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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.5 Belo Horizonte Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000500016 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

 

Influência do estresse alimentar na digestibilidade em cães

 

Influence of feeding stress on digestibility in dogs

 

 

C.F. FerreiraI; M.S. PalharesII, *; A.B. AssisI; T.L. ChamoneI; G.L. TeixeiraI; K. GuimarãesI; J.C. MenezesI; J.M. Silva FilhoII

IMédico Veterinário
IIEscola de Veterinária da UFMG Caixa Postal 567 30123-970 - Belo Horizonte, MG

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar a influência do estresse alimentar sobre a digestibilidade aparente de uma dieta comercial em cães. Foram utilizados 12 animais, sem raça definida, divididos em dois grupos de seis, submetidos a: tratamento 1 (T1) - caracterizado por indução do estresse alimentar pela irregularidade do horário de alimentação e provocação por estímulos visuais, olfatórios e auditivos, e tratamento 2 (T2) - caracterizado por regularidade do horário de alimentação e ausência de provocação (grupo-controle). As fezes para o ensaio de digestibilidade foram colhidas na primeira e na quarta semana após o início dos estímulos. Não foram encontradas diferenças entre tratamentos (grupos) e entre períodos quanto aos coeficientes de digestibilidade aparente da matéria seca, proteína bruta, extrato etéreo, extrato não nitrogenado, fibra detergente neutra e energia bruta.

Palavras-chave: cão, digestibilidade, estresse


ABSTRACT

The influence of feeding stress on digestibility of 12 mongrel dogs was evaluated. Six dogs were experimentally stress stimulated (T1) during four weeks and other six were used as control (T2). T1 dogs were stress stimulated by irregularities at feeding time, and by visual, smell and hearing stimuli related to feeding. Feces were collected at first and fourth weeks after the stimulus begun. No alterations were found in digestibility coefficients of dry matter, crude protein, ether extract, non-nitrogen extract, neutral detergent fiber and gross energy when determined neither at the first nor at fourth week after stress stimuli.

Keywords: dog, digestibility, stress


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar de todas as pesquisas e tecnologias desenvolvidas na área de nutrição de cães, pouco se tem estudado sobre a influência do manejo alimentar e do estresse na digestibilidade dos cães. Para se reduzir a incidência de disfunções digestivas e doenças relacionadas a dieta, mais atenção deveria ser dada a fatores ambientais que afetam a absorção de nutrientes (Hill, 1991).

Muitos são os fatores que influenciam a função intestinal e a integridade funcional do órgão durante o consumo de alimento (Raul, Schleiffer, 1996). Situações onde há estressse, doença ou uso de drogas podem levar a distúrbios na função gastrintestinal, as quais resultam em insuficiente produção de enzimas e digestão inadequada (Kendall, 1998). No ser humano a vida estressante pode levar a dois tipos de reações gastrintestinais, psicofisiológicas e psicossomáticas, ambas relacionadas a interações mente/corpo. Reações psicofisiológicas envolvem aumento, inibição ou distorção do padrão de funcionamento dos órgãos gastrintestinais, sem mudanças na sua estrutura, o que ocorre nas reações psicossomáticas (Varis, 1987).

Este estudo teve como objetivo avaliar a influência do estresse alimentar na digestibilidade aparente de uma dieta comercial em cães.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no Hospital Veterinário da Escola de Veterinária da UFMG, no período de janeiro e fevereiro, utilizando-se 12 cães adultos sem raça definida, saudáveis, devidamente desverminados e vacinados.

Imediatamente antes do início do período de adaptação, de 15 dias, os animais foram agrupados de acordo com o sexo e o peso, quando se procedeu ao sorteio dos dois grupos: T1: animais submetidos ao estresse alimentar pela irregularidade dos horários de alimentação e estímulos visuais, olfativos e sonoros no momento da alimentação do outro grupo; T2: animais submetidos a horários regulares de alimentação (grupo-controle) e sem os estímulos durante a alimentação do outro grupo.

Os animais foram alojados em uma sala de canis individuais, equipada com exaustor. Os canis eram dispostos em dois andares e os cães foram alojados de maneira alternada de acordo com o grupo.

No período de adaptação os animais receberam ração comercial (Ração Valente, D'Vita) seca extrusada, de um mesmo lote, para cães adultos (Tab.1), em horários pré-fixados às 7h e 30 min e às 17h e 30 min. A ração foi fornecida à vontade por um período de 30 minutos, sendo o consumo de cada animal medido pelo controle da oferta menos as sobras. A água foi fornecida à vontade.

 

Tabela 1 - Clique para ampliar

 

Na fase experimental, com duração de quatro semanas, o grupo T2 permaneceu com os horários de alimentação fixos, sempre às 7h e 30 min e 17h e 30 min. O grupo T1 foi arraçoado duas vezes ao dia em horários irregulares e pré-fixados, mas repetidos semanalmente (esquema 1). Os estímulos visuais, olfativos e auditivos eram provocados quando os animais do grupo T1 presenciavam o ato de alimentar do grupo T2. O inverso não ocorria.

Os animais foram pesados semanalmente.

 

 

As fezes produzidas de cada animal foram colhidas e pesadas diariamente antes da alimentação, determinando-se a excreção total diária de fezes.

Para a avaliação dos coeficientes de digestibilidade aparente nos dois grupos foram utilizadas amostras da ração e de fezes colhidas na primeira e na quarta semanas (período 1 e 2 respectivamente). Após a colheita e pesagem das fezes totais de cada animal, elas foram homogeneizadas e uma alíquota correspondente a 30% do total produzido por cão, acondicionada e identificada em saco plástico, foi conservada em congelador à -20ºC para posterior análises de laboratório, adotando-se os procedimentos de rotina para a obtenção individual das amostras.

O tempo de colheita de uma semana para os ensaios de digestibilidade foi escolhido para a melhor divisão entre os períodos estudados.

As seguintes análises foram realizadas em duplicata: matéria seca (MS) em estufa a 105ºC, cinzas em mufla a 600ºC, proteína bruta (PB) pelo método de Kjedahl, fibra bruta (FB), extrato etéreo (EE) em amostras de fezes pelo método Goldfisch e em amostras de ração pelo método Goldfisch após hidrólise ácida (Cunniff, 1995), e fibra detergente neutro (FDN) (Van Soest et al., 1991). Foram feitas também análises de energia bruta (EB) em calorímetro adiabático. A fração correspondente ao extrativo não nitrogenado (ENN) foi determinada pela fórmula: ENN = 100 - (%UM + % PB + % FB + %EE + % CZ).

Os coeficientes de digestibilidade aparente das frações químicas e energia bruta da dieta foram calculados mediante fórmula de Andriguetto(1982).

Coeficiente de digestibilidade aparente = (A - B /A) ´ 100, em que:

A = energia bruta ingerida (na matéria seca)

B = energia bruta nas fezes (na matéria seca).

O delineamento experimental foi em parcelas subdivididas, fatorial 2 ´ 4 (dois manejos nas parcelas e quatro semanas nas subparcelas), repetidas em seis animais por manejo (12 animais ao todo). Os dados foram submetidos à análise de variância. Para comparação das médias dentro do mesmo grupo, entre as semanas, utilizou-se o teste Student-Newman-Keuls, e para a comparação entre os grupos o teste t de Student.

Os valores percentuais (coeficientes de digestibilidade aparente) foram convertidos para arco seno () antes de serem submetidos ao teste t de Student. As análises foram processadas pelo programa computacional SAS versão 5 (Microsoft®).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Não houve alteração significativa (P>0,05) no peso corporal dos animais (Tab. 2). As pesagens correspondem ao primeiro dia de cada semana, exceto a pesagem 5 que se refere ao último dia do experimento.

 

 

Segundo Overall (1997), o estresse agudo estimula a alimentação, enquanto que o estresse crônico a inibe. Dessa forma, a escolha da semana um (período um) como período de colheita de fezes para os ensaios de digestibilidade teve o objetivo de retratar o impacto do estresse a que os animais do T1 foram submetidos de forma aguda. A colheita na quarta semana (período dois) objetivou retratar a adaptação dos animais ao estresse, ou ao agravamento dos efeitos provocados pelos estímulos a que os cães estavam sendo submetidos.

Não foram encontradas diferenças (P>0,05) entre grupos e entre períodos quanto aos coeficientes de digestibilidade da matéria seca, da proteína bruta, do extrato etéreo, do extrativo não nitrogenado, da fibra detergente neutro e da energia bruta (Tab.3).

 

Tabela 3 - Clique para ampliar

 

Os ensaios de digestibilidade são importantes quando se pretende avaliar a qualidade de um determinado alimento. Já foi demonstrado que rações para cães com rótulos de análise de garantia nutricional idênticos podem variar significativamente quanto à sua digestibilidade, influenciando a absorção de nutrientes pelo animal (Hubber et al., 1985; Brown, 1997).

Quando se avalia o teor do extrato etéreo de um alimento extrusado há necessidade de se realizar a hidrólise ácida antes da extração (Cunniff, 1995). Neste estudo realizou-se a hidrólise ácida em todas as amostras da ração e em algumas de fezes. Nenhuma diferença foi encontrada entre os valores obtidos nas amostras de fezes com ou sem hidrólise ácida, possivelmente pelo baixo teor de gordura presente no alimento. Sabe-se, entretanto, que em alimentos extrusados, com maior teor de extrato etéreo, há necessidade de prévia realização da hidrólise ácida das fezes antes da extração do extrato, evitando erros no cálculo da digestibilidade.

Na literatura pesquisada, não foram encontrados trabalhos em cães ou em seres humanos que correlacionassem estresse e digestibilidade, dificultando a comparação dos dados obtidos neste estudo.

Os resultados deste experimento poderiam ser diferentes dos obtidos se se tivesse avaliado o coeficiente de digestibilidade na segunda e terceira semana de estímulos. Esperava-se que o maior período de estresse acontecesse na semana um, assim, não foram congeladas fezes referentes às semanas dois e três, impossibilitando a análise desses coeficientes nestes períodos.

Fica também a indagação sobre as conseqüências do estresse alimentar a longo prazo. Um estudo longo seria necessário para avaliar se o estímulo crônico ao estresse levaria, conforme Overall (1997), à diminuição na ingestão alimentar, ou se os animais poderiam retornar em algum momento ao pico de estresse, como se a percepção fosse cíclica.

 

CONCLUSÕES

Aparentemente não há efeito do estresse alimentar sobre a digestibilidade aparente da matéria seca, da proteína bruta, do extrato etéreo, do extrativo não nitrogenado, da fibra detergente neutro e da energia bruta na primeira e na quarta semanas de estímulo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 19 de julho de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 19 de novembro de 2002
Apoio financeiro: Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG - Fundo Recém-Doutor

 

 

* Autor para correspondência
E-mail: palhares@vet.ufmg.br