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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.3 Belo Horizonte June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000300012 

Concentrados protéicos para bovinos. 2. Digestão pós-ruminal da matéria seca e da proteína

 

Protein concentrates for bovines. 2. Post-ruminal digestion of protein and dry matter

 

 

N.M. RodriguezI; J.F.C. MoreiraII; P.C.C. FernandesIII; C.M. VelosoIV; E.O.S. SalibaI; I. BorgesI; L.C. GonçalvesI; A.L.C.C. BorgesI

IEscola de Veterinária da UFMG Caixa Postal 567 30123-970 Belo Horizonte, MG
IIMinistério da Agricultura
IIIAlltech do Brasil
IVUniversidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Campus de Itapetinga

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar a digestão pós-ruminal de fontes protéicas. Utilizou-se a técnica de sacos de náilon móveis introduzidos no duodeno e colhidos nas fezes. Os alimentos introduzidos no intestino foram anteriormente incubados em sacos de náilon no rúmen ou foram separados das frações solúveis em água. O farelo de soja foi a fonte protéica de maior degradabilidade ruminal (73%) e altíssima digestibilidade intestinal (98%). O glúten de milho foi a fonte protéica menos degradada no rúmen (16%) e sua parcela sobrepassante foi altamente digerida no intestino (95%). Os farelos de algodão e de mamona mostraram características semelhantes com digestibilidade total da proteína de 95% e em torno de 65% de degradabilidade ruminal. O farelo de palmiste foi menos digerido (87% digestibilidade total quando incubado). Farinhas de origem animal foram menos digeridas no intestino e também no rúmen (fora o glúten), com digestibilidades totais de 75% para farinha de carne e ossos, 85% para farinha de penas e vísceras e farinha de peixe I, 67% para farinha de peixe II e apenas 46% para farinha de sangue.

Palavras-chave: bovino, intestino, digestibilidade, bolsa móvel, farelos, concentrado protéico


ABSTRACT

This work aimed to evaluate post ruminal digestion of protein sources, by mobile nylon bags introduced in the duodenum of fistulated steers and collected from faeces. The feedstuffs were previously incubated in the rumen or separated the water soluble fraction before the intestinal digestion test. The soybean meal at 5% passage rate showed the highest ruminal protein degradability (73%) and highest intestinal digestibility (98%). Gluten meal was the least rumen degradable protein (16%) and showed a high digestible undegradable protein (95% if rumen incubated previously). Cottonseed meal and castorbean meal had similar patterns of digestion with total digestible protein of 95% and about 70% of rumen degradability. Rumen incubated palmist meal was less digestible (87% of total digestibility). Animal origin meals were less digestible either in the rumen or in the intestine, with total digestibility of 75% for meat and bone meal, 85% for feather and viscera meal and for fish meal I, 67 % for fish meal II and only 46% for blood meal.

Keywords: bovine, intestine, digestibility, mobile bags, protein source


 

 

INTRODUÇÃO

A digestibilidade pós-ruminal tem sido menos estudada nos ruminantes devido às dificuldades técnicas envolvidas na sua execução e em virtude da adoção, por muitos anos, de critérios para avaliação dos alimentos limitados aos conceitos de proteína bruta ou digestível. Essa sistemática baseia-se no pressuposto de que as necessidades protéicas poderiam ser satisfeitas apenas com o fornecimento de aminoácidos de origem microbiana para o intestino delgado, reforçada após a demonstração por Virtanem (1966), segundo o qual ruminantes são capazes de desenvolver sua habilidade vital apenas com o fornecimento de nitrogênio não protéico na dieta. Contudo, com a exploração de animais de elevada produtividade, a proteína microbiana mostrou-se insuficiente para satisfazer as necessidades visando maximizar a produção de leite e a taxa de crescimento.

Nessas circunstâncias, é imprescindível aumentar o fornecimento de proteína na dieta para ser digerida após o rúmen e estabelecer parâmetros quanto ao seu aproveitamento. Devido às dificuldades pertinentes com as metodologias para estudar a digestibilidade pós-ruminal, tornou-se constante a adoção de valores teóricos ou estabelecidos por métodos de laboratório para predição do aproveitamento do alimento nos intestinos. (Nutritive... 1992).

O objetivo deste trabalho foi determinar a digestibilidade intestinal dos resíduos de alimentos incubados no rúmen e de resíduos insolúveis em água, pela técnica dos sacos de náilon móveis introduzidos no duodeno e retirados nas fezes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados quatro novilhos mestiços europeu-zebu providos de cânulas no rúmen e duodeno, os quais receberam dieta de feno de capim-braquiária (60%) e concentrado (40%), conforme descrito por Moreira et al. (2003). Dez concentrados protéicos (farelos de soja, de algodão, de mamona, de palmiste e glúten de milho, farinhas de carne e ossos, de sangue, de penas e vísceras e de peixe I e II) foram incubados no rúmen em sacos de náilon durante 24 horas exceto o farelo de soja incubado durante 12h.

Após esse período, os sacos foram lavados até que a água escorresse límpida. O material foi secado em estufa de ventilação forçada à 60° C por 72 horas, moído com peneira de 1mm e armazenado para o ensaio de digestibilidade pós-ruminal.

Para a determinação da fração insolúvel de cada alimento e sua digestibilidade pós-ruminal, seis sacos de náilon foram preenchidos com 25 gramas de concentrado moído com peneira de 1mm, lacrados e lavados individualmente por meia hora, até que a água permanecesse límpida. Em seguida, foram secos em estufa de ventilação forçada a 60oC por 72 horas.

Em cada saco móvel de dacron, dimensões de 4,2×4,3cm, introduziu-se 0,5 grama do resíduo de alimento e selou-se com calor. Os sacos foram incubados por meia hora em solução 0,04M de ácido clorídrico, pH 2,4, com 100mg pepsina (atividade 1:10000)/l previamente preparada e aquecida à 39oC por 30 minutos. Os sacos móveis, em número de 48 para o resíduo digerido no rúmen e 38 para o resíduo insolúvel, foram lavados ligeiramente em água corrente. Desses, 32 foram separados para inserção no duodeno e os demais colocados em estufa (60oC) por 48 horas e pesados para determinação do desaparecimento da MS. Tomou-se o cuidado de inserir no duodeno os resíduos da incubação ruminal oriundos do próprio animal.

Após a recuperação, lavagem e secagem dos sacos recolhidos nas fezes determinaram-se a matéria seca (MS) e a proteína bruta (PB) residual dos alimentos. Os dados da digestibilidade foram analisados em delineamento experimental inteiramente ao acaso em esquema fatorial 10×2×4 (10 alimentos, dois tempos de incubação e quatro animais). As análises estatísticas foram feitas com o auxílio do programa Statistic Analysis System (SAS, 1985), usando-se o teste SNK para comparação de médias (P<0,05).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram utilizados 640 sacos móveis para estudo da digestibilidade intestinal, dos quais 632 (98,8%) foram recuperados e aproveitados para as avaliações pretendidas. Dos oito sacos não considerados, dois foram inutilizados por defeitos na confecção e seis não foram recuperados dentro das 26 horas após inserção no duodeno. A evacuação dos sacos móveis teve início a partir das oito horas após a inserção no duodeno, o que concorda com o trabalho de De Boer et al. (1987), ao utilizarem o mesmo esquema de alimentação. Entre oito e 16 horas após a inserção, 98% já haviam sido recuperados, com maior concentração de eliminação no intervalo entre 10 e 12 horas (45%).

O nível de alimentação e o tamanho dos sacos possivelmente influenciaram na sua evacuação. As médias de tempo para recuperação foram de 14,2 horas para sacos de 6x6cm segundo Hvelplund (1985), valor bem próximo ao encontrado no atual trabalho. Médias de retenção dos sacos móveis mais elevadas foram obtidas por Voigt et al. (1985) e Piva et al. (1992), em torno de 19 horas após a inserção no duodeno. Teixeira e Huber (1989) e Castillo Arias (1992) não encontraram diferenças quanto à recuperação, ao utilizarem sacos móveis de diferente formato, o que faz supor que as divergências entre autores sejam em parte devidas às condições experimentais peculiares a cada ensaio. Susmel et al. (1994) atribuem à não padronização da metodologia a razão para as divergências nos resultados entre ensaios que utilizam a técnica dos sacos móveis.

Os resultados da análise de variância dos coeficientes da digestibilidade intestinal da MS e da PB dos sacos móveis recuperados nas fezes entre 8 e 26 horas após a inserção no duodeno constam da Tab 1. O farelo de glúten de milho foi o único alimento que apresentou os coeficientes de digestibilidade intestinal da MS e da PB aumentados pela incubação ruminal. Quando incubado no rúmen por 24 horas, o glúten de milho aumentou em média 21% o coeficiente da digestibilidade intestinal da PB, fato que pode ser devido a eventuais alterações na estrutura quaternária das proteínas do milho. Assim, a pré-incubação desse alimento no rúmen parece ser requisito necessário para se alcançar a digestão máxima no intestino. Nota-se que entre todos alimentos esse foi o que apresentou o maior percentual de digestibilidade em ambos os resíduos, sendo a digestibilidade intestinal da proteína do resíduo incubado no rúmen de 95%, semelhante à do farelo de soja (Tab.1).

O coeficiente de digestibilidade intestinal da MS do resíduo insolúvel do farelo de soja (96,5%) esteve bem próximo aos valores encontrados para o mesmo material por Castillo Arias (1992), De Boer (1987) e Frydrych (1992).

Os farelos de algodão, mamona e palmiste mostraram baixa digestibilidade da MS tanto no material insolúvel quanto no incubado, mas os coeficientes de digestibilidade intestinal da PB do algodão e do farelo de mamona foram altos e próximos a 85% nos resíduos incubados, e ainda maior no resíduo insolúvel do algodão (92,1%). Nos dois tipos de resíduos do farelo de mamona os coeficientes de digestibilidade intestinal não apresentaram diferenças significativas em relação aos correspondentes resíduos no farelo de algodão. Esses dados parecem sugerir que os farelos de mamona e algodão apresentam valores nutritivos semelhantes.

O farelo de palmiste mostrou valores inferiores de digestibilidade intestinal dos resíduos protéicos, média de 67%. O coeficiente de digestibilidade da MS na fração insolúvel do farelo de algodão foi bastante superior ao obtido por Castillo Arias (1992). Entretanto, os percentuais da digestibilidade da MS após 16 horas de incubação ruminal ficaram bem abaixo dos obtidos por Frydrych (1992), diferenças atribuíveis à heterogeneidade na composição desses alimentos, particularmente quanto à parcela não protéica. Os valores mais baixos dos coeficientes de digestibilidade da MS em ambos resíduos (insolúvel e incubado) foram observados para os farelos de mamona e de palmiste e para as farinhas de carne e ossos e de sangue. A baixa digestibilidade desses farelos deve estar relacionada à presença do envoltório de natureza rígida do endocarpo da amêndoa do dendezeiro e da semente de mamona que entra em proporção variável na sua composição. A presença de quantidade elevada de fibra no farelo de algodão deve contribuir para a redução da digestibilidade da MS no resíduo após incubação ruminal. Os coeficientes de digestibilidade da MS do farelo de palmiste foram os mais baixos entre os alimentos de origem vegetal e não foram alterados pela incubação ruminal.

Diferente dos resultados de De Bôer et al. (1987), as digestibilidades intestinais da MS e da PB da farinha de carne e ossos não foram aumentadas pela incubação no rúmen, enquanto que a digestibilidade da PB do resíduo após incubação ruminal de 24 horas foi inferior à observada por esses autores, mostrando ser uma farinha de baixa qualidade. Frydrych (1992) também obteve valores maiores para a farinha de carne e ossos após incubação ruminal de 16 horas.

A farinha de penas e vísceras mostrou menores valores de digestibilidade intestinal da MS e da PB no material incubado, de qualquer forma, foram valores próximos a 70% e semelhante à digestibilidade da proteína sobrepassante do palmiste. A farinha de sangue apresentou valores muito baixos de digestibilidade intestinal da MS e da PB, com valores de 35,5% e 26,5% de digestibilidade da PB do material insolúvel e incubado, respectivamente. Sendo um produto essencialmente protéico (80%) e de origem única, a baixa digestibilidade só pode ser conseqüência do processamento inadequado. A farinha de sangue contém elevado teor de lisina (Masoero et al., 1994), aminoácido que se torna facilmente indisponível pela ação térmica.

As farinhas de peixe apresentaram comportamento diferente. Na farinha I, o material incubado mostrou menores valores de digestibilidade da MS e da PB. Na farinha II esse efeito não se manifestou, porém a digestibilidade intestinal da proteína sobrepassante foi superior na farinha I (72,6% vs 61,3%). De qualquer maneira, os valores são baixos em se tratando de farinhas de peixe, já que seriam esperados valores próximos a 95%. O valor encontrado para o resíduo insolúvel da farinha de peixe II foi próximo ao obtido por Castillo Arias (1992) para o mesmo concentrado. Dessa maneira, os fatores que modificam a degradabilidade ruminal de farinhas de peixe podem também interferir no potencial de sua digestibilidade pós-ruminal. Isso pode estar relacionado com a presença de tecido ósseo e escamas, o que aumentaria a proporção de material não digestível no resíduo da incubação ruminal. O intuito de se determinar a digestibilidade intestinal da proteína insolúvel (lentamente degradada) é verificar se a incubação ruminal afeta a digestibilidade da parcela protéica sobrepassante. Foi observado que os coeficientes de digestibilidade intestinal da PB do farelo de algodão e dos concentrados de origem animal sofreram grande redução com a incubação ruminal de 24 horas, exceção feita à farinha de peixe II. O farelo de glúten de milho foi o único alimento com a digestibilidade da PB aumentada pela incubação ruminal. Os coeficientes de digestibilidade intestinal da PB do farelo de palmiste e das farinhas de origem animal ficaram abaixo dos 80% estimados pelo Agricultural ... (1984) para a proteína não degradável no rúmen. Exceto para a farinha de peixe I, os percentuais sempre foram inferiores a esse valor para os resíduos não incubados no rúmen. Os sistemas de avaliação da proteína utilizados por diversos países adotam percentuais variáveis para a digestibilidade pós-ruminal da proteína não degradável (Nutritive ..., 1992).

A degradabilidade ruminal ou fração solúvel em água, digestibilidade em pepsina, digestibilidade intestinal e digestibilidade total da MS dos alimentos estudados encontram-se na Tab. 2. A incubação em pepsina não alterou de forma substancial os cálculos da digestibilidade total. A influência mais acentuada foi para a fração não solúvel em água do farelo de soja e da farinha de carne e ossos. Essa determinação deve ter sido influenciada pela moagem dos alimentos antes de serem incubados em pepsina, o que pode ter contribuído para a perda de partículas pelos poros dos sacos móveis em alguns resíduos após incubados no rúmen, contudo, em relação ao resíduo insolúvel, o aumento foi pequeno em valores absolutos.

 

 

Esse fator certamente está relacionado com a natureza do alimento. O farelo de palmiste e a farinha de sangue, cujas partículas são parcialmente pulverizadas pelo moinho, constituem exemplos de concentrados cujo desaparecimento da MS no resíduo incubado no rúmen foi mais elevado em relação ao do resíduo insolúvel após a digestão em pepsina. Entre os resíduos insolúveis, o farelo de soja foi o único que precisou ser moído antes de ser incubado, o que deve também ter contribuído para o alto percentual de MS digerida em pepsina.

A incubação ruminal aumentou a digestibilidade total da MS para quase todos alimentos. Constituem exceções a farinha de sangue e as farinhas de peixe, que apresentaram digestibilidade total da fração não incubada no rúmen mais elevada. Para a farinha de sangue esse fato é atribuível à maior perda de material pela malha do tecido quando o alimento foi moído em peneira de 1mm, antes de ser submetido à extração da fração solúvel em água. Isso leva a crer que o tamanho da partícula da farinha de sangue influenciou mais o desaparecimento da MS pelos poros dos sacos de náilon do que propriamente sua solubilidade ou digestão. As diferenças observadas para as farinhas de peixe foram menores. Observou-se redução da digestibilidade intestinal do resíduo da incubação ruminal da farinha de peixe I, o que influenciou os cálculos da digestibilidade total. Para a farinha de peixe II, a maior perda de partículas pela malha do tecido no material não incubado no rúmen e a aparente menor digestibilidade intestinal no resíduo da incubação ruminal também contribuíram para o valor absoluto mais elevado da digestibilidade total da MS no alimento não incubado no rúmen. As diferenças entre ambos resíduos das farinhas de peixe foram pequenas e podem estar vinculadas ao tipo de metodologia empregado.

Aumento substancial da digestibilidade total da MS pela incubação ruminal foi observada para os farelos de algodão, de palmiste e de glúten de milho. Para o farelo de mamona e para as farinhas de carne e ossos e de penas e vísceras não foram notadas diferenças acentuadas em relação à amostra não incubada. Nas fontes protéicas de origem vegetal esse aumento pode ser imputado à digestão de carboidratos estruturais no rúmen, no entanto, no farelo de mamona o resíduo indigestível no intestino parece ser também resistente à degradação ruminal. Para o farelo de glúten de milho o aumento da digestibilidade no resíduo incubado no rúmen deve estar relacionado com a fermentação ruminal do amido neste material ou com as transformações na estrutura na proteína do milho. Aumento da digestibilidade total da MS de alimentos de origem vegetal associado ao maior tempo de incubação no rúmen também foi notado por De Boer et al. (1987), Teixeira e Huber (1989) e Castillo Arias (1992). Para o farelo de soja, o aumento da digestibilidade com a incubação ruminal foi pequeno, o que deve estar relacionado ao seu baixo conteúdo de carboidratos estruturais.

Em relação aos concentrados de origem animal, os resultados não evidenciaram efeitos consistentes da incubação ruminal sobre a digestibilidade total. Devido à ausência de fibra (celulose), esses concentrados supostamente estão menos propensos de terem a digestibilidade da MS influenciada pela fermentação no rúmen ou no intestino grosso. As diferenças na digestibilidade total da MS entre alimentos de origem animal podem ser atribuídas principalmente às variações nos coeficientes da digestibilidade intestinal, cujas causas devem estar relacionadas com a natureza ou com os processos de manufaturação dos alimentos, os quais requerem estudos mais detalhados.

Entre os concentrados de origem animal, a farinha de penas e vísceras apresentou o maior percentual de digestão da MS, seguido pela farinha de peixe I. Os demais apresentaram apenas cerca de 50% da MS digerida, o que pode estar relacionado com a proporção elevada de tecidos não digestíveis (ossos etc.) ou à digestibilidade intestinal prejudicada pelos processos de fabricação da farinha e/ou adição de agentes conservantes.

Na Tab. 3 são apresentadas a seqüência de eventos, ou seja, o desaparecimento da proteína (DESPB), a digestibilidade em pepsina (DIPPB), a digestibilidade intestinal dos resíduos (DINPB) e a digestibilidade total da proteína bruta (DTPB), todos no material insolúvel ou incubado no rúmen.

 

 

A digestibilidade em pepsina, anterior à introdução dos saquinhos no duodeno, foi feita com o intuito de simular a digestão no abomaso. Os resultados foram baixos em todos os concentrados e acredita-se que não tenham influenciado a digestibilidade intestinal. O farelo de soja mostrou alta digestibilidade total da proteína (98%) sendo que a maior parcela (69% em 12 horas) aconteceu no rúmen, e 29,6% foi proteína sobrepassante digestível, com 95% de digestibilidade intestinal (Tab.1). O resíduo insolúvel também mostrou alto valor de digestibilidade total (98%).

O farelo de algodão também foi altamente digerido (DTPB= 95,3%). Desse total, 72,3% foram degradados no rúmen e 23% foi proteína sobrepassante digestível, com 83% de digestibilidade intestinal (Tab. 1). O resíduo insolúvel também teve alta DTPB (94%) devido à maior digestibilidade intestinal (Tab.1).

A digestibilidade total da proteína do farelo de mamona também foi alta (95%) e semelhante ao farelo de algodão, com 67,3% de proteína degradada no rúmen e 28,3% de proteína sobrepassante digestível. Essa última com média de digestibilidade intestinal de 87,2% para ambos os resíduos (incubado e insolúvel).

O farelo de palmiste incubado no rúmen mostrou digestibilidade total da proteína de 87,1%, 54,4% digeridos no rúmen e 32,7% no intestino, com valor de digestibilidade intestinal de 69,3%. A digestibilidade total do palmiste insolúvel foi inferior (75,8%) à do incubado, ou seja, comportamento diferente dos farelos de soja, algodão e mamona.

O glúten de milho incubado sofreu digestão total de 95%, sendo apenas 7,7% degradado no rúmen e 87,3% no intestino, com 94,6% de digestibilidade intestinal da parcela sobrepassante (Tab.1). Como aconteceu com o palmiste, o glúten insolúvel também mostrou menor digestibilidade total (74,5%).

A digestibilidade total da proteína da farinha de carne e ossos foi 74,8%, correspondendo a 56,2% no rúmen e 18,6% no intestino. Da proteína sobrepassante, apenas 38,1% (Tab.1) foram digeridos no intestino, o que mostra tratar-se de uma proteína de qualidade inferior. A DTPB do resíduo insolúvel foi semelhante à do incubado (73%).

Na farinha de penas e vísceras incubada foi observada digestibilidade total da proteína superior à da farinha de carne e ossos (81,7%), sendo 38,2% degradados no rúmen e 43,5% digeridos no intestino, com 70% de digestibilidade intestinal da proteína sobrepassante (Tab.1). A DTPB do resíduo insolúvel foi semelhante à do incubado (84%).

Os resultados com a farinha de sangue foram até certo ponto decepcionantes e mostraram como o processamento, particularmente a temperatura, pode inutilizar uma proteína de boa qualidade. A digestibilidade total da proteína incubada foi de apenas 46,2%, sendo 26,6% degradados no rúmen e 19,6% no intestino, com digestibilidade intestinal da proteína sobrepassante de só 26,5% (Tab.1). A DTPB do resíduo insolúvel foi um pouco maior (55,9%).

As farinhas de peixe mostraram comportamentos diferentes. A digestibilidade total da proteína da farinha de peixe I incubada foi 82,9% e a da farinha II, 66,7%. A parcela protéica degradada no rúmen foi de 34,8% para I e apenas 12,2% para II. A parcela protéica digerida no intestino foi de 45,2% e de 57,4% para I e II, respectivamente, com digestibilidade intestinal de 72,6% e 61,3%.

A digestibilidade total da PB não degradada do farelo de soja variou entre 93,3 e 99,0% em diversos trabalhos publicados (Hvelplund, 1985; Castillo Arias, 1992), semelhante à elevada digestibilidade encontrada neste experimento.

O farelo de palmiste apresentou o menor coeficiente de digestibilidade da PB entre os concentrados de origem vegetal, fato que aliado ao baixo teor de proteína presente nesta amostra não o habilita como alimento de alto valor nutricional para fornecer aminoácidos. Contudo, ele pode tornar-se uma alternativa nutricional importante nas regiões onde é produzido.

O coeficiente da digestibilidade intestinal nos resíduos da farinha de carne e ossos foi inferior aos publicados na literatura (Masoero al., 1994), exceto para a reduzida digestibilidade (5,2%) na amostra não incubada no rúmen observada por De Bôer et al. (1987). Masoero et al. (1994) atribuíram à heterogeneidade dos processos de produção como a principal causa das diferenças na digestibilidade de farinhas de carne e ossos de diversas origens.

Para o farelo de palmiste a incubação ruminal aumentou a digestibilidade total da PB em aproximadamente 11%, o que está de acordo com a dependência da pré-digestão ruminal de alimentos com elevado teor de fibra para se conseguir melhor aproveitamento dos seus nutrientes (De Boer et al., 1987). A redução da digestibilidade intestinal da proteína do farelo de algodão, depois de incubada no rúmen, é semelhante à da semente de algodão moída observada no ensaio de Teixeira e Huber (1989), aspecto também observado para os farelos de soja, de mamona e de palmiste, porém, em menor intensidade nesses dois últimos.

Para facilitar a visualização das características dos diferentes concentrados protéicos, na Fig.1 são representadas as parcelas degradadas no rúmen, sobrepassantes digeridas no intestino e indigestíveis, usando como base de cálculo as degradabilidades efetivas da proteína para taxas de passagem de 5%, obtidas para esses alimentos em nosso laboratório (Moreira et al., 2003) e os coeficientes de digestibilidade intestinal obtidos neste experimento. A escolha dessa taxa parece ser a mais apropriada por se tratar de alimentos concentrados e por ser sugerida para animais com capacidade média de produção e consumo.

 

 

O farelo de soja foi a fonte protéica de maior degradabilidade ruminal (73%), com digestibilidade intestinal quase total da pequena parcela sobrepassante, sobrando um percentual indigestível muito reduzido. Os farelos de algodão e de mamona mostraram comportamento bastante similar, com degradações ruminais de 59% e 62%, respectivamente (menores do que a da soja), e alta digestibilidade da proteína sobrepassante (85%).

O farelo de palmiste apresentou baixa DE da proteína no rúmen (48%) e o maior percentual da proteína indigestível no intestino (30%) entre os farelos. O farelo de glúten de milho, que também apresentou DE da proteína bastante reduzida (16%), foi o alimento que forneceu o maior percentual de proteína digestível no intestino, com apenas 5% de indigestibilidade. Seria, sem dúvida, excelente fonte de proteína sobrepassante, não fosse seu baixo teor de lisina (Rodriguez, 1996).

Em geral, os concentrados de origem animal são tidos como fontes de proteína sobrepassante, mas freqüentemente apresentam maior percentual de proteína indigestível no intestino e grande variabilidade quando comparados aos de origem vegetal. A farinha de carne e ossos mostrou degradabilidade ruminal de 51%, mas a digestibilidade da parcela sobrepassante foi muito baixa (38%). Os percentuais de fornecimento da proteína para o rúmen (40%) e pós-rúmen (82% digestível) das farinhas de penas e vísceras e de peixe I foram praticamente iguais e suas digestibilidades totais foram as mais elevadas entre os produtos de origem animal.

A farinha de sangue foi de péssima qualidade, com degradabilidade ruminal da proteína de apenas 32% e de baixa digestibilidade intestinal da proteína sobrepassante (26%). A farinha de peixe II foi pouco degradada no rúmen (19%), mas apenas 49% de proteína sobrepassante foi digerida no intestino, resultando em digestibilidade total de 68%.

 

CONCLUSÕES

Para taxa de passagem de 5%/h, o farelo de soja é a fonte protéica de maior degradabilidade ruminal (73%) e muito alta digestibilidade intestinal da pequena parcela sobrepassante. O glúten de milho é a maior fonte de proteína sobrepassante de alta digestibilidade intestinal (95% se incubado previamente no rúmen) e baixa degradabilidade ruminal (16%). Os farelos de algodão e de mamona têm comportamentos intermediários e similares, com 65% de degradabilidade ruminal efetiva e proteína sobrepassante de alta digestibilidade (85%). O farelo de palmiste tem baixo teor protéico de baixa degradabilidade ruminal (48%) e relativamente baixa digestibilidade da parcela sobrepassante (69% quando incubado no rúmen). As farinhas de origem animal apresentam os maiores valores de proteína indigestível no intestino. Metade da farinha de carne foi degradada no rúmen mas a parcela sobrepassante foi pouco digerida (38%). As farinhas de peixe I e de penas e vísceras mostraram digestibilidade total alta (85%) e baixa degradabilidade ruminal (40%). As farinhas de sangue e de peixe II foram de baixa qualidade.

 

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Trabalho realizado com auxílio financeiro do CNPq, FAPEMIG e FINEP
Recebido para publicação em 3 de julho de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 9 de janeiro de 2003

 

 

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