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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.4 Belo Horizonte ago. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000400011 

Disponibilidade e perdas de matéria seca em pastagem de capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schumack) submetida a diferentes períodos de descanso

 

Elephantgrass (Pennisetum purpureum, Schumack) dry matter availability and losses under rotational grazing conditions using crossbred cows (Holstein x Zebu) at different resting periods

 

 

F.C.F. LopesI; F. DereszI; N.M. RodriguezII; L.J.M. AroeiraI; I. BorgesII; L.L. MatosI; A. VittoriIII

IEmbrapa Gado de Leite Rua Eugênio do Nascimento, 610 36038-330 - Juiz de Fora, MG
IIUniversidade Federal de Minas Gerais
IIIUniversidade Federal de Viçosa

 

 


RESUMO

A disponibilidade de matéria seca e as perdas decorrentes do pastejo com vacas mestiças em lactação foram estimadas em pastagem de capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schumack) com períodos de descanso de 30, 36 ou 45 dias, nos meses de fevereiro a setembro. Desconsiderando efeito de mês, os maiores períodos de descanso apresentaram valores médios globais, expressos por unidade de área (kg/ha), semelhantes (P>0,05) entre si para disponibilidade e perdas de matéria seca, mas respectivamente superiores e inferiores (P<0,05) àqueles verificados na pastagem com 30 dias de período de descanso. Com os dados expressos em kg/vaca/dia, e desconsiderando-se efeito de mês, não se observou diferença (P>0,05) entre os períodos de descanso com respeito à disponibilidade e às perdas de matéria seca. Verificou-se comportamento sazonal (P<0,001) para a disponibilidade e perdas de matéria seca. Observou-se gradual declínio da disponibilidade de pasto a partir de março, e de forma mais pronunciada após o mês de maio, atingindo níveis críticos desde junho até setembro, principalmente em função dos baixos índices pluviométricos. As perdas de matéria seca (kg/ha) corresponderam, em média, a 16,4 e 6,5% da matéria seca disponível, respectivamente, nos meses de fevereiro a maio e de junho a setembro.

Palavras-chave: massa de forragem, pastejo rotativo, vacas em lactação


ABSTRACT

Dry matter availability and dry matter losses using elephantgrass (Pennisetum purpureum, Schumack) under rotational grazing system with three different resting periods (30, 36 and 45 days) with Holstein x Zebu dairy cows from February to September, were evaluated. No differences between 45 and 36-day resting periods were observed for dry matter availability and dry matter losses expressed on kg/ha basis, which were higher than those observed for the 30-day resting period (P<0.05). No significant differences between resting periods were observed for dry matter availability and dry matter losses expressed on kg/cow/day basis. The dry matter availability throughout the year showed a strong decrease in forage yield from March to September. The lowests values were observed from June to September, due to the absence of rainfall, low temperatures and photoperiod effects. The dry matter losses (kg/ha) were 16.4 and 6.5% for dry matter availability observed from February to May and from June to September, respectively.

Keywords: forage mass, rotational grazing, lactating cows


 

 

INTRODUÇÃO

O capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schum) é uma forrageira tropical que se destaca pela alta produtividade e qualidade da forragem produzida. Em termos gerais, o sucesso dessa gramínea deve se basear na manutenção do maior número possível de pontos de rebrota, por onde se dará o acúmulo de forragem, na otimização da qualidade da forragem produzida, mantendo a rebrota nos limites de alcance dos animais e em densidade adequada, e na garantia de que o manejo não comprometa a persistência da pastagem (Veiga, 1997).

A adoção conjunta de tecnologias tem possibilitado atender a essas premissas e, assim, promover o uso eficiente da pastagem de capim-elefante, garantindo aumento em produtividade e redução nos custos de produção de leite. Fatores de manejo deveriam ser considerados na busca de índices mais elevados de produtividade por animal e por área. Dentre estes, merece destaque o estudo das perdas de matéria seca do capim-elefante sob pastejo. Tal informação é importante, haja vista que as perdas provocam diminuição na eficiência de uso da forragem disponível, ainda que sejam fonte de matéria orgânica para reciclagem de nutrientes.

Hillesheim e Corsi (1990), ao realizarem estudo com novilhas em pastagem de capim-elefante, sugeriram vários aspectos de manejo do pasto, visando minimizar perdas e otimizar o aproveitamento da forragem disponível. No entanto, na literatura não foram encontrados trabalhos com enfoque específico sobre a quantificação das perdas de forragem provocadas pelo pastejo de vacas em lactação em capim-elefante.

O objetivo do presente estudo foi obter estimativas de disponibilidade e de perdas de matéria seca em pastagem de capim-elefante manejada sob diferentes períodos de descanso e consumida por vacas mestiças em lactação.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido na Embrapa Gado de Leite em Coronel Pacheco, MG, entre os meses de fevereiro e setembro de 1994.

O clima da região é do tipo Cwa, mesotérmico (Köppen), e a precipitação média anual em torno de 1.500mm. Nos meses de outubro a março ocorre verão quente e chuvoso e nos de abril a setembro, inverno frio e seco.

Foi usada uma área de pastagem exclusiva de capim-elefante, dividida em piquetes e manejada de forma intensiva em sistema rotativo. Os tratamentos estudados foram períodos de descanso da pastagem de 30 (T30), 36 (T36) e 45 (T45) dias. Para facilitar o manejo do experimento, trabalhando-se com três vacas/piquete, e concomitantemente assegurar lotação uniforme entre tratamentos (em torno de 4,5 vacas/ha), os piquetes variaram em número e tamanho de acordo com os períodos de descanso estudados, ou seja, 11, 13 ou 16 piquetes, medindo 607, 513 ou 417m2, respectivamente para T30, T36 e T45. O período de ocupação dos piquetes foi de três dias e foram usadas duas repetições de área de pastagem por período de descanso estudado, num total de 22, 26 e 32 piquetes para T30, T36 e T45, respectivamente.

A adubação de manutenção dos piquetes foi feita com 200kg/ha/ano de nitrogênio na forma de sulfato de amônio e 200kg/ha/ano de K2O na forma de cloreto de potássio, aplicados nos meses de novembro, janeiro e março. Adubação fosfatada com superfosfato simples (40kg/ha/ano de P2O5) e calagem com calcário dolomítico (1000 kg/ha/ano) foram feitas à ocasião da primeira cobertura com nitrogênio e potássio.

Foram usadas 18 vacas mestiças Holandês x Zebu, com 92 dias de lactação em média, produzindo 11,8 e 6,8kg de leite corrigido para 4% de gordura, e pesando em torno de 497 e 522kg, respectivamente, no início e no final do período experimental. Os animais foram distribuídos (blocos ao acaso) em grupos de seis por período de descanso (três por repetição de área), de acordo com a produção de leite e peso vivo, observados no período pré-experimental. As vacas foram ordenhadas duas vezes ao dia e tiveram acesso à mistura mineral e água em currais de espera. De fevereiro a maio seu único alimento foi a forragem disponível no pasto. Na seca, nos meses de junho a setembro, tiveram acesso aos piquetes sempre após a ordenha da tarde, ali permanecendo até a ordenha da manhã seguinte. Nessa época, no intervalo entre as ordenhas do dia, receberam no curral, à vontade, cana-de-açúcar (Saccharum officinarum, L.) picada, adicionada (base matéria natural) de 1% da mistura de uréia:sulfato de amônio (9:1).

A disponibilidade de matéria seca foi estimada conforme Aroeira et al. (1999), um dia antes da entrada das vacas no piquete. Foram escolhidas duas touceiras com disponibilidade alta e baixa. Todas as folhas e caules tenros de cada touceira, o quanto possível, foram coletadas, pesadas e amostradas para determinação da matéria seca (MS) à 105oC. Logo após a retirada das vacas do piquete foi feita a contagem do número de touceiras em 100m2 que multiplicado pela produção média de MS das duas touceiras (alta e baixa) resultou, após extrapolação, na disponibilidade de MS/ha. Foram feitas duas amostragens mensais (fevereiro a setembro) por repetição de área de pastagem (quatro estimativas por período de descanso por mês).

As perdas de MS foram quantificadas nos mesmos piquetes usados para as estimativas de disponibilidade usando-se a metodologia de Hillesheim e Corsi (1990) com modificações. Logo após a retirada das vacas do piquete, foram escolhidas, aleatoriamente, duas áreas de 4m2, onde foi feita a coleta, pesagem e amostragem da forragem considerada perdida, ou seja, aquela passível de consumo pelos animais (folhas e caules tenros), que caiu ao chão por ocasião do pastejo, ou que, pela própria ação do animal, foi danificada embora permanecesse presa à touceira, constituindo-se de material morto. A forragem que apresentava dejeções foi, de modo subjetivo, substituída por outra equivalente em aspecto e peso. As perdas foram estimadas em oito áreas de 4m2/período de descanso/mês.

O experimento foi analisado em esquema fatorial 3 x 8 (períodos de descanso, parcelas principais x meses, subparcelas), com quatro repetições para disponibilidade e oito para perdas de MS nos piquetes.

As análises estatísticas foram realizadas com auxílio do procedimento PROC GLM do USER'S... (1985) com as comparações de médias feitas pelo teste SNK ao nível de 5%. O modelo para análise de variância foi:

, em que:

Yi, j = perdas ou disponibilidade de MS (kg/ha ou kg/vaca/dia);

µ = média geral da variável analisada;

Ti = efeito do período de descanso (i = 30; 36 ou 45 dias);

Mj = efeito de mês (j = fevereiro a setembro);

TMij = efeito da interação do período de descanso i com o mês j;

eij = erro residual aleatório.

Coeficientes de correlação (r) foram obtidos do PROC CORR do USER'S... (1985) e regressões múltiplas dos procedimentos PROC STEPWISE (Opções Stepwise e MAXR; P<0,05), PROC RSQUARE e PROC REG. Para a variável dependente perdas (expressa em kg/ha ou kg/vaca/dia) foram consideradas variáveis independentes período de descanso, mês, precipitação pluviométrica e disponibilidade (kg/ha ou kg/vaca/dia) em seus feitos linear e quadrático. A variável dependente disponibilidade (kg/ha ou kg/vaca/dia) foi estudada a partir das variáveis independentes período de descanso, mês, precipitação pluviométrica e alguns efeitos quadráticos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Houve efeito do período de descanso (P<0,0033), mês (P<0,001) e interação (P<0,0239) sobre a disponibilidade de MS expressa em função da área (kg/ha). Por essa razão, os resultados médios foram apresentados obedecendo à decomposição dos fatores experimentais (Tab. 1).

 

 

Ao desconsiderar o efeito de mês, foram verificados valores médios gerais semelhantes (P>0,05) para disponibilidade de MS nas pastagens manejadas sob períodos de descanso de 45 (1443kg/ha) e 36 (1338kg/ha) dias, mas superiores (P<0,05) àquele verificado na pastagem com 30 dias (1148kg/ha) de descanso. Aroeira et al. (1999), trabalhando ao longo de dois anos e utilizando semelhante metodologia para estimativa da disponibilidade de MS em pastagem de capim-elefante, argumentaram que os valores de 1745 e 1939kg/ha, respectivamente para períodos de descanso de 30 e 37,5 dias, foram semelhantes entre si (P>0,05), mas inferiores (P<0,05) aos 2423kg/ha observados para 45 dias de descanso.

Os valores médios de disponibilidade de MS apresentados por Aroeira et al. (1999) foram em geral superiores aos observados neste estudo, o que pode ser parcialmente atribuído à influência de fatores climáticos, especialmente à precipitação pluviométrica. Aroeira et al. (1999) verificaram diferenças (P<0,05) nos valores de disponibilidade de MS entre anos, quando os dados foram analisados por estação. No entanto, o comportamento da variável disponibilidade de forragem, com relação à precipitação pluviométrica mensal, foi repetido ao longo dos dois anos do experimento, indicando parcial dependência do primeiro com relação ao segundo.

No presente estudo foi verificado efeito de estação do ano sobre a disponibilidade de pasto, representado, principalmente, pela quantidade de chuvas (r = 0,76) e pela variável mês (r = -0,84), o que confirma o caráter de sazonalidade da produção de forragem do capim-elefante (Tab. 1 e 2). Soares et al. (1999) apresentaram, respectivamente para os meses de março e julho em pastagem de capim-elefante com 30 dias de descanso, valores médios de 2354,8 e 472,7kg/ha, semelhantes aos observados no presente estudo.

 

 

Paciullo et al. (2001) relataram disponibilidade de MS de capim-elefante em pastagem com 30 dias de período de descanso de 2525kg/ha no mês de fevereiro, superior à observada no presente trabalho. Em julho, a disponibilidade estimada por esses autores (637kg/ha) apresentou valor semelhante ao obtido neste estudo.

Os dados de disponibilidade (Tab. 1 e 2) evidenciaram redução drástica na oferta de forragem, conseqüência da estação seca do ano que ocorreu nos meses de junho a setembro, e indicaram a necessidade de se fazer suplementação com volumoso e/ou concentrado no período, fato já mencionado por Ferreira (1998). Nesse caso é importante perceber o momento apropriado para início da suplementação, para que não ocorram restrições à produção animal por fatores relacionados aos aspectos nutricionais. A produção de forragem começou a declinar lentamente a partir de março e de forma mais pronunciada após o mês de maio, momento crítico e decisivo às pretensões de manutenção da eficiência produtiva neste sistema de produção.

Na equação 1 (= 1991,3 - 416,3m + 19,5m2 + 19,0p + 2,5c; R2 = 0,78, em que representa a predição de disponibilidade (kg/ha), m o mês, p o período de descanso e c as chuvas), obtida por procedimento de stepwise (P<0,05), as variáveis independentes, selecionadas para explicar a resposta disponibilidade de MS (kg/ha), reforçam as principais assertivas discutidas anteriormente. O efeito de mês, por exercer influência sobre a disponibilidade de forragem, foi incluído no modelo, com melhor ajuste sob a forma quadrática, concordando com os resultados obtidos por Paciullo et al. (2001). O coeficiente parcial de regressão da variável precipitação pluviométrica indicou que ocorreram aumentos da ordem de 2,5kg/ha de MS para cada mm de chuva. Essa equação foi desenvolvida com o principal objetivo de melhorar a percepção dos efeitos das variáveis independentes sobre a resposta medida. Sua utilização para fins de predição deve ser, portanto, feita sob circunstâncias semelhantes às relatadas no presente estudo, e sob eventuais limitações em termos de precisão nas estimativas.

Nessa equação o coeficiente parcial de regressão mostra que aumentos nos períodos de descanso do pasto induziram incrementos nos níveis de disponibilidade. No entanto, considerando, como exemplo, pastagens com 30 ou 45 dias de descanso, cada piquete será pastejado 12 ou 8 vezes no decorrer de um ano, respectivamente. Para melhor comparação dos resultados de disponibilidade entre períodos de descanso, seus valores foram corrigidos para kg/vaca/dia, levando em consideração as peculiaridades no tamanho e número de piquetes. Nesse sentido, foram detectadas significâncias para mês (P<0,0001), interação mês x período de descanso (P<0,0126) e período de descanso (P<0,0428), ainda que este último efeito tenha sido reflexo de diferenças ocorridas apenas no mês de março (Tab. 1).

De forma geral, ao se compararem os períodos de descanso quanto à disponibilidade (kg/vaca/dia), desconsiderando o mês de avaliação, não foi detectada diferença (P>0,05) entre eles, o que concorda com os resultados apresentados por Aroeira et al. (1999).

A equação de regressão para disponibilidade de MS expressa em kg/vaca/dia (equação 2; P<0,05), obtida do procedimento de stepwise (=17,3-2,25m+0,11m2+0,07p+0,02c; R2=0,79, em que representa a predição de disponibilidade (kg/vaca/ha), m o mês, p o período de descanso e c as chuvas), apresentou as mesmas variáveis discutidas na equação 1. No entanto, o coeficiente parcial de regressão para período de descanso foi negativo. Além disso, apresentou valor de significância menor do que o obtido na primeira equação (respectivamente, P<0,0019 e P<0,0001), indicando menor influência dessa variável sobre a resposta expressa em kg/vaca/dia.

Na análise para perdas de MS foram verificados efeitos de período de descanso, mês e interação entre ambos (P<0,0011), ainda que este último tenha sido reflexo de diferenças (P<0,05) ocorridas entre períodos de descanso apenas nos meses da estação chuvosa (Tab. 3). Desconsiderando o efeito de mês, foram observadas maiores (P<0,05) perdas em pastagens com 36 ou 45 dias de descanso, em detrimento daquela com 30 dias, sendo verificada correlação positiva (r = 0,70; P<0,0001) entre as variáveis perdas e disponibilidade de MS.

 

 

A equação 3 ( = -155,8 + 0,1d + 3,3p + 1,9c - 0,005c2; R2 = 0,54, em que representa a predição de perdas (kg/ha), d a disponibilidade, p o período de descanso e c as chuvas), apesar do baixo coeficiente de determinação obtido, confirma a dependência da resposta perdas em relação à variável disponibilidade de MS na pastagem (kg/ha). O coeficiente parcial de regressão indicou acréscimos da ordem de 0,1kg/ha de MS nas perdas para cada unidade de aumento na MS disponível. Isso evidencia uma aparente situação antagônica relacionada ao manejo de pastagens, visto que aumentos na quantidade de forragem, embora necessários para permitir ao animal liberdade de seleção visando à máxima ingestão, igualmente promovem aumentos nas perdas.

É importante a adoção de estratégias de manejo da pastagem visando à minimização das perdas, sem prejuízo no consumo dos animais. Hillesheim e Corsi (1990) recomendaram promover o rápido crescimento de rebrota com alta proporção de folhas e de altura moderada, ou seja, aspectos diretamente relacionados à estrutura da planta. É provável que tenha havido outras diferenças no manejo da pastagem adotado no presente trabalho e no de Hillesheim e Corsi (1990), haja vista que esses autores relataram menores perdas de MS com o aumento da disponibilidade de forragem.

Os valores de perdas de MS apresentados por Hillesheim e Corsi (1990) foram observados no verão com novilhas (pastejo de ponta e/ou repasse) em pastagem de capim-elefante com períodos de descanso de 45 dias, períodos de ocupação dos piquetes de um a sete dias e diferentes pressões de pastejo. Os autores consideraram a quantidade absoluta de perdas como alta (100-1380kg/ha) e a justificaram baseados na elevada quantidade de MS total disponível (1456-7546kg/ha). Em relação à MS disponível, os autores relataram valor próximo de 30% para perdas.

Desconsiderando o efeito de período de descanso, os valores médios gerais obtidos para perdas foram de 16,4 e 6,5% da MS disponível, respectivamente, para os períodos de fevereiro/maio e junho/setembro (Tab. 2). As perdas quantificadas neste estudo foram referentes exclusivamente ao material passível de consumo pelos animais (folhas e caules tenros), mas que foi perdido pela própria ação do pastejo.

As perdas (em kg/ha) ocorridas nos meses de fevereiro a maio foram semelhantes (P>0,05) entre si, mas superiores (P<0,05) às observadas nos meses de junho a setembro. Não houve diferença (P>0,05) para as perdas estimadas de junho a setembro (Tab. 2). Isto é dedutível já que as perdas estão diretamente relacionadas à disponibilidade de MS e às chuvas (equações 3 e 4). Assim, com o avanço da estação seca no ano, as perdas de MS tenderam a diminuir em virtude do decréscimo nos níveis dessas duas variáveis. Além disso, pelo manejo adotado na época seca (junho a setembro), era esperada diminuição nas perdas, já que as vacas tiveram acesso aos piquetes apenas no período compreendido entre as ordenhas da tarde e da manhã seguinte. Aroeira et al. (1999) e Soares et al. (1999), ao adotarem manejo semelhante e usando suplementação concentrada (2kg/vaca/dia), relataram consumos de cana e uréia de 44 a 52 e 58% da MS total ingerida, e consumo de pasto de 43 e 26%, respectivamente, para cada estudo. Hillesheim e Corsi (1990) apresentaram várias equações confirmando redução no nível de perdas de MS em pastagem de capim-elefante, em decorrência da diminuição no consumo de pasto.

Na equação 3 merece destaque a importância do período de descanso como variável a influenciar o nível de perdas. Quanto ao efeito de mês, embora importante (Tab. 2 e 3), não foi selecionado nos procedimentos de regressão, provavelmente por estar confundido com outras variáveis preferencialmente incluídas nas equações (i.e. disponibilidade e chuvas), por serem mais fortemente correlacionadas com a variável dependente perdas (kg/ha).

O baixo coeficiente de determinação da equação 3 sugeriu que outras variáveis não quantificadas no estudo influenciaram as perdas em pastagem de capim-elefante.

Foram observados efeitos de mês e interação mês x período de descanso (P<0,0001) na análise das perdas em kg/vaca/dia, sendo a interação reflexo de diferenças (P<0,05) ocorridas entre períodos de descanso nos meses da estação chuvosa (Tab.3).

Desconsiderando o efeito do período de descanso, as perdas quantificadas no mês de fevereiro foram semelhantes (P>0,05) às observadas de março a maio (Tab.2). No entanto, os níveis de perdas em maio foram inferiores (P<0,05) aos de março e abril.

Na equação 4 (= - 0,11 + 0,08d + 0,01c - 0,00003c2; R2 = 0,53, em que representa a predição de perdas (kg/vaca/ha), d a disponibilidade e c as chuvas), observou-se influência da chuva (efeito quadrático) sobre a resposta medida. Conforme verificado na equação 3, percebeu-se ainda a importância da variável relacionada à disponibilidade de forragem. No entanto, diferentemente da anterior, o procedimento de stepwise não incluiu a variável período de descanso.

Entre períodos de descanso houve diferença (P<0,05) apenas entre os meses chuvosos do ano. Em maio as perdas (kg/vaca/dia) foram superiores nas pastagens com períodos de descanso de 36 e 45 dias. Nos meses de fevereiro a abril não houve diferença (P>0,05) quanto às perdas ocorridas nas pastagens com 30 ou 45 dias de descanso, que se apresentaram diferentes (P<0,05) na pastagem com período intermediário de descanso (Tab.3).

Estudos dos eventuais benefícios da incorporação da matéria orgânica das perdas nas pastagens de capim-elefante ou, adversamente, da concorrência por nutrientes, especialmente nitrogênio, necessária para sua decomposição, deveriam ser conduzidos. Outro tema relevante para pesquisa diz respeito à contribuição das perdas na persistência e sustentabilidade da pastagem considerando a ocorrência, quando em contato com o solo, de enraizamento e rebrota de colmos destacados das touceiras, conforme eventualmente é observado no campo.

 

CONCLUSÕES

Para as condições deste trabalho recomenda-se o uso de 30 dias de período de descanso com base no menor investimento exigido na divisão da pastagem em piquetes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 22 de outubro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 16 de janeiro de 2003

 

 

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