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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.2 Belo Horizonte abr. 2003

https://doi.org/10.1590/S0102-09352003000200019 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Mucormycosis due to Rhizopus sp. in fishes: First case described in Portugal

 

Mucormicose por Rhizopus sp. em peixes: Apresentação do primeiro caso em Portugal

 

 

A.C. Coelho; A. Fontaínhas-Fernandes; S. Santos; R. Cortes; J. Rodrigues

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – ICETA Apartado 1013 5000-911 - Vila Real, Portugal

 

 


Palavras-chave: peixe, mucormicose, Rio Mondego


ABSTRACT

This paper describes the first case of fish-boces (Chondrostoma polylepsis) with cutaneous lesions caused by Rhizopus sp. The results point out the role of fish-boces as a surveillance sentinel of cutaneous mucormycosis infections in aquatic recreation areas.

Keywords: fish, cutaneous mucormycosis, epidemiological surveillance


 

 

O Mondego, maior rio que nasce em Portugal, na Serra da Estrela, com extensão de 227km, desemboca numa bacia hidrológica de 6.670km2 a Sul da Figueira da Foz (Marques et al., 2002). As informações sobre as comunidades piscícolas da Bacia do Mondego são escassas, tendo a maioria dos estudos sido efectuada no estuário do rio (Ribeiro, Gonçalves, 1993; Jorge et al., 2002). Este facto reflecte a menor importância económica que as espécies de água doce assumem relativamente às espécies marinhas e de água salobra. Os trabalhos realizados nas comunidades piscícolas têm-se debruçado, em geral, sobre o estudo de problemas de natureza genética (Alexandrino, 1996), sendo rara a informação quer do seu estado sanitário, quer da histopatologia dos principais órgãos afectados pela eventual contaminação do meio aquático (Santos et al., 2002).

Entre as espécies existentes no rio Mondego, os ciprinídeos rútilos (Rutilus macrolepidotus), barbo (Barbus bocagei), boga (Chondrostoma polylepis) e gobio (Gobio gobio) são as espécies mais frequentes, embora em certos trechos abundem espécies exóticas como a perca-sol (Lepomis gibbosus), a achigã (Micropterus salmoides) e a carpa (Cyprinus carpio). A boga C. polylepis ainda é uma das espécies mais abundantes, caso existam áreas de desova disponíveis nos ribeiros e rios circundantes.

As mucormicoses são doenças causadas por fungos da ordem Mucorales que pertencem à classe dos Zygomycetes. A maioria das espécies isoladas a partir dos animais pertence aos gêneros Mucor, Rhizomucor, Rhizopus e Absidia (Perry, Miller, 1989; Grillot, 1996; Winkler et al., 1996). Esses fungos são ubiquitários e podem ser encontrados em solos húmidos e ricos em azoto, na matéria vegetal em decomposição, nas fezes dos herbívoros, nos alimentos e no ar (Perry, Miller, 1989; Huerre, 1997; Guarro et al., 1999), sendo a maioria das espécies termofílicas (Huerre, 1997; Guarro et al., 1999). São normalmente isolados em animais como organismos comensais que em determinadas condições se tornam patogénicos (Perry, Miller, 1989). Nos seres humanos as mucormicoses são freqüentemente encontradas nos indivíduos imunodeprimidos (Winkler et al., 1996; Anstead et al., 1999).

Neste trabalho descreve-se o primeiro caso de peixes recolhidos no Rio Mondego com lesões cutâneas das quais foi isolado e identificado Rhizopus sp.

A recolha de peixes foi efectuada em junho e setembro de 2000, tendo sido considerados quatro locais: M1, M2, M3 e M4 situados, respectivamente, a 170, 184, 188,5 e 192,8 km da nascente do rio Mondego. Em cada local de amostragem, efectuou-se a caracterização dos principais parâmetros ambientais, de acordo com a metodologia sugerida por Cortes (1992) e Ferreira et al. (1995). Na Tab. 1 apresentam-se os principais parâmetros físico-químicos da água recolhida nos quatro locais de amostragem.

 

 

Os peixes foram recolhidos por pesca eléctrica de corrente contínua, cuja potência foi fornecida por um gerador de 4,0 kW. Consoante a condutividade do rio, a voltagem utilizada situou-se entre 200-250 volts e a intensidade da corrente foi de 1,0 a 3,0 A. Nas estações de amostragem todos os habitats foram percorridos de barco. Nos locais de amostragem foram capturadas diversas espécies de peixes (Tab. 2), as quais foram devolvidas ao rio após identificação, pesagem e medição, à excepção das que apresentavam lesões, enviadas ao laboratório.

 

 

Após observação e anotação do hábito externo das bogas com lesões, colheu-se com uma zaragatoa e cirurgicamente o material das zonas danificadas. De seguida, procedeu-se à coloração pelo método de Gram. As amostras das lesões de pele foram clarificadas com hidróxido de potássio a 10% para detecção de fungos. O material colhido foi inoculado em Sabouraud dextrose agar sem cicloeximida e suplementado com cloranfenicol 500 mg/l. As culturas foram incubadas a 30ºC, durante cinco dias, tendo sido examinadas microscopicamente após coloração com lactofenol com azul de algodão.

Ao fim de cinco dias de incubação, produziu-se uma cultura pura de Rhizopus sp. As colónias apresentavam aspecto algodoado, inicialmente de cor branca mudando para cor acastanhada, após alguns dias de incubação. Ao exame microscópico observaram-se esporangióforos altos, de cor castanha escura, monopodiais e ramificados, originados a partir de nódulos com rizóides fracos e ramificados. Os esporangióforos terminavam numa columela hemisférica hialina e o esporângio era globoso preto-acizentado. Os zigósporos eram de subglobosos a ovais, com fina parede refractária. Não foi possível efectuar a identificação da espécie, visto que é laboriosa e dispendiosa, existindo poucos laboratórios credenciados para isso (Weitzman et al., 1995; Guarro et al., 1999).

Algumas bogas recolhidas no local M1 foram as únicas que apresentaram lesões externas evidentes, identificadas como mucormicose cutânea. Tal poder-se-á atribuir ao facto de o valor do pH neste local ser o mais baixo encontrado nos locais de amostragem (7,0), já que valores de pH superiores a este inibem o crescimento de Rhizopus sp. (Graham et al., 1976; Sparringa et al., 2002), o que pode justificar o não aparecimento do fungo nos locais M2, M3 e M4. A temperatura da água no Rio Mondego em todos os locais de recolha é um factor limitante (mas não inibidor) ao desenvolvimento de Rhizopus sp., visto que a temperatura óptima de crescimento deste género varia de 28ºC (Zubenka et al., 1984) a 42ºC (Sparringa et al., 2002). As quatro bogas capturadas com lesões apresentaram peso médio de 11,7g e 8,5cm de comprimento. Não foram observadas células e estruturas fúngicas ao exame microscópico directo, nem isoladas bactérias potencialmente patogénicas.

Mucorales originam uma reacção inflamatória aguda caracterizada por necrose supurada e dano vascular com trombose e enfarte (Huerre, 1997), sendo responsáveis por infecções rinocerebrais, pulmonares, gastrintestinais, cutâneas e sistémicas (Grillot, 1996; Huerre, 1997; Guarro et al., 1999). A forma cutânea é rara (Huerre, 1997), embora já tenha sido relatado um caso no homem (Mizutari et al., 1999).

As análises de água (Tab. 1) não permitem concluir sobre a origem das lesões observadas. Os dados relativos à contaminação da água do Rio Mondego são escassos e dizem respeito apenas aos sedimentos da zona do estuário, cuja composição indica contaminação derivada principalmente do mar causada por metais e tPCB provenientes de fontes antropogénicas (Vale et al., 2002).

Deve-se dar particular atenção às bogas como sentinela de vigilância das infecções por Mucorales, tendo em conta os diversos e graves quadros nosológicos que estes fungos podem causar na população humana utente desta área de recreio.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 13 de junho de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 19 de setembro de 2002

 

 

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