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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.2 Belo Horizonte Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000200016 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Achados histológicos em fetos bovinos abortados e não abortados

 

Histological findings in aborted and non-aborted cattle fetuses

 

 

W. OkanoI; A.P.F.R.L. BracarenseII; A.C.F. ReisII; A.A. AlfieriII

IUniversidade Norte do Paraná, UNOPAR Avenida Paris, 675 86041-120 - Londrina, PR
IIDepto. Med. Vet. Preventiva da Universidade Estadual de Londrina, UEL

 

 


Palavras-chave: bovino, feto, aborto, histopatologia


ABSTRACT

Tissue fragments from 17 non-aborted and 93 aborted fetuses were histologically studied. No histological lesions were observed in non-aborted fetuses, and 51.6% of the aborted fetuses presented histological lesions. The main lesions were: focal gliosis and mononuclear infiltrate in liver, CNS, lungs and muscular tissues.

Keywords: cattle, foetus, abortion, histopathology


 

 

Abortamento e natimortalidade são causas freqüentes de prejuízos econômicos para a pecuária bovina devido às perdas diretas da concepção e à interferência na fertilidade. Agentes infecciosos são considerados as principais causas de aborto (Atallah et al., 1997). Esporádicos ou na forma de surtos eles são freqüentes na região norte do Paraná e contribuem para alterar os índices reprodutivos de rebanhos bovinos de corte e leite.

Apesar da importância do problema, na maioria dos casos não se consegue chegar a um diagnóstico etiológico definitivo devido à autólise, à multiplicidade de causas associadas ao aborto e à falta de amostras ideais como feto, placenta e soro materno (Kirkbride, 1990; Fernandes, 1996). Kirkbride et al. (1985) relataram que em 2.544 abortos bovinos a causa foi determinada em apenas 30,2% dos casos. Nos Estados Unidos, no período de um ano, Woodard (1994) descreveu que de 338 casos de abortos e nascimentos de animais fracos e com peso corporal abaixo da média da raça, 40,2% tiveram diagnóstico, sendo os vírus responsáveis por 26% dos abortos. Lehmann et al. (1997), ao avaliarem as causas de aborto na Alemanha em 12.602 casos, relataram que agentes virais foram detectados em 20% dos abortos.

Lesões microscópicas têm sido associadas a agentes infecciosos abortivos. As lesões histológicas observadas em fetos abortados devido à infecção pelo herpesvírus bovino tipo 1 são necrose focal, com ou sem infiltrado inflamatório mononuclear, no fígado, rins, baço, pulmões, adrenal ou timo (Larson, 1996; Ogino et al., 1996). Nos rins a necrose afeta predominantemente as células epiteliais tubulares da região cortical (Smith, 1997).

O objetivo deste trabalho foi comparar os achados histológicos em fetos bovinos abortados e não abortados e verificar as alterações histológicas mais freqüentes.

Dois grupos de fetos bovinos foram examinados: o grupo I foi constituído por 93 fetos abortados provenientes do estados do Paraná (69), São Paulo (16), Mato Grosso do Sul (3), Goiás (3), Minas Gerais (1) e Mato Grosso (1). No grupo II foram incluídos 17 fetos, no estádio de gestação acima de quatro meses, colhidos em frigoríficos do Estado do Paraná. Fragmentos de fígado, rins, pulmões, coração, músculo esquelético, baço, timo e sistema nervoso foram fixados em formalina tamponada a 10%, processados histologicamente e incluídos em parafina. Cortes de 5mm de espessura foram corados pelo método de hematoxilina-eosina e ácido periódico de Schiff (PAS). No grupo I, as amostras consistiram de fragmentos de pelo menos dois dos órgãos anteriormente citados.

No grupo I foram analisados 68 fragmentos de fígado, 71 de rins, 64 de pulmões, 53 de baço, 14 de timo, 23 de coração, 9 de músculo esquelético e 25 de cérebro. As principais alterações histológicas encontradas foram infiltrados mononucleares, discretos a moderados, no coração, fígado, cérebro e pulmões. No fígado verificou-se necrose multifocal de hepatócitos em cinco fetos e vacuolização do citoplasma de hepatócitos em 41 fetos. No baço e rins a alteração predominante foi a congestão discreta a acentuada, principalmente em região medular. Necrose tubular multifocal e hemorragias corticais foram observadas em sete fetos. No cérebro, congestão e gliose concomitantes foram as principais alterações. As lesões histológicas e sua ocorrência estão relacionadas na Tab.1.

 

 

No grupo II os achados histológicos predominantes no fígado e rins foram a vacuolização citoplasmática de hepatócitos e epitélio tubular que apresentaram marcação positiva no método de PAS. Os fragmentos de pulmões apresentaram congestão discreta em três fetos. Nos demais órgãos não foram observadas alterações significativas. Ambos os grupos apresentaram hematopoiese e folículos linfóides pouco definidos no baço.

O infiltrado de células mononucleares nos diversos órgãos ocorreu somente nos fetos abortados. O exame histopatológico isoladamente não permitiu um diagnóstico etiológico conclusivo, entretanto o infiltrado inflamatório é sugestivo de etiologia infecciosa. Também a necrose de hepatócitos e de túbulos renais e gliose somente foram observadas nas amostras provenientes do grupo I. Diversos autores relataram que essas lesões ocorreram nos abortos por herpesvírus bovino tipo 1, por Neospora caninum e por Chlamydia psittaci (Kirkbride, 1990; Fernandes et al., 1996; Smith, 1997; Dubey, 1999).

Ambos os grupos apresentaram vacuolização citoplasmática de hepatócitos e do epitélio tubular renal, que com a coloração de PAS confirmou-se ser acúmulo de glicogênio. Este achado foi considerado fisiológico e relacionado ao desenvolvimento fetal. A ausência de folículos linfóides foi considerada como imaturidade do tecido linfóide, relacionada à idade do feto.

Pode-se concluir que o exame histopatológico foi eficiente para diferenciar as alterações histológicas dos fetos bovinos abortados dos achados fisiológicos dos não abortados. O diagnóstico dessas alterações, sugestivas de quadro infeccioso, é importante principalmente quando os métodos microbiológicos e sorológicos não podem ser utilizados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 20 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 13 de dezembro de 2002
Projeto financiado pela CPG-UEL/CAPES/CNPq

 

 

E-mail: vetwener@onda.com.br

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