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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.55 no.5 Belo Horizonte Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352003000500017 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

 

Ocorrência de Staphylococcus sp. em água utilizada em propriedades leiteiras do Estado de São Paulo

 

Incidence of Staphylococcus sp. in the water used by dairy farms in the State of Sao Paulo

 

 

L.A. Amaral; O.D. Rossi Júnior; A. Nader Filho; F.L.A. Ferreira; L.S.S. Barros

Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária, UNESP Campus de Jaboticabal, Via de acesso Prof. Paulo Donato Castellane, km 5 14884-900 - Jaboticabal, SP

 

 


RESUMO

Com o objetivo de verificar o papel da água utilizada durante a produção do leite como via de transmissão de Staphylococcus sp., fez-se a contagem de Staphylococcus coagulase negativa e Staphylococcus aureus nas amostras de água das fontes, dos reservatórios e dos estábulos de 30 propriedades leiteiras situadas na região Nordeste do Estado de São Paulo. As maiores ocorrências de isolamentos (10,0 e 16,6%) e os maiores valores médios (4,3×104 e 2,5×104) de contagens desses microrganismos foram encontrados nas amostras de água dos estábulos utilizada na obtenção de leite. Estes resultados são importantes pois evidenciam a possibilidade de contaminação do leite ou dos animais por cepas patogênicas.

Palavras-chave: água, Staphylococcus sp., Staphylococcus aureus, propriedade leiteira


ABSTRACT

With the objective to verify the role of the water in the transmission of Staphylococcus sp., the counting of coagulase negative staphylococci, and Staphylococcus aureus in the water samples of the sources, reservoirs, and stables of 30 dairy farms, located in the Northeast region of the State of São Paulo was carried out. The major occurrence of coagulase negative staphylococci and Staphylococcus aureus, respectively, 10.0%, and 16.6%, were found in the water used for milking, with the major average of counting of 4.3×104 and 2.5×104. The results show the risk of water as a vehicle for transmission of mastitis, and the possibility of milk contamination by strains responsible for foodborne diseases.

Keywords: water, Staphylococcus sp., Staphylococcus aureus, dairy farms


 

 

INTRODUÇÃO

A obtenção de leite de boa qualidade depende de vários fatores como o estado sanitário do rebanho, a limpeza dos equipamentos e utensílios destinados a sua obtenção, a higiene do local e particularmente a qualidade da água utilizada na propriedade. Além de desempenhar papel importante na obtenção de um produto de boa qualidade, a água pode ser veículo de agentes patogênicos para seres humanos e animais.

A contaminação da água utilizada na produção tem grande influência na contaminação do leite (Lunder, Breenne, 1996). Os microrganismos em contato com o leite, rico em nutrientes, podem se multiplicar de maneira significativa, depreciando a qualidade do produto. Nos Estados Unidos, segundo normas de produção de leite pasteurizado, a água utilizada na produção de leite deve ter características de potabilidade (Willers et al., 1999).

Em propriedades rurais destinadas à produção leiteira, a água também se destaca como via de transmissão de agentes causadores de mastite. O Staphylococcus aureus é provavelmente o agente mais isolado em casos de mastite (Ferreiro, 1978). A infecção da glândula mamária por Staphylococcus coagulase negativa é de alta incidência e longa duração, e pode afetar a composição e a produção do leite. Esses fatores justificam a atenção dada a esses microrganismos como agentes etiológicos da mastite bovina (Timmis, Schultz, 1987).

Trabalho mostra que aumenta o risco de ocorrer mastite por Staphylococcus aureus quando se utiliza água não tratada no processo de obtenção do leite ou quando a água de lavagem do úbere está contaminada por coliformes (Schukken et al., 1991). Alguns autores verificaram associação entre a qualidade microbiológica da água utilizada na produção de leite e a ocorrência de mastite nos rebanhos. A incidência de mastite foi de 22,4% quando a água era de boa qualidade e de 38,0% quando de má qualidade (Hutabarat et al., 1985).

Alguns microrganismos do gênero Staphylococcus constituem risco para a população consumidora de leite e seus subprodutos provenientes de animal com mastite. Algumas cepas podem produzir toxinas termoestáveis e provocar intoxicação alimentar, principalmente, em crianças e idosos (Melchíades et al., 1993). Também a água utilizada na lavagem de equipamentos pode ser importante fonte de contaminação do leite por Staphylococcus aureus (Adesiyun et al., 1997). A importância da água na transmissão da mastite é enfatizada pelo fato de o Staphylococcus aureus e os Staphylococcus coagulase-negativa nela sobreviverem por 30 dias e a Escherichia coli, também importante agente etiológico da mastite, por 300 dias (Filip et al., 1988).

Há relatos de isolamento de Staphylococcus aureus em 20 (6,0%) das 320 amostras de água utilizada na obtenção de leite, sendo 40,0% delas enterotoxigênicas (LeChevallier, Seidler, 1980).

A presente pesquisa teve o objetivo de verificar a contaminação da água utilizada no processo de produção do leite por microrganismos do gênero Staphylococcus sp. em propriedades leiteiras.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram colhidas 180 amostras de água de fontes, reservatórios e estábulos de 30 propriedades leiteiras situadas na região Nordeste do Estado de São Paulo, durante o ano de 2001. Os procedimentos de amostragem foram realizados de acordo com Standard... (1992). As amostras foram transportadas, em caixas de material isotérmico contendo cubos de gelo, até o laboratório de análises de alimentos de origem animal e água do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias Campus de Jaboticabal, UNESP, onde foram processadas.

As contagens de Staphylococcus sp e de Staphylococcus aureus foram realizadas em ágar Baird Parker após filtração de 100ml de água em membrana de 47mm de diâmetro e poros de 0,45µm (Standard..., 1992). As colônias com características do gênero Staphylococcus foram coradas pelo método de Gram. As colônias que continham microrganismos em forma de cocos, agrupados em cachos e Gram positivos foram submetidas aos testes da catalase, OF/glicose e coagulase (Mac Fadin, 1976).

As cepas que apresentaram reação positiva na prova da coagulase foram submetidas às provas da termonuclease, fermentação do manitol em anaerobiose e produção de acetoína para a confirmação da espécie (Sneath et al., 1986).

A determinação da sensibilidade a antimicrobianos foi realizada de acordo com metodologia descrita por Bauer et al. (1966).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tab. 1 apresenta os dados de ocorrência de Staphylococcus coagulase negativa e Staphylococcus aureus e a Tab. 2 os valores da contagem nas amostras de água em diferentes pontos de colheita.

 

Tabela 1 - Clique para ampliar

 

 

Tabela 2 - Clique para ampliar

 

Os valores mais altos de Staphylococcus sp. ocorreram na água utilizada no local de ordenha. Esses resultados estão relacionados com o lugar de movimentação dos animais e com o ambiente de ordenha.

A presença de bactérias do gênero Staphylococcus nesse local é preocupante por causa de sua importância como agente causador de mastite (Timmis, Schultz, 1987). Especial atenção deve ser dada à presença de Staphylococcus aureus nas fontes de água, que poderia agravar o problema de mastites e de intoxicações alimentares (Ferreiro, 1978; Melchíades et al., 1993).

O estudo da sensibilidade das cepas aureus isoladas da água teve a finalidade de identificar as cepas resistentes aos antibióticos usados como rotina no tratamento da mastite bovina. No caso de resistência aumenta o risco representado pela água contaminada.

A Tab. 3 apresenta a ocorrência de cepas de Staphylococcus aureus resistentes aos vários antimicrobianos testados "in vitro". Três cepas (21,4%) apresentaram resistência a um antimicrobiano, uma (7,1%) a dois antimicrobianos, seis (42,9%) a três e quatro (28,6%) a mais de três antimicrobianos.

 

 

Maior número de cepas resistentes ocorreu com a lincomicina e menor com o uso da gentamicina e do cloranfenicol. A maioria das cepas (71,5%) apresentou resistência a três ou mais antimicrobianos testados.

A elevada ocorrência de cepas de Staphylococcus aureus resistentes, principalmente frente à lincomicina, à ampicilina e à penicilina, confirma os resultados obtidos por Nader Filho et al. (1986), Oddgierson (1991) e Costa et al. (1995) em estudo de resistência a antimicrobianos de cepas de Staphylococcus aureus isoladas de casos de mastite bovina.

A resistência a três ou mais dos princípios ativos também foi verificada por Moreno et al. (1997) e Rodolpho et al. (1998).

 

CONCLUSÕES

O Staphylococcus aureus e os Staphylococcus coagulase-negativa foram isolados em porcentagens relativamente baixas das amostras de água utilizada nas propriedades leiteiras. Entretanto, a água utilizada no processo de obtenção do leite pode ser fonte potencial de cepas de Staphylococcus aureus resistentes a antimicrobianos comumente utilizados no tratamento da mastite bovina. Isso evidencia a necessidade de controlar a qualidade da água para auxiliar no controle da mastite e diminuir os riscos de intoxicações alimentares.

 

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Recebido para publicação em 23 de maio de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 15 de abril de 2003

 

 

E-mail: lamaral@fcav.unesp.br

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