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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.58 n.1 Belo Horizonte fev. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-09352006000100005 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Miíase primária em coelho doméstico causada por Lucilia eximia (Diptera: Calliphoridae) no Brasil: relato de caso

 

Primary myiasis in a domestic rabbit caused by Lucilia eximia (Diptera: Calliphoridae) in Brazil: case report

 

 

T.C. Moretti; P.J. Thyssen

Instituto de Biologia - UNICAMP Caixa Postal 6109 13083-970 - Campinas, SP

 

 


RESUMO

Relata-se a ocorrência de miíase primária em coelho doméstico Oryctolagus cuniculus (Lagomorpha: Leporidae) causada por Lucilia eximia (Diptera: Calliphoridae) em área urbana do município de Campinas, São Paulo.

Palavras-chave: coelho doméstico, miíase primária, Lucilia eximia


ABSTRACT

The occurrence of primary myiasis in a domestic rabbit Oryctolagus cuniculus (Lagomorpha: Leporidae) caused by Lucilia eximia (Diptera: Calliphoridae) is reported in an urban area in the city of Campinas, São Paulo, Brazil.

Keywords: domestic rabbit, primary myiasis, Lucilia eximia, Brazil


 

 

INTRODUÇÃO

Miíase é a infestação de larvas de dípteros em tecidos de vertebrados vivos (Zumpt, 1965). Duas classificações são usadas para as miíases: primárias ou obrigatórias, cujas larvas desenvolvem-se sobre ou dentro do corpo de seu hospedeiro, e secundárias ou facultativas, cujas larvas desenvolvem-se normalmente em matéria orgânica em decomposição e, ocasionalmente, em tecido necrosado do hospedeiro vivo.

A família Calliphoridae é, ao lado dos dípteros oestróides, uma das mais importantes produtoras de miíases, apesar de poucos membros causarem miíase obrigatória (Guimarães e Papavero, 1999). Na região Neotropical, espécies dos gêneros Cochliomyia, Compsomyiops, Lucilia, Calliphora e Chrysomya são as mais citadas como agentes causadores de miíases.

No gênero Lucilia são descritas 27 espécies. Lucilia eximia (Wiedemann, 1819) cujo hábito larval é saprófago, é vetora mecânica de patógenos de importância médico-veterinária. O adulto é atraído por grande variedade de substratos para alimentação e reprodução, tais como carcaças de animais e fezes humanas (Mendes e Linhares, 1993; Carvalho et al., 2000). A espécie é freqüentemente encontrada em áreas florestais e rurais no Brasil, Peru e Argentina (Ferreira, 1978; Linhares, 1981; Madeira et al., 1982; Baumgarter e Greenberg, 1984; Mariluis e Schnack, 1989).

No Brasil, há relatos de miíases por L. eximia em animais domésticos como em gatos (Madeira et al., 1989) e cães (Azeredo-Espin e Madeira, 1996), mas nenhum em coelho. Com relação ao coelho doméstico Oryctolagus cuniculus (Lagomorpha: Leporidae), há registros de miíases causadas por Cuterebra buccata, C. cuniculi, C. horripilum, C. lepivora (Diptera: Cuterebridae) (Jacobson et al., 1978), Lucilia sericata (Hinaidy e Niebauer, 1979; Meredith, 2003) e Cochliomyia hominivorax (Diptera: Calliphoridae) (Scott et al., 1996) nos Estados Unidos e Europa.

Neste relato, descreve-se o primeiro caso de miíase primária em um coelho doméstico O. cuniculus causada por L. eximia.

 

CASUÍSTICA

Descreve-se um caso de miíase primária em um coelho doméstico O. cuniculus causada por L. eximia. O animal adulto, do sexo masculino, de 36 meses de idade, peso de 4.100g, castrado, pelagem predominantemente cinza escura e curta, e descendente de cruzamento das linhagens Mini Lop e Fuzzy Lop Americano, foi mantido como único animal de estimação em uma residência da área urbana do município de Campinas, SP. Foram observadas mudanças de comportamento, incluindo certo grau de depressão e paresia, falta de apetite, alopecia, acúmulo de fezes e inchaço na região perianal. Ao exame clínico, observou-se, no local, um orifício de aproximadamente 0,8cm de diâmetro. Nenhuma lesão prévia no animal fora notificada. Desse orifício foram removidas 14 larvas em terceiro estádio, presentes no tecido subcutâneo, as quais foram encaminhadas para identificação.

No laboratório, as larvas foram acondicionadas em pote plástico contendo fígado bovino cru e mantidas em câmara climática sob 27±1°C para completo desenvolvimento. Após 12 dias, indivíduos adultos emergiram e foram identificados, por meio de chave dicotômica (Dear, 1985), como L. eximia.

 

DISCUSSÃO

No Brasil, em geral, as miíases são consideradas comuns e de pouca importância, especialmente em animais domésticos (Cramer-Ribeiro et al., 2002).

Bovinos, caninos, suínos, caprinos, ovinos e eqüinos são as espécies mais freqüentemente identificadas como hospedeiras de miíases (Lello et al., 1982). Apesar da alta freqüência, as miíases não são de notificação obrigatória. Além disso, os inquéritos existentes sobre miíases no país ficam restritos a duas espécies: Dermatobia hominis (Diptera: Cuterebridae) e C. hominivorax. Em outros casos, durante a rotina veterinária, geralmente as larvas são retiradas e nem mesmo o agente causador é identificado (informação verbal1).

Lucilia eximia, normalmente encontrada em carcaça de animais, é uma das primeiras colonizadoras desse substrato, mesmo sob influência de predação e competição com outras espécies (Azeredo-Espin e Madeira, 1996). Prado e Guimarães (1982) relataram a probabilidade de deslocamento dessa espécie por moscas do gênero Chrysomya em algumas áreas do Brasil.

Há poucos relatos da espécie como produtora de miíase primária, por isso, é importante investigar seu comportamento não usual. Tais mudanças sugerem a ocupação ou a criação de um novo nicho que pode aumentar com a intensificação da domesticação de animais. É interessante ressaltar que mudanças de comportamento de espécies causadoras de miíases, inclusive aumento da área de ocupação, foram relatadas nos gêneros Lucilia, Oestrus, Hypoderma e Gasterophilus, tendo como principal causa a atividade humana (Hall e Wall, 1995).

Relatos de casos são fundamentais para a compreensão da biologia, ecologia e impacto econômico de dípteros produtores de miíases, possibilitando entender seus padrões de distribuição, sua flutuação populacional e suas relações filogenéticas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 8 de julho de 2004
Aceito em 24 de outubro de 2005

 

 

E-mail: tmoretti@unicamp.br
1 Helena Marieta Ricci, Médica-veterinária da Clínica Veterinária Taquaral, Campinas, SP.

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