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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.3 Belo Horizonte June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000300004 

Prevalência de rotavírus do grupo A em fezes diarréicas de bezerros de corte em sistema semi-intensivo de produção

 

Prevalence of group A rotavirus in diarrheic feaces of beef calves in semi-intensive production system

 

 

M.G. BuzinaroI; M.L.A. MistieriI; A.A.B. CarvalhoI; S.I. SamaraI; L.C.A. RegitanoII; J.A. JerezIII

IFaculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n 14884-900 - Jaboticabal, SP
IICentro de Pesquisa da Pecuária do Sudeste/Embrapa - São Carlos
IIIFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP - São Paulo

 

 


RESUMO

Determinou-se a prevalência de rotavírus durante surto de diarréia em bezerros de um rebanho de corte, criado em regime semi-intensivo de produção. Analisaram-se, por meio de técnicas de eletroforese em gel de poliacrilamida (EGPA) e ensaio imunoenzimático (kit EIARA - Fiocruz), 69 amostras de fezes de bezerros, entre 30 e 60 dias de idade, colhidas em três estações de parição consecutivas (agosto a novembro/1999, janeiro a abril e agosto a novembro/2000). Pelo EIARA foram detectadas 63,8% (44/69) de amostras positivas. Na primeira estação de parição foi detectado rotavírus em 82,4% (14/17) dos bezerros que apresentaram quadro clínico de diarréia. No ano de 2000 a presença de rotavírus foi detectada em 41,7% (5/12) e 62,5% (25/40) do total de amostras examinadas. A análise do perfil eletroforético do genoma indicou grande diversidade, com quatro eletroferótipos distintos, todos com perfil longo, característico de rotavírus do grupo A.

Palavras-chave: rotavírus, bovino de corte, diarréia, eletroferótipo


ABSTRACT

During three successive seasons of calving (August to November 1999, January to April and August to November 2000) 69 fecal samples were collected from calves between 30 and 60 days of age presenting diarrhea, to account for the detection and prevalence of rotavirus. Samples were submited to an immunoenzymatic assay for rotavirus and adenovirus (kit EIARA-Fiocruz) and polyacrylamide gel electrophoresis (PAGE). Of the 69 samples tested, 63.8% (44/69) were positive by EIARA. At the first calving season rotavirus was detected in feces from 14 of 17 calves (82.4%) with clinical signals of diarrhea. For the year 2000 seasons, rotavirus was detected in 5 of 12 (41.7%) and 25 of 40 (62.5%) of samples, respectively. The analysis of the eletrophoretic pattern of the positive samples showed four distinct group A rotavirus genome eletropherotypes.

Keywords: rotavirus, calf, diarrhea, electropherotypes


 

 

INTRODUÇÃO

As infecções intestinais constituem uma das doenças mais importantes dos bezerros, causando grandes perdas econômicas em virtude da morbidade, mortalidade e custos com tratamento (Kaneene, Hurd, 1990). Vários agentes etiológicos como Escherichia coli, Salmonella e Cryptosporidium podem estar envolvidos nesse quadro clínico (Reynolds et al., 1986; Snodgrass et al., 1986; Perez et al., 1998). Os rotavírus têm sido apontados como importantes agentes causadores de diarréias agudas (Snodgrass et al., 1990; Lucchelli et al., 1992; Saif, Yiang, 1994).

Os rotavírus possuem 11 segmentos de RNA de cadeia dupla, os quais, quando separados por eletroforese em gel de poliacrilamida, apresentam padrão de migração característico denominado eletroferótipo (Estes, Cohen, 1989). Essa técnica tem sido empregada com freqüência em estudos epidemiológicos de infecções por rotavírus, revelando aspectos da infecção não detectados por métodos convencionais (McNulty, Logan, 1983; Theil, McCloskey, 1989; Ishizaki et al., 1995). Atualmente são reconhecidos sete grupos antigênicos (A a G), entretanto, a maioria das amostras com sinais clínicos significativos em termos de prevalência animal e humana pertence ao grupo A (Saif, Yiang, 1994).

Embora o quadro de diarréia associado a rotavírus seja estudado mais intensivamente em animais jovens, devido à severidade e à freqüência da síndrome, as infecções podem ocorrer em todas as idades, incluindo bovinos adultos (McNulty, Logan, 1983; Snodgrass et al., 1990; Lucchelli et al., 1992). No Brasil, vários estudos abordaram as características epidemiológicas da infecção por rotavírus em bezerros de rebanhos leiteiros (Jerez et al., 1987; Jerez et al., 1989; Brito et al., 1994; Buzinaro et al., 2000), mas nenhum foi realizado em bovinos de corte.

O objetivo deste trabalho foi determinar a prevalência de infecção por rotavírus em bezerros de corte das raças Nelore, Angus e Simental, criados em sistema semi-intensivo de produção, durante três estações de parição consecutivas. Estudou-se também a análise do perfil eletroforético do genoma das amostras positivas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostras de fezes foram colhidas durante surtos de diarréia em bezerros de rebanhos de corte de uma propriedade rural no município de São Carlos/SP, durante três estações de parição consecutivas: 15/08 a 15/11 de 1999, 15/01 a 15/04 e 15/08 a 15/11 de 2000. Os rebanhos eram formados por animais das raças Angus, Simental e Nelore, criados em sistema de produção intensivo, tendo em média 60 vacas cada, distribuídas em pastos segundo a raça . As crias permaneciam com as mães até 60 dias de idade, quando eram desmamadas e separadas em lotes. Colheram-se amostras de fezes de bezerros que apresentaram sinais clínicos de diarréia, com fezes de consistência líquida, uma única vez, num total de 69 amostras. A idade dos bezerros variou de 30 a 60 dias. Após a colheita as amostras foram armazenadas a -20ºC para posterior processamento.

Segundo Pereira et al. (1985), a presença de rotavírus do grupo A foi detectada por meio de teste de ensaio imunoenzimático para rotavírus e adenovírus (Kit-EIARA Fundação Oswaldo Cruz - Rio de Janeiro).

A eletroforese em gel de poliacrilamida (EGPA) foi realizada de acordo com Herring et al. (1982), com algumas modificações introduzidas por Pereira et al. (1983).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Quarenta e quatro (63,8%) amostras de fezes de animais com diarréia foram positivas para rotavírus do grupo A pelo teste de EIARA (Tab. 1). Durante a primeira estação de parição (agosto a novembro/1999) foi detectado rotavírus em 82,4% dos bezerros que apresentaram quadro clínico de diarréia. No ano de 2000, a presença de rotavírus foi detectada em 41,7% e 62,5% do total de amostras examinadas nos períodos de janeiro a abril e agosto a novembro, respectivamente. Esses resultados mostram a alta freqüência de infecção por rotavírus quando comparados aos obtidos por outros autores. Lucchelli et al. (1992) detectaram 16,4% de amostras positivas em bezerros de 1 a 30 dias de idade, enquanto Fijtiman et al. (1987), na Argentina, obtiveram 27,2% de casos positivos. Em outros estudos a freqüência de infecção por rotavírus foi muito superior. No Canadá, McNulty e Logan (1983), ao estudarem a incidência de infecção endêmica por rotavírus em rebanhos leiteiros, observaram a presença do vírus em 70,0% das amostras examinadas. Snodgrass et al. (1986) analisaram 302 amostras de fezes de bezerros e detectaram 50,0% de casos positivos, resultados semelhantes aos encontrados no presente estudo. Quando a pesquisa de rotavírus é realizada durante o surto de diarréia há maior probabilidade de detectar partículas virais, o que justificaria a elevada prevalência observada no rebanho estudado (Lucchelli et al., 1992). Os resultados obtidos demonstraram, também, rápida difusão da doença depois do aparecimento do primeiro caso, uma vez que a maioria dos animais apresentou diarréia dentro de uma semana após o início do surto. A grande quantidade de partículas virais eliminadas com as fezes dos animais doentes deve ter favorecido a rápida contaminação do ambiente e conseqüentemente a disseminação da infecção (Tzipori, 1981).

 

 

Todos os animais apresentaram diarréia após 30 dias de idade. No entanto, a literatura tem mostrado que em rebanhos leiteiros a taxa de infecção é maior durante as primeiras semanas de vida, e a eliminação de partículas virais através das fezes coincide com a queda de anticorpos do colostro no lúmen intestinal, tornando o bezerro susceptível à infecção logo após o nascimento (McNulty, Logan, 1983). O manejo de criação de bezerros em rebanhos de corte, isto é, sua permanência nos pastos junto com as mães até o desmame, diminui a possibilidade de infecção nas primeiras semanas de vida, conforme sugerido por Lucchelli et al. (1992). Como este é o primeiro estudo realizado no Brasil sobre a infecção por rotavírus em rebanhos de corte, as comparações com outros estudos realizados no país inexistem.

Das 44 amostras de fezes positivas pelo teste de EIARA, 33 também o foram pela técnica de EGPA, apresentando perfil de migração característico de rotavírus do grupo A. A análise do perfil do genoma indicou a ocorrência de grande diversidade genômica, com quatro eletroferótipos distintos, denominados aleatoriamente A, B, C e D (Tab. 2; Fig. 1). Apesar da grande diversidade genômica entre as estirpes de rotavírus, um único eletroferótipo (tipo A) foi identificado durante a primeira estação de parição. Resultados semelhantes foram obtidos em trabalhos realizados na Argentina (Fijtiman et al., 1987) e no Japão (Ishizaki et al., 1995), nos quais não foi encontrada diversidade genômica entre estirpes de rotavírus, quando estudadas por períodos de seis meses a um ano. Durante a segunda estação de parição foram detectados cinco casos positivos com dois eletroferótipos (B e C), distintos daqueles detectados no período anterior. Na terceira estação de parição, as 20 amostras positivas foram classificadas em dois eletroferótipos (C e D), com predominância do eletroferótipo C (13 casos). As razões para a ocorrência de eletroferótipos distintos estarem circulando entre os bezerros não foram determinadas. Este fato poderia indicar a introdução de novas estirpes no rebanho, ou surgimento de uma estirpe variante com vantagens seletivas ou, ainda, uma estirpe previamente associada com infecções assintomáticas que se torna virulenta. A análise do perfil do genoma por eletroforese em gel de poliacrilamida é uma técnica útil para se distinguir diferenças entre estirpes e fornecer informações sobre o significado epidemiológico da variação genômica dos rotavírus. Contudo não fornece dados sobre antigenicidade, sendo necessário estudos comparativos para determinar a especificidade de sorotipos (G e P), caso a vacinação seja implementada.

 

 

 

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Fapesp pelo apoio financeiro.

 

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Recebido para publicação em 19 de fevereiro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 15 de agosto de 2002

 

 

E-mail: glorinha@fcav.unesp.br