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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.3 Belo Horizonte June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000300021 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Aspectos da bovinocultura leiteira no Município de Ilhéus–BA

 

Characterization of dairy cattle production in Ilhéus –BA

 

 

A.R.P. RibeiroI; F.C.F. LobatoII, *; V.L.V. AbreuII; E.S. FariaII; A.C.S. FerreiraII

IUniversidade Estadual de Santa Cruz
IIEscola de Veterinária da UFMG Caixa Postal 567 30123-970 – Belo Horizonte, MG

 

 


Palavras-chave: bovinocultura leiteira, questionário, Ilhéus-BA.


ABSTRACT

The results show that the milk production activity in the county of Ilhéus, Bahia state, Brazil, lacks of technologies that could improve milk productivity. General information about the farms were obtained through a survey. Thirty-seven (43.5%) farms were smaller or equal to 50ha and 65 (76.5%) farms produced 50l of milk per day, characterizing these farmers as small producers. In 46 (54.1%) farms no information concerning costs, level of production, reproduction efficiency or sanity of the herds were found. In 29 (34.2%) farms the information was registered in portable computer database, six (7.1%) farms used structured index cards and four (4.7%) farms had desktop computers. Forty-one (48.2%) farms had roofed and paved milk facilities, three (3.5%) farms had not roofed but paved, in 31 (36.5%) farms the corrals were not roofed and unpaved, and 10 (11.8%) farms had no constructions.

Keywords: dairy cattle, survey sampling, milk production, Ilhéus-Brazil


 

 

O município de Ilhéus–BA, cuja principal atividade econômica é a cacauicultura, ao buscar outras formas de fortalecer sua economia, encontra na pecuária leiteira uma opção desejável para a diversificação de suas atividades agropecuárias. A atividade leiteira, em expansão no município, ainda não apresenta condições que caracterizem a correta exploração do gado leiteiro quantos aos aspectos genético, sanitário, reprodutivo e alimentar. Há necessidade de se iniciar o processo de mudanças que estabeleça melhorias das condições de criação. O avanço tecnológico exige que o produtor rural se ajuste à nova situação, e para isso é necessário estudar a situação da exploração leiteira e do próprio produtor, que foi o objetivo deste trabalho.

A amostra deste estudo foi constituída por 85 propriedades, selecionadas aleatoriamente, representando 21,7% dos estabelecimentos pecuários existentes no município. Os dados relativos às propriedades foram obtidos por meio de resposta a um questionário aplicado entre março e setembro de 2000.

Oitenta e sete por cento dos produtores rurais eram do sexo masculino, taxa menor do que as relatadas por Oliveira (2000), 96,9%, para o município de Pedro Leopoldo-MG, e pela Associação Brasileira de Marketing Rural (Associação..., 2000), 99%, para o Brasil.

A maioria, 70,6%, dos proprietários rurais encontra-se na faixa etária de 30-60 anos e 24,7% acima de 60 anos. Quanto ao grau de escolaridade, 18,8% não têm instrução formal, 47,7% cursaram até o segundo grau e 33,5% tinham curso superior incompleto e completo. Os dados da Associação Brasileira de Marketing Rural (Associação..., 2000) mostram situação semelhante para o Brasil.

A maioria, 82,4%, reside na área urbana de Ilhéus ou em outros municípios próximos e 50,6% têm outra atividade como fonte prioritária à atividade rural. Esta é uma característica também apontada por Oliveira (2000) em Pedro Leopoldo, onde 60% dos produtores rurais tinham a atividade leiteira como fonte de renda secundária. Verificou-se que 48,3% vivem da produção rural, e a atividade leiteira está associada a outras atividades agrícolas como a exploração do cacau, café, seringa, banana, coco-da-bahia, pimenta, cravo e dendê.

A escrituração zootécnica é feita em computador por 4,7% das propriedades, 34,1% utilizam cadernos e 54,1% não fazem nenhum tipo de registro da situação do rebanho, semelhante ao constatado por Belchior (2001) para o Estado de Minas Gerais, em que 62,0% dos produtores rurais não faziam nenhum tipo de registro.

Quanto ao padrão genético, 11,7% dos animais são de raças leiteira puras e 85,8% são mestiços, sem raça definida.

Parte do rebanho apresenta um quadro de desnutrição, atribuído à escassez e à baixa qualidade dos alimentos. Essa observação foi feita inclusive em algumas propriedades que procuram melhorar a qualidade genética dos animais sem se preocuparem com a melhoria da alimentação.

Todas as propriedades adotam a ordenha manual com "bezerro ao pé", 81,2% realizam apenas uma ordenha, 8,2% duas ordenhas e 10,6% não estavam produzindo leite. Essa distância entre tecnologia moderna e produtor rural foi também observada por Solis (1991).

A média da produção leiteira é de 31,8 litros/propriedade/dia e de 4 litros/vaca/dia. Esses valores estão acima dos citados pela FAO (1996), que informou produção média de 2,5 litro/vaca/dia para o Brasil, e abaixo dos observados por Oliveira (2000) em Pedro Leopoldo. A maior parte do leite produzido em Ilhéus é comercializado por intermediários, que o revendem "in natura" ou em forma de iogurte em lanchonetes ou casa-a-casa, sem nenhum processo de pasteurização.

Em relação a problemas reprodutivos foram registrados: ocorrência de aborto em 28,2% das propriedades, natimortos em 5,9%, repetições de cio em 30,6% e retenção de placenta em 14,1%. A observação do cio é feita em 83,5% das propriedades e as cobrições registradas em 16,5%. A inseminação artificial é realizada em 11,8% das propriedades, e nas demais pratica-se a monta natural. A idade à primeira cria em 87,1% das propriedades está acima de 30 meses e o intervalo entre partos, em 48,2%, é de 19-24 meses.

Na micro-região de Ilhéus há bom número de profissionais na área das ciências agrárias, no entanto, isto não reflete a realidade da assistência técnica às propriedades produtoras de leite. Apenas 17,6% têm assistência regular e em 14,1% o veterinário é chamado em ocasiões específicas para atendimento clínico. Situações semelhantes foram apontadas por Oliveira (2000) em Pedro Leopoldo e Belchior (2001) no Estado de Minas Gerais, confirmando que o setor pecuário leiteiro ressente-se de melhor assistência técnica.

A distância entre práticas recomendadas para a produção leiteira e nível do produtor rural observada neste estudo têm como prováveis causas o baixo nível de escolaridade, as condições financeiras que não permitem maior investimento no empreendimento, a pouca experiência na atividade leiteira na região e a falta de política de extensão e fomento. Há necessidade de assistência técnica de forma sistemática que interfira na melhoria da qualidade de produção e aumento da produtividade dos rebanhos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO Brasileira de Marketing Rural – ABMR. Perfil do Produtor Rural. 2000. (on line). http://www.banet.com.br/proposta/ABMR.htm.        [ Links ]

BELCHIOR, A.P.C. Prevalência, distribuição regional e fatores de risco da tuberculose bovina em Minas Gerais. 2001. 130f. Dissertação (Mestrado em Epidemiologia e Medicina Veterinária Preventiva). Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.        [ Links ]

FAO. Quartely Bulletin Statistics. Rome, v.9, 1996.        [ Links ]

OLIVEIRA, I.C.E. Representações e práticas de produtores rurais sobre saúde/doença, com ênfase na verminose em bovinos de leite. 2000. 61f. Dissertação (Mestrado em Epidemiologia e Medicina Veterinária Preventiva). Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.        [ Links ]

SOLIS, C.S. Pesquisa, extensão rural e assistência técnica agropecuária no Estado de São Paulo. Hora Vet., v.10, p.19-24, 1991.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 4 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 3 de dezembro de 2002

 

 

* Autor para correspondência: E-mail: flobato@vet.ufmg.br