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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.56 no.5 Belo Horizonte Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352004000500009 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Efeito de diferentes meios de cultivo no desenvolvimento e proporção do sexo de embriões bovinos produzidos in vitro

 

Effect of different culture media on development and sex ratio of bovine embryos fertilized in vitro

 

 

S.G.T. GilardiI; W.F. SáII, *; L.S.A. CamargoII; A.M. FerreiraII; M.A. MachadoII; R.V. SerapiãoIII; A.B.M. Soares IV; T.G. PinhoV; J.H.M. VianaII

IMestre em Medicina Veterinária
IIEmbrapa Gado de Leite Rua Eugênio do Nascimento, 610 36038-330 - Juiz de Fora, MG
IIIEstudante de Doutorado - UENF, Campos dos Goytacazes, RJ
IVDepartamento de Estatística - UFF – Niterói, RJ
VFaculdade de Veterinária – UFF – Niterói, RJ

 

 


RESUMO

Avaliou-se o efeito da suplementação de meios de cultivo sobre o desenvolvimento e proporção do sexo de embriões bovinos fertilizados in vitro. Complexos cumulus-oócitos obtidos de ovários de matadouro foram maturados e fertilizados in vitro. Os zigotos (n= 484) foram distribuídos aleatoriamente em meio CR2aa, contendo soro fetal bovino (SFB) (T1), albumina sérica bovina (BSA) (T2) ou BSA mais insulina:transferrina:selênio e vitaminas (BSA+) (T3), no cultivo embrionário in vitro, a uma atmosfera de 5% CO2 a 38,8ºC em ar. A taxa de clivagem foi observada 72-76 horas pós-fertilização (PF) e a taxa de blastocistos com sete e oito dias PF. Os blastocistos (n= 63) foram sexados pela técnica de reação em cadeia de polimerase. A taxa de clivagem em T2 foi maior (P<0,05) do que em T1 e T3. A taxa de blastocistos foi similar (P>0,05) entre T2 e T3, porém menor (P<0,01) do que em T1. A proporção do sexo dos embriões não diferiu (P>0,05) entre os tratamentos. O T1 influenciou o desenvolvimento de blastocistos, mas não teve efeito sobre a proporção do sexo.

Palavras-chave: bovino, cultivo embrionário, sexagem


ABSTRACT

The effect of culture media on the development and on the sex ratio of bovine embryos fertilized in vitro was studied. Cumulus oocyte-complexes from slaughterhouse ovaries were matured and fertilized in vitro. Zygotes (n= 484) were randomly allotted to different culture media and cultured with their cumulus cells in CR2aa medium and an atmosphere of 5% CO2 in air at 38.8ºC. The fetal calf serum (FCS), bovine seric albumin (BSA) or BSA plus insulin:transferrin:selenium and vitamins (BSA+) supplementation effect on embryo culture was evaluated. Cleavage rate was assessed at 72-76h post-fertilization (PF) and blastocyst rate on days 7 and 8 PF. The blastocysts (n= 63) were also sexed using polymerase chain reaction. Cleavage rate for BSA medium supplemented was higher (P<0.05) than FCS and BSA+. Blastocyst rates for BSA and BSA+ media were similar (P>0.05), but lower (P<0.01) than FCS. Culture medium FCS supplemented affected blastocyst development but not the sex ratio.

Keywords: bovine, embryo culture, sexing


 

 

INTRODUÇÃO

O meio de cultivo utilizado na produção in vitro de embriões afeta o desenvolvimento após a fecundação, interferindo no metabolismo ou na expressão de genes importantes para o desenvolvimento do embrião (Bavister, 1995; Niemann e Wrenzycki, 2000). A composição do meio de cultivo in vitro, utilizado nos primeiros sete dias de vida, pode influenciar o desenvolvimento embrionário, fetal e placentário em bovinos.

Argumenta-se, ainda, que componentes dos meios de cultivo podem afetar a sobrevivência de embriões femininos, alterando a proporção do sexo (Rieger, 1992; Kochhar et al., 2001), o que pode explicar o número superior de bezerros machos nascidos de embriões produzidos in vitro. Porém, é difícil chegar a uma conclusão clara pela literatura, já que os resultados são conflitantes. Alguns estudos não mostraram diferença na proporção do sexo (Carvalho et al. , 1995), porém na maioria deles o número de embriões machos foi superior (Gutiérrez-Adán et al., 1996; Lonergan et al., 1999).

Identificadas as condições de cultivo que levam ao desvio na proporção de 1:1 do sexo, seria possível conhecer os fatores que controlam o desenvolvimento de machos e fêmeas (Lonergan et al., 1999), contribuindo para o desenvolvimento de um método que altere essa proporção nos embriões produzidos para transferência comercial. O objetivo deste trabalho foi comparar o efeito de diferentes meios de cultivo, adicionados após a fertilização, sobre a taxa de desenvolvimento e proporção do sexo de blastocistos bovinos produzidos in vitro.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os complexos cumulus-oócitos (CCOs) foram obtidos de ovários coletados em matadouro e transportados em solução fisiológica para o laboratório. CCOs com células do cumulus compactas e com no mínimo três camadas foram maturados in vitro em 400ml de Tissue Culture Medium (TCM 199) adicionados de 20mg/ml de hormônio folículo estimulante (FSH) e 10% de soro de vaca em estro, em incubadora com 5% de CO2 com 95% de umidade e temperatura de 38,8ºC, por 22 a 24h.

Após a maturação os CCOs foram transferidos para o meio de fecundação em microgotas de 100 a 150ml, sob óleo mineral, na concentração espermática de 2,0-2,5 ´ 106 espermatozóides/ml, onde permaneceram por 20-22h, nas mesmas condições da maturação.

Após a fertilização os possíveis zigotos (n= 484) foram distribuídos aleatoriamente nos diferentes tratamentos. Todos foram cultivados em gotas de 50ml cobertas com óleo mineral. O meio foi renovado pela metade 72 horas após o início do cultivo. O experimento consistiu de três tratamentos contendo meio Charle Rosenkrans 2 (CR2) suplementado com aminoácidos (CR2aa) em monocamada das células do cumulus. No tratamento 1 (T1) adicionaram-se 10% de soro fetal bovino (SFB), no tratamento 2 (T2) adicionou-se 1mg/ml de albumina sérica bovina livre de ácidos graxos (BSAlag) e no tratamento 3 (T3) 1mg/ml de BSAlag suplementado com 50ml de insulina:transferrina:selênio (ITS) e 50ml de basal medium of eagle (BME)-vitaminas. O cultivo foi realizado à temperatura de 38,8oC e 95% de umidade, com 5% de CO2 em ar atmosférico. Avaliou-se a taxa de clivagem com 72 horas pós-fertilização (PF) e a taxa de blastocistos no sétimo e oitavo dias PF.

Os blastocistos (=63) foram separados e classificados de acordo com o estádio de desenvolvimento (blastocisto inicial, blastocisto e blastocisto expandido). Em seguida foram lavados em meio Phosphate Buffered Solution (PBS) com 0,4% de BSA e acondicionados em tubos para reação em cadeia de polimerase (PCR), devidamente identificados, contendo 10ml de uma solução tampão de PCR 10x (100mM Tris, 500mM KCl, 20mM MgCl2) e proteinase K (1,5mg/ml) e armazenados em freezer a –20ºC. Para extrair o DNA dos embriões, os tubos foram incubados posteriormente a 50ºC, durante uma hora, para a ação da proteinase K. Em seguida adicionaram-se ao conteúdo do tubo 9ml de uma mistura de reação contendo tampão PCR 1x, 200mM de dNTP, 0,5mM de cada primer e 1U de Taq polimerase, totalizando 20ml. Para a reação de PCR foram utilizados dois pares de primers simultaneamente, um específico para cromossomo Y bovino (BRY.4a) e outro específico para um cromossomo autossômico (Satellite 1709) (Avery et al., 1992). Os parâmetros da reação de PCR foram 40 ciclos, consistindo de desnaturação a 95ºC por um minuto, ligação dos primers a 56ºC por 30 segundos e polimerização a 72ºC por um minuto. Passadas essas etapas, os tubos foram deixados a 72ºC durante 10 minutos e, então, mantidos a 4oC até a hora do uso.

Após o PCR, os produtos da amplificação foram submetidos à eletroforese em gel de agarose a 2%, por duas horas a 70 volts. O gel foi corado em solução contendo 3mg/ml de brometo de etídio por 30 minutos e, posteriormente, avaliado sob luz ultra-violeta. A fotodocumentação do gel foi realizada no equipamento EagleEye II1.

A avaliação das taxas de clivagem, blastocistos e sexagem dos embriões baseou-se no teste exato de Fisher.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados referentes à taxa de clivagem e ao desenvolvimento embrionário são apresentados na Tab. 1. Observou-se maior taxa de clivagem para os meios que continham BSA. Apesar de alguns autores não terem encontrado diferenças na clivagem entre meios de cultivo suplementados com SFB ou BSA (Tricoire et al., 1999), outros descreveram que a presença de SFB deprimiu a taxa de clivagem (Gutiérrez-Adán et al., 2001). Os resultados deste trabalho sinalizam para o efeito inibitório inicial do SFB nas primeiras clivagens.

 

 

A produção de blastocistos nos dias sete e oito PF foi maior (P<0,01) no meio adicionado com SFB do que nos meios com BSA ou BSA suplementado com ITS e vitaminas. Estes, contudo, não diferiram (P>0,05) entre si. Estudos têm mostrado efeito favorável do SFB no desenvolvimento de embriões bovinos (Van Langendonckt et al., 1997), levando a uma produção maior de embriões, inclusive quando comparado com a BSA (Gomez e Diez, 2000). Resultados do presente trabalho confirmam o efeito bifásico do SFB, conforme citado por Bavister (1995), deprimindo a clivagem inicial e estimulando o desenvolvimento dos embriões cultivados in vitro até o estádio de blastocisto. Não se conhece o mecanismo de estimulação do soro nessa etapa do desenvolvimento embrionário, porém esse estímulo é consistente com a ação de fatores de crescimento e/ou de aminoácidos, que estariam presentes nesse mecanismo, ou, ainda, com suas propriedades antioxidantes que reduzem a formação de superóxidos (Bavister, 1995). A BSA beneficia a clivagem dos embriões, porém parece ter deficiência de elementos estimuladores do desenvolvimento de blastocistos (Tricoire et al., 1999), fato observado no presente experimento (Tab. 1).

A adição de vitaminas e ITS ao meio suplementado com BSA não aumentou a taxa de produção de blastocistos. O mesmo foi observado por Camargo et al. (2001), quando utilizaram ITS e vitaminas separadamente em meio de cultivo com SFB. Isso pode ser atribuído a diferenças nas necessidades biológicas de embriões bovinos em relação às espécies estudadas. Estas diferenças podem ocorrer em relação ao efeito individual de cada vitamina e às concentrações adicionadas ao meio de cultivo. Em camundongos, por exemplo, o número total de células por blastocisto foi reduzido quando cultivados em meio suplementado com niacinamida em quantidades fisiológicas (0,5mM) ou presentes no meio Ham's F-10 (5,0mM) (Tsai e Gardner, 1994), enquanto a mesma substância na concentração de 5,0mM bloqueou o desenvolvimento de embriões de hamster (McKiernan e Bavister, 2000). Matsui et al. (1995), ao utilizarem ITS na concentração de 1%, observaram ação estimulatória no desenvolvimento de embriões bovinos. Este trabalho utilizou 50ml de vitaminas e ITS, o que pode representar um excesso ou uma deficiência dessas substâncias no desenvolvimento embrionário bovino in vitro. Além disso, a BSA pode apresentar contaminação por vitaminas (Bavister, 1995), alterando a concentração final no meio de cultivo.

Não houve diferença (P>0,05) na proporção total de machos e fêmeas em relação aos meios de cultivo utilizados, bem como nos blastocistos observados nos dias sete e oito (Tab. 2). Alguns autores descreveram aumento na proporção de embriões machos (Lonergan et al., 1999), sendo esse efeito atribuído à presença do SFB (Gutiérrez-Adán et al., 2001). Supõe-se que embriões machos possuam metabolismo diferenciado quando no cultivo em certas condições, como na presença de SFB, o que provocaria desenvolvimento embrionário mais acelerado quando comparado com o de embriões femininos (Gutierréz-Adan et al., 1996), com conseqüente melhor qualidade e seleção de mais embriões masculinos. No presente estudo não se observou efeito do SFB e dos outros tratamentos no desenvolvimento de embriões femininos ou masculinos, mantendo a proporção de 1:1 em embriões com sete ou oito dias pós-fertilização. Carvalho et al. (l995) também não encontraram diferença na proporção de embriões masculinos e femininos fecundados in vitro.

 

 

CONCLUSÕES

O SFB mostrou efeito bifásico, deprimindo a clivagem inicial e estimulando o desenvolvimento embrionário posterior, enquanto a BSA beneficiou a clivagem dos embriões.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 19 de agosto de 2003
Recebido para publicação, após modificações, em 9 de junho de 2004

 

 

* Autor para correspondência
e-mail: wandefsa@cnpgl.embrapa.br
1 Stratagene Corp.

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