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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.58 no.4 Belo Horizonte Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352006000400036 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Streptococcus agalactiae associado à meningoencefalite e infecção sistêmica em tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) no Brasil

 

Streptococcus agalactie associated to meningoencefalitis and systemic infection from tilapia (Oreochromis niloticus) in Brazil

 

 

H.C.P. Figueiredo; D.O. Carneiro; F.C. Faria; G.M. Costa

Departamento de Medicina Veterinária – UFLA Caixa postal 37 37200-000 - Lavras, MG

 

 


Palavras-chave: tilápia, Streptococcus agalactiae, caracterização, antibióticos


ABSTRACT

Streptococcus agalactiae was isolated from cultured tilapia in Brasil. All isolates reacted similarly in API 20 STREP system (bioMerieux, France) and Slidex strepto grouping Latex Aglutination test (bioMerieux, France). Bacterial isolates were submitted to the disc diffusion technique for the antimicrobial susceptibility test. Among nine tested drugs S. agalactiae samples were resistant to three-neomicin, nalidixic acid and gentamicin.

Keywords: tilapia, Streptococcus agalactiae, characterization, antibiotics


 

 

A estreptococose é uma doença septicêmica que afeta peixes de água doce (em cultivo ou livre no ambiente) e de ambientes estuarino e marinho As principais espécies envolvidas são Streptococcus iniae e Streptococcus agalactiae, com sinais clínicos à infecção e espectro de hospedeiros semelhantes (Evans et al., 2002a; Shelby et al., 2002). Outra espécie que pode estar envolvida é Streptococcus dysgalactiae do grupo C de Lancefield, recentemente relacionado à alta mortalidade devido à necrose acentuada do pedúnculo caudal e infecção sistêmica em peixes cultivados no Japão (Nomoto et al., 2004).

Streptococcus agalactiae tem sido isolado de animais homeotermos terrestres ou heterotermos aquáticos, o que indica uma ampla diversidade de hospedeiros (Evans et al., 2002a). Além disso, nos últimos anos, tem-se observado uma elevação da ocorrência de casos clínicos associados a S. agalactiae em diferentes regiões geográficas, o que levou o mesmo a ser considerado patógeno emergente para peixes em ambientes de água doce ou marinho (Evans et al., 2002b). S. agalactiae pode ser a -hemolítico ou não hemolítico e é a única espécie que pertence ao grupo B de Lancefield, que é uma sorogrupagem baseada em carboidratos antigênicos da parede celular (Lancefield, 1933).

S. agalactiae tem sido isolado de várias espécies de peixes doentes em surtos naturais, como Notemigonus crysoleucas (Robinson et al., 1966), Brevoortia patronus, Arius felis, Mugil cephalus, Micropogonias undulatus, Dasyatis sp (Plumb et al., 1974), Fundulus grandis (Rasheed et al., 1984), tilápias híbridas (Oreochromis aureus x Oreochromis niloticus) (Eldar et al., 1995), Sparus auratus, Liza klunzigeri (Evans et al., 2002a) e Pampus argenteus (Duremdez et al., 2004). Em ensaios de infecção experimental, S. agalactiae foi patogênico para tilápias-do-nilo (Evans et al., 2002a).

O objetivo deste trabalho foi relatar o isolamento, a caracterização e o perfil de resistência a antibióticos de S. agalactiae, isolados a partir de surtos de meningoencefalite em tilápia-do-nilo no Brasil.

Foram analisadas tilápias provenientes de duas pisciculturas distintas com histórico de surtos com alta mortalidade e sinais neurológicos em animais adultos. Na piscicultura 1, destinada à produção de alevinos, localizada no estado de Minas Gerais, o acometimento ocorreu em tanques de reprodutores. Na piscicultura 2, destinada à engorda e abate, localizada no estado de Espírito Santo, o surto ocorreu em tanques-rede. As características relevantes observadas em ambas as criações foram escurecimento dos peixes, exoftalmia bilateral ou unilateral em alguns animais, pequenas lesões de pele com perda de escamas e áreas de petéquias na base das nadadeiras ventrais, natação errática e em movimentos circulares, alta mortalidade e evolução rápida, com morte dois a três dias após o início dos sinais clínicos. Somente animais adultos de ambos os sexos foram acometidos.

Para isolamento e caracterização do agente patogênico, oito tilápias vivas de cada propriedade, apresentando sinais clínicos característicos, acondicionadas em sacos de transporte com oxigênio suplementar, foram enviadas ao laboratório. Coletaram-se de forma asséptica fragmentos de rins, baço e cérebro, que foram semeados em ágar sangue, seguindo-se a incubação a 30ºC por até 10 dias. As colônias obtidas foram caracterizadas presuntivamente pelos testes de Gram, catalase, oxidase e crescimento em ágar Mac Conkey. Para a identificação e a classificação sorológica dos cinco isolados, classificados como Streptococcus sp, foram utilizados os kits API 20 STREP1 e Slidex Latex Aglutination1, respectivamente. As cinco amostras isoladas identificados como S. agalactiae receberam a denominação de SA01-03, SA02-03, SA03-03 na piscicultura 1, e SA04-04 e SA05-04 na piscicultura 2. A amostra SA01-03 foi isolada a partir dos rins, a SA02-03 a partir de ovas e as demais a partir de cérebro.

As cinco amostras isoladas reagiram com o antissoro do grupo B de Lancefield e de forma similar no API 20 STREP (Tab. 1).

 

 

O perfil bioquímico dos isolados do Brasil foi semelhante ao das amostras de S. agalactiae, isoladas de peixes provenientes do Kuwait (Evans et al., 2002a e Duremdez et al., 2004).  

A susceptibilidade das amostras frente ao ácido nalidíxico, à amoxicilina, ao cloranfenicol, à eritromicina, à gentamicina, à neomicina, à norfloxacina, à tetraciclina e à sulfonamida foi determinado pelo método de Bauer-Kirby, utilizando-se ágar Mueller Hinton2 suplementado com 5% de sangue desfibrinado de eqüino (National...1990). As amostras bacterianas foram resistentes ao ácido nalidíxico, à gentamicina e à neomicina. A resistência à norfloxacina foi variável: três amostras foram resistentes (SA01-03, SA02-03 e SA03-03), uma apresentou sensibilidade moderada (SA05-04), e uma foi sensível (SA04-04). Todas foram sensíveis à amoxicilina, ao cloranfenicol, à eritromicina, à tetraciclina e à sulfonamida. Os perfis de sensibilidade das amostras foram similares aos observados em S. agalactiae isolados de peixes cultivados no Kuwait (Evans et al., 2002a; Duremdez et al., 2004).  

Observa-se que S. agalactiae é um patógeno emergente em pisciculturas no Brasil e que já apresenta resistência a algumas drogas. S. agalactiae também pode ser isolado de casos de mamite bovina e de infecções sistêmicas e meningites em seres humanos, porém a relação epidemiológica entre os microrganismos que acometem diferentes hospedeiros ainda não está estabelecida. Além disso, deve-se ressaltar que a ocorrência de tal infecção numa piscicultura de produção de alevinos pode representar a disseminação do agente para várias regiões do país, uma vez que os alevinos são vendidos para engorda em diferentes regiões geográficas e podem ser portadores assintomáticos de S. agalactiae.  

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 3 de maio de 2005
Aceito em 16 de fevereiro de 2006

 

 

E-mail: henrique@ufla.br
1 bioMerieux, França
2 Difco - EUA