois eqüinos e um ovino, foram examinados em posição quadrupedal. O ovino e um eqüino apresentavam incoordenação com cruzamento dos membros posteriores, arrastar e desgaste das pinças. Nesses casos, a necropsia revelou fratura na região lombar. O outro eqüino apresentava incoordenação motora, incontinência urinária, analgesia perineal, diminuição do tônus do esfíncter anal e ausência de movimentação da cauda, caracterizando um quadro de síndrome da cauda eqüina, resultante de fratura da segunda vértebra sacra.

A palpação e a percussão da coluna vertebral evidenciaram presença de sensibilidade dolorosa, crepitação, aumento de volume local ou desvios no eixo vertebral em 30,8% (12/39) dos animais. Estes resultados mostram a importância do exame físico no diagnóstico de lesões vertebrais, entretanto a ausência de anormalidades palpáveis não exclui a presença de fraturas vertebrais.

As diferentes formas clínicas observadas são justificadas pelo variado acometimento dos segmentos espinhais, confirmando observações prévias (Crowhurst, 1975; De Lahunta, 1983; DeBowes, Gift, 1993; Moore, 1997).

Foi realizada colheita e análise de líquido cefalorraquidiano (LCR) em 12 animais, no ponto mais próximo ao local suspeito de lesão. Em nove observaram-se alterações compatíveis com traumas vertebrais, representadas por coloração xantocrômica, aumento no teor de proteínas e aumento no número de hemácias, íntegras em sua maioria, variando de 450 a 30900 hemácias/ml (em um animal foi observada presença de hemácias crenadas). Em seis casos também ocorreu pleocitose, com valores entre 100 e 1500 células/ml, com predomínio de linfócitos. O teste de Pandy, índice colorimétrico para detecção de imunoglobulinas no LCR (Mayhew, Beal, 1980), apresentou reação positiva em sete casos.

Estes achados confirmam as observações de outros autores (Mayhew, 1989; Reed, 1994; Sweeney, 1999), que também encontraram hemorragia e xantocromia, além de elevação nos níveis de proteína em animais que sofreram traumas vertebrais. Os achados do LCR podem estar dentro da normalidade, mesmo na presença de anormalidades neurológicas significativas (Hayes, 1987).

Em três animais não foram observadas anormalidades no LCR. É possível que o tempo de evolução prolongado, variando de dois a 20 dias, possa ter trazido complicações na interpretação do exame, pela constante renovação do líquido cefalorraquidiano.

Conclui-se que as fraturas vertebrais devem fazer parte da lista de diagnósticos diferenciais de condições que causem decúbito, independente da espécie, idade e sexo, mesmo sem alterações nos exames de laboratório.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CROWHURST, R.C. Symposium on back problems. (1) Backs – clinical signs. Equine Vet. J., v.7, p.66-67, 1975.        [ Links ]

DE LAHUNTA, A. Veterinary neuroanatomy and clinical neurology. 2.ed. Philadelphia: Saunders, 1983. 471p.        [ Links ]

DeBOWES, R.M.; GIFT, L. Trauma of the brain and spinal cord. In: ROBINSON, N.R. Current therapy in equine medicine. v.3. Philadelphia: Saunders, 1993. p.535-539.        [ Links ]

GEORGE, L.W. Diseases producing spinal cord or peripheral nerve injuries. In: SMITH, B.P. Large animal internal medicine. 2.ed. St. Louis: Mosby, 1996. 2040p.        [ Links ]

HAHN, C.N.; MAYHEW, I.G.; MACKAY, R.J. Diseases of multiple or unknown sites. In: COLAHAN, P.T.; MERRITT, A.M.; MOORE, J.N. et al. Equine medicine and surgery. v.1. 5.ed. St. Louis: Mosby, 1999. p.947-950.        [ Links ]

HAYES, T.E. Examination of cerebrospinal fluid in the horse. Vet. Clin. North Am. Large Anim. Pract., v.3, p.283-292, 1987.        [ Links ]

MAYHEW, I. G. Large animal neurology: a handbook for veterinary clinicians. Philadelphia: Lea & Febiger, 1989. 380p.        [ Links ]

MAYHEW, I.G.; BEAL,, C.R. Techniques of analysis of cerebrospinal fluid. Vet. Clin. North Am. Small Anim. Pract., v.10, p.155-176, 1980.        [ Links ]

MAYHEW, I.G.; DE LAHUNTA, A.; WITHLOCK, R.H. et al. Spinal cord disease in the horse. Cornell Vet., v.68, supl.6, p.148-160, 1978.        [ Links ]

MOORE, B.R. Central nervous system trauma. In: ROBINSON, N.R. Current therapy in equine medicine. v.4. Philadelphia: Saunders, 1997. p.301-305.        [ Links ]

REBHUN, W.C. Diseases of dairy cattle. 1.ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1995. 530p.        [ Links ]

REED, S.M. Medical and surgical emergencies of the nervous system of horses: diagnosis,treatment, and sequelae. Vet. Clin. North Am. Equine Pract., v.10, p.703-715, 1994.        [ Links ]

SHERMAN, D.M. Localized diseases of the bovine brain and spinal cord. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract., v.3, p.179-191, 1987.        [ Links ]

SWEENEY, R.W. Spinal cord diseases. In: HOWARD, J.L. Current veterinary therapy – Food animal practice. v.4. Philadelphia: Saunders, 1999. p.667-669.        [ Links ]

TYLER, C.M.; DAVIS, R.E.; BEGG, A.P. et al. A survey of neurological diseases in horses. Aust. Vet. J., v.70, p.445-449, 1993.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 18 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 16 de dezembro de 2002

 

 

E-mail: asborges@fmvz.unesp.br

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License