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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.4 Belo Horizonte Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000400019 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Aspectos morfológicos e quetotáxicos de larvas de Argas (Persicargas) miniatus (Acari: Argasidae) no Brasil

 

Morphology and chaetotaxy aspects of larvae of Argas (Persicargas) miniatus (Acari: Argasidae) in Brazil

 

 

M. Amorim; M.C.P. Carreira; N.M. Serra-Freire

Laboratório de Ixodides, Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz-Fiocruz Avenida Brasil, nº 4365, Manguinhos 21045-900 - Rio de Janeiro, RJ

 

 


Palavras-chave: Argas (Persicargas) miniatus, Argasidae, morfologia, quetotaxia


ABSTRACT

Eggs were obtained from female Argas (Persicargas) miniatus parasitizing chickens after natural ovoposition. The larvae from eggs were sacrificed, prepared for and mounted onto slides. Morphological and chaetotaxic studies enabled the following observation: idiosome and gnathosome shape; presence or absence of scutum, eyes and anal setae; number of palpi segments; number of files of teeth on the hypostoma; number of denticles on the apical crow; number of cheliceral digits; number of teeth in each hypostoma file; disposition and shape of opistosoma and podosoma setae in ventral and dorsal view. Based on these morphological features analyzed, it is concluded that the larvae of A. (P.) miniatus present variations in morphology and chaetotaxy that are useful to separate the larvae of the subgenus Persicargas.

Keywords: Argas (Persicargas) miniatus, Argasidae, morphology, chaetotaxy


 

 

Argas (Persicargas) miniatus é originária da Ásia, ocorre em várias partes do mundo, sendo a única espécie do gênero Argas assinalada no Brasil. O gênero Argas foi descrito por Latreille (1796), mas a espécie Argas persicus foi descrita por Oken (1818) de exemplares da Rússia, enquanto que Argas miniatus Koch, 1844 é originária da Guiana Inglesa (Aragão, 1936). Esse autor chamou a atenção para as acentuadas diferenças morfológicas entre as espécies no peritrema. Relatou que A. persicus possuía peritremas pequenos, arredondados, com cerca de 150 a 170 micra de diâmetro, enquanto que o Argas brasileiro apresentava peritremas maiores, de forma oval, com 280 micra de comprimento por 210 a 230 micra de largura, constituindo um grupo morfologicamente aparte. Kaiser (1964) criou o subgênero Persicargas na qual a espécie de Koch foi incluída, com a recombinação do nome específico para Argas (Persicargas) miniatus, que prevalece até hoje. A. (P.) miniatus provavelmente foi introduzida no Brasil no seu estádio larval por aves migratórias, e é vetor biológico de Borrelia anserina, agente da borreliose nas aves, e de Neitziella resendei Massard, Lopes, Da Cunha & Massard, 1976, uma espécie de riquetsia parasita intraeritrocítico de galiformes (Serra-Freire, 1978), além de bioagente indutor de paralisia flácida ascendente (Serra-Freire, 2001). A literatura é escassa sobre estudo morfológico e taxonômico de larvas de A. (P.) miniatus, no Brasil. Existem relatos fora do País (Kohls et al., 1970) sobre a morfologia e quetotaxia desse estádio imaturo: Klompen (1992) que citou diferenças marcantes dentro do subgênero Persicargas e Klompen e Oliver (1993) que estudaram a quetotaxia do órgão de Haller dos estádios adultos e de larvas de carrapatos da família Argasidae. Esse problema científico justifica o presente trabalho, que objetiva estudar os aspectos morfológicos e quetotáxicos de larvas de A. (P.) miniatus encontrada no Brasil e contribuir com a sistemática do gênero Argas.

Fêmeas de A. (P.) miniatus foram recolhidas de instalações de galinhas (Gallus gallus) no Pará e encaminhadas ao laboratório de Ixodides-Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, acondicionadas individualmente em frascos plásticos, utilizados para ovopostura, incubação e eclosão. Um dia após eclosão, as larvas foram sacrificadas, preservadas em etanol 70o GL, até serem trabalhadas em montagem definitiva entre lâminas e lamínulas, e examinadas por microscopia de luz, para caracterizar os aspectos morfológicos e quetotáxico de acordo com Kohls et al. (1970) e Amorim e Serra-Freire (2000).

De 30 espécimes de larvas de A. (P.) miniatus observou-se que o idiossoma é oval com tegumento estriado, sem festões, com escudo dorsal de forma ovóide no tagma podossoma, confirmando a citação de Kohls et al. (1970), e com olhos. Serra-Freire (2001) relatou que os estádios adultos não apresentam olhos. O gnatossoma terminal, tal como foi citado por Serra-Freire (2001), apresenta-se com base pentagonal. Essa característica não foi mencionada por Kohls et al. (1970) quando descreveram larvas de A. (P.) radiatus, A. (P.) sanchezi, A. (P.) persicus e A. (P.) miniatus. Observaram-se palpos com quatro segmentos, o quarto com um tufo de cerdas serrilhadas na extremidade, e hipostômio de tamanho médio, com dente heterodontes, e com dentição 3:3 na porção anterior e 2:2 na porção posterior, apresentando dois dentes nas fileiras axiais, seis nas antiaxiais e sete nas paraxiais, com poucos dentículos na porção basal e com o ápice arredondado, confirmando as observações feitas por Kohls et al. (1970) (Fig. 1). Com relação ao número de dentes por fileira, esse autores verificaram variação de 8-11 dentes na primeira fileira, 7-10 na segunda e 2-5 na terceira, diferindo do número relatado no presente resultado. A terminologia axial, antiaxial e paraxial para fileira de dentes usada neste trabalho está sendo citada pela primeira vez na literatura, para a espécie em estudo. A coroa apical apresenta quatro fileiras de dentículos, sendo a primeira com dois, a segunda com três e a terceira e quarta com quatro dentículos (2:3:4:4). Não foram encontrados na literatura trabalhos referentes a essa característica para larvas do gênero Argas, mas há os artigos de Amorim e Serra-Freire (1994, 1999a,b), para larvas do gênero Amblyomma, e de Amorim et al. (1997), para Anocentor. As quelíceras apresentam dígitos com três dentes, um externo fixo e pequeno, um médio móvel e pequeno e um interno fixo e grande, características não relatadas por Kohls et al. (1970). Ventralmente, no idiossoma são observadas sete pares de cerdas, onde três pares estão localizadas no podossoma e três no opistossoma, e há um par anal, coincidindo com o relato de Kohls et al. (1970) para larvas de A. (P.) persicus, A. (P.) sanchezi e A. (P.) miniatus, e diferindo de A. (P.) radiatus, o qual apresenta 7-8 cerdas na face ventral. Dorsalmente, observam-se três pares de cerdas distribuídas lateralmente ao escudo dorsal no podossoma, cerdas marginais serrilhadas e outras que formam desenhos no dorso, semelhante a um V posterior a placa dorsal, no tagma opistossoma.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 24 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 17 de fevereiro de 2003

 

 

Email: mamorim@ioc.fiocruz.br

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