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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.56 no.3 Belo Horizonte June 2004

https://doi.org/10.1590/S0102-09352004000300018 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Diarréia em leitões lactentes por Clostridium perfringens tipo A em granjas tecnificadas nos estados de Minas Gerais e São Paulo

 

Clostridium perfringens type A diarrhea in suckling piglets in industrial swine farms in the states of Minas Gerais and São Paulo

 

 

G.M. CostaI; R.A. AssisII; F.C.F. LobatoII; V.L.V. AbreuII; J.L. SantosIII; F.A. UzalIV

IDepartamento de Medicina Veterinária–UFLA. Caixa Postal 37. 37200-000 – Lavras, MG
IIEscola de Veterinária da UFMG – Belo Horizonte
IIIEscola de Veterinária da UFV - Viçosa
IVCalifornia Animal Health and Food Safety Laboratory System-San Bernardino, CA

 

 


Palavras-chave: leitão, Clostridium perfringens tipo A, enterotoxemia, isolamento, PCR intradermorreação


ABSTRACT

Diarrhea in suckling piglets caused by Clostridium perfringens type A was diagnosed in industrial (technified) swine farms of the states of Minas Gerais and São Paulo (Brazil), based on isolation and identification of bacterium by biochemical tests, detection of alpha toxin in animal bioassays, and PCR. This seems to be the first report of clostridial enterotoxaemia in piglets by C. perfringens type A in Brazil and allowed specific procedures to control the disease.

Keywords: piglet, Clostridium perfringens type A, enterotoxaemia, isolation, intradermic reaction, PCR


 

 

As infecções intestinais de natureza bacteriana são as mais comuns e economicamente mais importantes doenças que acometem os suínos em todo o mundo (Moxley, Duhamel, 1999). Dentre os agentes bacterianos, Clostridium perfringens é um dos mais amplamente disseminados, sendo considerado um microrganismo ubíquo e, certamente, um dos principais agentes envolvidos nesses processos, determinando grandes prejuízos econômicos (Songer, 1996).

C. perfringens foi classificado em cinco tipos toxigênicos (A-E) de acordo com as toxinas principais produzidas (alfa, beta, épsilon e iota) (Niilo, 1980). Os tipos toxigênicos A e C são os mais comumente relatados nos processos enteropatogênicos em suínos lactentes (Songer, 1996; Yoo et al.,1997; Klassen et al., 1999).

As alterações clínicas observadas nos casos de envolvimento do C. perfringens tipo A (CPA) estão relacionadas com a ação de duas toxinas principais denominadas alfa e enterotoxina (Gyles, Thoen, 1993; Taylor, 1999). A toxina alfa é uma fosfolipase cuja ação patogênica se baseia na lise de eritrócitos, plaquetas, células endoteliais, musculares e enterócitos, com ação necrótica potencialmente letal. A enterotoxina, que é liberada no momento de esporulação das bactérias, tem sua ação relacionada com a formação de poros nos enterócitos, inibição da síntese de macromoléculas, desintegração do citoesqueleto e lise celular. A ação dessas toxinas leva à alteração da permeabilidade intestinal, ocasionando o acúmulo de líquidos, diarréia, desidratação e, freqüentemente, mortes súbitas (Niilo, 1980; Okewole et al., 1991; Gyles, Thoen, 1993; Songer, 1996; Taylor, 1999).

Quadros de enterotoxemia sugestivos do envolvimento de C. perfringens foram observados em suínos lactentes em três criatórios, o que justificou a realização deste trabalho.

Os rebanhos, três granjas industriais localizadas nos estados de Minas Gerais e São Paulo, apresentavam elevada incidência de diarréia em leitões lactentes. A doença caracterizava-se por altas morbidade e mortalidade, acometendo desde recém-nascidos até leitões com aproximadamente três semanas de idade. Clinicamente, os animais acometidos apresentavam fezes diarréicas de coloração esbranquiçada, apáticos e com baixa taxa de crescimento.

Para o diagnóstico, foram sacrificados e submetidos à necropsia 15 animais clinicamente acometidos (cinco de cada propriedade). Porções do duodeno que apresentavam alterações macroscópicas foram remetidas sob refrigeração à Escola de Veterinária da UFMG para exames bacteriológicos. Amostras de fezes de outros animais clinicamente acometidos também foram coletadas nas propriedades para exames parasitológicos, recebendo o mesmo tratamento que as anteriores. Os exames parasitológicos foram realizados segundo Martins (1984) e visavam a pesquisa de Isospora suis.

Na tentativa de isolamento do C. perfringens, foram examinadas 15 amostras de conteúdo duodenal (uma/animal acometido). Alíquotas de 100µl dos espécimes clínicos foram assepticamente diluídas em 0,5ml de solução salina estéril a 0,85%, a partir das quais foram confeccionados esfregaços corados pela técnica de Gram. A semeadura foi feita em ágar sangue contendo 10% de sangue desfibrinado de carneiro. As placas foram incubadas em estufa à 37ºC por 48 horas em atmosfera de anaerobiose de acordo com Sterne e Batty (1975).

Adicionalmente, as amostras foram assepticamente semeadas em tubos de ensaio contendo o meio de Tarozzi (Bier, 1985) e incubadas por 48 horas à 37ºC. O crescimento foi avaliado por meio da presença de depósito no fundo dos tubos, turbidez e produção de gás. Esfregaços desses cultivos foram corados pela técnica de Gram e, posteriormente, alíquotas foram subcultivadas em placas de ágar sangue nas mesmas condições descritas anteriormente.

Decorrido o tempo de incubação, colônias sugestivas de serem C. perfringens, que apresentavam duplo halo de hemólise e aspecto umbilicado, foram isoladas em meio de Tarozzi e submetidas a testes bioquímicos de acordo Sterne e Batty (1975).

Filtrados sugestivos de serem C. perfringens foram obtidos a partir dos cultivos em caldo Tarozzi usando membrana de Millipore de 0,22µm. Eles foram utilizados com o objetivo de tipificar o C. perfringens. Para isso, foi empregada a técnica de intradermorreação em cobaios (IC) segundo Sterne e Batty (1975). Realizou-se, ainda, a partir de colônias sugestivas de C. perfringens, uma técnica de PCR segundo Uzal et al. (1997), visando amplificar os segmentos gênicos específicos que codificam a alfa, beta, épsilon e iota toxinas de C. perfringens.

À necropsia constatou-se emaciação, congestão e presença de enterite hemorrágica ao longo de todo o intestino delgado, e intensa produção de gases, achados que, juntamente com o quadro clínico, foram bastante sugestivos de enterotoxemia por C. perfringens (Johannsen et al., 1993; Taylor, 1999). As amostras de fezes submetidas a exames para diagnóstico de isosporose apresentaram resultados negativos, descartado-se a possibilidade de envolvimento de I. suis nas patologias observadas.

O cultivo dos 15 conteúdos duodenais em ágar sangue resultou predominantemente no crescimento de colônias grandes, apresentando duplo halo de hemólise e aspecto umbilicado, características de C. perfringens. Profuso crescimento foi observado nos tubos de meio de Tarozzi. Alíquotas desses tubos subcultivadas anaerobicamente em ágar sangue resultaram no crescimento de colônias idênticas àquelas isoladas a partir da semeadura direta do conteúdo duodenal em ágar sangue. O exame microscópico, a partir de esfregaços corados pelo Gram, revelou presença maciça de bastonetes Gram positivos curtos, grossos, não esporulados, alguns em cadeia, sugerindo tratar-se de C. perfringens. Por meio de testes bioquímicos, os cultivos foram identificados como C. perfringens. Pela IC e PCR (Fig.1) foram todos tipificados como C. perfringens tipo A.

 

 

A utilização da técnica de PCR confirmou os resultados obtidos na prova de IC, demonstrando ser útil na determinação do tipo de C. perfringens, possibilitando reduzir o uso de testes bioquímicos que, em geral, são laboriosos e apresentam resultados duvidosos. Outra vantagem da PCR em relação aos métodos convencionais é a sua maior sensibilidade e o fato de dispensar o uso de animais para detecção de toxinas, resolvendo problemas bioéticos (Bartholomew et al., 1995; Uzal et al., 1997).

Não foi realizado exame histopatológico do quadro de enterite hemorrágica, que seria de grande valia para se correlacionarem as lesões microscópicas com o quadro clínico-patológico e os resultados de laboratório. Entretanto, os resultados bacteriológicos, toxicológicos (IC) e a técnica de PCR permitiram confirmar a ocorrência de enterotoxemia por CPA. Contudo, estes achados devem ser interpretados com cautela, uma vez que o C. perfringens é uma bactéria pertencente à microbiota normal de suínos (Taylor, 1999). Após a morte do animal, ela se multiplica rapidamente, invadindo a mucosa e a submucosa intestinal, de onde se dissemina para todos os tecidos. Por esse motivo, esses testes somente são confiáveis se realizados logo após a morte ou o sacrifício do animal. Desse modo, para se ter um diagnóstico seguro, é preciso considerar, além dos resultados bacteriológicos e toxicológicos, os dados clínicos, epidemiológicos e patológicos (Niilo, 1980; Taylor, 1999). Com base nesses achados, foi possível adotar medidas específicas de controle do problema. Elas normalmente estão centradas na melhoria do fornecimento de colostro, na higiene da maternidade e no fornecimento de antibióticos (Taylor, 1999).

Este relato parece ser o primeiro sobre o envolvimento do CPA em enterites de leitões no Brasil.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 21 de julho de 2003
Recebido para publicação, após modificações, em 29 de setembro de 2003

 

 

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