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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.5 Belo Horizonte Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000500003 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Fatores de risco associados ao vício de sucção em leitões na fase de creche

 

Risk factors associated with suckling vice in post-weaning pigs

 

 

A.L. Amaral; N. Morés; W. Barioni Júnior; O.A.D. Costa; R. Guzzo

Embrapa Suínos e Aves Caixa Postal 21 89700-000 - Concórdia, SC

 

 


RESUMO

Foi realizado um estudo epidemiológico em 65 granjas de suínos situadas na região Sul do Brasil para identificar os fatores que favorecem a ocorrência do vício de sucção entre leitões desmamados. Em cada granja acompanhou-se um lote de leitões do nascimento até 21 dias após o desmame, provenientes de no mínimo seis leitegadas, para obtenção de informações relacionadas às instalações, à nutrição, às práticas de manejo, ao ambiente interno e ao desempenho dos leitões. Os dados foram submetidos à análises descritivas e de correspondência múltipla. A manifestação do vício ocorreu em 23 (35,4%) granjas. Nos lotes que apresentaram o vício de sucção, os leitões obtiveram média de ganho diário de peso (P<0,005) inferior aos que não apresentaram o vício de sucção. Os principais fatores de risco identificados foram: peso médio ao desmame menor que 6,3kg, ausência de bebedouro específico para os leitões na maternidade, ocorrência de diarréia na primeira semana após o desmame, tipo de bebedouro usado na creche diferente daquele usado na maternidade, orientação do eixo do prédio inadequado, presença de sinais de sarna no lote, ausência de vazio sanitário na creche e uso da restrição alimentar logo após o desmame. Sugere-se que a correção dos fatores de risco previna a manifestação do vício de sucção e melhore a média de ganho diário de peso dos leitões após o desmame.

Palavras-chave: fator de risco, Suíno, vício de sucção


ABSTRACT

Risk factors associated with the suckling vice in post-weaning piglets were studied in an epidemiological survey in 65 swine herds in South Brazil. This follow-up study was performed in one group of piglets from each herd from birth to 21 days post weaning. Every group was composed by piglets from at least six litters. Data related to housing, feeding, breeding practices, internal environment in the weaning facilities and individual piglets performance were collected for descriptive and multiple correspondence analyses. Suckling vice was identified in 23 (35.4%) herds and groups presenting suckling vice had lower growth rates (P<0.005). Main risk factors associated with suckling vice were weaning weight lower than 6.3kg, unavailability of drinkers for piglets in the farrowing house, occurrence of post-weaning diarrhea, post-weaning drinkers of a different model than the ones available during the suckling term, inadequate axis direction of the building, presence of signs of mange, no all-in-all-out procedure in the post-weaning facilities, and the use of feed restriction immediately after weaning. The authors suggest that a correction of these factors would reduce the occurrence of suckling vice in post-weaning piglets and improve their grow rates after weaning.

Keywords: swine, risk factors, suckling vice


 

 

INTRODUÇÃO

A fase de creche é um período crítico na criação de suínos devido às mudanças sociais, ambientais e nutricionais às quais os leitões são submetidos. Nos últimos anos, com o objetivo de aumentar a produtividade das fêmeas, os leitões estão sendo desmamados mais precocemente, predispondo-os a problemas de sanidade, de desempenho e de comportamento anormal. No desmame, ocorrem vários fatores de estresse: separação da mãe, mudanças na alimentação e no ambiente e mistura de leitões na formação de lotes. Conseqüentemente, os leitões tornam-se mais susceptíveis a problemas sanitários e a comportamento anormal como o vício de sucção (Fraser, 1980).

O vício de sucção inicia-se com atitudes de massagem do ventre entre os leitões principalmente, quando desmamados precocemente. Essas atitudes, em situações normais de conforto e bem-estar, desaparecem em dois ou três dias. Caso contrário, na presença de fatores de risco, podem evoluir para comportamento anormal de sucção do umbigo (Smith, Penny, 1986). Nesses casos, o umbigo alonga-se, ficando semelhante a uma teta, torna-se hiperêmico, e dolorido e, freqüentemente, ocorre infecção secundária. O autor cita também que o desejo de sucção é maior em leitões mais jovens e nos menos desenvolvidos. O objetivo deste trabalho foi identificar o conjunto de fatores de risco que melhor explicam a ocorrência do vício de sucção entre os leitões no período de creche.

 

MATERIAL E MÉTODOS

No período de maio de 1995 a dezembro de 1997 foi realizado um estudo epidemiológico longitudinal em 65 granjas de suínos (produtores de leitões e ciclo completo), situados na região Sul do Brasil. Na amostragem das granjas foram incluídos rebanhos com diferentes níveis tecnológicos e considerados os seguintes aspectos: a) produção de animais para abate; b) ter no mínimo 30 matrizes e um lote de, no mínimo, seis leitegadas; c) ter o consentimento e apoio do proprietário e da assistência técnica na aplicação do questionário. Em cada rebanho foi acompanhado um lote de leitões do nascimento até 21 dias após o desmame, totalizando 65 lotes. Para obtenção das informações, foi aplicado um questionário para avaliar o comportamento dos leitões (vício de sucção) de acordo com as instalações, nutrição, manejo e ambiente onde eles foram alojados. O questionário elaborado com base na literatura disponível, contendo cerca de 100 variáveis, foi previamente testado em um estudo piloto em três granjas. Nele foram incluídas variáveis quantitativas e qualitativas, que caracterizavam bem o ecossistema no qual os leitões foram produzidos. Para análise estatística utilizaram-se os procedimentos sugeridos por Madec e Josse (1984), para estudos ecopatológicos, com o objetivo de analisar em conjunto um grande número de variáveis. Para isso, foram utilizadas análises descritivas dos dados (tabulação, tabela de freqüência, medidas de tendência central, medidas de dispersão e teste de c2 de Pearson), teste t para a = 5% e análise de correspondência múltipla (ACM). A ACM teve como objetivo estudar as relações e semelhanças existentes entre linhas e colunas da tabela de contingência obtida nas análises descritivas e representá-las graficamente, proporcionando uma interpretação simples dos resultados. Os softwares estatísticos adotados para análise dos dados foram o statistical analysis system (SAS, 1996) e o sistema portátil de análise de dados numéricos SPADN (Centre, 1994).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os valores médios obtidos nos 65 lotes e envolvendo 466 leitegadas foram: idade média do desmame de 27,2 dias (Fig. 1), peso médio ao desmame de 6,9kg (Fig. 2), número médio de leitões desmamados por leitegada de 9,6 (Fig. 3) e peso médio dos leitões 21 dias após o desmame de 12,9kg (Fig. 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas análises descritivas das 100 variáveis quantitativas e qualitativas estudadas, uma (vício de sucção) foi definida como variável objetiva e as demais como variáveis explicativas (potenciais fatores de risco). A variável vício de sucção foi subdividida em presente e ausente (Tab. 1). O cruzamento entre as variáveis explicativas com a objetiva, utilizando o teste c2 de Pearson, identificou 31 variáveis com valor de P£ 0,20. Elas definiram o "output" para a ACM. As demais, com P>0,20, foram descartadas.

 

 

O ganho médio diário (GMD) dos leitões que apresentaram o vício de sucção foi 56g inferior (P>0,005) ao dos que não manifestaram tal comportamento. Essa diferença proporcionou ganho de peso adicional de 1050g por leitão no período. Morés et al. (2000) também encontraram associação entre o vício de sucção com baixo ganho de peso dos leitões no período de 21 dias após o desmame.

Das 31 variáveis explicativas submetidas a ACM, oito foram identificadas como sendo o conjunto de fatores de risco que melhor discriminaram os lotes de leitões quanto à ocorrência ou não do vício de sucção (Tab 2). Isto confirma a observação de outros autores de que, aparentemente, não existe uma causa específica que desencadeia tal comportamento sendo, portanto, considerado um problema multifatorial (Sobestiansky et al., 1999).

 

Tabela 2 - Clique para ampliar

 

No mapa gerado pela ACM (Fig. 5), observa-se que a classe presença de sucção (SUC+) está localizada à direita do mapa (eixo horizontal), contrapondo-se, à esquerda, no mesmo eixo com à classe ausência do vício de sucção (SUC-). Na direita do mapa, nos quadrantes I e IV, estão as classes de fatores de risco associados à presença do vício de sucção (SUC +): peso à desmama menor ou igual a 6,3kg (PESO1), ausência de bebedouro específico para os leitões (BEB -), presença de diarréia na primeira semana após o desmame (DIAR +), modelo de bebedouros diferentes na maternidade e na creche (BEB_DIF), orientação do eixo do prédio inadequado (EIXO_R), presença de sinais de sarna no lote (SAR +), sistema de manejo contínuo das instalações (CONT) e uso da restrição alimentar após o desmame(A_REST). À esquerda do mapa, nos quadrantes II e III, estão as classes de fatores de risco associados a ausência do vício de sucção, os quais podem ser designados como fatores de proteção: peso ao desmame acima de 6,3kg (PESO2 e PESO3), presença de bebedouro específico para os leitões na maternidade (BEB +), ausência de diarréia na primeira semana após o desmame (DIAR -), modelo de bebedouro semelhantes na maternidade e na creche (BEB_IGUAL), orientação do eixo do prédio no sentido leste oeste (EIXO_B), ausência de sinais de sarna no lote (SAR -), sistema de manejo com vazio sanitário das instalações (VAZ) e fornecimento de ração à vontade após o desmame (A_AVONT).

 

Figura 5 - Clique para ampliar

 

Estes resultados indicam que o vício de sucção na fase de creche pode ser prevenido adotando-se práticas que evitam as situações de risco identificadas no mapa.

Conforme sugerido por Madec et al. (1998), os fatores de risco identificados neste estudo, em função da metodologia usada, devem ser visualizados em conjunto e não isoladamente.

O vício de sucção é uma alteração psíquica que leva os leitões ao hábito de sugar umbigo, vulva ou prega das orelhas (Smith, Penny, 1986; Luescher, 1989). Segundo Sobestiansky et al. (1999), qualquer fator que provoque estresse e desconforto aos leitões logo após o desmame, especialmente o ambiente hostil, pode dar início ao hábito ou vício de sucção. Todos os fatores de risco identificados neste estudo (Tab. 2) podem provocar desconforto aos leitões.

Poucos trabalhos de pesquisa foram localizados na literatura especializada sobre o vício de sucção em leitões de creche. Smith e Penny (1986) relacionaram o não fornecimento de ração aos leitões durante o período de aleitamento na maternidade e a formação de lotes grandes e desuniformes como alguns dos fatores favoráveis à ocorrência do vício de sucção, não confirmado neste estudo. O baixo peso dos leitões ao desmame, identificado como fator de risco neste estudo, também foi relacionado com a ocorrência de diarréia e baixo ganho de peso na fase de creche (Madec et al., 1998; Morés et al. 2000). Dois fatores de risco identificados estão ligados à maior dificuldade de ingestão de água pelos leitões. A maior parte da demanda hídrica dos leitões durante o aleitamento é obtido através do leite. No desmame, toda demanda hídrica dos leitões só pode ser obtida nos bebedouros. Então, qualquer dificuldade de ingestão de água imposta aos leitões neste período, como os dois fatores identificados neste trabalho, induz à baixa ingestão de água e, conseqüentemente, de alimento, provocando desconforto e baixo desenvolvimento (observações dos autores). Tobin (1994) verificou sinais desse comportamento em leitões que receberam doses excessivas de olanquindox ou carbadox via ração, possibilidade descartada neste estudo.

 

CONCLUSÕES

Existe um conjunto de fatores de risco nos rebanhos suínos que explica a manifestação do vicio de sucção em leitões de creche. Lotes de leitões com vício de sucção apresentam menor ganho de peso na fase de creche.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 24 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 7 de maio de 2003

 

 

E-mail: armando@cnpsa.embrapa.br

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