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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.59 n.3 Belo Horizonte jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352007000300022 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Avaliação de alguns parâmetros ecocardiográficos do gato-do-mato (Leopardus tigrinus), mantido em cativeiro e submetido à anestesia com xilazina e quetamina

 

Evaluation of some echocardiographic parameters of Oncilla (L. tigrinus), kept in captivity and submitted to anesthesia with xilazine and ketamine

 

 

P.S.L. CarvalhoI; G.G. PereiraI; L.C. PetrusI; E.C. SoaresII; L.E. MichimaII; M.H.M.A. LarssonIII, *

IMédico veterinário autônomo
IIAluno de pós-graduação - FMVZ-USP – São Paulo, SP
IIIFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - USP – Av. Prof. Orlando Marques de Paiva, 87 – 05508-900 - São Paulo, SP

 

 


RESUMO

Avaliaram-se alguns parâmetros ecocardiográficos em modos B, M e Doppler de 27 gatos-do-mato, Leopardus tigrinus, pequeno felídeo selvagem, mantidos em cativeiro e submetidos à anestesia com 1 a 2mg/kg de xilazina e 10mg/kg de quetamina. Observaram-se alterações dos parâmetros cardiovasculares quando os resultados foram comparados aos do gato doméstico (Felis catus) não anestesiado.

Palavras-chave: gato-do-mato, Leopardus tigrinus, Felis catus, parâmetros ecocardiográficos, quetamina, xilazina


ABSTRACT

Some echocardiographic parameters in B, M-mode and Doppler of 27 Oncillas, Leopardus tigrinus, a wild little feline, kept in captivity and submitted to anesthesia with 1 to 2mg/kg of xilazine and 10mg/kg of ketamine, had been evaluated. Changes of the cardiovascular parameters were observed when the results were compared to non anesthetized domestic cat (Felis catus).

Keywords: Leopardus tigrinus, Felis catus, echocardiography parameters, ketamine, xilazine


 

 

INTRODUÇÃO

Os pequenos felídeos selvagens lembram, em vários aspectos, o gato doméstico (Felis catus) por terem porte e peso reduzidos, e muitos, por sua aparência e pelagem.

O gato-do-mato (Leopardus tigrinus), também chamado de gato-do-mato-pequeno ou pintadinho, é uma das menores espécies de felinos presentes no território nacional. Com proporções bem semelhantes às do gato doméstico, pesa entre 1,75 e 3,5kg, com média de 2,3kg, e seu comprimento corpóreo é de cerca de 49cm, sendo o macho maior que a fêmea. Esse animal tem as patas pequenas e delicadas e a cauda muito longa. Sua pelagem apresenta coloração variável entre os indivíduos, com tonalidades entre amarelo claro e castanho amarelado, com manchas pequenas e escuras espalhadas pelo corpo. Esse pequeno felino pode ser encontrado desde a Costa Rica até a Argentina e em todo o Brasil.

A cardiologia tem tido grandes avanços na área de diagnóstico, sendo o maior deles a possibilidade de se realizar um exame do coração por meio não invasivo, com o uso do ecocardiograma (Allen e Downey, 1983; Yamato, 2001).

Em felinos, a ecocardiografia é utilizada com muita freqüência para diagnosticar as cardiopatias, em especial as alterações do miocárdio, caracterizando e diferenciando o tipo de cardiomiopatia (CM) (Moise et al., 1986; Bonagura, 2000). Em função da ecocardiografia, houve um aumento significativo do conhecimento das doenças miocárdicas, elevando e melhorando os diagnósticos realizados.

O melhor meio de diagnóstico definitivo e diferencial entre as cardiomiopatias é o ecocardiograma (Bonagura, 2000; Schwartz, 2003), mostrando a grande importância da ecocardiografia na clínica de felinos.

A finalidade deste estudo foi avaliar alguns parâmetros ecocardiográficos, bem como observar a ocorrência ou não de distúrbios miocárdicos em gatos-do-mato (Leopardus tigrinus), mantidos em cativeiro.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram realizados exames ecocardiográficos em modos B, M e Doppler em 27 indivíduos da espécie Leopardus tigrinus, mantidos em cativeiro na Fundação Parque Zoológico de São Paulo, alocados em jaulas coletivas. Todos os animais estudados eram adultos, sendo 59,3% machos e 40,7% fêmeas.

Para a avaliação ecocardiográfica, os animais foram submetidos à contenção química com injeções intramusculares contendo xilazina e quetamina nas doses de 1 a 2mg/kg e de 10mg/kg, respectivamente, com auxílio de jaula de contenção.

Para a execução do exame ecocardiográfico, os animais foram mantidos tanto em decúbito lateral esquerdo quanto direito, conforme as janelas acústicas desejadas.

Os valores dos parâmetros ecocardiográficos obtidos neste estudo foram submetidos à análise estatística descritiva, para o cálculo do valor médio e do desvio-padrão. A diferença entre as médias foi significativa quando P<0,05.

 

RESULTADOS

Na Tab. 1 são apresentados a média, o desvio-padrão e a variação dos diferentes parâmetros ecocardiográficos estudados.

 

 

A parede do ventrículo direito não pôde ser claramente delimitada nos exames ecocardiográficos da espécie estudada, impossibilitando mensuração acurada das dimensões internas dessa cavidade cardíaca.

Dez em 27 (37%) dos animais estudados apresentaram alterações valvares, sendo que em sete indivíduos diagnosticou-se insuficiência da valva mitral (Fig. 1 e 2); dois apresentaram escape da referida valva e apenas um, insuficiência de ambas as valvas atrioventriculares, mitral e tricúspide.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

É de suma importância ressaltar a falta de literatura no que se refere aos parâmetros ecocardiográficos de felinos selvagens. Os trabalhos encontrados referiam-se sempre ao gato doméstico, sendo que poucos deles apresentam informações sobre valores de referência que, quando existentes, abrangem apenas alguns dos parâmetros e/ou não apresentam o mesmo protocolo anestésico utilizado neste estudo.

A contenção química com uso de anestésicos é utilizada em gatos para facilitar a realização de exame ecocardiográfico detalhado; entretanto, essa conduta pode promover alterações no funcionamento do sistema cardiovascular, influenciando diretamente as mensurações obtidas no exame (Fox et al., 1985; Jacobs e Knight, 1985), tanto é que o ecocardiograma tem sido utilizado para acessar os efeitos de agentes químicos na função ventricular (Allen e Downey, 1983).

A quetamina é um agente anestésico dissociativo (Cruz et al., 2000; Valadão, 2002; Carvalho et. al., 2006), que estimula, indiretamente, o sistema cardiovascular, sendo, também, inotrópico positivo (Valadão, 2002), além de causar aumento da pressão arterial, da freqüência e do débito cardíacos (Fox et al., 1985; Jacobs e Knight, 1985; Valadão, 2002, Carvalho et al., 2006).

A quetamina nunca deve ser utilizada como único anestésico em cães e gatos, necessitando de associação com agente sedativo ou tranqüilizante para prevenir efeitos colaterais como excitação, aumento de tônus vascular, hipertensão e salivação (Cruz et al., 2000; Cortopassi e Fantoni, 2002).

Um dos agentes que podem ser associados à quetamina, com sucesso, é a xilazina, fármaco a -2 agonista, que, no sistema cardiovascular, inicialmente leva a um aumento de pressão arterial seguido de hipotensão, diminui a freqüência e o débito cardíacos (Allen e Downey, 1983; Haskins e Patz; Farver, 1986; Cortopassi e Fantoni, 2002).

A xilazina e a quetamina são agentes anestésicos com efeitos cardiovasculares opostos, entretanto a depressão causada pela xilazina não é contrabalanceada pela ação simpatomimética da quetamina, sendo assim, essa associação leva à bradicardia e à hipotensão (Hsu e Lu, 1984; Cortopassi e Fantoni, 2002).

Desta maneira, os parâmetros ecocardiográficos estatisticamente semelhantes entre os animais do presente estudo (Leopardus tigrinus) e gatos domésticos anestesiados somente com quetamina (Fox et al., 1985) são poucos, pois os efeitos estimulantes da quetamina sobre o sistema cardiovascular são dominados pela ação depressora da xilazina. Tais parâmetros foram: SIVd (p=0,295) e de AE/Ao (p=0,116).

O único parâmetro comum entre Leopardus tigrinus e gatos domésticos anestesiados com xilazina, estudados por Allen e Downey (1983) foi a fração de encurtamento da fibra miocárdica (p=0,71). Índice este que demonstra a ação depressora simpatolítica, provocada por esse agente. A xilazina tem como efeito deprimir a dimensão diastólica do ventrículo esquerdo, que se relaciona à pré-carga e à porcentagem de mudança do diâmetro e à velocidade de encurtamento da fibra, que são índices relativos à contratilidade miocárdica (Allen e Doney, 1983).

Como observado em trabalhos anteriores (Fox et al., 1985; Jacobs e Knight, 1985; Carvalho et al., 2006), a anestesia leva a alterações na função cardíaca, o que reflete diretamente sobre os parâmetros ecocardiográficos. Portanto, pouca relação existe entre gatos domésticos não anestesiados, estudados por Jacobs e Knight (1985) e por Sisson et al. (1991), e os animais da espécie estudada, que sofreram contenção química com a associação de xilazina e quetamina.

Diferentemente do que ocorre no gato doméstico, em que as afecções do miocárdio, principalmente a CMH, constituem-se nas cardiopatias de maior ocorrência (Moise et al., 1986; Rush, 1998; Rishniw, 2000; Häggström, 2002; Ferasin et al., 2003), grande parte dos felídeos selvagens estudados apresentaram alterações valvares, principalmente de valva mitral. No gato doméstico, a insuficiência da valva mitral é freqüentemente diagnosticada em associação com os casos de CMH, associação essa não detectada na espécie estudada.

A displasia de valvas atrioventriculares é a cardiopatia congênita mais freqüentemente observada em gatos domésticos (Bonagura e Herring, 1985; Bonagura, 2000; Sisson et al., 2004). Já a insuficiência adquirida de valvas mitral ou tricúspide apresenta prevalência presumidamente baixa em gatos domésticos, sem doença miocárdica primária (Bonagura, 2000; Kvart e Häggström, 2004). Como a idade exata dos animais deste estudo é desconhecida, não se pode afirmar se a alta prevalência de alterações valvares nesses felídeos selvagens ocorre por doença congênita ou adquirida.

 

CONCLUSÕES

O uso de anestésicos altera a função cardiovascular; a xilazina apresenta maiores efeitos no sistema cardiovascular quando em associação com a quetamina; a diminuição da fração de encurtamento da fibra miocárdica se deve ao efeito depressor da xilazina; há pouca semelhança entre os parâmetros ecocardiográficos de gatos domésticos sem contenção química e de gatos-do-mato anestesiados com quetamina e xilazina.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 13 de fevereiro de 2007
Aceito em 30 de abril de 2007

 

 

* Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: akaolar@usp.br

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