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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.59 no.4 Belo Horizonte Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352007000400022 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

 

Efeito da substituição do feno de Tifton 85 pelo caroço de algodão como fonte de fibra na dieta de bezerros

 

Effect of substitution of Tifton 85 hay by whole cotton seed as fiber source in the diets of calves

 

 

E.B. BernardesI; S.G. CoelhoII, *; A.U. CarvalhoII; H.N. OliveiraIII; R.B. ReisII; H.M. SaturninoII; C.A. SilvaIV; T.C. CostaI

IMédico veterinário autônomo
IIEscola de Veterinária - UFMG Caixa Postal 567 30123-970 - Belo Horizonte, MG
IIIFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP – Botucatu, SP
IVMédica veterinária autônoma

 

 


RESUMO

Para avaliar a substituição do feno Tifton 85 pelo caroço de algodão como fonte de fibra na dieta foram utilizados 24 bezerros da raça Holandesa, distribuídos em dois grupos. O grupo-feno recebeu feno e concentrado separados, fornecidos à vontade, e o grupo- algodão recebeu caroço de algodão incorporado ao concentrado (13,5%), à vontade. O consumo de alimentos, o peso, as alturas da cernelha e do íleo, as circunferências torácica e abdominal, a concentração de glicose sangüínea, as concentrações de acetato, propionato e butirato, o pH do fluido ruminal e os pesos dos compartimentos do estômago foram mensurados. O consumo de alimentos, o desenvolvimento ponderal dos animais, as concentrações de acetato, propionato e butirato, o pH do fluido ruminal, as concentrações de glicose sangüíneas e o peso dos compartimentos do estômago foram semelhantes entre os tratamentos (P>0,05). À necropsia, não foram observadas alterações sugestivas de intoxicação por gossipol. Concluiu-se que o caroço de algodão substituiu, sem prejuízos, o feno como fonte de fibra na dieta de bezerros.

Palavras-chave: bezerro, AGV, desempenho, glicose sangüínea, pH ruminal


ABSTRACT

Twenty-four Holstein calves divided into two groups were used to evaluate Tifton 85 hay or whole cotton seed as fiber source in their diets. One group received Tifton 85 hay and concentrate ad libitum (hay group) and the other received ad libitum (cotton group) only concentrate with whole cotton seed incorporated (13,5%). Feed intake; weight; whither and ileum heights; thoracic and abdominal circumferences; acetate, propionate and butyric concentrations; pH of ruminal content; blood glucose; and rumen, reticulum, omasum and abomasum weights were measured. Feed intake; animal performance; acetate, propionate and butyric concentrations; pH of ruminal content; blood glucose and weight of stomach compartments did not differ between the groups (P>0.05). No clinical evidence of gossypol intoxication was observed. It was concluded that whole cotton seed replaced hay as fiber source in the diets of calves.

Keywords: calf, VFA, performance, blood glucose, rumen pH


 

 

INTRODUÇÃO

A utilização de fontes de fibra na dieta de bezerros continua sendo um assunto controverso e, cada vez mais, maior número de criadores tem optado por não fornecer volumosos para animais até 60 ou 90 dias de idade. A opção pelo não fornecimento de volumosos deve-se ao conhecimento de que o desenvolvimento do epitélio do rúmen está diretamente relacionado ao consumo de alimentos ricos em carboidratos. No entanto, algum alimento que provoque a movimentação ruminal e ruminação é necessário para manutenção da saúde do rúmen retículo (Anderson et al., 1982).

Dietas compostas apenas por alimentos concentrados e com baixo teor de fibra podem provocar queda do pH ruminal, paraceratose e hiperqueratinização das papilas ruminais, resultando em redução na ingestão de matéria seca e na absorção de ácidos graxos voláteis (AGV) (Nocek et al., 1984; Plaza et al., 1990).

O feno de boa qualidade tem sido o alimento mais recomendado como fonte de fibra a ser fornecida para bezerros até quatro meses de idade. No entanto, ele é considerado o alimento volumoso mais caro por unidade de matéria seca conservada. Além disso, ocorre grande desperdício quando este é oferecido a animais jovens. Dessa forma, apesar de a utilização de feno inteiro, ou picado em grandes partículas, não ser adequada na dieta de bezerros, a adição de fontes de fibra em partículas menores se faz necessária. A incorporação de 10 a 25% de feno picado, ou outra fonte de fibra de boa qualidade, ao concentrado, aumenta o consumo de matéria seca e o ganho de peso dos animais (Nocek et al., 1984). A forma física da dieta, em particular o tamanho das partículas, influencia o consumo de alimentos, o ganho de peso e a saúde dos bezerros. Sabe-se que o tamanho das partículas é mais importante que o próprio teor de fibra da dieta quando se trata da saúde do rúmen de bezerros até oito semanas de idade.

Com o objetivo de reduzir o custo das dietas de bezerros, faz-se necessária a busca de outras fontes de fibra que devem ser nutritivas e ao mesmo tempo economicamente interessantes. Os subprodutos da agroindústria aparecem como alternativas viáveis, sendo o caroço de algodão um dos mais importantes, por apresentar disponibilidade crescente, para uso em ração animal. Associado a isto, apresenta altas concentrações de energia, de proteína e de fibra permitindo a substituição de alimentos volumosos sem prejudicar a fermentação ruminal (Nutrient..., 1989; Delgado, 1994). Um ponto negativo para sua utilização é o gossipol, um pigmento natural, encontrado no algodão que é tóxico para monogástricos e ruminantes.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a substituição do feno pelo caroço de algodão como fonte de fibra na dieta de bezerros observando o seu consumo e os reflexos sobre o desempenho dos animais, o perfil de fermentação, a saúde e o desenvolvimento ruminal, e a concentração sangüínea de glicose, bem como algum efeito deletério sobre a saúde dos animais.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 24 bezerros machos da raça Holandesa distribuídos em dois grupos experimentais (12 para cada grupo). Os animais foram identificados, pesados e mensurados (altura da cernelha e ílio, e circunferências torácica e abdominal) e alojados em gaiolas individuais onde permaneceram até os 90 dias de idade.

Os animais receberam quatro litros de colostro no primeiro dia de vida, quatro litros de leite integral do segundo ao sétimo dia e quatro litros de sucedâneo de leite do oitavo ao 30º dia, quando foram desaleitados. Foi utilizado sucedâneo comercial com os seguintes níveis de garantia mínimos (mín) e máximos (máx): umidade 10,0% (máx), proteína bruta (PB) 22,0% (mín), extrato etéreo (EE) 8,0% (mín), fibra bruta (FB) 3,0% (máx), matéria mineral (MM) 15% (máx), cálcio (Ca) 1,5% (máx), fósforo (F) 0,7% (mín) e lactose 25 %, na diluição 1:14.

Os grupos receberam o mesmo manejo e alimentos concentrados com teores semelhantes de PB, EE, minerais e relação cálcio: fósforo. O que diferiu entre os grupos foram as fontes de fibra e os teores de fibra em detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido (FDA). No grupo-feno, os animais receberam água, concentrado e feno de Tifton 85 picado (4cm de comprimento) fornecidos separadamente, no grupo-algodão, água, concentrado e caroço de algodão incorporado ao concentrado. A composição dos concentrados e a composição bromatológica dos ingredientes utilizados, dos concentrados e do feno podem ser observadas nas Tab. 1 e 2, respectivamente.

 

 

O caroço de algodão foi incorporado inteiro ao concentrado do grupo-algodão para a avaliação de sua efetividade como fonte de fibra na dieta.

Concentrado, feno e água foram fornecidos à vontade a partir do 3º dia e até os 90 dias de idade. O consumo foi avaliado às sete horas, diariamente, por meio da diferença entre o fornecido e as sobras.

Amostras dos alimentos fornecidos e de suas sobras foram coletadas para análises. Foram determinadas, segundo AOAC (Official..., 1980), a MS a 105ºC e a PB pelo método de Kjeldhal. Os componentes da parede celular (FDN e FDA) foram determinados pelo método seqüencial proposto por Van Soest et al. (1991). Os teores de cinzas e EE foram determinados segundo Silva (1981).

O desempenho dos animais foi avaliado pela pesagem e pela mensuração da altura da cernelha e ílio e circunferências torácica e abdominal (atrás da última costela). Esses procedimentos foram realizados pela manhã, antes do fornecimento dos alimentos e a cada sete dias até o final do experimento.

Seis animais de cada grupo foram sorteados para serem doadores de fluido de rúmen e sangue. O perfil de fermentação ruminal foi avaliado mediante mensuração do pH e concentrações dos AGVs do fluido ruminal aos 30, 45, 60, 75 e 90 dias de idade. Uma alíquota de fluido ruminal de cada bezerro foi retirada por meio de sonda, como proposto por Ortolani (1981) e modificado por Coelho (1999). As coletas foram realizadas antes do fornecimento do alimento no período da manhã, e três, seis e nove horas após a primeira coleta. A mensuração do pH foi realizada após a filtragem do fluido ruminal, imediatamente após a colheita, utilizando-se potenciômetro portátil1.

Para a análise de AGVs nas amostras de fluido ruminal, foi adicionado 1ml de ácido metafosfórico a 20% na proporção de uma parte do ácido para cinco da amostra. Para serem analisadas, as amostras foram centrifugadas a 10.000rpm por 25 minutos e filtradas em filtro milipore 0,45µm de poro por 25mm. Os AGVs foram quantificados usando-se cromatógrafo de fase gasosa2, com coluna de vidro de dois metros de comprimento e diâmetro de 1/8 de polegada com chromosorb 101 (80 – 100mesh), conforme Russel (1988).

A concentração sanguínea de glicose foi avaliada a cada 15 dias a partir dos 45 dias de idade nos mesmos horários de coleta de suco de rúmen. Foi utilizado aparelho portátil com faixa de medição entre 10 e 600mg/dl3.

Aos 30, 60 e 90 dias de idade, três bezerros de cada grupo (total de 18 bezerros) foram sacrificados por eletrocussão, precedida de anestesia geral, para avaliação do desenvolvimento dos pré-estômagos e abomaso. Os pré-estômagos e abomaso foram retirados da carcaça, pesados juntos e cheios e, posteriormente, separados em retículo-rúmen, omaso e abomaso e pesados cheios e vazios. Nesses animais foram realizadas necropsias completas para avaliações de possíveis alterações causadas por intoxicação por gossipol.

O experimento foi montado seguindo o delineamento inteiramente ao acaso. Os dados foram analisados utilizando-se os procedimentos GLM do software SAS (User's..., 1995). Para os dados de consumo de alimentos sólidos, de água e desempenho dos animais utilizou-se o arranjo em parcelas subdivididas, com os tratamentos nas parcelas e as semanas nas subparcelas. Os dados de AGVs, pH do suco ruminal e glicose sanguínea foram analisados segundo o arranjo em parcelas subsubdivididas, com os tratamentos nas parcelas, as idades de coleta nas subparcelas e os horários de coleta nas subsubparcelas. O desenvolvimento dos pré-estômagos e abomaso foram avaliados por arranjo fatorial: 2 tratamentos x 3 idades de abate (três repetições). A diferença mínima significativa foi calculada por meio do erro de sua respectiva fonte de variação; para testar as diferenças entre as médias usou-se o teste Tukey (P<0,05).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados referentes ao consumo médio diário da matéria seca do concentrado e do feno, matéria seca total, água e ganho de peso médio diário dos animais são apresentados na Tab. 3. Não houve diferença (P>0,05) entre os grupos para essas variáveis. Observou-se que alguns animais do grupo-algodão, nas duas primeiras semanas de idade, separavam parte do caroço de algodão e não o consumiam. Entretanto, essa seleção parcial não refletiu em diferença (P>0,05) entre as concentrações de nutrientes do concentrado fornecido e suas sobras. Não foram observados caroços de algodão inteiros nas fezes dos animais ou no conteúdo do abomaso dos animais sacrificados aos 30 dias de idade, demonstrando que os animais foram capazes de digerir o caroço em idade precoce, como relatado por Anderson et al. (1982).

O consumo médio diário de matéria seca dos alimentos concentrados e de matéria seca total bem como o ganho de peso médio diário foram diferentes entre as semanas estudadas (P<0,05). O consumo de matéria seca total manteve-se baixo até o desaleitamento, representando para os animais do grupo-feno 1,5% e 1,2% do peso vivo (PV) para o grupo-algodão na quarta semana de idade. Na quinta e sexta semanas o consumo aumentou, em média, 69,3% em relação ao da quarta semana, atingindo valores médios de 2,4 e 2,3% para os dois grupos, respectivamente. Este aumento foi causado pelo desaleitamento que forçou os animais a aumentar a ingestão de alimentos para suprir suas exigências nutricionais. A partir da oitava semana o consumo praticamente se estabilizou em 2,9% do PV nos animais dos dois grupos.

O consumo médio diário de matéria seca de feno mostrou-se baixo e variável durante todo o experimento. Resultados semelhantes também foram observados por Plaza et al. (1990), Coelho (1999) e Fontes et al. (2006) ao relatarem que os bezerros consomem mais concentrado e menos feno quando o feno e o concentrado são fornecidos separadamente. Isso se deve, provavelmente, à maior palatabilidade do concentrado, à dificuldade dos animais em apreender o feno e à sua menor degradabilidade.

A variação no consumo de feno ocorre principalmente após grande ingestão de concentrado e pode ser uma tentativa do animal em regular o pH ruminal mediante consumo de alimentos que proporcionam taxa de degradação mais lenta com menor queda do pH ruminal após a alimentação, como relatou Coelho (1999).

O ganho médio de peso diário (GPD) (Tab. 3) também foi baixo durante o aleitamento devido a quadros de diarréia que acometeram todos os animais na segunda e terceira semanas de idade. Essas diarréias podem ter sido causadas pelo grande desafio imunológico a que estão submetidos os animais nessa idade. Após o desaleitamento o GPD foi elevado devido à recuperação dos animais e ao aumento no consumo de alimentos.

O consumo de água não diferiu entre os tratamentos (P>0,05). A correlação entre o consumo de água e matéria seca total foi de 0,93.

Os dados referentes ao peso, alturas de cernelha e íleo e circunferências torácica e abdominal são apresentados na Tab. 4. Não houve diferença (P>0,05) para essas características entre os grupos estudados.

As diarréias registradas durante o primeiro mês de vida não influenciaram o crescimento em altura e as circunferências torácica e abdominal. Esse fato está de acordo com as observações de Virtala et al. (1996), segundo os quais o desenvolvimento em altura não é afetado pelas doenças mais comuns que ocorrem em bezerros durante a fase inicial da vida.

Na Tab. 5 observam-se os pesos dos pré-estômagos e abomaso. Os pesos dos compartimentos do estômago não diferiram entre os grupos (P>0,05). Quando se associa essa observação à ausência de diferença de consumo de concentrado e matéria seca total entre os dois grupos (Tab. 3), conclui-se que a dieta com caroço de algodão, mesmo tendo tamanho de partícula inferior, foi capaz de estimular a movimentação e o desenvolvimento dos pré-estômagos tanto quanto a dieta com feno.

O aumento no peso dos compartimentos ocorreu em taxas diferentes nas distintas idades. Entre 30 a 60 dias houve mudança acentuada na porcentagem dos pesos do retículo-rúmen e abomaso em relação ao peso total do estômago. Aos 30 dias de idade as proporções do retículo-rúmen, do omaso e do abomaso foram de 53, 14 e 33%, respectivamente, em relação ao peso total dos pré-estômagos e abomaso. Aos 60 dias, essas proporções foram, respectivamente, de 65,5, 15,0 e 19,5%, enquanto que aos 90 dias, foram de 68,6, 15,7 e 15,7%. Após os 60 dias, essas proporções praticamente permaneceram nos valores próximos aos relatados por Church (1993) para animais adultos. Essas alterações estão relacionadas ao aumento do consumo de alimentos.

Os valores de pH do fluido ruminal dos bezerros dos grupos-feno e algodão nas diferentes idades e horários estudados são apresentados na Tab. 6. Não houve diferença (P>0,05) quanto aos valores de pH do fluido ruminal entre os tratamentos. Foram observadas diferenças (P<0,05) entre as semanas e entre os horários estudados. Ocorreu queda do pH do fluido ruminal entre zero e três horas após o fornecimento dos alimentos em função do maior consumo de concentrado, assim que alimentos frescos eram fornecidos aos animais. Essa queda foi seguida quase sempre pelo aumento nos valores às seis e às nove horas.

O pH do fluido ruminal dos bezerros de ambos os grupos aos 30 dias de idade se mostrou baixo. Nessa idade, a ruminação ainda é incipiente e o baixo fluxo de tamponantes salivares para o rúmen, associado ao aumento no consumo de concentrado observado na quarta semana de vida dos animais (quase o dobro em relação à semana anterior) justifica a observação destes baixos valores. Segundo Anderson et al. (1982), Vazquéz-Anon (1993) e Beharka et al. (1998), o pH é baixo à época do desaleitamento, pois ocorre o desbalanço entre a produção e a absorção dos AGV já que o rúmen e principalmente o seu epitélio (sítio de metabolismo e absorção de AGV) ainda não se encontram plenamente desenvolvidos e a microbiota ruminal característica não está completamente estabelecida, prevalecendo bactérias aminolíticas. Uma outra hipótese a ser considerada seria a baixa qualidade do sucedâneo fornecido aos animais, que pode ter gerado falha no reflexo da goteira esofágica causando desvio do sucedâneo para o rúmen, provocando fermentação intensa e abaixamento do pH.

Entre 45 e 60 dias de idade, o pH médio do fluido ruminal dos bezerros dos grupos-feno e algodão permaneceu baixo e ocorreram três casos clínicos de acidose ruminal (um no grupo-feno e dois no grupo-algodão). Os animais apresentaram timpanismo, diarréia e queda no consumo de alimento concentrado. O animal do grupo-feno apresentou ainda formação de sola dupla nos quatro cascos. Estes três animais foram sacrificados aos 60 dias de idade, quando então foram observadas áreas de cicatrização nos pilares cranial ou transversal do rúmen e áreas de aglomeração de papilas ou sem papilas (áreas de cicatrização) no saco ventral. Esses achados são semelhantes aos observados por Coelho (1999) que concluiu que bezerros de cerca de 60 dias de idade são propensos a quadros de acidose ruminal, ruminite e paraceratose devido ao elevado consumo de concentrado e à preferência por este em detrimento ao feno.

A partir dos 75 dias de idade, o pH do fluido ruminal dos bezerros de ambos os grupos já se mostrou mais elevado. Mesmo com o aumento de consumo de concentrado e a maior concentração de AGV observados, a queda de pH três horas após a alimentação foi menor. Isto demonstra melhor capacidade de tamponamento proveniente da ruminação e balanço mais equilibrado entre a quantidade produzida e absorvida de AGV, de modo que o pH ruminal se mantém mais elevado (Church, 1993). Aos 90 dias de idade, o pH ruminal dos animais dos dois grupos é semelhante ao de um animal adulto e mostra que o caroço de algodão foi tão capaz quanto o feno em manter o pH ruminal numa faixa favorável ao crescimento de bactérias celulolíticas.

Não foram observadas diferenças (P>0,05) nas concentrações ruminais de AGV entre os tratamentos, idades e horários de coleta para quase todas as variáveis avaliadas. A concentração média total dos AGV aumentou numericamente com o avançar da idade dos animais (Tab. 7), como observado por Anderson et al. (1982) e Quigley et al. (1991) e se estabilizou a partir dos 75 dias de idade. O aumento da concentração total dos AGV acompanha o aumento no consumo de matéria seca total por quilo de peso vivo dos animais. O aumento da taxa de fermentação ruminal acontece à medida que maior quantidade de substrato (alimento) chega ao rúmen e que a microbiota característica coloniza o órgão (Bergman, 1990; France e Siddons, 1996).

A relação acetato:propionato aumenta com a idade, provavelmente em função da maior capacidade de absorção do rúmen causada por aumento de tamanho do órgão (Tab. 5) e tamponamento do ambiente ruminal nos dois grupos. Aos 90 dias de idade essa relação e os valores de pH do conteúdo ruminal são semelhantes nos dois grupos, indicando, mais uma vez, a capacidade do caroço em manter bom ambiente ruminal.

As concentrações sangüíneas de glicose dos animais dos grupos-feno e algodão nas diferentes idades e horários de coleta são observadas na Tab. 8. Não foram observadas diferenças (P>0,05) entre os tratamentos, idades ou horários de coleta, causadas pela ausência de diferenças entre o consumo de alimentos concentrados e matéria seca total, e a concentração média de propionato entre os grupos. A queda numérica dos valores de glicose com o avançar da idade é um reflexo do desenvolvimento ruminal e da adaptação metabólica dos animais que substituem lactose e lactato pelo propionato como principal precursor da síntese de glicose no fígado à medida que passam da condição de pré-ruminante para ruminante (Luchini et al., 1993; Donkin e Armentano, 1995).

Durante toda a fase experimental nenhum animal apresentou sintomatologia compatível com quadros de intoxicação por gossipol. Em todas as necropsias realizadas também não foram observadas alterações macroscópicas sugestivas de quadros de intoxicação por gossipol. Outros trabalhos, no entanto, são necessários para avaliação das concentrações de gossipol no plasma para que se possam fazer recomendações seguras sobre seu uso para esta categoria animal.

 

CONCLUSÕES

A utilização do caroço de algodão em substituição ao feno de Tifton 85 foi efetiva como fonte de fibra na dieta, não provocou sintomatologia e morte condizentes com intoxicação por gossipol e não resultou em prejuízos no consumo de matéria seca e de água, no desenvolvimento ponderal dos animais, no perfil de fermentação ruminal e no desenvolvimento dos compartimentos do estômago.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 6 de outubro de 2006
Aceito em 6 de junho de 2007
Apoio: FAPEMIG

 

 

* Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: sandra@vet.ufmg.br
1 Digimed, modelo DM-2 - São Paulo, Brasil.
2 Varian, modelo 2485 - São Paulo, Brasil.
3 Roche Diagnostics, modelo Advantage - Indianápolis, EUA.

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