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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.5 Belo Horizonte Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000500013 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

 

Parâmetros genéticos para escore de umbigo e características de produção em bovinos da raça Nelore

 

Genetics parameters for umbilicus score and production characteristics in Nellore breed beef cattle

 

 

W. Koury FilhoI; J.S. JubileuII; J.P. ElerIII, V; J.B.S. FerrazIII, V, *; E. PereiraI; E.P. CardosoIV

IMestre em Zootecnia - Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP
IIGraduate Research Assistant, Colorado State University-CGEL USA
IIIFaculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP Caixa Postal 23 13635-900 - Pirassununga, SP
IVManah Agropastoril Ltda
VBolsista do CNPq

 

 


RESUMO

Utilizaram-se 11.310 medidas de escore visual da característica umbigo, medida aos 18 meses em bovinos, para estimar os componentes de variância, a herdabilidade e as correlações genéticas entre escore do umbigo e peso à desmama (PD) e ganho de peso da desmama ao sobreano (GP345), utilizando-se modelo animal bi-característica Os escores de umbigo (EU) variaram de 1 (mais pendulosos) a 5 (mais curtos). Os valores de herdabilidade foram 0,31 (PD), 0,14 (GP345) e 0,29 (EU), e as correlações genéticas foram -0,05 (EU×PD) e 0,14 (EU×GP345). A correlação entre avaliação do umbigo de machos e fêmeas foi de 0,80. Conclui-se que a característica umbigo é passível de seleção e que ela não compromete a seleção para melhores PD e GP345.

Palavras-chave: bovino, Nelore, parâmetros genéticos, escore de umbigo, modelo animal, desenvolvimento ponderal


ABSTRACT

In this study 11,310 visual score measurements of navel characteristic, collected from bovines, were used. Visual scores for navel (NS), ranged from 1 (the longest) to 5 (the shortest). Variance components, genetic parameters and genetic correlations between navel characteristic of 18-month old animals and growth characteristics (weaning weight -WW and weight gain from weaning to over year -WG345) were estimated using a two-traits animal model. Heritability estimates were 0.31 (NS) abd 0.14 (WG345), and the genetic correlation estimates were: -0.05 (NS×WW) and 0.14 (WW×WG345) and the estimated correlation between navel (female) ´ navel (male) was 0.80. Score navel can be object of selection and selection for shorter navel does not apparently significantly affect animal performance for WW and WG345.

Keywords: genetic parameters, navel score, Nellore, animal model, growth


 

 

INTRODUÇÃO

O tamanho e a forma do umbigo são características de grande importância, especialmente em paises em que a grande maioria dos animais é criada em regime de pasto. Nos machos, umbigos (prepúcios) grandes e/ou pendulosos são mais susceptíveis a traumas e outras patologias reprodutivas, muitas vezes irreversíveis ou extremamente complicadas em termos de manejo curativo.

A importância do tamanho e posicionamento do prepúcio em animais criados a campo e no regime de monta natural foi também comentada por Alencar et al. (1994). Segundo Viu et al. (2002), a síndrome do prolapso prepucial é comum em touros de corte e sua etiologia está relacionada a fatores hereditários, de ambiente e infecciosos. Entre os fatores hereditários que predispõem os touros ao prolapso de prepúcio estão o tamanho e a pendulosidade do umbigo, o tamanho do orifício prepucial e a ausência de músculos retratores.

Lagos e Fitzhugh Jr. (1970) associaram prepúcios longos ao incremento do prolapso prepucial. Segundo os autores, a seleção de animais de prepúcio de menor tamanho poderia diminuir a freqüência de prolapsos na população.

O escore visual, a partir de notas atribuídas de acordo com o tamanho e a forma do umbigo pode ser uma boa maneira de se classificar os animais.

O presente estudo teve por objetivo estimar parâmetros genéticos para a característica umbigo, avaliada por escore visual, e estimar a correlação genética entre escore do umbigo e peso à desmama e ganho de peso da desmama ao sobreano.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisados dados de animais da raça Nelore, nascidos entre os anos de 1972 e 1997, criados em regime de pastejo com suplementação mineral, oriundos da Fazenda Mundo Novo, no município de Brotas, SP.

Neste estudo optou-se pela denominação umbigo, comumente usada para designar a prega umbilical, e ao se referir à característica umbigo em machos, a avaliação incluiu o conjunto formado pela prega umbilical, bainha e prepúcio.

A característica foi classificada pela avaliação visual dos animais, realizada ao redor dos 18 meses por uma única pessoa treinada e habilitada para desempenhar essa função. Foram atribuídos escores de 1 a 5, considerando-se como 1 o animal com umbigo muito penduloso (distante da região ventral) e como 5, o animal com umbigo curto e bem direcionado. O diagrama de referência é apresentado a seguir:

 

 

Os números de registros utilizados para cada característica foram: 11.310 escores de umbigo (EU), 5.089 escores de umbigo em machos (EUM), 6.221 escores de umbigo em fêmeas (EUF), 13.191 pesos à desmama (PD), medidos ao redor dos oito meses de idade e 7.874 dados de ganho de peso da desmama ao sobreano, ajustados para o período de 345 dias (GP345).

Para EU, EUM, EUF os animais foram alocados em grupos de contemporâneos formados por ano de nascimento, estação de nascimento, sexo e grupo de manejo ao sobreano; para PD, ano de nascimento, estação de nascimento, sexo e grupo de manejo à desmama; para GP345, ano de nascimento, estação de nascimento, sexo e grupo de manejo ao sobreano.

Na estimação dos componentes de variância e parâmetros genéticos de EU, EUM e EUF, medidos aos 18 meses, e características produtivas PD e GP345, foi utilizado o seguinte modelo animal bi-característica:

, em que

y1 = vetor dos registros de produção da característica 1 (EU, EUM e EUF)

y2 = vetor dos registros de produção da característica 2 (PD e GP345)

b1 = vetor de efeitos fixos para EU, EUM e EUF (idade à medição, como covariável linear e quadrática e grupo de contemporâneos)

b2 = vetor de efeitos fixos para PD e GP345 (idade à medição (linear) e idade da mãe ao parto (linear e quadrática) como covariáveis para PD e grupo de contemporâneos (para PD e GP345))

u1 = vetor de efeitos aleatórios de valor genético aditivo direto para EU, EUM e EUF

u2 = vetor de efeitos aleatórios de valor genético aditivo direto para PD e GP345

m2 = vetor de efeitos aleatórios de valor genético aditivo materno para PD

X1(X2) = matriz de incidência associando elementos de b1(b2) a y1(y2)

Z1(Z2) = matriz de incidência associando elementos de u1(u2) a y1(y2)

M2 = matriz de incidência associando elementos de m2 a y2

Os parâmetros genéticos foram estimados por máxima verossimilhança restrita livre de derivadas, disponibilizada no software MTDFREML (Multiple Trait Derivative Free Restricted Maximum Likelihood, Boldman et al., 1995).

Foram estimados os seguintes componentes de variância: s2a = variância genética atribuída aos efeitos aditivos diretos do animal, s2m = variância genética atribuída aos efeitos aditivos maternos, s2e = variância de ambiente, s2p = variância fenotípica total e sam = covariância entre os efeitos genético direto e materno.

Também foram estimados os parâmetros: h2a = herdabilidade dos efeitos diretos; h2m = herdabilidade dos efeitos maternos; ram = correlação entre os efeitos genético direto e materno e c2 = fração da variância total atribuída ao efeito de ambiente permanente de ambiente.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tab. 1 encontram-se o número de observações, as médias, os desvios-padrão e os coeficientes de variação para cada uma das características analisadas.

 

Tabela 1 - Clique para ampliar

 

As estimativas de herdabilidade para PD, GP345, EU, EUM e EUF, foram, respectivamente: 0,31, 0,14, 0,29, 0,30, 0,30. As correlações genéticas entre escore de umbigo e peso à desmama e ganho de peso da desmama ao sobreano são apresentadas na Tab. 2.

 

Tabela 2 - Clique para ampliar

 

A herdabilidade para efeito genético direto estimada para peso à desmama é semelhante às encontradas na literatura, porém inferior ao valor de 0,35 relatado por Koury Filho (2001), que também trabalhou com animais da raça Nelore, e por Pons et al. (1989), de 0,37, ao estudarem animais da raça Hereford.

A estimativa de herdabilidade para efeito genético aditivo materno para peso à desmama foi de 0,09, superior aos valores relatados por Koury Filho (2001), de 0,06 e 0,07, respectivamente, para duas populações da raça Nelore e pouco inferior ao valor de 0,11 estimado por Eler et al. (1995), também na raça Nelore. Apesar da baixa magnitude, esse efeito não pode ser desprezado no estudo dessa característica, pois pode explicar até 9% da variação fenotípica.

O valor da herdabilidade estimado para a característica GP345 foi inferior aos relatados por Koury Filho (2001), de 0,23 para animais da raça Nelore. Viu et al. (2002) verificaram valores de 0,23 e 0,24, respectivamente, para machos e fêmeas das raças Angus e Brangus, e Alencar et al. (1993) encontraram 0,41 para machos da raça Canchim. Os dois últimos trabalhos citados trabalharam com a característica peso ao sobreano.

As estimativas de herdabilidade para EU, EUM e EUF foram inferiores às citadas por Cardoso et al. (1998), que obtiveram 0,39 em animais da raça Santa Gertrudis, e por Lagos e Fitzhugh Jr. (1970), de 0,35 em animais cruzados de origem européia. Os resultados deste estudo foram superiores aos encontrados por Kriese et al. (1991), que obtiveram h2 para EPUD de 0,21 em animais Brahman, Brangus, Beefmaster e Santa Gertrudis, e aos valores relatados por Viu et al. (2002), que obtiveram 0,06 e 0,18 para EUF e EUM, respectivamente, avaliado à desmama em animais Angus e Brangus, e de 0,13, 0,14, avaliado ao sobreano.

Estudos sobre estimativas de parâmetros genéticos para escore de umbigo em fêmeas e machos são escassos, todavia, os valores relatados indicam haver variabilidade genética na população analisada. Desse modo, os valores de herdabilidade encontrados indicam que a característica responderia bem a seleção direta.

As estimativas de correlação genética entre escores de umbigo e características de crescimento variaram de -0,09 a 0,16. Estes valores indicam quantidade moderada baixa de efeito genético aditivo agindo sinergicamente. Isto sugere que a seleção para diminuir o umbigo não influencia de maneira significativa a seleção para peso à desmama ou para ganho de peso da desmama ao sobreano.

Franke e Burns (1985), ao trabalharem com animais da raça Brahman nos EUA e utilizaram outra metodologia de coleta de dados, encontraram correlações genéticas positivas entre área de umbigo e peso ao nascer, ganho médio diário e peso à desmama de 0,17, 0,27 e 0,29, respectivamente. A área foi mensurada por meio de fotografia na frente de um quadriculado, sempre a uma distância padrão.

Mcmurry e Turner (1989), ao estudarem animais da raça Beefmaster, encontraram correlação bruta de 0,26 entre escore visual de umbigo e peso à desmama, e Cardoso et al. (1998) verificaram correlações genéticas entre EU e PD de 0,64, e entre EU e peso ao sobreano de 0,56, resultados superiores aos deste trabalho. Essas diferenças poderiam ser atribuídas à subjetividade da metodologia e à diferença entre populações de diferentes raças. Contudo, essas suposições são apenas especulativas.

Segundo Franke e Burns (1995), a seleção baseada em características de crescimento com alguma ênfase na seleção para diminuir o prepúcio e o umbigo seria uma maneira de atenuar os problemas causados pela síndrome de prolapso prepucial, sem reduzir significativamente o ganho das características de crescimento.

Segundo Viu et al. (2002), as estimativas de correlações genéticas entre EUM e EUF à desmama e peso ao sobreano foram de 0,17 e 0,25, respectivamente, e entre EUM e EUF ao sobreano e peso ao sobreano foram de 0,43 e 0,06, respectivamente. Esses valores, embora maiores do que os do presente estudo, não representam resultados alarmantes, conforme justificado anteriormente.

Kriese et al. (1991), ao analisarem dados de animais da raça Brahman no Sul dos EUA, estimaram a correlação genética entre EUM e EUF em 0,51, indicativo de que não são exatamente os mesmos genes que atuam nas características de machos e fêmeas. Este estudo mostrou que correlação genética entre as mesmas características foi de 0,80. A interpretação dos resultados da literatura e deste trabalho torna-se confusa. A diferença de estimativas de EU entre machos e fêmeas poderia estar associada à subjetividade das metodologias aplicadas.

Franke e Burns (1985) relataram que a área de umbigo em machos foi, em média, 29,8% maior do que a área de umbigo em fêmeas na mesma idade à desmama. Esse fato faz refletir o quanto o avaliador deve estar preparado para desempenhar a função de atribuir os escores para a característica em machos e fêmeas e, também, como as referências devem ser diferentes para os diferentes sexos.

 

CONCLUSÕES

As estimativas de herdabilidade de média magnitude encontradas neste trabalho indicam que a população responderia de maneira significativa para a seleção direta para diminuição do umbigo. Embora de baixa magnitude, as correlações genéticas negativa entre características de umbigo e peso à desmama e positiva entre características de umbigo e ganho de peso da desmama ao sobreano parecem indicar que a melhor época para a seleção para diminuição de umbigo seja ao sobreano. A seleção para diminuição do umbigo parece não interferir de maneira significativa no desempenho ponderal dos animais.

 

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Recebido para publicação em 20 de março de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 18 de junho de 2003
Trabalho apoiado pela FAPESP, CNPq e Manah Agropastoril Ltda

 

 

* Autor para correspondência
E-mail: jbferraz@usp.br